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Análise do Comportamento

2 REVISÃO DE LITERATURA

2.2 Aportes teóricos da pesquisa

2.2.3 Análise do Comportamento

A fim de ampliar a compreensão do comportamento adolescente, o estudo emprega conceitos provenientes da Análise do Comportamento, uma orientação teórico-metodológica em Psicologia, fundamentada na obra de B. F. Skinner, precursor do Behaviorismo Radical (TOURINHO; SÉRIO, 2010).

O Behaviorismo surgiu no início do século XX, com a proposição de que a Psicologia se voltasse para o estudo do comportamento em si mesmo, e não apenas como mero indício de um fenômeno por ele expressado. Este conceito contrastava com as concepções causais dualistas mente-alma dominantes na Idade Média — época em que a igreja explicava o comportamento pela presença da alma no indivíduo — e em meados do XX — período em que os cientistas o faziam pela existência da mente (MATOS, 1993).

Em 1913, J. B. Watson publicou o artigo Psychology As The Behaviorist Views It, divergindo quanto ao objeto de estudo da Psicologia, que passou a ter como alvo o comportamento dos organismos e não mais a consciência. O método passou a empregar a experimentação com processos observáveis das relações entre o organismo e seu ambiente. Os objetivos voltaram-se para a previsão e o controle do comportamento. Além disso, foram adotados novos pressupostos a respeito desta ciência e da natureza dos eventos psicológicos (CARVALHO NETO, 2002).

Matos (1993, p. 2) destaca que, "para Watson, todo o comportamento de interesse é comportamento aprendido e as causas do comportamento devem ser buscadas em seus antecedentes imediatos (exigindo, portanto, uma contiguidade espaço-temporal entre esses antecedentes e o comportamento)". Com isso, originou-se o Behaviorismo Metodológico, em geral voltado aos comportamentos reflexos, com relações Estímulo → Resposta (S (stimulus) → R (response)) (RUBIO, 2004). O paradigma de Watson, contudo, também se mostrou dualista, ao adotar um modelo mecanicista e casual de comportamento, de dependência

unidirecional. "Se para a Escolástica o corpo precisa ser animado pela alma, e para o Mentalismo o comportamento é expressão da mente, para Watson ele é produto da instigação do estímulo" (MATOS, 1993, p. 3).

Entre 1938 e 1945, B. F. Skinner desenvolveu uma série de trabalhos que originaram o Behaviorismo Radical, revolucionando os estudos behavioristas sobre o comportamento, ao apresentar a seleção por consequências na explicação da evolução do comportamento, resultado de condicionamento operante. O autor destaca três fontes de seleção: a filogenia (a evolução biológica, genética), a ontogenia (a história de aprendizagem) e o nível cultural (RUBIO, 2004). Nesse contexto, entende-se que o nível filogenético corresponde aos atributos inatos de uma espécie, o nível ontogenético consiste nas características que são aprendidas ao longo da vida, enquanto o nível cultural é responsável pelo surgimento e pela propagação das práticas culturais (MELO; DITTRICH; MOREIRA; MARTONE, 2013).

Assim como Darwin se afasta de uma explicação causal e creacionista sobre a origem do homem, adotando uma visão selecionista onde o ambiente tem papel fundamental; assim o modelo de seleção pelas consequências de Skinner desnecessita de causas e agentes causais. A seleção natural, a nível filogenético, responde pelos reflexos e padrões típicos de espécies, bem como pela sensibilidade a contingências; a seleção natural, a nível ontogenético, e a cultural, a nível de práticas sociais, respondem por operantes e respondentes modificados. A cadeia causal, unidirecional e mecanicista, é substituída por uma malha de relações de caráter internacionista e histórica (MATOS, 1993, p. 5).

Para o Behaviorismo Radical, o conhecimento é construído pelo "eu" e não pelo "outro". Diferentemente do behaviorista metodológico, que afirma não ser possível o estudo da mente em razão de sua inacessibilidade, o behaviorista radical aceita estudar os eventos internos, na medida em que o comportamento envolve não apenas os eventos observáveis, mas também a atividade do organismo como um todo (MATOS, 1993). Skinner faz da introspecção objeto de estudo, considerando-a "um comportamento verbal emitido sob controle de eventos internos, porém instalado pela comunidade verbal sob controle de eventos externos" (MATOS, 1993, p. 8).

Os experimentos conduzidos por behavioristas radicais em laboratório, com animais não humanos, marcaram o início da Análise Experimental do Comportamento e ajudaram a construir o corpo teórico da Análise do Comportamento. No entanto, a diversificação das práticas de pesquisa amplia o campo de ação desta ciência (TOURINHO; SÉRIO, 2010).

