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Bruno Salles Pereira Ribeiro

2. Análise do conceito 1 O despertar do problema

A pressão pela tutela estatal das relações envolvendo a vulnerabilidade das mulheres nas relações de trabalho não é nova e data da década de 70, originando-se decisivamente nos Estados Unidos da América. Com efeito, já nessa época os movimentos feministas militavam por medidas governamentais que pudessem coibir a prática do assédio sexual.

De feito, conforme nos informa André Boiani de Azevedo,5 citando interessante excerto de artigo de José Adércio Leite Sampaio,

na primeira década dos anos 70, nos Estados Unidos, a população trabalhadora feminina se sentia ameaçada pela supremacia masculina e reclamava de abusos e insinuações de conotação sexual, partindo de seus superiores hierárquicos.

A pressão dos movimentos feministas engendraria, em 1976, a primeira vitória judicial na esfera cível americana, que reconhecera a presunção indenizatória advinda do dano moral ocasionado pelo assédio sexual.6

Essa pressão pela intervenção estatal em relação à prática em análise surge em meio à eclosão do movimento feminista nos Estados Unidos, época em que a igualdade de condições no trabalho quanto ao sexo ainda se demonstrava uma realidade muito distante. O homem se alçava de uma posição hierárquica superior em relação à mulher até mesmo no âmbito legal, diferentemente do que ocorre nos dias de hoje. Embora ainda apontemos uma supremacia do sexo masculino nos cargos diretivos e gerenciais, o sexo feminino não é mais tratado ou visto como uma categoria inferior nas relações de trabalho, sob o ponto de vista legal.

A situação era, portanto, bastante diversa da que se constata nos dias de hoje, e o combate ao assédio sexual foi uma das bandeiras levantadas pelo movimento feminista na luta pela igualdade de condições. De tal forma, sem desprezar a lesividade da conduta em análise, não podemos deixar de perceber o caráter político que sempre permeou a busca pela tutela e incriminação do assédio sexual.

Embora a problemática do assédio sexual venha despertando os brados dos movimentos defensores das minorias, a grande discussão do assédio sexual eclode nos Estados Unidos apenas no ano de 1991, com o polêmico caso envolvendo o Juiz Clarence

5 Assédio sexual. Aspectos penais Curitiba: Juruá, 2005 p 38

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Thomas, indicado à Suprema Corte dos Estados Unidos da América pelo então presidente George Bush.

Sobre o ocorrido, Dyrceu Aguiar Dias Cintra Júnior7 narra que o magistrado teria sido acusado de assediar uma antiga assistente,

o que faria com que sua indicação à Suprema Corte fosse questionada pelo Senado norte-americano. Essa questão ganharia notoriedade, despertando o interesse da opinião pública para a temática do assédio sexual. Em decorrência, “entre os anos de 1991 e 1993, o número

de ações relativas a assédio sexual quase dobrou” nos Estados Unidos, “sendo certo que tal aumento foi reflexo dentre outras coisas, das acusações de Anita Hill contra Clarence Thomas”.8

Bem assim, é no início da década de 90, nos Estados Unidos, que surge conhecido o fenômeno do temor de incriminação da prática do assédio sexual. O aumento crescente de ações propostas com fundamento do instituto ensejou severas mudanças no ambiente de trabalho norte-americano, como o conhecido factoide de homens que se recusam a tomar elevador somente na companhia de uma mulher9.

Entretanto, ao contrário do que se possa imaginar, a coibição do assédio sexual nos Estados Unidos da América não se coloca como demanda precípua da ordenação criminal, havendo uma resposta satisfatória da legislação cível em relação à matéria.

