ESTUDO V – ATIVIDADE DE CITOCROMO P450 NA ESQUISTOSSOMOSE E
V.2.1 ANIMAIS, DIETAS, INFECÇÃO, GRUPOS DE EXPERIMENTO
Como no Estudo I (p. 16,17,18).
IV. 2.2 EXAME PARASITOLÓGICO DE FEZES
Foram coletadas amostras de fezes aos 50 dias (8ª semana de infecção). Os
exames foram feitos após o início do período de oviposição do S. mansoni (entre o
30º e o 50º dias da infecção cercariana). A análise quantitativa foi efetuada nos
animais infectados, pelo método de Kato-Katz (KATZ et al., 1972).
IV. 2.2 SEDAÇÃO, COLETA DE SANGUE E SACRIFÍCIO
Ao final do experimento, na 13ª semana, aos 93 dias, os animais foram
sacrificados após anestesia em câmara de vaporização de éter. Durante o sacrifício,
o sangue foi retirado com a utilização de um tubo capilar para microhematócrito, que
introduzido na câmara anterior do globo ocular, atingiu o plexo orbital. O sangue,
coletado em tubos de hemólise foi, a seguir, centrifugado durante 15 minutos a
3000rpm (centrífuga Fanem). Obtido o soro, o mesmo foi aspirado dos tubos com
auxílio de pipetas Pasteur, transferido para tubos Eppendorf e centrifugado
(centrífuga Eppendorf Whatman) durante 10 minutos a 7000rpm. Após esses
procedimentos, o soro foi mantido em “freezer” com temperatura igual a – 20ºC,
aguardando as análises em laboratório.
IV. 2.3 NECROSCOPIA
Foi efetuada a laparotomia, através de incisão longitudinal, para a retirada do
fígado, que foi examinado macroscopicamente e pesado.
IV. 2.4 EXAMES BIOQUÍMICOS DO SORO
A função hépato-digestiva foi verificada através das dosagens bioquímicas do
soro. As análises foram processadas em analisador bioquímico automático de
precisão TARGA (Technology Advanced Random Generation Analysis), versão
3000, com acesso randômico totalmente seletivo e identificação automática de
reagentes e amostras em código de barras. Foram utilizados reagentes
Synermed
TM(Synermed International, USA) para determinação da glicose, proteínas
totais, albumina, aspartato aminotransferase (AST), alanina aminotransferase (ALT)
e fosfatase alcalina (FA). A atividade das aminotransferases, a fosfatase alcalina e a
glicemia foram determinadas através de métodos enzimáticos, as proteínas totais
pelo método colorimétrico do Biureto e a albuminemia pelo método colorimétrico do
Verde de Bromocresol Modificado. Os exames foram efetuados no setor de
Bioquímica do Laboratório Central do Estado de Alagoas (LACEN).
IV. 2.5 ANÁLISE ESTATÍSTICA
A análise estatística foi efetuada segundo a análise da variância (ANOVA)
para comparação entre as médias obtidas nos diferentes grupos. Quando havia
diferença, utilizou-se o teste de Tukey para distinguir quais grupos diferiam entre si.
Para comparar freqüências (taxa de mortalidade) usou-se o teste do qui-quadrado
(χ
2). Em qualquer situação, adotou-se o nível crítico de 5% para o risco de falsa
rejeição da hipótese nula (p<0,05).
IV. 3 RESULTADOS
IV. 3.1 INTENSIDADE DA INFECÇÃO
A intensidade da infecção, avaliada pela média de ovos do S. mansoni
eliminados na 8ª semana do experimento, demonstrou que os animais desnutridos
eliminaram uma quantidade de ovos significativamente maior que a verificada para
os animais alimentados com a dieta controle (337 ± 205 vs. 206 ± 166,7; p<0,006).
IV. 3.2 TAXA DE MORTALIDADE
O experimento contou com um total de 75 animais, dos quais, em virtude da
mortalidade espontânea, restaram 53 camundongos para o sacrifício (Tabela 2).
