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ANÁLISE DE DADOS QUALITATIVOS DOS QUESTIONÁRIOS SOBRE AS

Nesta seção faremos a análise da parte III do “Questionário de Perfil”, que traz questões sobre a relação das participantes com os movimentos de mulheres e também com as políticas públicas analisadas ao longo da pesquisa.

Um dos itens perguntados para a participantes, para compreender o nível de envolvimento das mesmas com a própria entidade, foi o tempo que a mesma é associada ou participa das ações realizadas pelos movimentos de mulheres. O resultado se encontra na figura abaixo.

Figura 36 - Tempo de participação no movimento

Fonte: Elaboração própria (2021).

É válido ressaltar, que algumas das participantes fazem parte das entidades desde a sua fundação, então pode-se dizer que há mais de 10 (dez) anos existe a participação de algumas delas nos movimentos. Associado a este questionamento, também perguntamos como as mulheres se sentem considerando sua participação nos movimentos de mulheres. Neste item, as participantes puderam sinalizar mais de um tópico daqueles que foram apresentados.

8% 26% 18% 48% MENOS DE 1 ANO 1 A 3 4 A 6 MAIS DE 6

Figura 37 - Como se sente ao participar do movimento de mulheres

Fonte: Elaboração própria (2021).

Observa-se que uma das participantes sinalizou o item “Outros” dentre os demais, ao especificar a marcação, a mesma sinaliza que ao participar das entidades, se sente incluída em um movimento social, ou seja, para ela, há a inclusão social das mulheres no aspecto da organização social, especificamente voltado para as mulheres na cidade de Quixabeira, por mais que as entidades não sejam “fechadas” à participação do público masculino, existe uma pauta principal que toca as causas pertinentes às mulheres de forma mais enfática.

As participantes foram também inquiridas sobre seu interesse em participar de um movimento de mulheres. Neste item, puderam sinalizar mais de uma opção, assim, 40 (quarenta) disseram gostar do contato com outras mulheres; 34 (trinta e quatro) afirmaram aprender novas coisas participando das reuniões; 24 (vente e quatro) sinalizaram que compartilham suas experiências nos momentos dos encontros; 23 (vinte e três) disseram que participam pois recebem informações e orientações para participar de projetos e programas sociais; além disso, no item “Outros” uma das respondentes sinalizou que acha importante estar no movimento social, pois é relevante socialmente participar ativamente dos movimentos existentes na comunidade.

É comum, em cidades de pequeno porte como Quixabeira, as pessoas participarem de vários tipos de movimentos sociais e grupos de interesses distintos. Pensando nisso, foi perguntado para as participantes da pesquisa, se, além dos movimentos de mulheres, elas participam de outros tipos de organizações sociais, no qual, a resposta afirmativa foi de 64% (sessenta e quatro) e negativa de 36% (trinta e seis). Dentre as alternativas colocadas para serem assinaladas, as respondentes poderiam marcar mais de uma opção, foram mencionadas organizações como: associações, sindicatos, grupos ou pastorais de igrejas, partidos políticos e outros.

Assim, as associadas sinalizaram:

40 34 24

23 1

ENTENDO MELHOR A IMPORTÂNCIA DA MULHER NA SOCIEDADE CONVERSO COM OUTRAS MULHERES

DA MINHA COMUNIDADE, ASSIM ME ENTENDO MELHOR

ME SINTO ACOLHIDA CONSIGO INFORMAÇÕES QUE AJUDAM A MELHORAR MINHA VIDA E DA MINHA

FAMÍLIA

Figura 38 - Outras organizações sociais

Fonte: Elaboração própria (2021).

Algo que me motivou a pesquisar sobre os movimentos de mulheres em Quixabeira, é a questão da importância de termos duas entidades organizadas por e para mulheres. Como já mencionado, e como a entrevistada Abiran Silva129 salienta em sua fala: os movimentos não são restritos, mas tem um público feminino maciço. Desse modo, foi pertinente questionar sobre a importância da participação das mesmas em um movimento social organizado por mulheres e para mulheres. 100% (cem) das participantes afirmaram que é importante participar do movimento considerando o contexto abordado na pergunta.

Dessa forma, resolvemos complementar a questão com os seguintes itens, os quais, as participantes poderiam assinalar mais de um. Esclarecendo assim, a importância da participação no movimento e ao mesmo tempo, sinalizando qual impacto a participação trouxe para sua realidade.

