2 ELEMENTOS PARA UM BOM DISCURSO (Apontamentos para uma revisão teórica e
2.4 Dimensão Política
2.4.3 Análise Crítica do Discurso e as formas de poder
Discurso pode ser entendido tanto como fala quanto escrita, mas também representa a trajetória individual além do contexto cultural, histórico e ideológico social. Os discursos são formas representativas da vida social. O discurso se mostra importante em uma pesquisa social devido ao seu caráter representado por conversas e textos na cognição, interação, contexto social e cultural carregados de significações nas relações sociais. No entanto, o discurso dos pobres e das pessoas dominadas na estrutura social somente é representado por diferentes discursos através de práticas sociais do governo, da política, da medicina, das ciências sociais, cada um representando ao mesmo tempo e prioritariamente a posição social de seus atores, ou seja, os profissionais são representantes de suas atividades sociais (FAIRCLOUGH, 2001a, p. 124).
A Análise Crítica do Discurso, com um enfoque diferenciado da tradicional Análise do Discurso, analisa o texto e as interações, e várias formas das ações sociais, tentando demonstrar como a linguagem se apresenta nos processos sociais. O título de crítico se deve ao fato de tentar analisar o modo implícito da linguagem se apresentar nas relações sociais de poder, ideologia e dominação (FAIRCLOUGH, 2001b). A Análise Crítica do Discurso teve início nos anos de 1980 na Europa, tendo como principais pesquisadores Norman Fairclough, Teun van Dijk e Ruth Wodak, autores que reforçam a importância de se utilizar a Análise Crítica do Discurso como uma fonte teórica e metodológica para estudar não somente os discursos, ou os textos nos quais os discursos são produzidos, mas também como uma fonte para a pesquisa social (FAIRCLOUGH, 2003).
A Análise Crítica do Discurso é um tipo de investigação analítica cujos recursos teórico e metodológico permitem estudar o modo como o abuso de poder, o domínio e a desigualdade são praticados, reproduzidos e combatidos na fala ou em textos, no contexto social e político, que surge também como uma oportunidade de mudança via discurso (VAN DIJK, 1999, p. 23). Como a Análise Crítica do Discurso tem estudado o abuso do poder, o controle social, as desigualdades sociais e a exclusão social no uso da palavra por meio dos discursos dos dominadores, nessa perspectiva, a “linguagem passa a se tornar um meio de colocar em prática o papel da linguagem como eixo de compreensão e estudo dos processos sociais” (IÑIGUEZ, 2004, p. 105). A estrutura do poder é uma das características mais marcantes da realidade social.
Para Galbraith (1984),
[...] o papel essencial do poder na organização social está ligado aos inevitáveis conflitos de interesses. Em virtude da nossa capacidade de afirmar nossas preferências e determinar por elas as nossas escolhas, os conflitos de interesses surgem inevitavelmente em qualquer comunidade humana; e o poder é o meio pelo qual esses conflitos são resolvidos.
Galbraith ainda distingue três tipos de poder, diferenciando-se conforme os meios pelos quais o poder é exercido: a) coercitivo – exercido pela imposição de sanções efetivas ou só enquanto ameaças; b) compensatório – oferecimento de incentivos ou recompensas; c) condicionado – exercido pela mudança de crenças mediante a persuasão ou a educação.
Portanto, “a arte da política está em encontrar a medida certa de cada um desses três tipos de poder em vista de resolver conflitos e promover o equilíbrio entre os interesses opostos”
(GALBRAITH, 1984).
Segundo van Dijk (1993), o poder social é baseado no acesso à saúde, educação, trabalho, posição, status e poder, mas o social é dissolvido se analisado particularmente em uma única pessoa, ou seja, ele é ao mesmo tempo pessoal e contextual, formando um modelo social. Segundo o mesmo autor, os modelos textuais nos permitem relacionar o pessoal e o social, pois através de ações e interpretações individuais é construída a ordem social, com opiniões individuais baseadas na experiência, na atitude e na relação do grupo.
Para Fairclough (1989), para entendermos a relação entre linguagem e vida social, é necessária, antes de tudo, uma abordagem interdisciplinar da análise do discurso em situação em que não ocorra interferência da produção (análise), através de concepções teóricas e metodológicas de pesquisa que considerem a relevância social e os aspectos históricos implicados. Segundo Fairclough (2001b), a análise crítica do discurso foca tanto na estrutura quanto na ação, que se representa através do discurso.
Portanto, com essa abordagem, pretendemos analisar as questões estruturais e ideológicas das relações entre os atores da reciclagem na região do Vale do Rio Pardo. No estudo do IPEA (2010a, p. 33), foi realizada uma oficina com os pesquisadores do Ipea e os decisores do Ministério do Meio Ambiente, desta oficina, foi criado o seguinte quadro, representando o problema da política de cobrança da reciclagem.