Nenhum animal do grupo Controle morreu antes do final do experimento. A
desnutrição, isoladamente, causou a morte de 2 entre 16 animais. A taxa de
mortalidade determinada pela infecção foi superior à causada pela desnutrição
(47,4% vs. 12,5%; p<0,05), determinando pronunciada taxa de mortalidade entre os
animais infectados, tanto naqueles alimentados com dieta Controle como nos que
receberam a DBR. A desnutrição aparentemente atenuou o efeito da infecção sobre
a taxa de mortalidade, no entanto a diferença observada não foi estatisticamente
significante (47,4 vs. 40,7, p > 0,05).
TABELA 2 –Taxa de mortalidade observada entre os camundongos, segundo o tipo
de dieta e a infecção pelo S. mansoni
Grupos de estudo
Animais
inseridos no
experimento
Mortalidade
espontânea
Animais
Sacrificados
Taxa de
Mortalidade
(%)
Controle 13 0 13 0,0
aControle Infectado 19 9 10 47,4
bDesnutrido 16 2 14 12,5
aDesnutrido Infectado 27 11 16 40,7
bTOTAL 75 22 53 29,3
a; b: letras diferentes indicam diferenças estatisticamente significantes (χ
2): p=0,6.
IV. 3.3 OCORRÊNCIA DE HEPATOMEGALIA
O peso corpóreo diferiu entre os grupos de estudo (p<0,0001), com o grupo
Controle apresentando o peso mais elevado. Animais Nutridos e Infectados
apresentaram o maior peso absoluto do fígado, diferenciando-se dos demais
(p<0,0001), enquanto os animais Desnutridos, infectados ou não, foram semelhantes
quanto a esse parâmetro (p>0,05). Quando relacionou-se o peso do fígado ao
respectivo peso corporal (PRF = peso relativo do fígado), animais não infectados,
nutridos ou desnutridos, apresentaram resultados semelhantes (p>0,05). Todavia,
esses grupos diferenciaram-se dos animais infectados (p<0,05), os quais, segundo
esse critério, desenvolveram hepatomegalia. Os PRFs observados entre os grupos
infectados, nutrido ou desnutrido, não apresentaram diferenças significantes entre si
(p>0,05). Esses dados encontram-se expressos na Tabela 3.
TABELA 3 - Peso corpóreo e peso absoluto e relativo do fígado de
camundongos infectados ou não pelo S. mansoni,
alimentados com dieta Controle ou desnutridos pelo
consumo da Dieta Básica Regional (DBR), ao final do
experimento
Grupos de estudo corpóreoPeso
(g)
PAF (g) PRF (g)
Controle 39,22±1,93ª 1,77±0,14
b4,53±0,37
bControle Infectado 32,94±1,88
b2,10±0,29
a6,38±0,87
aDesnutrido 25,86±4,04
c1,10±0,07
c4,38±0,95
bDesnutrido Infectado 18,56±4,64
c1,11±0,19
c6,48±2,78
aPAF=Peso Absoluto do Fígado; PRF= Peso Relativo do Fígado; valores
expressos sob a forma de média ±DP. Médias para a mesma característica com a
mesma letra não diferem entre si (p>0,05; teste Tukey).
IV. 3.4 INDICADORES BIOQUÍMICOS
Os resultados obtidos nas determinações bioquímicas procedidas no soro dos
animais (Tabela 4), tiveram como valores de referência os resultados obtidos no
grupo controle e estes em relação aos dados divulgados pelo Centro de Bioterismo
da Faculdade de Medicina de São Paulo (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2000).
Aminotransferases (ALT e AST): as concentrações séricas dessas enzimas
não se alteraram entre os grupos desnutridos, mas elevaram-se no grupo Controle
Infectado.
A razão AST/ALT foi semelhante entre o grupo Controle e os demais, com
valores maiores que 1 (p>0,05). O grupo Controle Infectado foi diferente do
Desnutrido (p<0,02).
