Não faltam boas almas se dando como missão livrar o discurso de suas ambiguidades, por um tipo de “terapêutica da linguagem”, que fixaria enfim o sentido legítimo das palavras, das expressões e dos enunciados.
Michel Pêcheux
A Análise de Discurso (AD) se constitui como disciplina na França, na década de 1960, a partir de estudos realizados por Michel Pêcheux, num momento em que o Estruturalismo defendia a ideia da homogeneidade da língua. Nesse contexto “a língua não é apreendida na sua relação com o mundo, mas na estrutura interna de um sistema fechado sobre si mesmo” (MUSSALIM, p. 102, 2001).
O estudioso francês questiona tal sistematização positivista, propondo criticamente, nas teorias da AD, problematizar reflexões naquele momento estabelecidas: “ao mesmo tempo em que pressupõe a Linguística, abre um campo de questões no interior da própria Linguística e que refere o conhecimento da linguagem ao conhecimento das formações sociais” (ORLANDI, 2009, p. 11).
Portanto, para a compreensão do arcabouço teórico da AD vinculado aos aspectos que o associam ao presente trabalho, o capítulo se distribui envolvendo, primeiramente, a “Fundamentação teórica”, ao apresentar os conceitos que subsidiam as análises sobre a EAD; Por conseguinte, a “Delimitação do Corpus”, revelando o modo de seleção da materialidade linguística e, consequentemente, de construção das sequências discursivas; E, por último, os “Procedimentos de análise” propriamente ditos, que esclarecem o sequenciamento analítico.
3.1 Fundamentação teórica
Convém iniciar esta parte da pesquisa refletindo sobre os sentidos de “discurso”. Afinal, o que poderia ser tomado como “mensagem oral e solene proferida por um orador em espaço público” (HOUAISS, 2009. Não paginado) alcança outras abrangências e sentidos na Linguística de um modo geral e, também, na Análise de Discurso.
Em relação aos estudos linguísticos, os estudos discursivos durante bastante tempo não foram de interesse dos linguistas, já que seu domínio pertencia à parole – conceito proposto por Ferdinand de Saussure, em sua obra Curso de Linguística Geral, de 1916. Trata-se da dicotomia langue/parole, ou seja, língua/fala:
(...) nenhuma outra escola linguística, até Saussure, tinha afirmado com tanta força a separação entre a dimensão individual e a dimensão social do funcionamento da linguagem. Seguindo Saussure, os estruturalistas não só entenderam que seria preciso tratar separadamente do comportamento linguístico das pessoas e das regras a que obedece esse comportamento, mas ainda entenderam que o uso individual da linguagem (a parole) não poderia ser objeto de um estudo realmente científico (ILARI, 2011, p. 58-59). Michel Pêcheux questiona a Linguística de base saussureana – que fundamentou o caráter científico dos estudos linguísticos – e trouxe à tona questionamentos a este modo de pensar a língua. Dessa forma, “a instituição da AD, para Pêcheux, exige uma ruptura epistemológica, que coloca o estudo do discurso num outro terreno em que intervêm questões teóricas relativas à ideologia e aos sujeitos” (MUSSALIM, p. 105, 2001).
Sobre esse posicionamento, afirma o autor:
(...) o estudo da linguagem, que havia de início almejado o estatuto de ciência da expressão e de seus meios, pretendendo tratar de fenômenos de grande dimensão, curvou-se à posição que é ainda hoje o lugar da linguística. Mas, como é de regra na história da ciência, a inclinação pela qual a linguística constituiu sua cientificidade deixou descoberto o terreno que ela estava abandonando, e a questão à qual a linguística teve de deixar de responder continua a se colocar, motivada por interesses a um só tempo teóricos e práticos:
- “O que quer dizer este texto?”
- “Que significação contém este texto?”
- “Em que sentido deste texto difere daquele de tal outro texto?”. (PÊCHEUX, 2010c, p. 61, grifo do autor)
A partir dessas reflexões, que instaura a ruptura com os estudos linguísticos de sua época, o teórico francês toma a linguagem num viés que a instaura como um lugar de contradições, reconhecendo a língua como heterogênea (e não homogênea, como pregavam os estruturalistas), já que se constitui a partir de uma multiplicidade de mecanismos de funcionamento, propiciando diferentes efeitos de sentidos. A Análise de Discurso é concebida como uma “disciplina da interpretação”, capaz de construir “procedimentos expondo o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégica de um sujeito” (PÊCHEUX, 1999, p. 8).
