Os proprietários de papel-moeda foram dos credores que manifestaram maior tranquilidade. Só há duas petições com queixas sobre a taxa praticada no seu rebate91. O tema corresponde na comissão a 60 documentos, em parte memórias, em parte vestígios da atividade das Cortes e do Governo, que tomaram neste caso um conjunto de medidas envolvendo a criação do Banco de Lisboa.
O envio às Cortes de memórias sobre a amortização do papel-moeda, para além de se relacionar com a atividade parlamentar e com o descrédito do papel-moeda, insere-se numa corrente memorialista que desde o início da centúria se terá, segundo José Luís Cardoso, afirmado.
A transformação das apólices dos empréstimos em papel-moeda ter-se-á ficado a dever às dificuldades em aliciar compradores para os títulos. O alvará de 13 de Julho de 1797, decretando a circulação das apólices pequenas como papel-moeda, ter-se-á acompanhado de uma emissão descontrolada que produziu o descrédito. Na altura do debate parlamentar, este atingira 60 % do valor facial.
Logo D. Rodrigo de Sousa Coutinho propusera a transparência, a amortização progressiva com troca por novos títulos e a criação de um banco para facilitar a circulação, emprestar sobre as rendas do Estado e descontar letras de câmbio. Outros memorialistas, como José Inácio de Sousa e Melo, propuseram a criação de um banco e de uma caixa de desconto, tendo o papel-moeda uma desvalorização de 6%.
Um anónimo sugeriu a criação de uma contribuição eclesiástica. Outros sugeriram a hipoteca forçada de encargos enfitêuticos e censos cujos senhorios recebiam apólices vencendo juros. O resgate dos foros faria entrar no erário uma receita para amortização92.
Uma aplicação parcial de medidas deste tipo teve lugar antes da Revolução de 1820. Foi neste contexto que começou, desde 17 de Março de 1799, a venda de bens da
90A 4 de Março de 1823, D.C., vol. IX, p. 3. 91 A.H.P., secções I e II, cx. 81, docs. 38 e 68. 92 José Luís Cardoso, art. cit., p. 163.
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Fazenda alienáveis. Outras sugestões, como o resgate de foros, laudémios e direitos feudais das corporações de mão-morta, eram inaplicáveis no contexto político de então.
As vinte e quatro memórias sobre este tema enviadas às Cortes não propõem soluções muito diferentes das anteriores à Revolução. Umas advogam a amortização progressiva do papel-moeda pela constituição de fundos de amortização, criação de bancos ou utilização de instituições como a Mesa do Bem Comum dos Mercadores. Outros defendem a extinção brutal e súbita, outros ainda advogam o curso forçado.
A revalorização facial da moeda metálica de forma a evitar a sua fuga, a recolha e cunhagem de moedas mais leves são também aconselhadas por alguns memorialistas. Nalgumas memórias mais nacionalistas, a abundância de papel desvalorizado pela retração comercial e a falta de moeda metálica que vai para o estrangeiro, devido ao desequilíbrio comercial, são acentuadas. Manuel Crato, ao defender a duplicação do valor facial da moeda, diz mesmo que o comércio externo é dispensável e não traz benefícios ao país93. Outros como José António Oliveira Barreto aconselham a proibição do uso de loiça da Índia e da China e também do chá. O valor facial da moeda metálica foi de facto alterado por se considerar o preço do ouro nela contido superior ao do seu valor. O marco de ouro amoedado era então de 120 mil réis, o que contribuía para o seu desaparecimento. As moedas de quatro oitavas passam, por lei de 6 de Março de 1822, de 6$400 a 7$500 réis.
No geral, as memórias sobre papel-moeda e circulação monetária defendem, como Monsenhor Horta já fizera antes da Revolução, princípios de transparência e segurança.
A 8 de Março de 1821 o ministro da Fazenda fizera já sugestão da criação de um banco. A polémica sobre este assunto acentuou-se em Outubro do mesmo ano. Aliás, justifica-se essa cronologia pela coincidência com o pedido de informações sobre as causas da desvalorização do papel-moeda feito pelas Cortes ao ministro. A 8 de Outubro o ministro José Inácio Costa responde às perguntas propondo, entre outras medidas, a criação de um banco de depósito que atraia o papel-moeda pelo pagamento de um juro de 6 %.
