Parte III – Apresentação e Discussão dos Dados de Investigação
12.5. Análise de entrevista à professora cooperante do 2ºCEB
Na sua entrevista (Anexo Q), a professora do 2ºCEB afirma que a gramática “É muito importante” visto ser esta uma competência que condiciona a promoção da escrita e da fala dos alunos. A professora acrescenta ainda que a gramática é um domínio em que, se os alunos se empenharem um pouco, podem obter melhores resultados. Percebe-se, assim, que, para além de esta professora atribuir grande importância ao domínio da Gramática, reconhece a sua especificidade relativamente aos outros domínios, quando refere que o sucesso neste domínio é mais visível e implica um esforço de estudo menor do que o exigido, por exemplo, para o domínio da Escrita. Esta importância é refletida na frequência com que a professora leciona gramática em contexto de sala de aula, afirmando esta que “[p]raticamente em todas as aulas abordo conteúdos gramaticais”, o que pudemos constatar: em três aulas semanais, pelo menos, em duas aulas a gramática é trabalhada. Note-se que a professora dinamiza aulas em que são trabalhados conteúdos gramaticais entre outros aspetos, evitando fazê-lo isoladamente para não criar aulas “aborrecidas”. Além disso, as aulas proporcionadas pela organização do manual abordam sempre um conteúdo
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gramatical novo ou relembram um conteúdo gramatical já lecionado. Segundo a professora: “Não podemos deixar de a [gramática] trabalhar (…)”.
Quanto à adequação da sua formação em termos gramaticais, a professora afirma ter que se adaptar aos conteúdos gramaticais, constatando que, ao longo dos anos, a gramática sofreu alterações, relevando a necessidade de se manter sempre atualizada.
Quanto às dificuldades sentidas no ensino-aprendizagem da gramática, a professora aponta as dificuldades dos alunos, sendo estas, dificuldades em memorização, constando que “a gramática obriga a memorizar” e os alunos têm dificuldade em aplicar aquilo que memorizam. Relativamente às dificuldades sentidas pela professora, no ensino da gramática, esta elenca, novamente a “falta de memorização”, a “falta de hábitos de estudo” e o facto de considerarem a gramática “uma seca”, referenciando que a gramática é uma “ espécie de matemática da língua (…)”. Em ambas perguntas, a professora direciona a culpa dos resultados e do desinteresse dos alunos para estes últimos, desresponsabilizando-se a si mesma.
Como motivação para ultrapassar estas dificuldades, a professor elenca ainda falta de treino, falta de hábitos de estudo, a dificuldade na memorização e na concentração dos alunos, que se desinteressam rapidamente sobre estes conteúdos, tidos como abstratos, visto não compreenderem os motivos pelos quais estão a estudar estes mesmos conteúdos. Por outro lado, a professora refere que, mesmo os alunos que conseguem decorar, depois não conseguem aplicar porque não compreendem.
Como forma de lecionar a gramática, a professora incita à resolução de exercícios, promovendo atividades repetitivas, para interiorizarem os conteúdos. Afirma ainda que os jogos são muito difíceis de aplicar nas turmas, devido ao perfil da mesma, visto terem muitos alunos e serem “complicadas”. Ainda assim, ressalva que a utilização de jogos, para lecionar gramática, seria o ideal.
Relativamente aos recursos digitais, a professora reconhece a importância destes, na sua prática pedagógica, porque motiva os alunos, sendo que estes valorizam as projeções: “(…) hoje em dia seria impensável dar aulas sem estes recursos”. Esta afirmação é refletida na frequência da sua utilização, sendo que, em quase todas as aulas utiliza o projetor, salientando que, em três aulas semanais, em
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pelo menos duas utiliza, constatando-se que é a mesma frequência com que leciona gramática.
Não obstante, a utilização envolvendo manipulação por parte dos alunos apresenta-se como muito rara, sendo que, as aulas são bastante teóricas e a professora afirma que não tem à sua disponibilidade os recursos necessários para que os alunos trabalhem com recursos digitais. De facto, pudemos constatar que, nomeadamente os alunos até ao 3.ºCiclo estão impedidos de frequentar a sala de computadores, as salas não têm colunas, ainda que tenham computadores e projetores e o material fornecido pelos manuais padece de falta de qualidade, fazendo com que a utilização de recursos digitais, por parte dos alunos se torne reduzida.
Quando questionada sobre o à vontade que tem quando manuseia recursos digitais, na sua atividade docente, a professora responde positivamente ressalvando os momentos em que existem problemas técnicos, nomeadamente de hardware ou
software. Por último, a professora associa a utilização de recursos digitais à gramática,
exemplificando com exercícios de completamento ou preenchimento de espaços. Após as entrevistas serem analisadas, procederemos ao confronto entre ambas, de modo a perceber como é que a gramática e os recursos digitais são interpretados, em contexto de sala de aula, penos dois ciclos.
