O ciclo de marcha previamente descrito pode ser divido em fases distintas, em que cada fase pode ainda ser estudada de forma independente, para melhor análise. O ciclo de marcha tem a duração aproximada de um segundo, onde a fase de apoio ocupa entre 51 e 60% desse ciclo e a fase de balanço entre 38 e 40% [8]. Assim, de acordo com a figura 46, dividindo estas duas fases principais, serão analisados os movimentos em separado.
O ciclo de marcha é iniciado no momento em que o calcanhar do pé toca o solo e termina aquando da subida do pé contrário. Sendo este período também designado de duplo apoio inicial e recepção de carga, ocupando 10% de ciclo de marcha e 18% da fase de apoio. Durante esta subfase do ciclo de marcha são dissipadas as forças resultantes do contacto do calcanhar com o solo e a adaptação às irregularidades do mesmo. No momento em que o calcanhar entra em contacto com o solo, forma-se uma força de reação deste que vai provocar uma rotação interna no membro inferior em simultâneo com o movimento de flexão plantar e eversão do pé (figura 46).
O período de apoio unilateral inicia-se quando o pé oposto se eleva e acaba quando se dá início ao levantar do calcanhar do pé apoiado, sendo esta fase chamada de fase média de apoio. Esta subfase representa 20% do ciclo
80 de marcha e 30% da fase de apoio, sendo que aqui o peso do indivíduo é suportado apenas por um dos membros, enquanto o outro está em fase de balanço. O período de propulsão inicia quando há o levantamento do calcanhar do pé apoiado e termina com a elevação da zona distal do mesmo pé. Subfase esta que representa cerca de 30% do ciclo de marcha e 50% da fase de apoio, englobando a fase de apoio final e a fase de pré-balanço. Nesta fase, o membro inferior que está a executar a propulsão está em extensão e ligeira flexão.
A fase de balanço inicia-se quando há a elevação do pé de apoio e termina com ambos os pés lado a lado. Seguindo-se a fase média de balanço que termina com a parte distal do pé de apoio na posição vertical. A fase final de balanço termina com o contacto do calcanhar no solo. Sendo a fase de balanço caracterizada pelo facto de o avanço do membro ser facilitado pela posição flectida da articulação do joelho. [8]
Para caracterizar e analisar os movimentos e amplitudes angulares do pé e tornozelo, bem como da contextualização no restante membro inferior, foi utilizada a convenção apresentada na figura 47.
Figura 46 – Representação esquemática das diferentes fases do ciclo de marcha. [8]
81 A descrição dos movimentos e amplitudes nos diferentes planos de ação está representada na figura 48. Pode observar-se que o início do ciclo de marcha se caracteriza pela posição neutra do pé (podendo ocorrer pequenas variações devido à adaptação ao solo, por exemplo), denotando-se já a inversão (8º) e a rotação externa (11º). Até o pé apoiar completamente no solo ocorre a flexão plantar (de cerca de 8º), eversão e rotação externa. As seguintes fases de apoio são caracterizadas pela dorsiflexão, passagem da eversão para inversão e gradual diminuição de rotação externa.
As variações mais bruscas nos gráficos da figura 48 correspondem à zona de transição do ciclo de marcha, que se situa entre os 50 e os 60%, que é por sua vez correspondente à passagem da fase de apoio para a fase de balanço. A fase de balanço é indicativa de uma diminuição da flexão plantar, até que o pé atinge novamente a posição neutra no final do ciclo de marcha. Ainda durante a fase de balanço ocorrem variações de amplitude correspondentes á inversão e á rotação externa, em que é de notar a mudança de direção da amplitude a cerca de 85% do ciclo de marcha, altura de transição entre a fase média e a fase final de balanço, onde por fim é atingida a posição final igual à posição de inicio do ciclo.
Figura 48 – Gráficos representativos das amplitudes de movimento do tornozelo e pé durante o ciclo de marcha. [8]
Figura 47 – Definição da convenção dos ângulos dos segmentos anatómicos e articulações. [8]
82 Já na figura 49, estão representados os momentos internos sentidos na articulação do tornozelo ao longo do ciclo de marcha, em que no início do ciclo se pode verificar um ligeiro momento dorsiflexor, mas que rapidamente passa a dar lugar uma inversão para um momento flexor plantar que se estende á fase de transição entre o apoio e o balanço, a cerca de 50 a 60% do ciclo de marcha. Antes de se dar a transição, verifica-se o valor máximo deste momento flexor plantar, de aproximadamente 1,4 Nm/kg, no período final da fase de apoio simples. Como se pode verificar ainda na figura 31, os valores dos momentos nos restantes planos são muito reduzidos, com valores abaixo dos 0,25 Nm/kg, notando-se apenas pequenos picos na fase de pré-balanço. [8]
Figura 49 – Gráficos representativos dos momentos internos da articulação do tornozelo durante o ciclo de marcha. [8]
Relativamente às potências envolvidas, a figura 50, apresenta as potências mecânicas desenvolvidas na articulação do tornozelo. Estes valores surgem do produto da velocidade angular da articulação pelo momento interno, em cada instante de tempo, e é expressa em W/kg de massa do corpo do indivíduo. Como a potência mecânica flutua ao longo do ciclo de marcha, podemos saber em que fase existe uma geração ou uma absorção de energia pelo conjunto de músculos ou estruturas relacionadas.
Analisando a figura 48, conclui-se que durante a fase de apoio simples a rotação da tíbia é controlada pela potência absorvida pela contração excêntrica dos músculos plantares, na fase estacionária do pé. Já a cerca de 50% do ciclo de marcha, onde se situa a fase de pré-balanço é gerada a maior potência, com um pico de 4 W/kg, pela contração concêntrica dos músculos plantares. Este pico representa aproximadamente dois terços da energia gerada durante o ciclo de marcha e contribui significativamente para fase de propulsão. [8]
83
Figura 50 – Gráficos representativos da potência mecânica na articulação do tornozelo durante o ciclo de marcha, em W/kg de peso do indivíduo. [8]
85