5. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS
5.4. Análise das questões sobre os textos
5.4.1. Análise das respostas sobre os textos: questionário 3
As respostas foram divididas em dois conjuntos, um relacionado a dificuldades com a linguagem e o vocabulário utilizados nos textos e outro relativo a dificuldades conceituais, relacionadas com a dificuldade de interpretação manifestadas pelos alunos em suas respostas.
Nove alunos (D2, D3, D5, D7, D8, D11, D12, N3 E N4) responderam que a dificuldade seria com relação à linguagem dos textos, alguns como D7, D11, D5, N3 simplesmente citaram a linguagem como dificuldade sem explicitar detalhes, enquanto outros registraram outros elementos como:
D3: “Sim. A linguagem é rebuscada e tem coisas que não ficam bem claras
pois tem bastante coisa que é descrita por relação entre segmentos”
D5: “Sim. O texto nem sempre é claro no que se quer transmitir.”
N4: “O texto ‘Ótica’ de Newton, tem um vocabulário muito difícil, minha
dificulta é em aceitar as concepções dos autores diante do conhecimento que já possuo. Os textos são bastante teóricos, o que para mim torna o texto cansativo.”
D6: “Sim. Principalmente no texto de Huygens ‘Tratado sobre a luz’, pois a
forma como ele aborda o assunto, a leitura se torna complexa e confusa.” Percebe-se que as discussões realizadas por meio da apresentação em PowerPoint realizada nas primeiras aulas não foi suficiente para que os alunos tivessem mais noção do contexto em que os textos foram escritos, o que pode ter feito a leitura tornar-se mais complicada na medida em que os alunos parecem ter lido os textos com uma perspectiva unicamente contemporânea como fica claro na resposta de N4.
Outros seis alunos (D1, D4, D6, D9, D10 e N1) manifestaram dificuldade que foram classificadas como dificuldades conceituais ou dificuldades em relação ao conteúdo, sem explicitar especificamente a que se referiam fazendo comentários diversos como os citados a seguir:
D4: “Sim, os textos discutem conceitos bem específicos da física e para eu
poder compreender, precisaria estudar e buscar outras leituras.”
D10: “Tive dificuldades para interpretar algumas coisas, o que pode ser
solucionado com a releitura.”
N1: “Sim, os textos rotineiramente trabalhados em sala de aula, já trazem o
conhecimento pronto, com as teorias comprovadas, estes textos que lemos estão em desenvolvimento sua teoria, com muitas questões a serem testadas.”
D1: “Sim. Principalmente no de Huygens. As principais dificuldades foram
entender a forma como ele entendia a luz. Que para mim é desconhecida e errada. Por isso é difícil de se interpretar.”
D9: “Não muitos, pois o conteúdo abordado já foi trabalhado muitas vezes,
porém é comum o surgimento de dúvidas, como por exemplo, quando Huygens trata a luz se propagando no éter.”
Nas respostas de N1, D1 e D9 também se podem identificar algumas dificuldades com relação à perspectiva com que os alunos leram os textos como “teorias em desenvolvimento”, “questões a serem testadas” e “forma como ele entendia a luz... Que para mim é desconhecida e errada” que parecem refletir certo conflito com a forma com que comumente a Ciência é apesentada, mediante produtos de experiências bem sucedidas na qual o cientista é sempre brilhante. Isso reflete que os alunos percebem que estes cientistas precisam construir suas ideias e que muitas vezes erram ou são imprecisos, mostrando que estes textos são importantes para aproximar o trabalho dos cientistas de um trabalho humano e passível de erros.
Nas respostas de D4 e D10 nota-se que eles procuram soluções para uma melhor compreensão com releitura ou leituras complementares, e aparentemente não culpam a linguagem pelas dificuldades na leitura.
Além disso, nessas respostas se podem perceber alguns elementos interessantes como o aluno N1 que coloca como dificuldade uma diferença entre os textos habitualmente trabalhados em sala de aula e os textos lidos. Os textos trabalhados em sala de aula em geral são constituídos de manuais que trazem o produto da Ciência sem se preocupar com o processo de construção das ideias na Ciência.
Ainda podemos desprender das respostas de D1 e D9 onde estes apontam dificuldades em relação à forma como Huygens trata ou concebe a luz, que uma maior contextualização, anterior à leitura desse tipo de texto se faz necessária.
5) Quais as principais diferenças que você consegue identificar entre o
texto de Newton e o de Huygens?
Foram diferenciados dois conjuntos nas respostas dessa questão, um relacionado a diferenças no conteúdo dos textos ou do que tratam os textos e outra relacionada a diferenças estruturais relacionada a como os autores definem a luz ou fenômenos naturais. Três alunos limitaram-se quase exclusivamente a diferenças entre o conteúdo dos textos enquanto 11 se referiram mais a diferença estrutural dos textos e um aluno simplesmente afirmou que o texto de Huygens era mais complicado que o de Newton.
Os três alunos que identificaram diferença nos conteúdos, apontando o que tratava cada texto, destacam alguns conceitos e ideias que os autores utilizaram em seus textos como se pode ver nas transcrições abaixo:
N3: “De Newton, é mais destacado nas explicações a composição da luz
frente aos fenômenos de refração e reflexão, já Huygens destaca mais o meio de propagação do que a luz em si.”
N4: “Christiaan Huygens, fala no texto sobre o tempo e a velocidade a
respeito da luz, apesar de ele ‘achar’ que o sol estava em repouso em relação a terra, ele também descreve éter na composição da matéria o que difere das descrições de Newton.”
D2: “No texto de Newton há mais explicações sobre os fenômenos
ondulatórios. Já no 2º é um texto não tão direto”
O que se nota é certa falta de concentração do aluno D2 que afirma que Newton descreve fenômenos ondulatórios quando este defende uma teoria corpuscular.
