4.2 Aspectos operacionais da pesquisa
4.2.2 Análise de dados
A primeira etapa de análise (arqueológica) envolveu a identificação de elementos que evidenciam a presença de formações discursivas: em um primeiro momento, temos a identificação dos enunciados e de possíveis relações entre eles — que podem síncronas, quando podemos identificar interdependências em torno da existência de certos enunciados; ou
incidentes, evidenciadas quando em uma dada relação é possível identificar que a existência de um enunciado subentende a existência de outro. Em seguida, realizamos a identificação das funções enunciativas, a partir de seus respectivos critérios de constituição. O próximo passo envolveu a análise de critérios que deram suporte para a identificação das regras de formação. Por fim, a partir da presença das regras de formação e do modo como enunciados e funções enunciativas estão relacionadas a tais regras foi possível identificarmos as formações discursivas. Essas categorias analíticas são apresentadas no Quadro 2.
Quadro 2 (4) – Categorias analíticas da análise de discurso foucaultiana
Conceitos Descrição
Enunciados São unidades mínimas pelas quais uma formação discursiva se manifesta. É uma função de existência que pertence aos signos, que não é, em si, uma unidade, mas uma função que atravessa tanto um domínio de estruturas como unidades possíveis, de modo que esses surjam em um dado tempo e espaço.
Funções
enunciativas São condições de existência às quais os enunciados se referem. Tais condições estão relacionadas a critérios que as constituem: o referencial, um campo que configura as condições de surgimento e de sentido aos enunciados; uma posição de sujeito que pode ser ocupada por vários indivíduos em um dado enunciado; um campo associado que configura um contexto ao qual um grupo de enunciados está relacionado; e uma
materialidade, que faz o enunciado aparecer enquanto objeto que dá a ele possibilidades de transcrição e reinscrição.
Regras de formação São condições às quais está submetido o surgimento de formações
discursivas. Essas regras levam em consideração a presença dos seguintes componentes: objetos, elementos formados nas práticas discursivas dos quais se falam; conceitos, regras que determinam o que se é dito nas práticas discursivas; modalidades, que se manifestam nas diversas posições, lugares e status do sujeito; e estratégias, diferentes teorias que podem definir como as formações discursivas serão individualizadas.
Formações
discursivas São um conjunto de regras, determinadas em um dado tempo e espaço que estabelecem, para uma determinada época e um determinado contexto de ordem social, econômico ou linguístico, as condições de surgimento e atuação de dados enunciados.
Fonte: Foucault (2014a)
A segunda parte desse arcabouço analítico tem como ponto de partida as formações discursivas a partir de seus elementos constituitivos. Para tal, uma nova rodada de análise buscou a identificação de critérios — denominados por Leão (2017a) de operadores de poder —, que estão relacionados a pontos presentes em relações de poder. Tais critérios são
apresentados e descritos no Quadro 3.
Quadro 3 (4) – Operadores de poder (definição)
Critérios Descrição
Sistemas de diferenciação Diz respeito à presença de diferenciações pelas quais as relações de
poder operam; são exemplos diferenças culturais ou econômicas, diferenças de privilégios e de posições ocupadas no processo de produção.
Tipos de objetivo Estão relacionados àquilo que é almejado por aqueles que exercem o poder sobre outros: aquisição ou manutenção de privilégios, acúmulo de riquezas, funções especiais em uma dada dinâmica social, etc.
Modalidades
instrumentais São mecanismos ou meios pelos quais uma parte exerce poder sobre outra: sistemas de vigilância, disparidade econômica, acesso a informações privilegiadas, etc.
Formas de
institucionalização Refere-se à presença de contextos particulares e de estruturas institucionais simples ou complexas, abertas ou fechadas, que dão às relações de poder regras, práticas e a presença de agentes e
instituições específicos.
Graus de racionalização Está relacionada à maior ou menor intensidade da eficácia dos instrumentos, da certeza dos resultados e dos custos envolvidos — sejam eles econômicos ou de outras naturezas — considerados acerca do funcionamento da relação de poder em um dado campo de possibilidades.
Fonte: Foucault (2013a)
Os elementos identificados que definem os operadores de poder foram agrupados, a partir dos quais identificamos diagramas de poder. Tais diagramas dizem respeito à disposição e o fluxo de práticas discursivas e não discursivas, posições de sujeitos ali assumidas, instrumentos e instituições presentes, organizados de tal maneira que permite a existência de relações de poder particulares, como também oferece a possibilidade de surgimento de resistências (FOUCAULT, 2013b; DELEUZE, 2013). Os feixes de relações entre categorias que vão dos enunciados aos diagramas forneceram indícios da presença de um dispositivo (LEÃO, 2017a).
A terceira e última parte do processo analítico proporcionou a identificação de formas- sujeitos que, presentes em um dado cenário no qual possam atuar simultaneamente entre si, revelaram uma ética. Nessa etapa identificamos elementos que configuram tais formas-sujeito — denominados agentes morais, por Leão (2017) — a partir dos diagramas de poder resultantes
da fase da genealogia do poder anterior. Isso é possível se considerarmos que na ética do pensamento foucaultiano são incorporadas as práticas discursivas e não discursivas às práticas de si (LEÃO, 2017). No Quadro 4 apresentamos e descrevemos os elementos constitutivos das formas-sujeito.
Quadro 4 (4) – Agentes morais (definição)
Agente moral Descrição
Substância ética Modo pelo qual um dado indivíduo deve
constituir parte de si como principal matéria de sua conduta moral.
Modos de sujeição Refere-se ao modo pelo qual indivíduos se relacionam com regras morais e se colocam como obrigados a praticá-las.
Formas de elaboração do trabalho ético Diz respeito a atividades que indivíduos realizam sob si mesmos de modo a tornar sua conduta congruente com valores morais.
Teleologia do sujeito moral Refere-se à busca dos indivíduos por
instituírem-se como sujeitos morais particulares.
Fonte: Foucault (2014d)
A sequência de ações de análise que adotamos pode ser resumidamente ilustrada na Figura 1, a seguir. Nela podemos relacionar a cada uma das fases (arqueologia do saber, genealogia do poder e genealogia do sujeito) seus respectivos produtos — formações discursivas, diagramas do poder e formas-sujeitos. Além disso, essa organização apresentada evidencia a lógica de análise adotada: os produtos em questão — bem como seus elementos constitutivos — servem como ponto de partida para a fase analítica seguinte.
Figura 1 (4) – Operacionalização da genealogia foucaultiana
Fonte: Elaboração do autor, baseado em Leão (2016; 2017a; 2017b)