A Análise de Discurso possui uma maneira particular de interesse pela linguagem, já que trata do discurso enquanto prática de linguagem pelos sujeitos, constituído socialmente a partir do homem e da sua história, concebendo-a como “mediação necessária entre o homem e a realidade natural e social” (ORLANDI, 2012a, p. 15). Interroga a transparência da linguagem nessa nova forma de conhecimento, ao interpelar a linguagem pela historicidade. Reflete, também, “sobre a maneira como a linguagem está materializada na ideologia e como esta se manifesta na língua” (Ibidem. p. 16).
Nas relações entre língua, discurso e ideologia, considera que a língua seja a materialidade do discurso e o discurso seja a materialidade da ideologia. A língua faz sentido, pois realiza a ideologia através do discurso que se constitui a partir de uma posição sujeito e de um contexto sócio-histórico. Analisa-se o texto para identificar como ele se significa através de repetições e de deslocamentos. Trata-se de um conhecimento através do próprio texto, ou melhor, de uma materialidade “simbólica própria e significativa” (Ibidem. p. 18) concebida em sua discursividade. Nesse processo de compreensão, a AD observa a língua fazendo sentido como parte de um todo social e que constitui o homem e sua história. Como cita Orlandi: “O trabalho simbólico do discurso está na base da produção da existência humana” (Ibidem. p. 15).
Ao contrário do modelo tradicional de comunicação, estruturado pelos elementos, tais como, emissor, receptor, referente, código e mensagem, a AD pressupõe que não há a transmissão de informação. Há um processo de constituição de sujeitos e de produção de sentidos. Portanto, “o discurso é efeito de sentidos” entre interlocutores (PÊCHEUX, 2010c, p. 82).
A Análise de Discurso não estuda o texto e, sim, o discurso, sendo o discurso a palavra em curso. Nos termos de Orlandi:
A Análise de Discurso, como seu próprio nome indica, não trata da língua, não trata da gramática, embora todas essas coisas lhe interessem. Ela trata do discurso. E a palavra discurso, etimologicamente, tem em si, a ideia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim palavra em movimento, prática de linguagem. (2012a, p. 15)
O discurso, não a materialidade linguística como já esclarecido, sendo o objeto de estudo da AD, representa parte do funcionamento social geral. São sentidos em circulação marcados pela incompletude, todavia imprimindo significados, evidências nas práticas sociais. Para entender a especificidade do discurso, é possível tomar como exemplo o seguinte enunciado acerca da EAD no Brasil: “Diploma renomado reduz desconfiança do mercado”, publicado na Folha on line, em 2010. Nele, observa-se uma abordagem a respeito do mercado de trabalho, na qual o sujeito/estudante da EAD deseja se inserir. A situação problema é se o diploma é aceito ou não, se sofre ou não sofre preconceito por não se tratar de um modo tradicional de ensino. O termo “desconfiança” indica, naquela época (em 2010), uma falta de “confiança” das empresas em relação aos profissionais formados a distância. Nesse contexto histórico, a notícia envolve o fato de que a Universidade de São Paulo (USP) também oferecerá cursos na modalidade de ensino não presencial. Trata-se de uma reconhecida e “renomada” universidade (“Diploma renomado”). A memória, os dizeres em circulação trazem esses sentidos em consonância com o momento histórico em que estes se constroem.
Segundo Pêcheux, as condições de produção envolvem “a relação necessária entre um discurso e seu lugar em um mecanismo institucional extralinguístico” (2010c, p. 76), ou seja, abrangem as circunstâncias da enunciação e os sujeitos envolvidos e o contexto sócio-histórico. Ressalta-se que são as condições de
produção que colaboram necessariamente para a constituição dos sentidos do texto. São elas que estabelecem, ainda, as relações de força no interior do discurso a partir da realidade social, afinal:
A concepção de Estado está diretamente vinculada à fundamentação do poder jurídico, por sua vez decorrência da ideia de lucro, que se coloca nos termos do capitalismo, ou seja, o Estado é o Estado- capitalista, que se funda na divergência de interesses entre “proprietários” e “não-proprietários”, divergência esta que resulta em direitos e deveres conflitantes. (LAGAZZI, 1988, p. 16, grifo da autora).
