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Figura 1 – Primeira página de três jornais brasileiros no dia nove de outubro de 2020

Fonte: https://www.vercapas.com.br/2020-08-09/

No dia oito de agosto de 2020, o Brasil chegou ao número de 100 mil mortes notificadas em decorrência da pandemia de Covid-19. Depois de seis meses desde o primeiro caso e de se tornar rotineiro o quantitativo de mil mortes diárias, os jornais utilizaram a amplitude e o impacto do número para reforçar a dramaticidade da situação. Diversos jornais impressos, estamparam em suas edições de domingo (que costumam adotar um tom mais leve) o número de vidas perdidas. Os jornais Estado de Minas e Extra, do Rio de Janeiro, estabeleceram a conexão entre a quantidade e o impacto sobre todo o

país: as mortes são associadas a uma derrota sofrida pela nação, que é mostrada de luto ao adicionar a cor preta e cruzes à bandeira brasileira.

Já o jornal o Globo, também do Rio de Janeiro, aproveitou o número de mortes confirmadas para produzir uma capa que provoca uma reflexão mais personificada. Apesar de destacar o quantitativo, o jornal expõe fotos de brasileiros, com destaque para a foto de Rosana Aparecida, a trabalhadora doméstica que foi a primeira das 100 mil vítimas do vírus. Em muitos momentos, a amplitude ou a intensidade (principalmente quando dizem respeito a acontecimentos de teor negativo) é associada ao recurso discursivo da dramaticidade, pois por mais que os números de vítimas tragam um inerente poder retórico, as quantidades tendem a banalizar o drama de cada pessoa atingida, exigindo o reforço da dimensão individual.

Figura 2 – Primeira página do jornal Folha de São Paulo no dia nove de outubro de 2020

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/fac-simile/2020/08/09/index.shtml

O jornal Folha de São Paulo, do mesmo dia, além de destacar o número em questão, também se dedicou a dimensionar o que representam 100 mil mortes. Ao lado de uma foto, em preto e branco, de covas recém-fechadas, em que duas flores ocupam o primeiro plano, o jornal fez uma comparação numérica entre as vítimas do Covid-19 e de outras tragédias. Um infográfico mostra que, apenas no período em questão, o vírus Corona vitimou mais pessoas (no Brasil) do que a Guerra do Paraguai, do que o impacto

da bomba atômica de Hiroshima e do que as mortes no trânsito e por assassinato no ano de 2019.

O valor-notícia de que trataremos agora se volta especificamente para a relação entre jornalismo e as grandes quantidades, seja na dimensão do acontecimento, seja em relação aos atingidos. Para Herbert Gans (2004, p. 151, tradução nossa), a história mais importante é aquela que atinge a população inteira e “quanto maior o número, mais importante é a história57”. Mesmo quando não há números exatos à disposição, os jornalistas fazem julgamentos a partir da impressão; mencionam o número de pessoas que poderiam ser atingidas (mesmo que a possibilidade não se confirme); consideram o que interessa a grandes setores da população e ainda o que deveria interessar, a exemplo do que é dever/direito dos cidadãos (GANS, 2004).

Para alguns autores, a amplitude ou intensidade possui uma relação de oposição com o consonante: “os números muito grandes e os muito pequenos em relação à experiência cotidiana do público têm grande valor retórico simplesmente porque as pessoas não conseguem dimensioná-los” (LAGE, 1979, p. 70), havendo um “limiar que o acontecimento terá de ultrapassar antes de ser registrado” (GALTUNG; RUGE, 1999, p. 65). Também Nelson Traquina (2005) compreende a amplitude por essa perspectiva, para ele a notabilidade, ou qualidade do que é visível ou tangível, é um valor-notícia que se manifesta tanto pela “quantidade de pessoas” quanto pelo “contrário do ‘normal’” e pela falha ou defeito. (TRAQUINA, 2005, p. 83).

Fraser Bond (1962) se refere a essa dimensão nas suas três listagens. Entre os valores da notícia ele destaca o tamanho, já que “o muito pequeno e o muito grande atraem a atenção” (BOND, 1962, p. 94), entre os elementos de interesse da notícia, ele cita os “acontecimentos que afetam grandes grupos organizados” (BOND, 1962, p. 96) e, por fim, entre os valores jornalísticos da notícia, grupo que associa o valor e o grau de interesse, ele esclarece que é notícia “qualquer coisa que interesse vitalmente a um grande número de pessoas” (BOND, 1962, p. 98).

