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Análise da sessão Focus Group com os Alunos

No documento PULIDO Joana 3fev2016 (páginas 72-79)

Capitulo III – Análise Interpretativa de Dados

3.3. Análise da sessão Focus Group com os Alunos

Com esta sessão de focus group, pretendi recolher a opinião dos alunos sobre os trabalhos para casa, ou seja que lhes são incumbidos de realizar fora do horário escolar, a sua utilidade e sentido, as condições em que são realizados e a ajuda que dispõem para a sua realização.

No total, estiverem envolvidos 8 alunos, dois de cada ano de ensino, ou seja, dois do 1º ano, dois, do 2º ano, dois do 3º ano e dois do 4º ano, como consta no quadro da página nº 39.

No decorrer da sessão houve pontos em que as opiniões foram unânimes e partilhada por todos, outras vezes apresentaram opiniões diametralmente opostas. Os TPC são, simultaneamente, objeto de adesão e de rejeição.

Se houvesse dúvidas sobre o carácter cultural e social dos TPC, com estes relatos, percebemos que a realidade das crianças fora do contexto escolar é diferente, promovendo ofertas e condições diferenciadas na execução dos trabalhos realizados fora do tempo escolar.

A partir dos dados recolhidos na sessão realizada com a técnica do focus group o primeiro aspeto a reter é que todos os alunos, sem exceção, realizam tarefas fora do período das aulas, embora em alguns dos casos não o façam todos os dias.

Dos 8 alunos, 3 destes levam TPC quase todos os dias, pois têm um dia da semana para descanso, ou porque é fim-de-semana ou porque é o dia mais ocupado pelas crianças com atividades extracurriculares. Dois dos professores enviam trabalhos aleatoriamente, o que faz com que as crianças não consigam antevê-los e outros tantos enviam alternadamente, ou seja, dia sim, dia não. A maior parte do grupo leva mais TPC ao fim de semana, à exceção de duas

crianças que não levam essas tarefas nesse período com o propósito de descansar.

O tipo de trabalho para casa que as crianças são chamadas a realizar são tarefas no caderno, páginas do livro ou no livro de atividades, mais raramente cópias, tabuadas e contas. Metade do grupo, apenas os meninos do 3º e 4º ano de escolaridade, já tiveram uma ou duas experiências, no máximo, em trabalhos para casa de pesquisa, em grupo.

As disciplinas que os professores privilegiam como TPC são o Português e a Matemática. Para metade do grupo, os TPC recaem apenas nestas disciplinas e para a outra metade, estes vão sendo alternados pelas três áreas nucleares, o Português, a Matemática e o Estudo do Meio.

Metade do grupo, quando não termina as tarefas estipuladas na planificação do dia do professor, leva para casa para os realizar; dois terminam no dia seguinte na escola e outros tantos estão à mercê da vontade da professora (às vezes levam para casa outras vezes não).

Todos os elementos do grupo realizam as suas tarefas em Instituições, no ATL ou em explicações, no entanto todos admitem realizá-los também em casa. A altura do dia que as crianças realizam os TPC varia na razão direta do seu horário escolar. Alguns começam a fazer nas Instituições e terminam em casa, outros começam a fazer em casa e terminam no ATL ou na explicação e ainda existem outros que, por opção, fazem-nos sempre em casa, ao fim de semana.

No entanto, a prioridade que é atribuída à realização das tarefas que lhes são incumbidas e o momento do dia em que os executam demonstra, mais uma vez, as desigualdades das condições e dos diferentes modos de exercício do ofício de aluno.

Todas as crianças admitem, às vezes, precisar de ajuda na realização dos trabalhos que levam para “casa”. No entanto, dois meninos referiram que a professora não quer que sejam auxiliados por terceiros de modo a não os confundir, por utilizarem métodos diferentes.

Quando fazem nas Instituições são acompanhados por técnicos qualificados, em casa fazem-nos com o auxílio dos pais. Uma das crianças, por

vezes, ainda conta com a ajuda da irmã mais velha e uma outra menina conta com o auxílio dos primos. Apenas, uma das crianças menciona que em casa não tem a ajuda de ninguém, porque a mãe não tem tempo. Este facto alerta- nos novamente para as desigualdades de condições em que as tarefas escolares são realizadas.

Em casa, os seus lugares de eleição para fazer os TPC são o quarto, o escritório, a cozinha e o quarto de arrumos. Estes dois últimos espaços estão associados à ajuda que recebem. “Às vezes faço lá em cima com a minha mãe. Ela está a passar a ferro (…) e às vezes quando ela está a fazer o jantar vou para o pé dela [cozinha].” (Jaime, 4º ano, Anexo 4.4., quadro nº3)

Todo o grupo admite que as matérias que levam nas tarefas que os professores lhe enviam já foram faladas na sala de aula, contudo cinco meninos admitem que costumam ter dificuldades em realizá-las sozinhos. Do grupo, apenas duas meninas confidenciam que é raro precisarem de ajuda e ambas a frequentar o 1º ano de escolaridade.