Fosfatase Alcalina: foram encontrados níveis altos em todos os grupos.
Comparados ao grupo Controle, animais desnutridos sem infecção apresentaram os
níveis mais altos (p<0,009).
TABELA 4 - Valores bioquímicos obtidos no soro de camundongos infectados ou
não pelo S. mansoni, alimentados com dieta controle ou desnutridos
pelo consumo da Dieta Básica Regional (DBR)
Dieta Controle Dieta Básica Regional
Indicadores
bioquímicos Sem
infecção
Com
infecção
Sem
infecção
Com
infecção
p-valor
(ANOVA)
ALT(U/L) 60,9±10,98
b112,4±43,3
a97,6±15,2
ab83,1±16,45
b0,002
AST(U/L) 111± 15,72
b237± 32,26
a128±20,99
b151±24,79
b0,0001
Fosfatase Alcalina (U/L) 158± 19,42
b232 ±21,06
a b279± 81,05
a263±24,55
ab0,001
Relação AST:ALT 1,83 ± 0,22
ab2,12 ± 0,77
a1,32 ± 0,19
b1,84 ± 0,17
ab0,032
Glicemia (mg/dL) 96,2±16,5
a35,2±22,85
bc39,63±5,6
b13,57±4,77
c0,0001
Albumina (g/dL) 2,56 ±0,25
a2,50 ±0,40
ab2,04±0,25
b2,02 ±0,15
b0,02
Proteínas totais (g/dL) 4,39±0,94
ab5,50 ±1,24
a3,49 ±0,39
b3,51 ±0,28
b0,005
ALB:GL 1,71±0,21 2,20±0,71 1,86±0,78 1,73 ± 0,03 0,35
ALT = Alanina Aminotranferase; AST = Aspartato Aminotransferase;ALB:GL= Relação Albumina: Globulina;
valores expressos sob a forma de média ± DP; médias para a mesma característica com a mesma letra não
diferem entre si (p>0,05; teste de Tukey).
Glicemia: apenas o grupo Controle manteve níveis normais, os demais
apresentaram resultados muito inferiores. Verificou-se grande diferença entre os
animais Controle e os animais dos demais grupos (p<0.0001). Não houve diferença
entre os grupos Controle Infectado e Desnutridos com ou sem infecção (p>0,05).
Albuminemia: houve diferença entre os grupos Controle e Desnutridos
Infectados e Não Infectados (p=0,0001). Os grupos com infecção e/ou desnutrição
guardaram semelhanças entre si: Controle Infectado vs. Desnutridos com ou sem
infecção (p=0,11). Houve semelhança entre Controle e Controle Infectado (p=0,09).
Proteínas Totais - o grupo Controle assemelhou-se aos demais (p>0,05),
mas houve divergência entre os grupos Controle Infectado e Desnutridos, com ou
sem infecção (p<0,01). Não houve diferença entre os grupos de Desnutridos
(p>0,05).
A razão albumina:globulina foi semelhante entre os grupos de estudo
(p=0,35).
IV. 4 DISCUSSÃO
IV. 4.1 INTENSIDADE DA INFECÇÃO
A intensidade da infecção esquistossomótica foi avaliada pela contagem de
ovos eliminados durante a 8ª semana. A importância desse indicador reside no fato
de que existe associação entre uma carga parasitária elevada (principalmente acima
de 1000 ovos/g de fezes) e o desenvolvimento das formas hépato-intestinal
avançada e hépato-esplênica (MOTA & SLEIGH, 1984; SLEIGH et al., 1986; BINA &
PRATA, 2001). Neste estudo, os animais foram inoculados com 40 cercárias,
número bastante inferior ao utilizado em outros experimentos (AWNEY et al., 2001;
SHEWEITA et al., 2002), mas que melhor se correlaciona com os aspectos
ecológicos da esquistossomose, que explicam as pequenas e médias taxas de
infecção encontradas em populações humanas das áreas endêmicas (WARREN,
1973). Se não houve elevada carga parasitária, como o mostram o total de ovos
eliminados nas fezes, produziu-se, de qualquer modo, uma intensa inflamação
granulomatosa e fibrose, distinguidas pela hepatomegalia e pelas alterações na
consistência dos fígados. Para a infecção ser considerada leve deve ocorrer
eliminação de menos de 100 ovos/g de fezes (NOYA et al., 2002), o que não
sucedeu neste experimento.