12.6. Confronto entre as entrevistas das professoras
cooperantes de 1.ºCEB e 2.ºCEB
Após análise das entrevistas a ambas as professoras cooperantes, podemos perceber que ambas têm uma perspetiva aproximada, quando comparam a gramática com os outros domínios, considerando-a crucial na aprendizagem da escrita. Contudo, tanto nas suas práticas pedagógicas como na própria entrevista mostram que valorizam mais a leitura e a escrita do que a gramática. Ainda assim, consideram a gramática crucial na aprendizagem, nomeadamente da escrita. Em concordância com as suas perspetivas sobre a gramática, ambas as professoras referem trabalhar a gramática frequentemente, não todos os dias, mas quase todos os dias.
Quando questionadas sobre a adequação da sua formação aos conteúdos gramaticais, a professora do 1.ºCEB afirma que não sentiu grandes exigências nem
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alterações nos conteúdos enquanto que a professora de 2.ªCEB afirma ter tido necessidade de estudar bastante porque os conteúdos se alteraram ao longo dos anos, exigindo, da parte do professor, constante estudo e atualização. Esta atitude revelou-se quando da intervenção, em contexto de sala de aula, pois a professora do 1.ºCEB mostrava-se pouco recetiva a novas formas de lecionar ou a atividades diferentes das por si praticadas: embora tentasse proporcionar aulas mais lúdicas, terminava sempre os conteúdos gramaticais com consolidação por fichas. A professora de 2ªCEB mostrava-se menos lúdica na forma como leciona, mas mais recetiva a novas estratégias e recursos de ensino, nomeadamente adaptando e solicitando vários dos materiais que construímos ou apresentamos nas aulas dadas pela estagiária.
Contudo, quando questionadas sobre as dificuldades dos alunos quanto à aprendizagem da gramática, revelam atitudes de desresponsabilização algo idênticas. A professora do 1.ºCEB centra-se na ortografia, ainda que revele que a conjugação verbal é um conteúdo que os alunos não compreendem e justifica estas dificuldades com falta de estudo, falta de leitura e falta de tempo disponibilizado pelos pais para acompanhar o estudo dos filhos, voltando a referir que os conteúdos não se alteraram ao longo dos anos e que os alunos têm muita abertura para brincar muito e estudar pouco. A professora de 2.ºCEB salienta a falta de capacidade dos alunos em memorizar conteúdos e aplicar o que memoriza, justificando estas dificuldades com a falta de treino e de estudo e a abstração de conteúdos, por não os compreenderem. Assim, vemos que ambas as professoras enunciam a falta de estudo como motivo para o desinteresse e a falta de compreensão dos conteúdos gramaticais, responsabilizando sobretudo o aluno e, num dos casos, também os pais.
Quanto a obstáculos no ensino da gramática, ambas as professoras colocam a “culpa” nos alunos e desresponsabilizam-se pelo desinteresse dos alunos, ao nível gramatical, o que está em concordância também com as estratégias por ambas utilizadas (fichas de consolidação e exercícios, ainda que a professora de 1.ºCEB enuncie tipologias de jogos e estratégias lúdicas enquanto que a professora do 2.ºCEB se limite a afirmar que os jogos são impensáveis devido aos perfis das turmas).
Quanto aos recursos digitais, a professora de 1.ºCEB mostra-se menos recetiva do que a professora de 2.ºCEB, que se encontra mais à vontade com o
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manusear de ferramentas tecnológicas. Contudo, a utilização de ambas reside mais na projeção do que na interação, embora, ambas atribuam bastante valor aos recursos digitais e afirmem utilizar frequentemente os recursos digitais dentro de sala de aula. Contrariamente a esta linha de pensamento, as professoras propõem raramente que os alunos trabalhem com os recursos digitais.
Quando questionadas sobre a possível associação dos recursos digitais à gramática, a professora de 1.ºCEB mostra-se relutante e afirma que a única vantagem dos recursos digitais são o som e a imagem, enquanto que a professora de 2.ºCEB associa e enumera exemplos de exercícios.
Por último, quando questionadas sobre a existência de material necessário para lecionar utilizando recursos digitais, na instituição onde lecionam, ambas as professoras responderam que não: apesar de terem alguns recursos, consideram-nos insuficientes para todos os alunos de uma turma.
Com ambas as entrevistas, pudemos perceber que a gramática ainda é um domínio interpretado como fundamental e imprescindível, mas não mais importante que os domínios da leitura e da escrita. A forma como as professoras encaram o ensino-aprendizagem da gramática é também muito teórico e consolidado com fichas de trabalho, proporcionando aulas rotineiras e desinteressantes, embora, utilizem métodos pedagógicos diferenciados. Por outro lado, ainda se centra a culpa do desinteresse pela gramática nos alunos, sendo que nenhuma das docentes assumiu a sua responsabilidade. Ao culpabilizar os alunos pelos resultados e pelo desinteresse revelado, não chegam sequer a questionar-se nem a refletir sobre os próprios métodos que utilizam para ensinar gramática. Mesmo sendo professoras distintas e em ciclos diferentes, considerando que uma se mostra mais recetiva do que outra em ensinar conteúdos novos, algumas respostas mostram-se similares, nomeadamente quanto à forma como interpretam a utilização dos recursos digitais e o ensino da gramática.
Antes de procurarmos perceber estas perceções dos alunos e dos professores cooperantes que nos acompanharam na nossa intervenção pedagógica, arquitetamos atividades que associam conteúdos gramaticais aos recursos digitais.