Atendemos agora ao trabalho diferenciado que o professor possa ou não realizar. Aqui, cinco dos meninos admitem que os professores não praticam trabalho diferenciado. No entanto, para três destas crianças isto acontece. Destes, dois dos professores têm a turma dividida em dois grupos, um mais avançado do que o outro e para um destes grupos manda um tipo de trabalho e para o outro grupo uma tarefa diferente. Apenas um menino conta que a professora envia TPC consoante a nota, ou seja, nas matérias em que têm mais dificuldade. Um dos meninos, que admite que a professora não faz trabalho individual, refere que, no entanto, há meninos que levam mais trabalhos para casa devido ao seu comportamento.

Quando questionado sobre a adequação da quantidade dos trabalhos para casa, nenhuma criança ficou indiferente. Metade discordou por completo, duas porque defendiam que deviam ser mais, uma tinha uma visão oposta, pois defendia que eram a mais e uma outra criança apresentou uma proposta, serem mais durante a semana e não levar ao fim de semana. Como muitos professores não têm sempre o mesmo critério de quantidade, metade do grupo por vezes concorda e outras vezes discorda; três defendem que às vezes

deveriam ser mais e apenas um pensa que às vezes a quantidade é adequada mas outras vezes deveriam ser menos.

Tal como acabei de referir, segundo estes meninos, a maioria dos professores não segue o mesmo critério quanto à quantidade de trabalhos, daí que metade das crianças, por vezes, considere que demoram muito tempo a realizá-los e outras vezes não. Dois dos meninos referiram que demoram muito tempo a realizar os TPC e outros tantos defendem que demoram pouco tempo.

Três dos colaboradores dizem que apesar de terem TPC, sobra-lhes tempo para realizarem outro tipo de atividades, no entanto o mesmo número de elementos refere que só lhes sobra tempo para fazer o que mais gostam, às vezes, e ainda existem dois que mencionam que depois de realizarem as tarefas ditadas pelo professor não lhes sobra tempo para fazer outras atividades.

Se não tivessem de realizar TPC, todo o grupo, à exceção de uma menina que apenas referiu que aproveitaria para dormir, de uma maneira ou de outra, optaria por brincar, pois é uma das condições de ser criança!

A maioria dos meninos tem sede por atividades ao ar livre, tais como ir à praia, andar de bicicleta, jogar à bola e passear com a família. A seguir, aparece o ver televisão, o dormir e o estudar. Uma das meninas ainda refere que gostaria de ir mais vezes ao Karaoke com os pais e uma outra menciona passear no centro comercial, apesar de não gostar!

Quando se pede para optarem por utilizar o seu tempo para realizar os TPC ou as coisas que mencionaram que fariam se não tivessem trabalhos, três dos meninos, sem hesitar, responderam que preferiam realizar as suas atividades, quatro delas também o escolheram; no entanto mostraram preocupações e referem que apesar da sua escolha os TPC são muito importantes para aprender. Utilizando o mesmo argumento, uma das meninas optou por realizar os trabalhos para casa.

A forma como os alunos aderem às tarefas ou TPC e rejeitam outras, fornece-nos indicadores preciosos para compreender o sentido que os trabalhos para casa têm para este grupo de crianças.

Quando se pergunta aos meninos com que objetivo é que os professores mandam realizar tarefas fora do período escolar as crianças apontam diversas razões que se prendem com o reforço positivo às metas que se devem atingir, nomeadamente, ajudar, saber mais, treinar, aprender, estudar e treinar a concentração. No entanto, três dos meninos referem que um dos objetivos passa por castigá-los e um ainda refere que a professora manda trabalhos para os pais se lembrarem das matérias.

Quando foi lançado o desafio às crianças de se colocarem no papel de professores e referirem o seu procedimento em relação aos trabalhos realizados fora do período da aula, hegemonicamente todas as crianças foram unanimes em concordar que mandariam os seus alunos realizar trabalhos num tempo posterior à aula, três crianças do grupo, ainda argumentaram que é para aprenderem mais e outras duas subscrevem esta ideia, pois só mandariam realizar a quem não soubesse a matéria. Grande parte do grupo refere que pediria trabalho diferenciado aos seus alunos, de acordo com as suas dificuldades. Dois dos meninos mencionaram que não o realizariam. Contudo vão dizendo que quem não soubesse a matéria ou se portasse mal também levaria outros tipos de TPC.

Em relação às quantidades que mandariam realizar, dois dos meninos disseram de imediato que mandariam muitos trabalhos àqueles meninos que tinham mais dificuldade, ou seja mandariam trabalhos até saberem a matéria, quatro referiram que mandariam poucos; contudo dois destes utilizaram o mesmo argumento que os colegas e salientaram que mandariam muito mais a quem não soubesse. Dois dos intervenientes foram mais específicos e referiram que mandariam realizar uma tarefa de cada área do conhecimento ou que mandariam uma ficha e umas contas.