Ainda sobre essa questão, são recorrentes os dizeres que abordam a Educação a Distância sob a ótica mercadológica. É o estudo voltado para a formação de mão de obra qualificada visando atender o mercado de trabalho. Esse ensino deve, portanto, garantir a qualidade e os critérios exigidos pelas instituições capitalistas. Seguem alguns exemplos presentes no corpus da pesquisa: "A ideia é suprir uma lacuna de mercado" (Folha de São Paulo, 2006), “Educação Profissional e a Distância ganham aliados no Parlamento” (Redação Odisseu, 2007), “Educação a Distância – Triplique o Faturamento) (Revista Meu Próprio Negócio, 2008), “De olho no potencial desse mercado, instituições renomadas estão abrindo as portas para a educação a distância” (Revista Ensino Superior, 2009) e “o mercado tem resistências por não conhecer bem a modalidade” (Folha online, 2010).
A posição do sujeito, a posição que ocupa, a época da produção do discurso, o espaço no qual se inscreve, e outros elementos externos ao texto servem para constituir os sentidos, inclusive aqueles sentidos que são tomados como óbvios. Afinal, a linguagem é opaca, visto que, nos processos interpretativos, os sentidos se constituem a partir de determinações históricas tanto do contexto imediato, quanto daquele que se vincula à memória do dizer, como afirma Bethânia Mariani:
(...) os sentidos só se produzem porque são históricos, e a história, por sua vez, só existe como tal porque faz sentido. Língua e história são processos inseparáveis. (...) não há história sem as práticas discursivas cotidianas que fixam ou podem modificar sentimentos em disputa. (1998, p. 28-29)
Daí a relação entre os sentidos e as condições de produção. Novas significações podem ser construídas pelos sujeitos que produzem discursos outros inscritos em diferentes condições de produção – em contextos ideológicos e sócio-
históricos. Também a partir de dizeres já-ditos, ou seja, em situações discursivas que colaboram para a retomada de um pré-construído para convocar novos sentidos e novas memórias.
A memória, segundo Pêcheux, “é necessariamente um espaço móvel de divisões, disjunções, de deslocamentos e de retomadas, de conflitos de regularização... Um espaço de desdobramentos, réplicas, polêmicas e contra- discursos” (2010b, p. 56). A abordagem desse conceito é importante, pois através do seu estudo é possível investigar o funcionamento discursivo, em virtude de ser:
também o interdiscurso, a historicidade, que determina aquilo que, da situação, das condições de produção, é relevante para a discursividade. Pelo funcionamento do interdiscurso, suprime-se, por assim dizer, a exterioridade como tal para inscrevê-la no interior da textualidade. Isso faz com que, pensando-se a relação da historicidade (do discurso) e a história (tal como se dá no mundo) é o interdiscurso que especifica, como diz M. Pêcheux (1983), as condições nas quais um acontecimento histórico (elemento histórico descontínuo e exterior) é suscetível de vir a inscrever-se na continuidade interna, no espaço potencial de coerência próprio a uma memória. (ORLANDI, 2012a, p. 33).
Segundo Orlandi (2012a), a memória discursiva funciona como o interdiscurso, composta pelos sentidos já ditos em algum lugar. Toma-se interdiscurso, portanto, como “séries de formulações marcando, cada uma, enunciações distintas e dispersas, articulando-se entre elas em formas linguísticas determinadas (citando-se, repetindo-se, parafraseando-se, opondo-se entre si, transformando-se...)” (COURTINE, 1999, p. 18). É a memória do dizer, condicionada à história e à ideologia.
A AD entende que os sentidos não são constituídos nem estão significados nas palavras. São determinados pelas posições ideológicas que estão presentes no histórico e no social. Posição ideológica que remete à ideologia como “mecanismo imaginário através do qual coloca-se para o sujeito, conforme as posições sociais que ocupa, um dizer já dado, um sentido que lhe parece evidente, isto é, natural para ele enunciar daquele lugar” (MARIANI, 1998, p. 25). Assim, as práticas histórico-discursivas já preexistem em relação ao sujeito. A memória já está posta.
Falar sobre a constituição dos sentidos é refletir sobre o funcionamento discursivo, em que toda leitura é um gesto de atribuição de sentidos em infinitas possibilidades de significação a partir da premissa de que “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente de seu sentido para derivar para um outro” (PÊCHEUX, 2010c, p. 53). Falar-se-á, no capítulo de Análise, sobre as definições e as adjetivações a respeito da Educação a Distância, analisadas em sequências discursivas a fim de se perceber como esses dizeres se inscrevem em dadas condições históricas e a partir do interdiscurso. Também com o propósito de observar os diferentes efeitos de sentidos que se constituem para a EAD na atualidade na mídia virtual. São discursos tomados como objetos sócio-históricos atravessados pelo já-dito, pelos dizeres em circulação que compõem a memória discursiva.