Animais desnutridos eliminaram maior quantidade de ovos que os animais
alimentados com a dieta Controle, fato observado anteriormente (COUTO, 1999), e
que poderia estar correlacionado a fatores imunológicos. Em pesquisa realizada com
S. japonicum, agente etiológico da esquistossomose intestinal no Oriente,
concluiu-se que o consumo de dieta hipoprotéica está associado a uma maior eliminação
fecal de ovos e, conseqüentemente, a um quadro patológico de maior gravidade
(JOHANSEN et al., 2000).
Sabe-se que, no homem, aproximadamente 20 dias após a exposição às
cercárias, podem surgir sintomas característicos, tais como febre, cefaléia, tosse
seca, astenia, anorexia, diarréia, vômitos (BARBOSA et al., 2001). Esses sintomas,
proporcionais à concentração sérica de complexos imunocirculantes, correspondem
à fase de invasão, durante a migração e maturação dos esquistossômulos, seu
trânsito pelos pulmões, onde também ocorre infiltração de eosinófilos (ARTEAGA et
al., 2000). Sintomas pulmonares, pertencentes à esquistossomose aguda,
representam um processo imunológico (SCHWARTZ et al., 2000). Esse período
corresponde à permanência dos esquistossômulos nos pulmões, com as reações
alérgicas focais que provocam em torno de si e que podem levar à sua destruição.
Os efeitos da desnutrição já se fariam notar nessa etapa. Animais bem nutridos
estão aptos a uma melhor defesa imunológica anti-infecciosa, que nessa fase da
doença, seria benéfica, por reduzir o número de vermes e, conseqüentemente, o
número de ovos produzidos pelas fêmeas do parasito.
IV. 4.2 TAXA DE MORTALIDADE
A esquistossomose pode agravar o estado de desnutrição, uma vez que
camundongos desnutridos resistem menos à infecção (COUTINHO,1976;
MAGALHÃES et al.,1986; SADEK et al., 1986), mas por outro lado, a desnutrição
agrava a doença, conforme estudo realizado em porcos infectados com o S.
japonicum (JOHANSEN et al., 2000). Neste estudo, a infecção, mais que a
desnutrição, foi responsável pelos óbitos dos animais, tal como foi observado
anteriormente (COUTO, 1999).
IV. 4.3 HEPATOMEGALIA
Comparados aos animais alimentados com a dieta Controle, os Desnutridos
apresentaram o fígado com peso menor, refletindo o efeito das dietas sobre esse
órgão (COUTINHO et al., 1991; COUTO et al., 2003). A desnutrição induzidadurante
a fase de crescimento dos animais, como foi o caso, torna menor o peso do fígado,
pela diminuição do número e tamanho celular (WINISH & NOBLE, 1966; ZENAN,
1970; JACOBS & WOOD, 2004).
A desnutrição causou o mesmo impacto no peso absoluto de fígados de
animais com ou sem infecção, enquanto o peso relativo foi maior entre os infectados,
confirmando que a hepatomegalia é encontrada na EM, independentemente da
condição nutricional do hospedeiro (COUTINHO et al., 1991). A verificação do peso
do fígado e do baço de camundongos infectados é critério de avaliação do
desenvolvimento da hepatomegalia e da esplenomegalia, comumente percebida em
pacientes humanos (ZANOTTI-MAGALHÂES et al., 1995). O ovo do S. mansoni tem
papel fundamental na gênese da hepatomegalia e da esplenomegalia da EM, porque
se sabe que nas infecções unissexuais acontece apenas discreto aumento nesses
órgãos. Na esquistossomose hépato-esplênica ocorre hepatomegalia em mais de
50% dos casos (BOGLIOLO, 1956), o que constitui um dos principais parâmetros
clínicos da evolução da doença (BINA, 1996).