Gislene Silva (2005) apresenta entre os seus valores-notícia o impacto, que especifica através do número de pessoas envolvidas, número de pessoas afetadas ou grandes quantias. Amaral (1978) afirma que os produtos jornalísticos devem possuir um

grande raio de influência, a fim de que notícia “interesse a grande parte da comunidade, a toda ela ou a círculos mais amplos do país ou do mundo” (AMARAL, 1978, p. 62).

De maneira geral, os autores estabelecem que os jornalistas se interessam por acontecimentos intensos (o que requer ultrapassar o limiar do comum) e por acontecimentos amplos (que de alguma forma envolvam ou atinjam muitas pessoas). Tanto a amplitude quanto a intensidade reforçam a relação do jornalismo com o que é grandioso e impactante, bem como com o poder retórico dos números.

Quanto aos acontecimentos jornalísticos, podemos associar a amplitude/ intensidade a uma qualidade esperada da variação no ecossistema. Assim como os valores-notícia anteriores, a amplitude destaca uma qualidade a ser buscada nas ocorrências. Neste caso, o valor afirma que as variações do ecossistema atrairão a atenção do jornalista quanto melhor puderem ser expressas e visualizadas as quantidades envolvidas ou quanto mais pessoas atingirem.

É bastante comum utilizar números e percentuais a fim de destacar a amplitude ou intensidade de um acontecimento. Da mesma forma, acontecimentos que envolvem muitas pessoas como protestos, pesquisas ou mesmo mudanças governamentais costumam ser enquadradas e valorizadas a partir do seu quantitativo.

Para além da razão pela qual a amplitude e a intensidade têm valor retórico, as teorias da relevância nos auxiliam a refletir sobre o fundamento do nosso interesse no que é amplo ou intenso. Antes de expor as contribuições, gostaríamos de reforçar a subdivisão, colocando de um lado grandes montantes, mesmo que envolvam poucas pessoas, e de outro o que envolve muitas pessoas, mesmo que oriundo de medida única.

Vejamos um exemplo: uma pessoa que passa por uma rua conhecida e normalmente pacata ficará impressionada se, no lugar do ambiente esperado, encontrar uma multidão ou uma grande quantidade de pombos que não costuma ocupar o espaço. Numa situação ou noutra há uma relevância temática imposta motivada pelo não familiar, mas no caso das pessoas há ainda outras dimensões a destacar.

Ao observar a rua tranquila cheia de pombos, o fato parecerá principalmente curioso, já a multidão além da curiosidade despertará interesses. Nos termos de Schutz (1970), poderíamos dizer que há também uma relevância temática socialmente imposta;

e com base em Sperber e Wilson (2005), cuja explicação para esse aspecto é mais ampla, podemos estabelecer uma relação com o princípio comunicativo da relevância.

Uma vez que outras pessoas processam relevância, a multidão não se destaca apenas pelo atípico, mas porque o que atraiu as demais pessoas pode ser capaz de me atrair também. Em outros termos, nos interessa saber o que atraiu todas aquelas pessoas, pois formulamos a hipótese de que o que interessou aos demais pode também nos interessar. Voltando a Schutz (1970), estamos falando não só de uma relevância temática socialmente imposta, mas também de relevância motivacional condicionada e de uma relevância temática hipotética.

No exemplo anterior, a amplitude/intensidade inseriu-se em um contexto incomum, mas nem sempre esses dois valores-notícia estarão juntos. Uma notícia que informa que a loteria federal sorteará 50 milhões de reais ou que 35 milhões de brasileiros não têm acesso à saneamento básico, certamente foi acionada pelo valor-notícia em questão, mas não há nada de surpreendente nos sorteios, que se repetem toda semana, ou na situação do saneamento do país. O mesmo pode ser dito para altos índices de criminalidade ou para a produção recorde de um insumo.

O que também pode caracterizar o valor-notícia amplitude/intensidade é uma capacidade de potencializar outros valores-notícia. Para Sperber e Wilson (2005, 2010), relevância é uma função que equilibra efeitos e esforços e ao destacar grandes números ou grandes proporções, os jornalistas podem estar potencializando a compreensão dos efeitos. De fato, a gravidade de 35 milhões de brasileiros sem saneamento básico parece, instintivamente mais severa do que a de muitos brasileiros ou milhões de brasileiros.