Conforme preceitua a AD, os sentidos são tomados como únicos num certo lugar, determinados pelo recorte da pesquisa, além dos dispositivos de análise selecionados para tal. Afirma Orlandi:
(...) deve haver uma relação de consistência entre teoria/método/procedimentos analíticos e objeto, é preciso dizer que a particularidade do método em análise de discurso, também vista no que significa entremeio, é a de ser aberto, dinâmico (não positivista), não sendo tomado como aplicação automática da teoria, mas como mediação entre teoria e análise, na busca dos procedimentos próprios ao objeto que se analise. Com isso, compreende-se que o método da análise de discurso, o que procura expor o olhar leitor à opacidade do texto, que leva em conta que algo fala antes, em outro lugar e independentemente, faz contínua retomada da teoria, no processo analítico (2011, p. 12, grifo da autora).
Ainda sob o prisma dos sentidos, há que se definir paráfrase e polissemia cujo entendimento se faz pertinente às análises do corpus. Segundo Orlandi, “é difícil traçar limites estritos entre o mesmo e o diferente” (2012a, p. 36), em que o primeiro revela a manutenção dos processos de significação e, o segundo, produz os deslocamentos de sentidos.
Percebe-se, na relação entre esses mecanismos, uma tensão em que o discurso se realiza, ao retomar, ou não, determinados dizeres já inscritos historicamente; são já-ditos que se filiam a uma memória de sentidos. A retomada de dizeres, a paráfrase, constitui, portanto, a ressignificação de ideias que já foram
postas antes, tomadas de modo semelhante, buscando manter de alguma forma os seus sentidos anteriores. Ou podem ser ressignificados de modo criativo, afetados pela língua e inscritos na história em sentidos outros e, por isso, constituir a polissemia, ou seja, deslizamentos de sentidos já ditos que rompem com o processo de produção da linguagem:
Não se trata de pretender aqui que todo discurso seria como um aerólito miraculoso, independente das redes de memória e dos trajetos sociais nos quais ele irrompe, mas de sublinhar que, só por sua existência, todo discurso marca a possibilidade de uma desestruturação-reestruturação dessas redes e trajetos: todo discurso é o índice potencial de uma agitação nas filiações sócio- históricas de identificação, na medida que ele constitui ao mesmo tempo um efeito dessas filiações e um trabalho de deslocamento no seu espaço (PÊCHEUX, 2012, p. 56).
Nas análises dos discursos sobre a Educação a Distância, na tentativa de explicitar seus mecanismos de funcionamento, em determinados recortes serão percebidos efeitos metafóricos que, segundo Pêcheux, é o “efeito semântico produzido por uma substituição contextual, para lembrar que esse ‘deslizamento de sentido’ entre x e y é constitutivo do ‘sentido’ designado por x e y” (2010c, p. 96). E mais, o teórico coloca que “certas metáforas só existem no discurso em estado ‘adormecido’” (Ibidem. p. 99). Como exemplo, segue o título de uma reportagem do site Opinião e Notícias, de 2010: “Ensino pessoal e intransferível”. A partir da memória discursiva, a expressão “pessoal e intransferível” remete a uma senha secreta para a utilização de cartões de banco. Constitui-se o sentido da individualização, da pertinência exclusiva ao sujeito portador de tal código. O efeito metafórico do título relaciona essa individualização ou exclusividade ao ensino, no qual este serve ao sujeito como adequado, customizado à sua necessidade de aprendizado. O uso “pessoal e intransferível” tem aí o seu sentido deslizado metaforicamente.
São, portanto, transformações semânticas que ratificam a heterogeneidade da língua e que apontam à condição de assujeitamento, conforme coloca Courtine:
(...) posições do sujeito que regulam o próprio ato de enunciação: o interdiscurso, sabe-se, fornece, sob a forma de citação, recitação ou preconstruído, os objetos do discurso em que a enunciação se sustenta ao mesmo tempo que organiza a identificação enunciativa constitutiva da produção da formulação por um sujeito enunciador. E
que acaba, assim, por desaparecer aos olhos de quem enuncia, garantindo, na aparição de um “eu”, “aqui”, e “agora”, a eficácia do assujeitamento (1999, p. 20, grifo do autor).
