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III DECLÍNIO (1057-1204)

AMEAÇA EXTERNA

À medida que estes acontecimentos minavam o império, novos povos apareciam nas suas extensas fronteiras, e avançavam; enquanto ele enfraquecia progressivamente. Basílio II pensou em reconquistar a Sicília aos Árabes, mas não viveu o suficiente para levar a cabo esta empresa. As campanhas vitoriosas de Jorge Maniaces, que reconduziram temporariamente Siracusa e a Sicília Oriental ao domínio bizantino, teriam finalmente resultado, se a perseguição dos militares pelos burocratas, em Constantinopla, não houvesse provocado a revolta de Maniaces em 1043. Este general bizantino havia empregado mercenários durante as suas campanhas na Sicília. Dezasseis anos mais tarde, os aventureiros normandos, chefiados por Roberto Guiscard, começaram a estabelecer-se, como força independente, em terras bizantinas da Itália Meridional. Os instintos políticos dos Escandinavos, que já se haviam imiscuído na Rússia, França e Inglaterra, fizeram dos Normandos perigosíssimos mercenários. Na última metade do século, começam a representar séria ameaça para o Império Bizantino, tanto do ponto de vista interno como externo. No Norte, os povos nómadas do Altai, mais uma vez projectaram a sua sombra sobre as províncias balcânicas, quando os Ptzinaques, povo turco, que desempenhava parte importante na diplomacia bizantina, cruzaram o Danúbio (1048) e começaram a assolar o império. Constantino Monómaco deu-lhes terras nos Balcãs, onde deveriam exercer as funções de tropas fronteiriças e, para desgosto dos burocratas, elevou

categoria de senadores. As perturbações que causaram aumentaram grandemente quando outro povo turco, os Uzos, invadiram os Balcãs, ao procurar fugir dos Cumanos. As suas depredações espalharam a morte e a destruição a tal ponto que os habitantes pensaram seriamente em evacuar a península balcânica. Nestes povos nómadas os mais importantes eram os turcos seldjúcidas, que começaram a assediar a Anatólia na primeira metade do século XI. Os Seldjúcidas, que haviam tomado este nome de um antepassado epónimo, descendiam dos turcos uzos que tinham fundado um grande império na Mongólia durante os séculos VI, VII e VIII. Destruído este Estado, várias tribos turcas deslocaram-se para Ocidente, ao longo da estepe russa, em direcção dos Balcãs ou do Cáspio Meridional, fronteiriço do mundo islâmico. Os Ptzinaques e os Uzos são os representantes dos povos turcos que seguiram a rota mais setentrional; os Seldjúcidas, dos que tomaram o caminho das terras muçulmanas. Convertidos ao islamismo no século X, os Seldjúcidas penetraram nas terras orientais dos povos islâmicos como mercenários de Estados em guerra. Chefiados por Toghril, fundaram um grande reino na Pérsia e restauraram o califado na altura em que este estava bastante enfraquecido. O poderio dos sultões seldjúcidas veio-lhes das tribos nómadas turcas, mas, logo que se tornaram senhores da maior parte do Médio Oriente, viram-se em grandes dificuldades para dominar os recalcitrantes. Foram, desta forma, impelidos para as fronteiras com o Império Bizantino, onde a sua natureza belicosa e sede de pilhagem podiam satisfazer-se à custa do inimigo cristão. Autores muçulmanos dão amplo testemunho do medo que estes nómadas inspiravam. Um oficial persa aconselha que sejam cortados os polegares aos turcos para que os seus cavaleiros nómadas não possam manejar os terríveis arcos de flechas.