129 Entrevista realizada em 03 de dezembro de 2020.

0 5 10 15 20 25 30

ASSOCIAÇÃO SINDICATO GRUPO OU PASTORAL DE IGREJA PARTIDO POLÍTICO

Figura 39 - Importância de participar do movimento de mulheres

Fonte: Elaboração própria (2021).

Entre as participantes que assinalaram o item “Outros”, tivemos respostas subjetivas como a importância de participação ativa nas entidades existentes na comunidade, a importância das reuniões, palestras e encontros, além disso, uma resposta chama a atenção, quando a participante responde que “Participar do movimento de mulheres me faz sentir mais valorizada e perceber o quanto sou importante enquanto mulher”.

A questão número 5 (cinco) do questionário, perguntou se a participante é ou já foi beneficiária de algum programa social do governo, nos níveis federal, estadual ou municipal. As respostas afirmativas chegaram a 82% (oitenta e dois) e as que assinalaram negativamente, alcançou um percentual de 18% (dezoito). Dentre os programas sociais elencados na pesquisa, estão o Programa Bolsa Família - PBF, o Minha Casa Minha Vida – MCMV e o Programa Cisternas, além disso, foi indicado o item “Outros” para respostas subjetivas, que também tiveram menções.

Figura 40 - Programas Sociais

Fonte: Elaboração própria (2021). 27 35 29 32 8 0 5 10 15 20 25 30 35 40 GOSTO DO CONTATO COM OUTRAS MULHERES APRENDO NOVAS COISAS PARTICIPANDO DAS REUNIÕES COMPARTILHO MINHAS EXPERIÊNCIAS RECEBO INFORMAÇÕES E ORIENTAÇÕES PARA PARTICIPAR DE PROJETOS E PROGRAMAS OUTROS 29 2 22 29 0 5 10 15 20 25 30 35 PROGRAMA BOLSA FAMÍLIA MCMV PROGRAMA CISTERNAS OUTROS

No item “Outros”, as participantes elencaram algumas políticas públicas das quais foram ou são beneficiárias, como: Garantia Safra130, Auxílio Emergencial (período de pandemia), Kit’s de produção de criação de aves (galinheiros) e de caprinos e ovinos (aprisco), Kit’s de plantio de Palma131, Programa Universidade para Todos - PROUNI, Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica - PARFOR132 (conhecido também como Plataforma Freire).

A questão seguinte as inquiriu se, de alguma forma, após participarem de algum dos programas ou projetos sociais promovidos pelas políticas públicas, suas vidas e, consequentemente das suas famílias melhoraram. 41 (quarenta e uma) participantes assinalaram afirmativamente sobre as melhorias em sua vida, 1 (uma) assinalou que não percebeu nenhum tipo de melhoria, e 8 (oito) não assinalaram nenhum dos itens, visto que nem todas são ou já foram beneficiárias de algum tipo de programas ou projetos sociais.

A pergunta número 7 (sete) questionou para as participantes que residem na zona rural se já receberam algum tipo de tecnologia de captação de água, mais especificamente as cisternas de 1ª e 2ª água (cisternas de produção). Das respondentes desta questão, 29 (vinte e nove) afirmam que receberam cisternas e 2 (duas) participantes afirmaram não terem recebido nenhum tipo de tecnologia hídrica. Em consonância com a questão 7, a pergunta 8 inquiriu se, caso tivessem recebido, elas e suas famílias produziam algum alimento ou produto com a água armazenada. As respostas demonstram a importância das tecnologias hídricas para a população do semiárido, conforme a fala de algumas delas durante a aplicação dos questionários, “A gente produz de tudo um pouco”.

Os exemplos de produtos produzidos foram muito variados e os mais relevantes foram as hortaliças (coentro, alface, cebolinha, couve, etc.); ervas e plantas medicinais; árvores frutíferas (banana, acerola, manga, laranja, limão, mamão, cajá, maracujá, goiaba, morango, tomate, etc.); legumes e verduras (quiabo, abóbora, cebola, cenoura, batata, batata-doce); além

130 O Garantia-Safra (GS) é uma ação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), que tem como objetivo garantir condições mínimas de sobrevivência aos agricultores familiares de Municípios sistematicamente sujeitos a perda severa de safra por razão do fenômeno da estiagem ou excesso hídrico. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-o-garantia-safra.

131 Alguns desses kit’s de produção chegaram às mãos das agricultoras e suas famílias através dos movimentos de mulheres e de outras organizações sociais, como Sindicatos e especialmente outras associações de produtoras e produtores rurais, que possuem vínculos com as entidades pesquisadas.