Além da potencialização do grau de relevância pelo dimensionamento numérico dos efeitos, gostaríamos de expor duas outras hipóteses para a interpretação desse valor- notícia, essas, fora das teorias da relevância. Há, talvez, um senso de importância e seriedade que vem através da precisão dos números, oriunda da herança positivista (carregada não só pelo jornalismo, mas também pela sociedade) e da quantificação como uma das características essenciais da sociedade ocidental (CROSBY, 1999). Outra hipótese, mais filosófica, se refere a busca pelo concreto ou pelo grandioso dado o caráter volátil e limitado da existência humana.

Em resumo, as teorias da relevância nos auxiliam a perceber que o interesse pelo que é amplo ou intenso pode se dever ao teor surpreendente que o grandioso pode

provocar, momento em que serve para contextualizar; bem como a influência social ou de outras cognições para nossa presunção de relevância, momento em que é útil para a continuação. A relevância das grandes quantidades também pode ser uma forma de potencializar a compreensão dos efeitos e redimensionar a amplitude de um acontecimento. Além disso, a dimensão numérica ou grandiosa pode servir para potencializar outros valores-notícia, de forma que o tipo de relevância acionada pode sofrer variação a partir do valor reforçado.

Há, por fim, mais uma consideração a fazer. A teoria de Sperber e Wilson (2005, 2010), fundamenta-se no processo cognitivo e linguístico de comunicar-se com outrem; a teoria de Schutz (1970, 2012) e Schutz e Luckmann (2003) coloca tanto o outro quanto o conhecimento compartilhado, em uma dimensão social. As duas teorias são essenciais para o jornalismo, mas nenhuma se debruça sobre o tipo específico de comunicação processada pelo jornalismo: a comunicação de massa.

Na comunicação jornalística, não basta balancear efeitos e esforços (SPERBER; WILSON, 2005, 2010), servir aos interesses, à atenção ou ao conhecimento armazenado (SCHUTZ, 1979); também não basta ser útil para continuar e contextualizar (STRAβHEIM, 2010) tudo isso é apenas parcialmente válido se se referir a apenas um sujeito. Dessa forma, quando os autores se referem a capacidade de atingir ou interessar uma grande quantidade de pessoas, eles podem estar menos caracterizando um acontecimento a partir da implicação dos sujeitos e mais relembrando o lugar massivo inerente à prática jornalística.

V. Conflito

Entre os autores cujas listas de valores-notícia estão sendo analisadas, poucos dedicam espaço para refletir sobre o fundamento dos indicadores apresentados. Há, como dissemos, grandes obras descritivas e capazes de sintetizar uma ilimitada variedade de acontecimentos através de um número restrito de valores, mas poucas dessas obras refletem sobre o porquê de a mídia e as pessoas privilegiarem certos acontecimentos e não outros. Uma exceção a essa afirmação está na obra de Nilson Lage.

Em sua obra, o jornalista brasileiro afirma que os critérios de avaliação têm sua existência justificada por impulsos psicológicos inatos como a agressividade, a

sexualidade, a posse alimentar e o desejo de proteção. Com a socialização, esses impulsos seriam realocados, sublimados ou desviados, de forma que a existência em sociedade seria caracterizada por sua utilização em uma dimensão simbólica.

É nesse sentido que o conflito, físico ou simbólico, é utilizado pelo autor para explicar o interesse em muitos acontecimentos.

Não é difícil compreender, por exemplo, as relações entre o debate parlamentar e o conflito físico; as palavras substituem, numa escala tolerável, a agressividade da ação, que se sublima desta forma. O vínculo permanece na metáfora corrente da luta partidária, da batalha eleitoral, da campanha política. Pelo mesmo critério, a grande violência da sociedade industrial será reduzida a episódios de violência individual (familiar, de grupos) no noticiário de polícia, ou ao intimismo das narrativas existenciais que projetam, na neurose dos indivíduos, essa violência mesma: a assimilação é tal que as causas essenciais se perdem e as ocasionais revoltadas perante a violência instituída serão as únicas chamadas correntemente de violentas. Técnicas de desvio podem ainda limitar a agressividade a regras, como no boxe ou no futebol, e ritualizá-la, produzindo, no espaço do ringue ou do campo, situações ideais de iguais oportunidades, regras consentidas e pronto castigo a suas violações. (LAGE, 1979, p. 66)