A CRISE DE 1071

A grave situação interna e externa do império levou-o à beira da ruína em 1071. Bari, sua última dependência italiana, perdeu-se neste ano. Com a sua

88. Exército bizantino derrotado pelos Turcos. Miniatura do Códice de Skylitzes.

bizantino na Itália Meridional, enquanto no outro extremo do império os Seldjúcidas derrotavam Romano IV na Batalha de Manzikerte e começaram a conquista e povoamento da Anatólia. Este prélio, que iria durar quatrocentos anos, foi um dos grandes acontecimentos da História do Mundo, visto representar a transição do Império Bizantino para o Otomano. Após uma conjura vitoriosa, Romano IV (1068-1091), chefe dos generais da Anatólia, ocupou o trono, desejoso de salvar o império da situação desesperada a que o levara Constantino Ducas. As suas vigorosas campanhas militares contra os Turcos na Anatólia foram o último lampejo das tradições guerreiras de Basílio II; chegara, porém, atrasado. Os exércitos que o serviam eram, na sua maior parte, compostos de mercenários pouco dignos de confiança, e as conspirações de Pselo com a família Ducas frustraram os seus empreendimentos.

Quando, em 1071, Romano iniciou a sua terceira campanha na Anatólia, o progresso do seu avanço foi perturbado por maus agoiros de toda a natureza. Primeiro, a tenda imperial caiu; a seguir, um incêndio destruiu os estábulos reais; os gregos de Sebástia queixaram-se-lhe da traição dos arménios; a certa altura foi atacado pelos mercenários estrangeiros que levava; finalmente, a sua hoste contornou um campo de batalha através do qual alvejavam os ossos calcinados de forças bizantinas anteriormente derrotadas. Dividiu as tropas em três grupos, com um dos quais acampou junto da cidade de Manzikerte, em cuja

vizinhança estavam, sem que ele soubesse, as forças do sultão seldjúcida KiJij Arslan. A batalha que se travou foi um desastre militar. Nenhum dos chefes sabia da presença do outro, e Romano tivera a pouca sorte de dividir as suas forças. Mesmo depois de as patrulhas exploradoras de ambos os lados haverem informado os chefes da situação, a batalha poderia ter sido evitada, pois, Kilij Arslan pedira a paz ao imperador. Romano decidira, porém, que tinha de arrumar a questão turca de uma vez para sempre, porque os Turcos eram ardilosos, sendo difícil chegar a compromissos com eles.

Os incidentes da batalha reflectem bem nitidamente os males que atingiam o império. Os soldados arménios, devido a ódios religiosos, desertaram em massa do campo da luta. O mesmo sucedeu com um pequeno grupo de Ptzinaques. A causa mais importante da derrota bizantina foi, porém, a deserção premeditada do general Andronico Ducas, sobrinho de Constantino X Ducas, pessoa de grande prestígio do partido burocrático. Decidira assegurar o futuro da família (Romano tinha-lhe exilado o pai) e, comandante da retaguarda, depois de haver espalhado o falso boato de que o imperador fora derrotado, retirou com as suas forças. A partida do general espalhou o pânico nas fileiras do exército bizantino. Prisioneiro, o imperador foi levado à presença do jubiloso sultão, que o tratou com honra.

Andronico regressou a Constantinopla com a notícia da derrota, e o partido burocrático procedeu à coroação de Miguel VII Ducas. Kilij Arslan libertou, no entanto, Romano. A existência de dois imperadores rivais mergulhou o império na guerra civil, precisamente no momento em que tribos turqueménias começavam a invadir a Anatólia, sem qualquer resistência. Durante os dez anos seguintes, os burocratas e os generais, que continuavam a digladiar-se, disputaram entre si os serviços dos chefes turqueménios na guerra civil. Muitas cidades entregaram-se aos Turcos, facilitando assim a sua ocupação do território. A perda da Anatólia a favor dos Turcos viria a ser fatal para o império. Destituída das províncias ricas, Constantinopla tornou-se uma cabeça desmesurada sem corpo para a sustentar.

89. O Grande imperador Aleixo Comneno. Explorou os Cruzados, em proveito próprio, e manteve a distância dos Normandos os Ptzinaques e os Turcos, quer por meios diplomáticos quer guerreiros.

90. Na Catedral normanda de Cefalu (século XII) encontra-se este mosaico de Cristo, feito por artistas bizantinos.