132 O Parfor é um programa emergencial criado para permitir a professores em exercício na rede pública de educação básica o acesso à formação superior exigida na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Na Bahia, o mesmo foi executado através de parceria com a Universidade do Estado da Bahia – UNEB, no município de Quixabeira – BA, cerca de 50 (cinquenta) professoras e professores obtiveram licenciatura plena em

Pedagogia através do programa. Para saber mais, consultar:

<http://portal.mec.gov.br/component/tags/tag/35038#:~:text=O%20Parfor%20%C3%A9%20um%20>programa, da%20Educa%C3%A7%C3%A3o%20Nacional%20(LDB).

de aipim, feijão de corda133, feijão andú134, e ainda, há a produção de mudas das plantas, que também são vendidas. A água armazenada também ajuda muito na criação de animais de pequeno porte como aves, especialmente as galinhas135 e também ovinos e caprinos (ovelhas, bodes e cabras).136

Interessante pensar que as produções mencionadas, não são utilizadas apenas para o consumo das famílias, mas também servem de “moeda de troca” com os vizinhos que produzem outros alimentos e também como forma de garantir um complemento na renda das famílias que vendem o excedente nas feiras livres, de porta em porta na forma de encomenda semanal, ou, como sinalizado nas falas das entrevistadas da AMA e da AMTQ, como produtos vendidos para a merenda escolar via licitação e também vendidos na “Tenda Solidária”, projeto encabeçado pela AMTQ, para auxiliar a venda direta das produtoras para as consumidoras finais, sem necessitar de um “atravessador” para canalizar as vendas, aumentando os lucros para as agricultoras e suas famílias. Abaixo, exemplo de um quintal produtivo, desenvolvido a partir da utilização das cisternas.

Figura 41 - Quintal produtivo137

133 O feijão de corda é muito consumido no Nordeste ainda verde ou maduro, sendo uma variedade do feijão fradinho, é um grão que não produz caldo, utilizado também para saladas e aperitivos.

134 Conhecido no Nordeste por feijão andú, o feijão guandu é um alimento de origem africana. Como se adapta muito bem a climas secos e solos pobres e pouco férteis, é bastante encontrado em regiões semiáridas, por isso, muito encontrado no Nordeste brasileiro. Seus grãos são consumidos ainda verdes e também secos.

135 As aves são vendidas para reprodução, abate ou já abatidas, bem como são vendidos os ovos produzidos pelas mesmas.

136 Uma participante respondeu que, apesar de não ser ou ter sido beneficiária do Programa Cisternas, possui tecnologias hídricas em sua residência construídas com recursos próprios, afirmando produzir hortaliças em seu quintal para consumo da família, o que contribui de forma significativa para o ganho em renda e no consumo de alimentos saudáveis.

137 As imagens foram feitas no dia da aplicação dos questionários na zona rural, durante o trabalho de campo. A participante é uma das beneficiárias das tecnologias de captação de água, cisternas de 1ª e de 2ª água.

Fonte: Arquivo pessoal (2021).

Questionamos também se as participantes acreditam que os movimentos de mulheres as ajudam a desenvolver mais independência, neste sentido, 98% (noventa e oito) responderam que sim, as iniciativas das associações as auxiliam a melhorar sua situação de vida, bem como de sua família, e apenas 2% (dois) responderam negativamente. Das participantes que assinalaram afirmativamente, estabelecemos os aspectos Econômico, Emocional, Patrimonial e Outros, itens que poderiam ser assinaladas mais de uma opção. Assim, responderam as participantes conforme apresentado na Figura 40:

Figura 42 - Aspectos da independência através dos movimentos

Fonte: Elaboração própria (2021).

Dentre as participantes que assinalaram o item “Outros”, uma delas salienta que o movimento contribuiu para sua independência social, na perspectiva de estar inserida e participando ativa e socialmente, tanto da entidade da qual faz parte, quanto de outros movimentos e grupos sociais de sua comunidade.

A questão 10 perguntou se o movimento de mulheres do qual as participantes são associadas, realiza alguma ação voltada para a questão da independência da mulher, 100% (cem) das participantes respondeu que sim, as entidades desenvolvem ações neste sentido. Em

33 35 12 5 0 5 10 15 20 25 30 35 40 ECONÔMICO EMOCIONAL PATROMONIAL OUTROS

caso de resposta afirmativa, foram disponibilizados os itens que poderiam ser marcados mais de um. Assim foram as respostas das participantes:

Figura 43 - Ações da entidade voltadas para a independência das mulheres138

Fonte: Elaboração própria (2021).