Nesse sentido, Azevedo assevera que “Sue Titus Reid deixa claro que, muito embora haja casos em que o assédio sexual possa

ser considerado tanto um crime quanto uma violação administrativa ou civil, em geral os casos permanecem apenas sob o manto do Direito Administrativo, principalmente porque, empresários e universidades passaram a instituir políticas preventivas do assédio, encorajando as vítimas a denunciarem os fatos e facilitando a execução das normas internas contra os comportamentos inaceitáveis”.10

7 O assédio sexual e o politicamente correto: um caso de importação cultural? RT, v 704

8 hall, Kermit The Oxford guide to United States Supreme Court decisions Apud azeVedo, André Boiani de Assédio sexual , cit , p 44-45

9 Sobre o tema, importante lembrar a contribuição da imprensa e da mídia para o clima de terror em relação ao assédio sexual Como exemplo, lembremos do longa-metragem

Disclousure, traduzido para o português como Assédio Sexual, em que um executivo de uma empresa (Michael Douglas) é acusado de assédio sexual por uma colega de

trabalho (Demi Moore)

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Conforme aduz Dix Silva, a persecução do assédio sexual coloca-se como uma das vertentes do Law Economics Movement, disciplina que defende a fusão de institutos econômicos na esfera do direito. Dessa forma, e devemos discordar do autor nesse ponto, essa inclusão do assédio sexual na pauta dessa disciplina contribuiu mais para manter o assédio sexual de fora do âmbito de atuação criminal do que para fazê-lo objeto de suas aras.

Essa não foi, entretanto, a resposta encontrada por alguns países europeus que, no combate ao assédio sexual, definiram condutas incriminadoras do assédio sexual. Portanto, embora tenha eclodido em importância nos Estados Unidos da América, a tendência criminalizadora da conduta em apreço vai ganhar impulso no Continente Europeu.

2.2 Modalidades de assédio sexual

Muitas são as definições de assédio sexual, a maioria delas provindo de doutrina focalizada no Direito do Trabalho e no Direito Civil. Pela própria especificidade da matéria, o Direito Criminal não poderá se valer da maioria delas, que resolverão os problemas em seus respectivos âmbitos de atuação, mas cravarão chagas em princípios fundamentais do ordenamento penal, tal como o da tipicidade estrita e da taxatividade.

Rodolfo Pamplona Filho conceitua assédio sexual como “toda conduta de natureza sexual não desejada que, embora repelida pelo destinatário, é continuamente reiterada, cerceando-lhe a liberdade sexual”.12Elpídio Gonzales, em obra focada no Direito do Trabalho,

define assédio sexual como “la imposición de mesajes sexuales”.13 Ainda nos referindo a sua obra, encontraremos diversas definições

11 dix silVa, Tadeu Antônio Crimes sexuais – Reflexões sobre a nova Lei n. 11.106/2005. Leme: J H Mizuno, 2006 p 168

12 PamPlona Filho O assédio sexual na relação de emprego. p 62 e 73 Apud marQues, Fabíola Assédio sexual nas relações de trabalho. Revista do Advogado, ano XXV, p 45, jun 2005

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do termo, sejam formuladas por autores, sejam por Órgãos de Direito Internacional ou ainda inseridas em legislações internacionais.14

Uma importante diferenciação para o estudo da legitimidade penal da conduta é a feita entre assédio ambiental e o assédio quid

pro quo. Nesse sentido, Tárrega assevera que “se distinguém, además, dos tipos de acoso sexual: el denominado acoso sexual quid

pro quo; y el acoso sexual ambiental. El primero de ello conlleva a un condicionamiento laboral de la víctima a la aceptación de una proposición sexual e implica una relación de jerarquia entre el sujeto activo y el passivo. El segundo de los tipo se define como la creación de un ambiente laboral sexualmente hostil para la víctima”.15

Como se pode observar, o assédio ambiental é caracterizado como aquela série de circunstâncias que alçam o ambiente de trabalho a uma situação insuportável. Investidas constantes, insinuações diuturnas, que causam perturbação psíquica na vítima, são os pontos marcantes desse tipo de assédio sexual. Essa modalidade de assédio sexual é de relevante importância na esfera do Direito Civil e do Trabalho.

Sobreleva destacar que, nessa espécie de assédio sexual, o assédio constante e permanente não depende necessariamente da relação hierárquica, bastando que as investidas tornem insuportável o ambiente de trabalho e causem danos psíquicos à vítima.

Na segunda espécie, temos o chamado assédio sexual chantagístico. Nessa modalidade, o sujeito ativo sugere que a prática de atos sexuais, ou para usar a definição legal a vantagem ou favorecimento sexual, poderá ensejar-lhe a obtenção de benefícios e vantagens. Por outro lado, sua recusa incorrerá em retaliação.