A tese de Lage, aproximável dos fundamentos da teoria de Sperber e Wilson (2005), pode não ser capaz de explicar todos os valores-notícia pelos quais passaremos, mas certamente é essencial para muitos deles. Um raciocínio semelhante esteve presente na reflexão sobre os valores-notícia negatividade e incomum e, de maneira menos articulada, está presente em outros autores que se referiram ao conflito como um critério de relevância.

Para Fraser Bond (1962), a notícia é interessante quando trata de conflitos e disputas, entre os quais estão não só os conflitos no uso mais literal do termo: “notícias de batalhas, de combates aéreos notícias sensacionais” (BOND, 1962, p. 95), mas também na “luta” entre o homem e a natureza, entre o indivíduo e a sociedade e entre grupos políticos e econômicos. Para o autor, o conflito “forma a base de muito do apelo das páginas esportivas” (BOND, 1962, p. 96). A rivalidade esportiva também é mencionada por Erbolato (1978), que ainda chama a atenção para o fato de que a rivalidade coloca o receptor em um lugar de torcedor.

Amaral (1978), Chaparro (1994), Gislene Silva (2005) e Traquina (2005) reforçam o interesse jornalístico pelos conflitos sociais e crises, bem como pelas disputas, brigas, greves, reivindicações, guerras e violências física e simbólicas, associando, todas essas ao interesse pelo que é conflituoso.

Do ponto de vista do acontecimento jornalístico, o conflito nos parece mais uma qualidade esperada da variação do ecossistema. Interessam as variações que envolvam as pessoas a ponto de gerar torcedores ou apoiadores, afinal, independente de ser um conflito físico ou simbólico, inato ou sublimados em relações metafóricas, o que todo conflito tem em comum é a geração de alternativas ou lados aos quais se filiar.

As teorias da relevância nos permitem compreender que o conflito internaliza certa provocação ao princípio comunicativo (SPERBER; WILSON, 2005) e à relevância temática socialmente imposta (SCHUTZ, 1979). Uma vez que a cognição das pessoas com as quais convivemos tem uma capacidade diferenciada de conduzir nossa atenção e nossas expectativas de relevância, uma situação de conflito nos coloca diante de uma situação em que há estímulos concorrentes, de um lado há pessoas (e cognições) apontando para uma opinião ou uma visão de mundo e de outro há outras pessoas e cognições apontando na direção oposta. Em outros termos, na situação de conflito não há apenas a cognição de outrem que conduz a minha, mas a cognição de pelo menos duas pessoas que estimulam a minha cognição ao mesmo tempo e para prioridades diversas.

Neste sentido, a tese de Sperber e Wilson (2005), de que a cognição tem como meta geral melhorar o conhecimento de mundo dos sujeitos, pode explicar o interesse pelo conflito em função da sua produtividade. Uma situação de conflito, geralmente, envolve perspectivas que se chocam e que, no seu confronto, podem conduzir a um resultado vencedor, julgado de forma satisfatória pelo sujeito, em função do melhoramento do seu conhecimento de mundo.

Entretanto, a crítica à meta geral da relevância, elaborada por Costa (2008), Vidal (1996) e Rauen (2013), se aplica também a essa situação. É ingênuo acreditar que a única razão que atrai a atenção para os conflitos é o objetivo de saber mais e melhor. Retomando aspectos mencionados por Lage (1979), podemos destacar que os conflitos sublimam afetos e impulsos de fácil identificação, porque são generalizados, como a raiva, o medo e a agressividade, mas, em adição, acrescentamos que os conflitos também provocam a socialização ao seu limite.

Não é incomum, por exemplo, que o debate entre parlamentares, a discussão entre colegas de trabalho ou contato faltoso entre jogadores de futebol possa elevar os ânimos e levar para um conflito físico. Dessa forma, além de ser produtivo para o melhoramento do conhecimento do mundo, os conflitos podem ser relevantes pela

capacidade de despertar benefícios psicológicos e emocionais e por colocar em evidência momentos em que a socialização dos impulsos psicológicos pode estar em risco.