Já as respostas classificadas como apontando diferenças estruturais indicam em grande parte a forma como ambos definem a luz ou os fenômenos naturais. Três alunos (D5, D8 e D11) simplesmente colocam como diferença o tratamento dado à luz por cada um dos autores, outros colocam alguma explicação sobre essa diferença como nas respostas a seguir:
D1: “No texto de Huygens ele tenta definir como a luz se propaga e o
Newton tenta definir a luz por axiomas”
N1: “Huygens – trata a luz como onda, suponha hipóteses. Newton –
Propagação retilínea da luz, as conclusões eram tiradas de experiências.” Alguns alunos relacionaram o texto de Newton a explicações a partir de definições e/ou axiomas como D1, D4, D6, D7, D10 e D12 e destes, D4, D6, D7 e D10 associam o texto de Huygens a explicações ligadas a princípios da Filosofia. Essas diferenças se apresentam logo na primeira página de cada um dos textos onde Huygens afirma que se utilizará de princípios aceitos pela Filosofia na época e Newton que tomará como premissas as definições e axiomas que se seguem no texto. De certa forma esta estrutura em termos de definições e axiomas parece ser considerada mais simples e/ou direta como colocam D4, D6 e D10:
D4: “No texto de Newton, as definições são colocadas de forma direta e no
texto de Huygens é utilizado vários princípios da filosofia para relacionar com aquilo que ele tratava sobre a luz.”
D6: “No texto de Newton, os conceitos, definições são bem diretas. Já no
texto de Huygens, ele faz relações com princípios da Filosofia, para tratar sobre a luz. Sendo este texto mais complicado a leitura.”
D10: “O texto de Huygens é um texto mais complicado que abrange uma
parte filosófica, ao contrário de Newton que trata mais de definições, conceitos...”
Além da afirmação de Huygens de que utilizaria princípios da filosofia para dar razão a suas teorias sobre a luz pode ter havido certa confusão dos alunos já
que nem nas observações na aula, nem nas suas respostas há indícios de quais sejam esses princípios utilizados ou a parte filosófica a que se referem nas respostas. Aparentemente a narrativa proposta por Huygens foi associada à Filosofia o que pode ter sido agravado pela comparação com a estrutura formal, composta por definições e axiomas, proposta por Newton. A associação da estrutura formal com a Ciência e de outra estrutura com outros assuntos parece ficar mais clara na resposta do aluno D9 que se desvencilha um pouco dos textos em sua resposta:
D9: “Newton utiliza o método cientifico de forma que seu texto é muito mais
simples e direto. Ao mesmo tempo que Huygens parece estar escrevendo uma carta. Newton aborda o conceito da luz de modo que nenhuma de suas experiências provam o contrário.”
Nota-se que este aluno associa a Newton à atividade científica e esta a uma exposição simples e direta, conforme a maioria dos livros de física utilizados tanto no EM quanto no ES.
6) Você utilizaria estes textos em aulas de física? Como?
Ao responder essa questão a maioria dos alunos respondeu que utilizaria de alguma forma. Dos 15 que responderam a questão, apenas dois responderam que não utilizariam e dois que não sabiam se utilizariam ou não. Os motivos para a não utilização dos textos encontram-se transcritos nas respostas abaixo:
N4: “Não utilizaria. Os textos são difíceis, e complicado trabalhar a luz na
mecânica clássica, tradicionalmente falando. E fica muito cansativo remeter a esses autores. Trataria de exemplos mais cotidianos, e se possível citaria os autores em um contexto histórico.”
D7: “Não, por que a linguagem usada pelos autores é de difícil
entendimento.”
Como se pode perceber D7 refere-se exclusivamente à linguagem utilizada nos textos enquanto N4 coloca complicações em relação a trabalhar a ótica com a perspectiva da mecânica clássica, embora seja difícil saber a que este aluno se referia no momento de sua resposta.
Os outros 11 alunos que responderam a esta questão afirmaram que utilizariam os textos de algumas formas: somente alguns trechos como os alunos D9, D10, D11 e D12, ou resumindo e adequando a linguagem como os alunos D4 e D6. O que se percebe é que linguagem é insistentemente um empecilho colocado pelos alunos ao trabalho com TOC.
Uma manifestação de alguns alunos foi a utilização dos textos como subsídios para o professor que se pode notar nas respostas de três alunos:
D8: “Não, utilizaria ele para o planejamento apenas.”
D2: “...ótica I. Newton, como planejamento, porém não como material de
leitura para alunos.”
N1: “Não, apenas o professor analisaria para compreender o
comportamento da luz.”
O aluno N1 inicia negando o uso dos textos, mas depois afirma que o professor analisaria. Este aluno parece estar negando o uso em sala de aula, ainda assim, segundo ele, os textos poderiam ser subsídios ao professor.
Ainda foram classificadas mais duas respostas que faziam referência a concepções prévias e concepções ultrapassadas:
D1: “Sim. Como forma de os alunos identificarem no texto concepções
prévias.”
N3: “Se observado muitas concepções que me levem a explicações do
texto, acho que poderei usar, mostrando que essa concepção já foi ultrapassada, e existem outros modelos que explicam melhor esse fenômeno."
No caso de D1 parece que há dificuldades em relação a sua compreensão sobre concepções prévias. O aluno propõe a identificação delas nos textos, o que mais uma vez remete a uma falta de contextualização e informações sobre aspectos relativos à HFC antes da leitura. A resposta de N3 também vai nessa direção, pois não haveria a necessidade de levar um texto que esse mesmo aluno considerou de linguagem complicada para mostrar que a concepção foi superada.