O sujeito não está na origem dos seus discursos. A sua constituição é heterogênea como também o é o discurso (MUSSALIM, 2001, p. 134); ambos são marcados pela incompletude, não havendo a possibilidade de uma interpretação plena. Não há sentidos únicos e objetivos, já que estes se constroem e se diferenciam a partir das condições de produção em que estão inscritos. Desse modo, o “lugar a partir do qual fala o sujeito é constitutivo do que ele diz” (ORLANDI, 2012a, p. 39).
Para abordar um pouco mais sobre a questão do assujeitamento, apresenta- se antes o conceito da forma-sujeito proposto por Pêcheux, afinal, para o estudioso, “o sujeito não poderia ser concebido como um indivíduo que fala (‘eu falo’), como fonte do próprio discurso” (MUSSALIM, 2001, p. 133), não possuindo liberdade em suas escolhas, já que ocupa uma posição social, lugar este que delimita o que ele pode ou não dizer. O interior de uma formação social é regulado por uma formação ideológica: “o conceito de Ideologia em geral permite pensar ‘o homem’ como ‘animal ideológico’, isto é, pensar sua especificidade enquanto parte da natureza” (PÊCHEUX, 2009, p. 138, grifo do autor).
Relacionando sujeito e sentido, tem-se, por Pêcheux: “a questão da constituição do sentido junto à da constituição do sujeito, e não de um modo marginal (...), mas no interior da própria ‘tese central’, na figura da interpelação” (Ibidem. p. 140, grifo do autor). Esse excerto aborda uma noção importante para a AD: a de que “o sujeito é interpelado pela Ideologia” (Ibidem. p. 141), em que, primeiro, não se trata do sujeito empírico, real; não se trata de pessoas. Fala-se, na Análise de Discurso, de um sujeito ideológico, assujeitado, em que, através dele, a ideologia se manifesta.
O sujeito não está, portanto, na origem do que enuncia. Nesse processo de assujeitamento histórico é que se evidencia o esquecimento, já que o discurso convoca sentidos pré-construídos ratificando o fato de o sujeito não ser “dono” de seus dizeres, como esclarece Courtine:
Aos linguistas que consideram o sujeito falante como sujeito-origem, pleno e sem memória, as teses sobre a existência histórica e material das ideologias lembravam a eles que “há sempre já um discurso”, ou seja, que o enunciável é exterior ao sujeito enunciador (1999, p. 18, grifo do autor).
Na AD, há duas formas de esquecimento que corroboram para a ideia do sujeito assujeitado. Relativo ao esquecimento nº 1, “que dá conta do fato de que o sujeito-falante não pode, por definição, se encontrar no exterior da formação discursiva que o domina” (PÊCHEUX, 2009, p. 162). É da ordem do inconsciente e do ideológico, constituindo o sujeito em determinada formação discursiva.
Já o esquecimento nº 2:
(...) pelo qual todo sujeito-falante “seleciona” no interior da formação discursiva que o domina, isto é no sistema e enunciados formas e sequências que nela se encontram em relação de paráfrase – um enunciado, forma ou sequência, e não um outro, que, no entanto, está no campo daquilo que poderia reformulá-lo na formação discursiva considerada. (Ibidem. p. 161, grifo do autor).
Estando na ordem da formulação, pelo esquecimento nº 2, o sujeito faz seleções de um modo de dizer por outro, esquecendo possíveis outras escolhas na constituição dos sentidos.
A saber, toda leitura é um gesto de atribuição semântica em inúmeras, senão infindáveis, possibilidades de significação. Em virtude disso, ao enunciar, o autor supõe um leitor e antecipa possíveis leituras dos sentidos de seu discurso. Na verdade, o sujeito imagina sua própria posição e a posição de seu interlocutor. Para ilustrar, remete-se à reportagem intitulada “Aprenda em casa”, do site Guia do Estudante, de 2008. O texto direciona sua fala a um estudante imaginário, identificado através da escolha verbal no modo imperativo (“Aprenda”), que concorda com o pronome de tratamento você. Não é um tratamento formal e, sim, próximo, destarte se tratar de uma revista direcionada a este público provavelmente jovem e em busca de conhecimento e oportunidades acadêmicas e profissionais.
Esclarece, dessa forma, que:
Há um leitor inscrito no texto. Um leitor que é constituído no próprio