O Behaviorismo Radical é, portanto, a base filosófica e histórica da ciência da Análise do Comportamento, com seus métodos de produção de conhecimento experimental (Análise

Experimental do Comportamento) e não experimental (Análise Aplicada do Comportamento) (CARVALHO NETO, 2002).

2.2.3.1. Desenvolvimento Humano na ótica da Análise do Comportamento e os conceitos de Contingências e Metacontingências

De acordo com Vasconcelos, Naves e Ávila (2010), a Análise do Comportamento explica o desenvolvimento a partir de mudanças em interações, interdependentes e contínuas, entre o indivíduo e o ambiente. Tais mudanças podem ser progressivas ou regressivas e levam ao desenvolvimento individual, além de exercer influência sobre a evolução da cultura na qual o sujeito está inserido. O desenvolvimento humano é considerado sob o prisma de cada um dos três níveis de variação e seleção: filogenético, ontogenético e cultural. Entretanto, no processo de explicação do comportamento de um indivíduo, o estabelecimento do limite entre o que é inato e o que é resultado de aprendizado é uma tarefa difícil.

Desse modo, muito embora leve em conta as bases biológicas do comportamento, a Análise do Comportamento tem nas contingências comportamentais o seu ponto focal (VASCONCELOS; NAVES; ÁVILA, 2010). Segundo Todorov (1991), o conceito de contingência utiliza a condicional "se... então" para designar a relação entre eventos ambientais ou entre comportamento e eventos ambientais, de forma que o "se" tanto pode se referir a um aspecto do comportamento como do ambiente, enquanto o "então" especifica o evento consequente. Nesse contexto, o analista do comportamento deve resgatar a história de aprendizagem do sujeito, além de considerar a cultura um instrumento importante para explicar o desenvolvimento (VASCONCELOS; NAVES; ÁVILA., 2010).

No nível de seleção cultural, o comportamento de outros membros da espécie torna- se ambiente para o desenvolvimento do repertório social dos indivíduos do grupo. Assim, o ecossistema comportamental de cada indivíduo - o repertório comportamental e o ambiente - é integrado a um sistema mais amplo, denominado social" (VASCONCELOS; NAVES; ÁVILA, 2010, p. 139).

De acordo com Melo e Moreira (2013), o comportamento é definido a partir da relação do indivíduo com o ambiente e os diversos tipos de comportamento são influenciados por tipos variados de reforços e condicionamentos.

Na espécie humana, as suscetibilidades aos diferentes reforços e o processo de condicionamento operante permitiram a emergência de comportamentos complexos, que em sua grande maioria têm poucos resquícios das contingências filogenéticas. A evolução do comportamento verbal e das culturas tornou o Homem uma espécie que se comporta muito mais em função de contingências ontogenéticas do que sob o controle de contingências filogenéticas. Além disso, seu comportamento é amplamente determinado pelas contingências culturais (MELO; MOREIRA, 2013, p. 83).

Assim, a possível ocorrência de certo comportamento apresenta probabilidade vinculada a aspectos do ambiente de cada indivíduo, mas também resulta de eventos antecedentes e eventos consequentes. Por essa razão, a unidade mínima de análise é denominada contingência tríplice (MELO; MOREIRA, 2013). De acordo com Catania (1999), a contingência tríplice diz respeito à relação entre estímulo, resposta e consequência e sua importância reside no fato de o comportamento do indivíduo depender tanto dos antecedentes como das consequências. Nesse cenário, os estímulos são constituídos por eventos externos ou internos ao sujeito, que levam a uma resposta, ou instância do comportamento. De acordo com Todorov (1985, p. 75):

Uma contingência tríplice especifica (1) uma situação presente ou antecedente que pode ser descrita em termos de estímulos chamados discriminativos pela função controladora que exercem sobre o comportamento; (2) algum comportamento do indivíduo, que se emitido na presença de tais estímulos discriminativos tem como conseqüência (3) alguma alteração no ambiente, que não ocorreria (a) se tal comportamento fosse emitido na ausência dos referidos estímulos discriminativos ou (b) se o comportamento não ocorresse.

Cabe acrescentar, no entanto, que as interações com um mesmo ambiente são distintas para indivíduos diversos (MELO; MOREIRA, 2013). Além disso, o ambiente que influencia o comportamento de cada indivíduo também é composto por outras pessoas, que juntas compõem o ambiente social (SKINNER, 2003). A figura 6 apresenta o modelo de contingência tríplice.

Figura 6 - Modelo de contingência tríplice

Fonte: desenvolvido pela autora.

R

S

A

:

S

C

Estímulo antecedente (contexto) Resposta (comportamento) Estímulo consequente (consequência)

É possível exemplificar o modelo da seguinte forma: a influência exercida sobre um adolescente por seu grupo de amigos, que lhe estimula a publicar conteúdos na internet (estímulo antecedente discriminativo), leva o jovem a realizar postagens específicas em determinada rede social (resposta). Tal atitude pode acarretar comentários elogiosos publicados por outros internautas (estímulo consequente), reforçando o seu comportamento.