Quando se pergunta quanto à periodicidade com que mandariam existem várias opiniões, apenas uma das meninas do 4º ano refere que mandaria todos os dias para aprenderem muito, um rapaz também salienta que mandaria todos os dias, exceto à sexta-feira para poderem descansar e brincar; duas meninas referem que mandariam dois ou três dias consecutivos de trabalhos e as restantes três mandariam alternadamente, ou seja dia sim, dia não. Quanto aos trabalhos de sexta-feira as opiniões são mais semelhantes, pois cinco dos meninos alegam não prescrever trabalhos para

serem realizados no fim-de-semana, um refere que era consoante o trabalho que tivessem desenvolvido durante o período da aula e apenas duas reforçariam o trabalho da aula com TPC à sexta-feira. Contudo uma diz que em menos quantidade.

O género de trabalhos que os meninos pediriam para os seus alunos realizar são diversificados. Apenas dois dos colaboradores referiram um tipo de trabalho, designadamente, de pesquisa e investigação e de expressão artística, pois todos os outros referiram mais do que um género de tarefa diversificando o trabalho dos meninos.

Para a maioria do grupo, cinco, os TPC também passam pela realização de tarefas no caderno, em fichas e nos livros. Como uma das meninas refere “(…) mas também tinha de fazer o livro, que a minha professora diz que se tem sempre de acabar.” (Gisela, 1º ano, Anexo 4.4., quadro nº 14).

O tipo de trabalho mais escolhido pelos alunos foi o de investigação e pesquisa, recaindo em seis elementos, de seguida as tarefas no caderno, livro e fichas, seguindo-se os de expressão artística, mais propriamente o desenho, o trabalho de grupo, as experiências e as tarefas de leitura e resumo.

Também em forma de resumo e para concluir esta sessão perguntei- lhes se, no final desta nossa conversa, concordavam ou não com os TPC e metade do grupo alegou que sim, no entanto podemos ver o espírito com que os encaram a partir destas transcrições.

“Eu concordo, mas podiam ser mais divertidos.” (Gisela, 1º ano, anexo 4.4., quadro nº15)

“Preferia fazer outras coisas, mas concordo porque são precisos.” (Jaime, anexo 4.4., quadro nº15)

Apesar de tudo o que se falou, dois dos meninos continuam reticentes quanto aos TPC e outros dois referiram que não concordavam, mas ambos reconheceram a sua utilidade e necessidade para o sucesso da aprendizagem.

“Cá para mim, não fazia, mas temos de fazer para aprender.” (Regina, 4º ano, anexo 4.4., quadro nº15)

“Não queria fazer os trabalhos para poder ir brincar. Mas para passar para o segundo ano é preciso fazer trabalhos.” (Sofia, 1º ano, anexo 4.4., quadro nº15)

Os TPC aparecem como um meio para atingir um determinado fim quer este seja concebido em termos de aumento de conhecimento ou, simplesmente, passar de ano, como nos podemos aperceber através de expressões como “Para aprender.”, “Para passar de ano.” Estas são uma das múltiplas tarefas que são necessárias realizar para atingir o objetivo final, atribuindo assim significado à sua realização. Apresentação com um valor instrumental, pois é o meio / o instrumento que leva ao fim.

De modo geral, estas crianças gostam das tarefas que realizam com alguma facilidade e rapidez, pois esta rotina já lhes está interiorizada e apelam ao conhecimento que já dominam. No entanto, tarefas que consideram aborrecidas ou de extrema dificuldade, rejeitam-nas pois oferecem frustração. Neste sentido, a relação que cada aluno estabelece com os TPC está ligado com o domínio dos conhecimentos que tem de mobilizar para a sua realização.

Apesar de algumas crianças afirmarem não precisar de ajuda porque sabem fazer sozinhas, todas admitem que recorrem sobretudo à mãe, ao pai e mais raramente ao irmão mais velho ou a outro elemento da família como o primo.

No entanto, os excertos que transcrevemos não só dão conta deste tipo de ajuda que os alunos dispõem como deixam antever as estratégias pedagógicas das professoras. Como Canário e Alves (1999) salientando Perrenoud refere “(…) os deveres não podem ser dissociados de um pensamento mais global sobre a aprendizagem e são o reflexo do tipo de trabalho realizado na aula.” (p.599)

Na sua atividade escolar, os trabalhos para casa são, para os alunos, mais uma das múltiplas obrigações que têm de cumprir que, por vezes, estão associadas com o desejo de aprender, mas noutras vezes executam-nas para não sofrer as consequências.

Os trabalhos para casa ocupam, ainda hoje, um lugar central na vida das crianças que participaram neste estudo, mantendo-se fiel a esta tradição.

Como Canário e Alves (1999) salientando Perrenoud “(…) nós não somos contra um tempo de trabalho fora do contexto escolar, nós somos isso sim, contra a obrigação de executar tarefas estereotipadas, rotineiras e, em muitos casos, desprovidas de sentido.” (p.599)

No documento PULIDO Joana 3fev2016 (páginas 72-79)