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Análise das leituras realizadas sobre a prática de pesquisa no

3 METODOLOGIA

3.1 A estratégia de pesquisa

3.3.3 Análise das leituras realizadas sobre a prática de pesquisa no

campo

Na última fase, as informações obtidas na primeira e na segunda leitura foram trianguladas e analisadas, relacionando os aspectos objetivados e subjetivados da prática de pesquisa no CPAC. Para realizar essas análises foi utilizado o método de Análise de Conteúdo (AC).

Esse método caracteriza-se por um “conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção [...] dessas mensagens” (BARDIN, 1977, p. 42). Ele pode ser usado dentro de uma abordagem quantitativa, por meio da análise da frequência com que características aparecem em determinado texto. Ou pode ser usado dentro de uma abordagem qualitativa, como é o caso deste trabalho, que se “considera a presença ou a ausência de uma dada característica de conteúdo ou conjunto de características num determinado fragmento da mensagem” (LIMA, 1993, p. 541). A escolha por técnicas qualitativas de análise de conteúdo está

alinhada ao modelo teórico de análise que exige que se ultrapasse a mera descrição do conteúdo das informações coletadas em campo, atingindo, mediante a inferência, uma interpretação mais profunda.

Para Minayo (2004 apud BARDIN, 1977) a AC não deve se restringir à descrição do conteúdo das mensagens. Ela deve incluir a inferência de conhecimentos sobre as condições de produção e de recepção das mesmas, permitindo que a análise não apenas levante características da comunicação, mas atribua significado a elas. No âmbito da epistemologia, Minayo (2004) declara a existência de duas concepções de comunicação: a) a do modelo “instrumental”, que entende que o mais relevante na comunicação não é o conteúdo da mensagem, mas o que ela quer dizer tendo em vista seu contexto e circunstâncias; b) e a do modelo “representacional”, na qual o que importa é o conteúdo lexical da mensagem, visto que é por meio de palavras contidas na mensagem que se torna possível realizar uma boa análise de conteúdo, sem necessidade de considerar o contexto e o processo histórico (MINAYO, 2004, p. 202). Neste trabalho, o modelo teórico de análise nos leva a considerar fundamentais tanto o contexto de produção da mensagem, como o processo histórico em que essa mensagem se encontra inserida. Assim, a AC realizada a partir dos dados coletados em campo “relaciona estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos enunciados” (MINAYO, 2004, p. 203), articulando o explícito dos textos coletados com as características implícitas de seu contexto e processo histórico.

Para Bardin (1977), Minayo (2004) e Triviños (1995) a AC pode se utilizar de diferentes tipos de técnicas. A análise categorial é o tipo mais antigo e o mais utilizado. “Funciona por operações de desmembramento do texto em unidades, em categorias segundo reagrupamento analógicos” (BARDIN, 1977, p. 153). A análise categorial utilizada foi temática e se baseou na construção de categorias a priori, validadas na reflexão teórica e conformadas em temas do

roteiro específico. Para classificar os elementos em categorias é preciso identificar “uma série de significações que o codificador detecta por meio de indicadores que lhe estão ligados; [...] codificar ou caracterizar um segmento é colocá-lo em uma das classes de equivalências definidas, a partir das significações, [...] em função do julgamento do codificador [...] o que exige qualidades psicológicas complementares como a fineza, a sensibilidade, a flexibilidade, por parte do codificador para apreender o que importa” (PÊCHEUX, 1993, p. 65).

A análise dos dados levantados em campo foi realizada em três grandes etapas: a) a pré-análise; b) a exploração do material; e c) o tratamento dos resultados e interpretação (BARDIN, 1977). A primeira etapa configurou-se como um momento de organização, na qual foram selecionados os documentos a serem analisados e quando foram ordenadas as ideias que auxiliariam na interpretação. Nessa etapa, reuniu-se todo o material coletado e procedeu-se a uma leitura flutuante sobre ele. Em seguida, foi constituído o corpus de análise a partir dos dados coletados nas leituras da prática, buscando-se atender aos critérios de exaustividade, representatividade, homogeneidade e pertinência, conforme elencados por Bardin (1977) e Minayo (2004). A primeira etapa finalizou-se com a preparação do material, transcrevendo recortes do texto para fichas específicas. Na segunda etapa, exploração do material, procedeu-se a análise categorial. Nela, o texto de documentos e entrevistas foi desmembrado em unidades de registro, buscando diferentes núcleos de sentidos que indicavam simetrias ou dessimetrias em relação às questões propostas, sendo posteriormente, reagrupadas em categorias pré-definidas a partir do quadro teórico escolhido. Na terceira etapa, de tratamento e interpretação, efetuaram-se análises reflexivas dos conteúdos reagrupados, triangulando essas análises com o material observado, com as questões propostas para o estudo e com a literatura que fundamenta as categorias pré-selecionadas, observando suas ausências ou

presenças na prática (BARDIN, 1977). Esse procedimento viabilizou interpretações e inferências alinhavadas com características da ordem da prática e com aspectos já refletidos pela literatura.

Por fim, deve-se ressaltar que refletir sobre a prática de pesquisa utilizando conceitos elaborados por Bourdieu é uma tarefa difícil, seja pela complexidade do pensamento desse autor ou mesmo pelo envolvimento da pesquisadora com a prática e com o campo social em questão. Nesse sentido, vale ressaltar que a investigadora ocupa uma posição no campo estudado e que apesar de exercitar a reflexividade nesse processo de pesquisa, esse fato tanto viabilizou a percepção de algumas características do campo, como dificultou a visão do campo sob outras lentes. Entretanto, o estudo da prática científica é realizado na maior parte das vezes por investigadores que ocupam a posição de pesquisador, seja no próprio campo em análise, seja em outros campos similares. No caso desta pesquisa, a investigadora teve a oportunidade de falar a partir da posição de pesquisadora dentro do campo científico, mas também a partir da posição de analista dentro do campo social específico em estudo.

4 REFLEXÕES TEÓRICAS SOBRE A PRÁTICA DE PESQUISA NO