A análise do discurso desenvolvida por estudiosos britânicos, tendo Norman Fairclough como seu maior expoente, fundamentou-se na linguística crítica, cujo adjetivo “crítica” apropriou-se da teoria social da Escola de Frankfurt27, que defendia uma postura indagadora e consciente dos fenômenos sociais.
Segundo um breve histórico narrado pelo próprio Fairclough (2001, p.46), a linguística crítica surgiu na Universidade de East Anglia na década de 1970 por Roger Fowler, Robert Hodge, Gunther Kress e Tony Trew, na tentativa de conciliar um método de análise linguística do texto “com uma teoria social do funcionamento da linguagem em processos políticos e ideológicos”. Para esses estudiosos, a língua é dinâmica, carregada de sentidos e de significados e varia de acordo com as circunstâncias sociais em que ela ocorre, seu uso é derivado das relações de poder que se dão na sociedade.
Em uma perspectiva histórica da ADC, Gouveia (2002) destacou a afirmativa de Fowler e Kress sobre a relação inseparável entre significado linguístico e ideologia e de como esta relação dependia da estrutura social, apontando a relevância da análise linguística como um poderoso instrumento para o estudo dos processos ideológicos que medeiam as relações de poder e de controle.
Tal pensamento assemelhava-se com a teoria da Linguística Sistêmica Funcional (LSF) de Michael Halliday, que defendia o caráter semântico e funcional da linguagem. Percebendo a linguagem como um sistema de significados e que durante o uso assumia funções diferentes, de acordo com a opção (ou possibilidades) do falante. Conforme o relato de Gouveia (ibidem), Halliday investigou esse processo e tipificou essas funções em três dimensões: a ideacional, a interpessoal e a textual.
A função ideacional é um modo de representar ou refletir a realidade na língua: “os enunciados remetem a eventos, ações, estados e a outros processos da atividade humana através de relação simbólica” (RESENDE E RAMALHO, 2006, p.57). A função interpessoal expressa as relações tanto individuais quanto sociais; é a língua como (inter)ação. A função textual refere-se à relevância dada aos significados linguísticos (semântica), ao modo de produção do discurso (estrutura) e à sua organização (gramática).
Posteriormente, Fairclough reconfigurou as funções da linguagem propostas por Halliday, na intenção de enfatizar o significado da identidade na construção do discurso. Para ele, a função interpessoal distinguia de tal modo as relações sociais entre os participantes do discurso que minimizava a força da identidade de cada um desses na realização discursiva. Também a função textual foi incorporada à função ideacional, dada à estreita relação entre texto e representação da atividade humana.
Com esta reconfiguração, Fairclough objetivou articular as funções originais com os conceitos de gênero, discurso e estilo, construindo três significados discursivos para o suporte analítico: acional, representacional e identificacional.
Resende e Ramalho (ibidem, p.56) explicam que a LSF ampara a Análise de Discurso Crítica porque estuda a linguagem como um sistema aberto. Ao mesmo tempo em que reproduz o meio social, também é capaz de inová-lo, “o que lhe provê sua capacidade teoricamente ilimitada de construir significados”.
Entretanto, Norman Fairclough concluiu que a linguística crítica não era suficiente para oferecer um suporte metodológico que propiciasse uma análise de discurso crítica que fosse tanto social quanto linguisticamente orientada.
Nos anos de 1970, as duas principais correntes linguísticas que centravam suas teorias na linguagem como prática social enfatizavam em seu método de estudo ou a abordagem linguística (linha britânica) ou o aspecto sociológico da linguagem (linha francesa). Como ponto de encontro, ambas abordavam os conceitos de poder e ideologia de uma tradição sociológico-marxista.
Ainda assim, Fairclough (ibidem, p.20) percebia um desequilíbrio metodológico para aquilo que ele se dispunha a investigar – a possibilidade de uma mudança social pelo/no discurso. Para ele, a corrente britânica valeu-se pouco do campo teórico das ciências sociais e os conceitos de ideologia e poder não foram bem discutidos ou explicitados, enquanto a corrente francesa, ao se apropriar do conceito de ideologia de Louis Althusser, exagerou “no papel desempenhado pelo amoldamento ideológico dos textos linguísticos na reprodução das relações de poder existentes”.
Fairclough pondera que ambas as alternativas analíticas não são suficientes para seus estudos por se basearem em uma visão estática das relações de poder, sem investigar a linguagem como processo dinâmico capaz de não apenas constituir ou manter, mas também de transformar os atores sociais.
Embora percebendo limitações nas abordagens dessas duas alternativas, Fairclough apropria-se de seus pontos positivos e conjuga a linguística crítica com a teoria social, encontrando referências conceituais na compreensão de Michael Foucault sobre a relação entre discurso e poder, construção discursiva de sujeitos sociais e do conhecimento e o funcionamento do discurso na mudança social.
Vários dos conceitos presentes na teoria social de Foucault sobre linguagem e discurso são fundamentais para a teorização da ADC no que se refere à abordagem da análise social, mas seus detalhamentos não é objetivo deste trabalho, valendo apenas destacar alguns pontos.
O autor indica que há duas afirmações importantes na interpretação de Foucault sobre discurso que são particularmente importantes para a ADC: “o discurso constitui o
social, como também os objetos e os sujeitos sociais”; “qualquer prática discursiva é definida por suas relações com outras e recorre a outras de forma complexa”.
O empréstimo desses conceitos não é integral, posto que Fairclough reconhece que Foucault negligenciava a análise textual em sua análise de discurso e tomava o discurso apenas como constitutivo do social. Também é fato a rejeição do analista francês à validação do conceito de ideologia (GOUVEIA, 2002), elemento central nas perspectivas críticas de análise. Sobre o assunto, Fairclough pondera (2001, p.83):
As fraquezas relevantes no trabalho de Foucault têm a ver com as concepções de poder e resistência, e com as questões de luta e mudança. Foucault é acusado de exagerar a extensão na qual a maioria das pessoas é manipulada pelo poder; ele é acusado de não dar bastante peso à contestação das práticas, às lutas das forças sociais entre si (...) às possibilidades de propiciar a mudança nas relações de poder mediante a luta.
O analista britânico defende que as análises da prática real e do texto real, ausentes nos estudos foucaultianos, é condição para corrigir os exageros do analista francês sobre os efeitos constitutivos do discurso, possibilitando a apropriação de seu trabalho naquilo que se adequava à ADC.
É sobre um conjunto de sínteses teóricas que a ADC vai tomando forma e ocupando seu espaço com seu próprio referencial, sendo capaz mesmo de conceber um método específico para estudar o papel da linguagem não apenas como reprodutora de práticas sociais e ideologias, mas também como transformadora social.
A incorporação de outras ciências na fundamentação da ADC dá-lhe um caráter multidisciplinar e a possibilidade de transpor o recorte científico da linguística, comumente vista como apoio para outras disciplinas. Torna-a também transdisciplinar, inserindo-a nas ciências sociais por contribuir com reflexões sobre as relações entre linguagem e sociedade.