Uma das respondentes sinalizou no item “Outros”, que a entidade da qual participa, desenvolve atividades de geração de renda através do “Projeto de Reciclagem”, como as ações próprias das entidades não são objeto da presente pesquisa, não nos aprofundaremos nesta atividade neste momento, porém, é válido ressaltar que as entidades possuem atividades e ações próprias, como sinalizado anteriormente.

Por fim, a questão 11 (onze) inquiriu se a entidade incentiva suas associadas a participarem e/ou se cadastrarem em programas e projetos sociais dos governos, como o Programa Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, Programa Cisternas, entre outros). 90% (noventa) responderam que sim, a entidade incentiva e orienta a busca pelo cadastramento, e os outros 10% (dez), sinalizaram negativamente.

138 O item “Encaminhamentos” se refere aos encaminhamentos para os atendimentos aos serviços públicos (CRAS – Centro de Referência de Assistência Social, Secretarias de Agricultura, Assistência Social, Saúde, etc.).

44 39 21 21 20 1 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 REUNIÕES PALESTRAS CURSOS INTERCÂMBIOS COM OUTRAS ENTIDADES ENCAMINHAMENTOS OUTROS

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Escrever, pesquisar sobre as mulheres, é um desafio que ressignifica cada experiência acadêmica. Um trabalho de pesquisa busca em sua essência, responder objetivamente aos questionamentos que nortearam o início do percurso. Compreender os conceitos propostos pelo trabalho, foi essencial para, paulatinamente, revelar ainda mais a importância da presença e dos papéis das mulheres nas mais diversas esferas da nossa sociedade. Adentrar aos espaços de sociabilidades, de vivências das mulheres quixabeirenses foi uma experiência fantástica. Por mais que as mulheres tenham ganhado espaço público dentro das mais diversas atividades do cotidiano, da política aos cargos de chefia de empresas, por exemplo, compreender os aspectos que compõem a construção dessas trajetórias, nos permite ampliar o olhar para a forma como as mulheres, sabiamente, conseguem galgar esses espaços, considerando que vivemos em uma sociedade ainda de características profundamente patriarcais.

O surgimento das políticas públicas brasileiras foi bastante diferente do que ocorreu em outros países capitalistas, a exemplo dos países europeus, em que as políticas surgem a partir de iniciativas estatais. Aqui, a emergência se dá através das movimentações sociais em seus mais amplos aspectos, o que moveu, a partir da pressão social, o próprio Estado para a inclusão das políticas públicas como fundamentais para a garantia do bem-estar social da sociedade brasileira.

Refletir sobre a construção do Estado Brasileiro impactou no reconhecimento dos direitos sociais das cidadãs. O Brasil foi e ainda é um país que possui uma grande desigualdade social, isso se dá através das práticas de um passado não tão distante e que abriu diversas lacunas sociais. Com um histórico de escravidão, golpes de Estado, privilégios das elites, períodos ditatoriais, este cenário aliado a uma política que não propôs um projeto de desenvolvimento que oportunizasse a todas as pessoas a inclusão social, apresenta um país que ainda vivencia múltiplos problemas sociais. E isso ficou ainda mais claro a partir da análise conceitual realizada neste trabalho.

A presença dos movimentos sociais foi importante para modificar as estruturas da administração pública no país, principalmente no que diz respeito às políticas públicas. Os movimentos sociais, especialmente a partir dos anos 1960, podem ser considerados como peças fundamentais para o surgimento de políticas sociais, considerando sua tipologia e finalidade. A existência das políticas públicas, pode ser considerada como uma porta de entrada para a garantia dos direitos sociais. E neste caso, as mulheres têm uma importante parcela de contribuição.

O primeiro passo para compreender a importância das políticas públicas para a sociedade brasileira, está em analisar o Artigo 6º da Constituição Federal de 1988, que diz: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 2016, p. 18). A partir desta análise, subentende-se que, todas as pessoas possuem seus direitos sociais garantidos, mas na prática, é preciso muito mais que um artigo na Carta Magna para a seguridade dos mesmos.