Neste estudo, a superfície dos fígados dos animais com infecção apresentou
manchas pequenas e amarelas, espalhadas ou agrupadas, e nódulos que a
tornaram irregular, com alguma resistência à clivagem. Essas manchas indicariam a
calcificação subcapsular dos ovos do parasito (HAYASHI et al., 2000).
As alterações de tamanho e da consistência do fígado estão relacionadas a
uma maior eliminação de ovos (COSTA et al., 1985). Desse modo, o grau de
infecção é o fator primordial da gravidade da doença e determinante da forma
clínica. Estudos clínicos-epidemiológicos correlacionam um grande número de ovos
eliminados nas fezes com as manifestações mais severas da doença, especialmente
o aparecimento e o volume da hepatomegalia (COUTINHO, 1979). Lesões
granulomatosas, que consistem da ativação de macrófagos e de células epitelióides,
atingem um tamanho máximo entre dez e 14 semanas (HARA et al., 1981), o que
coincide com o tempo deste experimento (93 dias).
IV. 4.4 INDICADORES BIOQUÍMICOS
IV. 4.4.1 AMINOTRANFERASESE FOSFATASE ALCALINA
A concentração sérica das aminotransferases indica o grau de lesão do
hepatócito, uma vez que sua liberação no soro pode significar morte celular. Níveis
baixos são compatíveis com cronificação da doença e gravidade do quadro, após
necrose e fibrosamento do tecido hepático. O aumento da atividade sérica das
aminotransferases está relacionado à gravidade da lesão, como por exemplo, numa
hepatite aguda, por exemplo. A aspartato aminotransferase (AST) mais elevada que
a alanina aminotransferase (ALT) pode significar maior agravamento da lesão, ou
ainda, colestase. A ALT mais elevada que a AST expressa lesão mais extensa.
A concentração sérica de ALT parece ser melhor indicador para avaliação da
integridade celular do fígado que a de AST (AWADALLA et al., 1975).
A fosfatase alcalina (FA) estáassociada ao trato biliar e seu nível sérico pode
encontrar-se elevado devido à sua maior produção e regurgitação pelos hepatócitos,
na vigência de obstrução biliar. A alteração de FA relaciona-se diretamente à
obstrução biliar de causas intra e extra hepáticas, e/ou à lesão hepatocelular
(ARAÚJO LIMA et al., 2001a). Trata-se, portanto, do indicador mais usado para o
diagnóstico de colestase.
Sabe-se que a deficiência energético-protéica (DEP) causa “stress” no
organismo e afeta os sistemas. Uma pesquisa realizada com crianças acometidas de
kwashiorkor e marasmo revelou que a progressão da doença causou deterioração
das funções hepáticas, com conseqüente aumento das concentrações séricas de
ALT, AST e FA no soro (GÜLER et al., 1992). Outro estudo, ao investigar o estado
funcional do fígado em crianças desnutridas, encontrou alterações sorológicas
decorrentes de uma grave DEP, com níveis elevados de ALT e AST, e diminuídos de
FA (ONYENEKE et al., 2003).
Na EM, a alta carga parasitária seria um dos mecanismos de elevação de
ALT (FRANÇA et al., 1993) e a inflamação parece afetar os níveis das enzimas
hepáticas (TAO et al., 2003). Todavia os efeitos da infecção pelo S. mansoni sobre o
desempenho do fígado são controversos, uma vez que estudos mencionados a
seguir apresentaram resultados diversos.