A 18 de Outubro o ministro foi instado a informar sobre o papel-moeda emitido e amortizado94. O total do papel-moeda emitido seria de 17 189 contos, dos quais se teriam amortizado apenas 6814 contos de réis. A principal causa do descrédito seria, pois, o excesso da emissão.
No projeto da Comissão da Fazenda, datado de 7 de Dezembro de 1821, os objetivos do banco eram pôr em circulação capitais que se achavam fora dela, aumentar o número e a comodidade das transações e amortizar o papel-moeda.
Se nos centrarmos na questão da amortização do papel-moeda, o banco concedia ao Governo um empréstimo de 2000 contos a um juro de 4%. As entregas eram feitas em 20 prestações de cem contos, que serviriam para amortizar igual volume de notas. Os rendimentos provinham da hipoteca de um terço da dotação da quinta caixa da Junta dos Juros. Esta recebia 3 % do total dos pagamentos antes feitos em papel-moeda. O Governo por seu turno pagava, em metal, um quarto do que normalmente pagaria em papel-moeda.
A carta de lei de 31 de Dezembro de 1821 retoma o projeto da comissão. O banco constituía-se por vinte anos com privilégios de emissão de notas e um capital de 5000 contos pagos em partes iguais de moeda metálica e papel. Podia descontar letras, emprestar sobre penhores, comprar e vender papel-moeda e receber depósitos de
93 A.H.P., secções I e II, cx. 81, doc. 53. 94A.H.P., secções I e II, cx. 54, doc. 74-6.
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particulares, mas estava impedido de negociar mercadorias e fazer seguros. Beneficiava de isenção de impostos95.
As Cortes vieram a autorizar o seu funcionamento em condições diferentes do previsto. A 21 de Janeiro de 1822, a Comissão da Fazenda considerava a subscrição suficiente para o banco desempenhar a maior parte das operações. Este parecer isentava- o da realização de metade das ações para começar a funcionar96. Os subscritores posteriores a 20 de Fevereiro foram, por parecer de 14 de Maio, isentos de pagar os juros de mora previstos, a 2 de Fevereiro, na lei que autorizava o início da atividade do banco.
A 26 de Outubro de 1822 as Cortes autorizam o Banco de Lisboa a descontar com o prémio de 5 % ao ano sobre todas as rendas públicas com vencimento inferior a um ano97. Os capitais do banco não lhe permitiam ainda então cumprir os contratos constantes da carta de lei da sua fundação, mas a ligação entre este e o Governo, que Ferreira Borges criticaria em 1827, começava98.
Podemos talvez concluir que as Cortes, conscientes desde o primeiro momento da necessidade de resolver o problema das dívidas, não conseguiram impedi-las de crescer. O regime liberal teve talvez o mérito de, sem resolver os problemas de fundo, não ter provocado grandes ruturas por insucesso de políticas ambiciosas. À liquidação das dívidas seguiu-se a consolidação das posteriores a 1820, com um juro de 5% ao ano. As dívidas anteriores a esta data seriam apenas amortizadas. Uma consolidação parcial a 4% foi também decretada em Fevereiro de 1823. Não parece evidente que o propósito de pagar em dia após 1 de Outubro de 1822 tenha podido ser cabalmente cumprido.
As medidas aplicadas em relação à amortização das dívidas situam-se na continuidade do Antigo Regime, mas podemos considerar um progresso muito significativo a criação de uma instituição bancária, até então impossível de concretizar na metrópole.
Numa situação de crise comercial com baixa de rendimentos e preços, não pretendendo aumentar a carga dos impostos e não tendo conseguido evoluir no sentido de uma restrição substancial das despesas, forçoso era que as dívidas crescessem. Borges Carneiro, que mais lutou contra essa inércia, chegou a perguntar se estavam ali para deixar tudo na mesma.
Para além das ideias políticas, económicas e consequentemente financeiras dos deputados, existia uma consciência do descontentamento que uma reforma profunda da administração ou dos impostos provocaria. A própria corrente peticionária comunicava anseios totalmente contraditórios com essas reformas. Mesmo as medidas moderadas que foram tomadas podem ter provocado hostilidade entre as camadas ameaçadas, como os detentores de bens da Coroa, ou atingidas, como os detentores de dízimos (as ordens religiosas, os eclesiásticos e os comendadores), de tenças, os funcionários e os pensionistas.