A prioridade deste estudo centra-se na resposta dita dos sujeitos como fonte de informação. Desta forma Minayo (2002) expõe que as representações sociais se manifestam em palavras, consideradas mediações privilegiadas, tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama para as relações sociais em todos os domínios. Assim, após a realização e transcrição das entrevistas, deu-se início à leitura e à releitura das informações com a intenção de atender os objetivos propostos da pesquisa, e conhecer as Representações Sociais dos profissionais enfermeiros e médicos. Em seguida, procedeu-se à seleção de textos significativos ao objeto, procurando estabelecer as categorias para iniciar a sua análise.
Partindo deste pressuposto, considera-se que “qualquer comunicação, isto é, qualquer transporte de significações de um emissor para um receptor controlado ou não por este, deveria poder ser escrito, decifrado” (BARDIN, 1977, p.32). Portanto, a fim de buscar elementos para a compreensão das representações dos enfermeiros e médicos acerca da ortotanásia, os achados foram analisados qualitativamente, por meio da análise de conteúdo, especificamente a análise temática proposta por Bardin (1977).
No entanto, neste caso, e para garantir a fidedignidade, devem-se estar baseados em teorias, relevantes e que sirvam de marco de explicação para as descobertas (RICHARDSON, 1999). Como decorrência disto a TRS, proposta por Moscovici (2005, p.08) o seu precursor, serviu de âncora na abordagem metodológica e sua utilização está justificada pelo fato de que “as representações sociais sustentadas pelas influências sociais da comunicação constituem as realidades de nossas vidas cotidianas e servem como o principal meio para estabelecer as associações com as quais nos ligamos uns aos outros”.
5.5.1 Análise de conteúdo
A análise de conteúdo é, basicamente, utilizada para estudar material do tipo qualitativo. Trata-se de compreender melhor um discurso, de aprofundar suas características e extrair os momentos mais importantes.
Bardin (1977, p.42), escolhida nesta pesquisa como referencial para representar o tratamento dos dados coletados, conceitua a análise de conteúdo, como sendo,
[...] um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos, sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores [...] que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção [...] destas mensagens.
Na concepção de Minayo (2002) a análise de conteúdo ultrapassa os significados manifestos. Desta forma, relaciona as estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) dos enunciados. Articula a superfície dos textos descrita e analisa com os fatores que determinam suas características: variáveis psicossociais, contexto cultural e processo de produção da mensagem.
Para Lakatos e Marconi (1990) a técnica da análise de conteúdo visa aos produtos da ação humana, estando voltada para o estudo das idéias e não das palavras em si. De acordo com Bardin (1977, p. 44), “a análise de conteúdo procura conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais se debruça. [...] é uma busca de outras realidades através das mensagens”.
Sendo assim, para captar e explorar as mensagens optou-se, entre as diversas técnicas de análise de conteúdo, a análise temática, que na percepção de Richardson (1999) consiste em isolar os temas de um texto, extraindo as partes utilizáveis, de acordo com o problema pesquisado, para permitir sua comparação com outros textos escolhidos da mesma maneira. Complementado, para Minayo (1996, p.209) a análise temática,
[...] consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem uma comunicação cuja presença ou freqüência signifiquem alguma coisa para o objetivo analítico visado. [...] tradicionalmente, a análise temática se encaminha para a contagem de freqüência das unidades de significação como definitórias do caráter do discurso. Ou, ao contrário, qualitativamente a presença de determinados temas denota os valores de referência e os modelos de comportamento presentes no discurso.
A operacionalização da análise temática, tendo o tema da pesquisa como unidade de registro, para sistematizar as idéias, e conduzir adequadamente à aquisição dos resultados, organiza-se em três etapas: a pré-análise; a exploração do material; o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação (BARDIN, 1977; MINAYO, 1996).
5.5.1.1 Etapas de desenvolvimento da análise de conteúdo
a) transcrição das gravações digitais: o documento submetido à análise é composto pelas gravações digitais transcritas das entrevistas realizadas com os enfermeiros e médicos. As gravações foram escutadas exaustivamente e, depois foram transcritas respeitando algumas normas de validade: exaustividade (que contempla todos os aspectos levantados no roteiro); representatividade (que contenha a representação do universo pretendido); homogeneidade (que obedeça aos critérios precisos de escolha em termos de tema, técnicas e interlocutores); pertinência (os documentos analisados devem ser adequados ao objetivo do trabalho). Preservaram-se ao máximo as palavras dos entrevistados; no entanto as expressões coloquiais foram retiradas, visto que a análise tinha caráter temático.
As transcrições foram organizadas no Programa do Word 2003, em forma de duas grandes caixas de texto; à direita da folha, estavam as falas dos informantes; à esquerda, o espaço estava em branco para que fosse preenchido com os temas encontrados nos conteúdos.
b) leitura flutuante: corresponde ao momento em que foram realizadas leituras repetidas e atentas do material. Conforme Bardin (1977), durante essa fase, deve-se deixar invadir por impressões e orientações e, aos poucos, a leitura torna-se mais precisa. Assim, foi- se tomando conhecimento das idéias centrais dos entrevistados e definindo o recorte temático: a ortotanásia e ainda a unidade de significação: as representações dessa prática na UTI.
A exploração do material é a segunda etapa da análise de conteúdo, que consiste essencialmente na operação de codificação. Para Bardin (1977) é o tratamento do material que corresponde a uma transformação dos dados brutos do texto que, por recorte e agregação, permite atingir uma representação do conteúdo, ou da sua expressão, susceptível de esclarecer as características do texto.
Para a organização da codificação, utilizou-se do recorte do texto, o tema, como unidade de registro. Assim, registra-se o fato de que a noção de tema é largamente utilizada em análise temática. Junte-se a isso a ocorrência de que a partir do momento em que a análise de conteúdo decide codificar o seu material, deve produzir um sistema de categorias, que possui como objetivo, fornecer, por condensação, uma representação simplificada dos dados brutos (BARDIN, 1977).
Acrescenta-se, ainda, que a categorização é uma operação de classificação de elementos constitutivos de um conjunto, por diferenciação e, após por reagrupamento segundo o gênero, com os critérios previamente definidos. As categorias reúnem um grupo de elementos, unidades de registro, sob um título genérico, em razão dos caracteres comuns destes elementos, conforme Bardin (1977).
Partindo do exposto, seguiu-se a classificação e a agregação dos dados, escolhendo as categorias, que comandarão a especificação dos temas. A construção das categorias foi se efetivando ao longo da realização das etapas e resultou da análise de cinco entrevistas dos enfermeiros e cinco dos profissionais médicos.
A terceira etapa da análise de conteúdo corresponde ao tratamento e a interpretação dos resultados da pesquisa. A partir daí se propõe à inferência nas interpretações previstas em torno de dimensões teóricas sugeridas pela leitura do material. Esta abordagem da inferência procura efetuar deduções lógicas e justificadas, referentes à origem das mensagens, a partir da disposição de todo um jogo de operações analíticas, mais ou menos adaptadas à natureza do material e à questão que procura resolver. Pode utilizar uma ou várias operações, em complementaridade, de modo a enriquecer os resultados, ou aumentar a sua validade, aspirando assim a uma interpretação final fundamentada (BARDIN, 1977).
Partindo do exposto, o método proposto por Bardin de analisar os dados coletados com vista a extrair os significados da comunicação, por intermédio das entrevistas, e assim estabelecer as representações dos profissionais da área da saúde diante da ortotanásia, foi satisfatório no discernimento dos resultados encontrados.