A fibrose hepática é uma ocorrência da EM crônica, embora possa ser
motivada por outras doenças crônicas do fígado (FRIEDMAN, 1997; CHEN et al.,
2002). Sobrevém da perda da função normal do hepatócito, que, uma vez
desorganizado, acumula componentes da matriz extra-celular (CAI et al., 1997; LI et
al., 2001). Na fase crônica da EM os testes sorológicos para ALT, AST, FA e
Albumina constituem os mais significantes índices para diferenciá-la de outras
infecções, com ou sem cirrose hepática, que podem coexistir (FAHIM et al., 2000).
Um estudo realizado em indivíduos, portadores de hepatite crônica e com graus
variados de fibrose, verificou que os níveis de ALT e AST estavam diminuídos, mas
que os da FA não se alteraram de modo significante. Por outro lado, foi observado
que pacientes em estágio avançado de esquistossomose e fibrose hepática intensa
quase não apresentaram descompensação da função hepática (TAO et al., 2003).
Desse modo, as alterações da função hepática na EM parecem depender, não só do
grau de fibrose, mas da intercorrência de outras infecções.
Em uma pesquisa efetuada com crianças e adultos esquistossomóticos, não
foram encontradas alterações importantes nos testes sorológicos para ALT, AST e
FA, com exceção dos últimos estágios da doença (ABOU-BASHA et al., 2000).
Também em indivíduos com diversos graus de intensidade de EM, de simples
infecção a formas com ascite, os testes só apresentaram alteração nos casos com
ascite (EL-SHAZLY etal., 2001). Outro estudo, em adultos portadores de EM crônica
“pura”, com as formas hépato-intestinal e hépato-esplênica, verificou que seus níveis
de aminotransferases estavam mais altos que os do Controle, porém nos padrões
normais, mas que a FA estava elevada, em todos os grupos (CAMACHO-LOBATO &
BORGES, 1998).
Um experimento com camundongos infectados confirmou que a diminuição
das aminotransferases na 5ª semana correspondeu ao achado de necrose celular
pelo exame histopatológico. Juntamente com um importante aumento da FA já na 2ª
semana, esses dados confirmam o dano da célula hepática (AWADALLA et al.,
1975). Em 81 casos de EM na forma hépato-esplênica humana, 20% deles
apresentaram FA aumentada (BARRETO, 1971). Na realidade, a EM atinge o
sistema bilífero intra-hepático, tornando a árvore biliar desarmônica, os ductos
distorcidos (GANC, 1974), enquanto o exame histopatológico mostra inflamação
crônica das paredes ductais com hiperplasia do endotélio (BEDI & ISSEROFF, 1979;
SILVA et al., 1990), fibrose periductal e degeneração dos ductos (VIANNA et al.,
1989). Em modelo de obstrução do ducto biliar em ratos houve o desenvolvimento
de cirrose biliar secundária, com aumento acentuado da FA e das bilirrubinas
(ARAÚJO LIMA et al., 2001b).
Os resultados de mais pesquisas confirmam que as alterações sorológicas
acontecem nos estágios avançados da doença, principalmente quando associada à
outras patologias, como hepatites virais (FAHIM et al., 2000; EL-SHAZLY et al.,
2001; ZAKI et al., 2003). Nesses casos, mais graves, a razão AST/ALT é sempre
maior que 1 (FAHIM et al., 2000; ZAKI et al., 2003).
Neste estudo, todos os grupos, comparados ao Controle, apresentaram
elevação da ALT, fato que evidencia a alteração funcional do fígado causada pela
desnutrição e/ou EM. Os índices dos animais do grupo Controle Infectado foram
mais elevados e os diferenciou dos demais, causados talvez, pelo processo
inflamatório mais intenso, observado nos animais normonutridos (COUTINHO, 2004;
COUTINHO et al., 1997; 2003).