Ressalta-se, contudo, que os estímulos antecedentes produzem respostas fortalecidas em eventos anteriores (MELO; MOREIRA, 2013). Assim, a regularidade e a variabilidade de um comportamento não se referem apenas às relações situacionais, mas são também consideradas a partir da história do indivíduo. No exemplo, deve-se considerar que o adolescente aceita a imposição dos colegas em função do estímulo discriminativo que, em seu histórico pregresso, veio acompanhado de consequências reforçadoras positivas.

Com isso, para identificar as relações de tríplice contingência, utiliza-se a análise funcional, que se ocupa das variáveis externas responsáveis por determinados comportamentos (NENO, 2003; SKINNER, 2003). Para Moreira e Medeiros (2007), a análise funcional objetiva encontrar determinantes, presentes na interação entre o sujeito e o meio, e que levam a certos comportamentos.

De acordo com Melo e Machado (2013), é possível identificar um episódio social com a análise tanto dos estímulos sociais como dos reforços sociais. No caso, o episódio social caracteriza-se pela relação entre os comportamentos de pelo menos duas pessoas, em que uma influencia a outra. Nesse contexto, a análise funcional das interações entre os indivíduos permite a descrição de um episódio social.

Segundo Todorov e Moreira (2004), há ainda uma importante unidade de análise, utilizada para estudos que envolvem o comportamento em nível social, que é a metacontingência. O conceito, desenvolvido por Sigrid Glenn, em 1986, consiste nas relações entre um conjunto de contingências comportamentais entrelaçadas (CCE), que resultam em um produto agregado (PA) e uma consequência cultural (CC), ou seja, os efeitos causados no ambiente em função de tal entrelaçamento (GLENN et al., 2016; MALOTT; GLENN, 2006;). "Metacontingência não é um arranjo de contingências individuais de diferentes pessoas. Ela consiste em contingências individuais interligadas, entrelaçadas, em que todas elas juntas produzem um mesmo resultado a longo prazo" (TODOROV; MOREIRA, 2004, p. 26). Consequentemente, "o conceito de metacontingência permite estudar a atuação dos

indivíduos em grupos de forma a identificar produtos e consequências culturais, os quais não poderiam ocorrer individualmente" (COSTA, 2016, p. 4).

Exemplo de metacontingência pode ser observado com o surgimento da internet, processo histórico-científico marcado por uma série de contingências comportamentais entrelaçadas, que geraram diversos produtos agregados.

A primeira rede de computadores interligados entre si foi concebida pelo Exército dos Estados Unidos da América (EUA). Seus cientistas (CCE) operacionalizaram, em 1969, a Advanced Research Projects Agency Network (ARPANET) (PA), para permitir que laboratórios geograficamente dispersos pudessem acessar computadores alocados em pontos geográficos distantes, bem como facilitar a pronta correspondência entre pesquisadores.

Após a fase militar, a expansão da rede deveu-se ao movimento de estudantes e pesquisadores (CCE) envolvidos nas trocas comunitárias e na democratização da informação (BORGES, 2008; ROSA, 2012). Em 1971, criou-se o correio eletrônico (PA). O protocolo TCP/IP (PA), responsável por uniformizar a linguagem da rede, foi inventado em 1974, e adotado pela ARPANET (CCE) em 1976. Em 1990, foram criados o protocolo HTTP (PA) e a linguagem HTML (PA), que viabilizaram a navegação entre sites e páginas (DUMAS, 2012).

O produto agregado (PA) surgido a partir das referidas contingências entrelaçadas foi a World Wide Web, tendo como consequência cultural (CC) a aprovação de milhões de consumidores, que se tornaram usuários da rede.

Posteriormente, a internet (PA) fomentou metacontingências transformadoras, que são aquelas geradoras de produtos agregados originais (TODOROV, 2013). Assim, comportamentos entrelaçados de diferentes usuários resultaram em produtos agregados (PA) inéditos, como a alteração nos relacionamentos interpessoais, nas operações de negócios, na forma como os indivíduos lidam com a informação, dentre outras. Sua consequência cultural foi a expansão da rede, com a decorrente melhoria do acesso à web pela população. A figura 7 apresenta metacontingências de origem da internet e metacontingências transformadoras.

Figura 7 - Metacontingências envolvendo a internet

Fonte: desenvolvido pela autora.

2.2.3.2 Comportamento Verbal e Práticas Culturais

Na concepção de Skinner (1978), a fala ou a resposta a uma fala pelo indivíduo são questões relativas ao comportamento humano, fazendo parte, portanto, do interesse da Análise