Ilustração 16 - Esquema das políticas de reciclagem nos municípios
Fonte: IPEA, 2010a, p. 33
Desse quadro, podemos tirar o mesmo desenho que no cenário encontrado na região do Vale do Rio Pardo, e apontarmos a importância da luta contra a desigualdade social e a valorização do ambiente, das particularidades locais, dos atores locais e dos interesses por conquistas locais, inibindo as exigências da elite e as imposições do capital, “desapegado”
com o território, como ocorrido recentemente (GAZETA DO SUL, 2010a), e como explicitado por Acselrad (2010, p. 113):
[…] se não obtiverem vantagens fiscais, terreno de graça, flexibilização de normas ambientais, urbanísticas e sociais, também se “deslocalizam”, penalizando, consequentemente, os estados e municípios onde é maior o empenho em preservar conquistas sociais e ambientais.
3 O DISCURSO DOS ATORES ENVOLVIDOS
A abordagem realizada pelos trabalhos anteriores sobre a reciclagem da região do Vale do Rio Pardo (KIPPER, 2005; SILVEIRA, 2000 e SILVEIRA, 2001), bem como sobre a reciclagem em Porto Alegre (ZANETI, 2006), foi baseada na Teoria Geral dos Sistemas (VON BERTALANFFY, 1968). O que a Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010) apresentou também foi desenhada na tentativa de relacionar os diferentes atores e as diferentes fases do ciclo de vida dos produtos a serem consumidos e descartados. Na perspectiva apresentada pela teoria sistêmica, o conhecimento científico não deve se reduzir às análises específicas e altamente especializadas que tem sido a maior parte da produção acadêmica, ela precisa ter uma visão do todo, uma visão holística para tentar encontrar os padrões, as relações existentes entre os diferentes comportamentos específicos. Ressaltamos que nas pesquisas acadêmicas sobre reciclagem, são pouco estudados os conflitos que inibem e enfraquecem as conexões do desenvolvimento, devido, principalmente, às disputas de interesses políticos e econômicos envolvidos nas atividades ligadas ao setor, que inibem o impacto dos estudos na estrutura social.
Com enfoque um pouco diferenciado, nosso estudo pretende descrever especialmente as relações sociais entre os atores envolvidos com a reciclagem e identificar o contexto ambiental, social, econômico e político regional. Em seguida, serão analisadas as conexões entre o atual sistema de reciclagem, realizando um mapeamento das condições relacionais entre os diferentes atores. Dessas relações, serão analisadas as formas com que o poder é demonstrado através do discurso dos privilegiados e as reivindicações dos “desassistidos”
pela políticas dos ocupantes do poder público.
Como minha formação é relacionada à linguagem, necessitava encontrar uma área de estudos que visasse ser bastante ligada à importância do uso da palavra na realidade social.
Ao iniciar as aulas do mestrado, aproveitei o maior tempo possível para me inteirar da situação da rede de reciclagem na região, construindo uma rede de contatos com pessoas relacionadas aos projetos ambientais, pois essa é a primeira ideia que todos têm quando se fala em reciclagem, um trabalho sobre o meio ambiente.
Surgiu, a partir desse momento, um desafio de me tornar crítico quanto às escolhas de abordagem acadêmica utilizadas para esta dissertação, fazendo uso do conhecimento adquirido pelas distintas disciplinas de um mestrado interdisciplinar. Seria necessário, por exemplo, para conseguir compreender os contextos, as representações (conhecimentos e atitudes) e os discursos das relações dos atores, uma observação participante, atuando ora como cidadão, ora como pesquisador, ora como apoiador dos catadores, embora algumas vezes tentei também ser colaborador específico do poder público, sem muito sucesso.
Segundo a antropóloga Alba Zaluar (1997), o pesquisador não deve esquecer que a relação que se estabelece entre o observador (pesquisador) e o observado (cada um dos atores) é uma relação social e política. Muitas vezes, é atribuída maior importância à pesquisa a ser feita, sendo os grupos sociais vistos como informantes (meros “objetos” de pesquisa), ou seja, devem fornecer os dados que são “fundamentais”, na verdade, para a carreira do pesquisador.
O papel dos pesquisadores pode, no entanto, ser o de fornecedor de um conhecimento que ajude o outro a se fortalecer como sujeito autônomo capaz de elaborar seu próprio projeto político (RESENDE, 2008). Não cabe ao pesquisador reforçar ideologias existentes, mas fornecer instrumentos para desvendá-las e superá-las, em caso de conflitos. Isto é, o principal argumento é o de que o desejo de objetividade científica ceda lugar ao desejo de solidariedade aos atores participantes (ROSADO, 2009, p. 26).