Com relação à AST, o grupo Controle Infectado também apresentou os níveis
mais altos que os outros grupos, possivelmente pelas mesmas causas. Nesse
mesmo grupo, os valores de AST ultrapassaram o dobro dos de ALT, o que poderia
exprimir maior gravidade da lesão. A elevação simultânea de AST e de FA no
Controle Infectado, leva à suposição de que o processo de colestase, causado pela
tensão contínua e compressão focal nos ductos, foi mais acentuado neste grupo. Na
análise histopatológica, verifica-se, comumente, o acometimento dos espaços porta
pelo infiltrado inflamatório intra e extra lobular.
A relação AST:ALT foi semelhante entre os grupos de estudo. Sabe-se que,
em humanos, uma razão maior que 1 é critério para diagnóstico de importante
comprometimento hepático (ZAKI et al., 2003), como, por exemplo, na
esquistossomose hépato-esplênica com cirrose hepática descompensada (FAHIM et
al., 2000). Nesta pesquisa com camundongos, a razão ultrapassou esse índice em
todos grupos, mas houve semelhança com o grupo Controle.
Níveis altos de FA, como estes aqui observados, mesmo no grupo Controle,
tem sido encontrados nos resultados do Centro de Bioterismo da Faculdade de
Medicina de São Paulo (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2000), onde as causas
estão sendo pesquisadas. Além disso, um estudo sobre esquistossomose em
adultos observou que os níveis da FA estavam altos nos grupos de estudo, inclusive
no grupo Controle, sem infecção (CAMACHO-LOBATO & BORGES, 1998).
Nos animais do grupo Controle Infectado, foi a EM que pareceu causar
elevação nos níveis da AST e da FA, o que é uma forte indicação de colestase
(GANC, 1974).
IV. 4.4.2 ALBUMINEMIA E PROTEINEMIA TOTAL
Proteína mais abundante do sangue, a albumina também é, em termos
quantitativos, a mais importante entre muitas proteínas sintetizadas pelo fígado e,
como tal, considerada marcador de prognóstico global (KLEIN, 1990).
A DEP causa redução nos níveis de albumina e proteínas séricas, como
relatam estudos anteriores. Foi observado que, em crianças com DEP, a albumina e
demais proteínas séricas exprimiram níveis reduzidos, menores ainda em casos de
kwashiorkor (ONYENEKE et al., 2003). Em animais com dieta hipoprotéica,
constatou-se que o valor reduzido dessas proteínas foi a conseqüência provável do
fornecimento inadequado de aminoácidos essenciais, necessários ao metabolismo
protéico normal (CLARK et al., 1966). Já no marasmo, os níveis de proteínas séricas
não são afetados por nutrientes inadequados, uma vez que a síntese hepática é
mantida até muito tarde nesse processo (KURITA et al., 2002).
A diminuição da concentração sérica de albumina pode acontecer nos
distúrbios da síntese protéica, durante doenças crônicas do fígado ou na
desnutrição, moderada ou severa, e sem associação com doença hepática (BUZBY
et al., 1980).
Para alguns autores (FUHRMAN et al., 2004), há evidências de que as
proteínas séricas hepáticas, apesar de historicamente ligadas ao estado nutricional,
não são indicadores do grau de nutrição, mas da gravidade ou da recuperação da
doença aguda ou crônica. Os mesmos autores afirmam que, entre as causas que
afetam os níveis das proteínas hepáticas, a inflamação seria a mais importante. Sob
esse aspecto, a EM poderia afetar os índices séricos das proteínas hepáticas de um
modo mais considerável que a DEP, pela intensa inflamação que pode provocar no
fígado.
A fibrose hepática pode ser acompanhada pelo aumento da albumina e da
razão albumina:globulina (TAO et al., 2003). Especificamente na EM, uma pesquisa
com camundongos infectados com 100 cercárias constatou redução da
albuminemia, mas os valores das proteínas séricas encontraram-se semelhantes ao
dos animais controle (ATTA et al., 1981).
Neste estudo houve hipoalbuminemia apenas em função da desnutrição, uma
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
(páginas 97-130)