14 Trazendo alguns exemplos extraídos de seu trabalho, citamos as seguintes definições: “En un sentido general, es cualquier manifestación enfática sobre el sexo de un

individuo. Más especificamente, cualquier conducta orientada sexualmente, verbalmente, física o por insinuación, constituye acoso sexual, cuando está relacionada con el empleo (Comissão de Direitos Humanos de British Columbia); “Toda forma de insinuación, de solicitud y de comportamiento connotaciones sexuales no deseadas y que as realizada por un administrador, un superior, un colega o un cliente, que humilha o amenaza en su integridad a la persona quien va dirigida, poniendo asé en peligro o litigio su derecho del trabajo (Comunicado de junho 1986, do Grupo Europarlamentar); “Observaciones, advertencias, actos que los empleados encuentram degradantes o insinuaciones sexuales acompañadas por promessas de recompensas o represalias” (Informe da Sra D´Ancona ao Parlamento Europeo sobre actos de Violência Contra las

Mujeres)

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Conseguimos observar que, na modalidade quid pro quo, a relação hierárquica é indispensável. O sujeito ativo, nesse caso, de qualquer forma, deve possuir algum poder em relação à vítima e deve exercê-lo objetivando sua satisfação sexual. A vítima, em razão de sua posição inferior, ao menos objetivamente, deve se sentir compelida a satisfazer seu superior hierárquico.

Como efeito, é essa modalidade de assédio sexual que nos parece, a princípio, digna de interesse da legitimidade penal, na medida em que intervém na própria liberdade de autodeterminação sexual, tema o qual abordaremos à frente.

No assédio sexual chantagístico é possível ser percebido o elemento de injustiça e o desvalor ético-social da conduta, uma vez que o sujeito ativo se locupleta das funções exercidas e, em vez de dirigir seu poder de ingerência para a atividade profissional desenvolvida, a emprega para saciar sua própria lascívia. Por seu turno, a vítima abre mão de sua liberdade sexual ou suporta as represálias decorrentes do exercício desse direito.

Quanto ao assédio ambiental, malgrado sua relevância jurídica, não vemos como possa ser objeto de tutela penal. É bem verdade que o assédio ambiental pode trazer consequências tão graves, se não maiores, do que o assédio chantagístico. A submissão da vítima desse comportamento a expõe a uma espezinhação cotidiana que, sem dúvida, pode carrear sequelas psicológicas de grande monta.

Ocorre que as insinuações recorrentes quanto à sexualidade de uma pessoa não se distinguem nesse sentido das insinuações e anedotas fundamentadas em qualquer outra característica física de uma pessoa. Esse tipo de comportamento deve ser, em primeiro lugar – e com certeza com mais eficiência –, combatido na esfera administrativa e disciplinar das instituições, as quais devem coibi-lo, na medida em que se demonstre eticamente inaceitável, sob pena da imposição de sanções no âmbito laboral.

Sem prejuízo, a esfera trabalhista poderá ser invocada para o ressarcimento dos prejuízos decorrentes dos danos morais e materiais ligados ao assédio recorrente, não havendo qualquer sentido na mobilização no aparato punitivo estatal para a coibição dessa conduta.

A coibição dessa conduta deve passar às margens do âmbito criminal, pois seu desvalor é de fundo patentemente moral, exibindo- se como uma conduta desligada dos valores éticos da sociedade, mas que, entretanto, não afetam qualquer bem jurídico relevante. Assim, mostrando-se como descumprimento de regras meramente morais, os atos formadores dessa conduta jamais serão dignos da tutela penal.

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Finalizando esse tópico, impende que apontemos outra substancial diferença quanto à consumação de cada uma das condutas encetadas. Conforme sua descrição, o assédio ambiental depende de uma série de atos, recorrentes, periódicos e insistentes, os quais possuam o condão de abalar a estabilidade emocional da pessoa assediada. Um mero galanteio não se enquadra na conduta. Contudo, a corte diária de uma mulher, perpetrada incisivamente, pode exibir a modalidade em apreço.

Por seu turno, o assédio quid pro quo pode se configurar por um só ato. Uma única proposta que tenha como objetivo a satisfação sexual promovida pela(o) subordinada(o) é o bastante para aperfeiçoar a conduta em tela.

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