A razão da importância dos movimentos sociais para o fortalecimento das políticas públicas, consiste no fato das reivindicações sociais estarem pautadas a partir das carências apresentadas por determinado grupo, principalmente junto aos órgãos públicos. A ausência do poder público na promoção e garantia dos direitos sociais, levou inúmeros grupos a se organizar e pressionar o Estado. Os movimentos sociais em sua base, são compostos por uma base nitidamente popular (JACOBI, 1987). Entre essas pessoas, devemos considerar as mulheres como fortes lideranças nos movimentos, desde à luta pela diminuição do preço dos alimentos, por creches e escolas para as crianças, até os direitos à moradia digna, foram lutas empunhadas pelas mulheres em busca de uma sociedade mais igualitária e justa para todas.

Cabe destacar, que não foi foco desta pesquisa analisar a feminilização das políticas públicas. As mulheres historicamente, são as principais responsáveis pelos cuidados com crianças, pessoas idosas e doentes, devido a divisão sexual do trabalho baseada no gênero. Na análise das políticas públicas sociais desta pesquisa, nota-se que, a exemplo do Programa Bolsa Família - PBF e do Programa Minha Casa Minha Vida - MCMV, as titularidades são preferencialmente postas como responsabilidade das mulheres. O Programa Bolsa Família, no município de Quixabeira, como apontado na Figura 27, entre os anos de 2011 a 2015, possuía mais de 80% (oitenta) da titularidade dos cadastros estava em nome das mulheres chefes de família. Ou seja, algumas regras dos programas colocam como preferência a titularidade para as mulheres, vistas como as principais responsáveis pelos cuidados com saúde, moradia, alimentação, entre outros aspectos, no núcleo familiar.

As experiências das entidades que pesquisamos foram fundamentais para evidenciarmos tanto a importância das políticas públicas sociais analisadas neste trabalho, quanto a importância das ações dos movimentos de mulheres para a ampliação da garantia dos direitos sociais. Vale considerar que algumas políticas públicas sociais podem ser acessadas através das entidades de organização social, a exemplo dos programas MCMV e Cisternas, que podem ter como proponente tanto o poder público, como associações, apesar de ser um fator que deve ser considerado, as entidades pesquisadas ainda não foram proponentes de nenhum desses

programas, mas, como exposto nos depoimentos colhidos, as entidades promovem a divulgação e incentivo para que suas associadas se inscrevam e busquem os benefícios sociais promovidos através das políticas públicas.

Apesar de não acompanhar diretamente a implementação das políticas públicas, os movimentos de mulheres sinalizaram a importância das mesmas para o fortalecimento de vínculos entre as associadas e as próprias entidades. Para a associada da AMTQ Solange Rios, quando sinaliza que foi através das reuniões e orientações técnicas promovidas pela entidade, por meio das formações, que conseguiu melhorar sua produção de hortaliças produzidas com as águas da cisterna de produção, e, além de utilizar para o consumo domiciliar, consegue vender o excedente e obter uma renda complementar para sua família139. Ainda que tenhamos depoimentos como o de Solange Rios, é válido considerar o que sinaliza Gilvanda Mendes140 da AMA, quanto a ausência de parte do poder público municipal no que se refere ao acompanhamento técnico das famílias beneficiárias das políticas públicas, uma assessoria mais eficaz poderia render melhores frutos para as famílias e para a comunidade de forma geral.

Considerando os dados extraídos a partir do “Questionário de perfil” aplicado para as 50 (cinquenta) beneficiárias, conseguimos informações muito importantes para a pesquisa, a exemplo dos resultados expostos na Figura 37, resultado do questionamento referente à importância da participação no movimento de mulheres e o impacto dessa atividade em seu cotidiano, 32 (trinta e duas) participantes assinalaram receber informações e orientações para participar de programas e projetos, isso representa que 64% (sessenta e quatro) das associadas receberam informação de como acessar as políticas públicas ofertadas no município. Ainda nesse sentido, inquiridas se já participaram ou foram beneficiárias de alguma política pública, 82% (oitenta e dois) responderam afirmativamente, incluindo algumas políticas públicas que não foram foco da pesquisa.

Mesmo não sendo proponentes das políticas públicas, os movimentos de mulheres buscam incentivar as beneficiárias que possuem as cisternas de produção, por exemplo, a melhorar sua produção de alimentos orgânicos que podem ser consumidos pela família, e seu excedente trocado com os vizinhos, ou ainda, vendidos para outros consumidores. A AMTQ promove a “Tenda Solidária”, que oportuniza suas associadas a trazerem o excedente para a sede do município e vender no dia da feira livre141, sem precisar de “terceiros” para realizar a