3.4. Instrumentos para coleta de dados
3.4.3 Análise do conteúdo
Para o trabalho final busquei um sentido lógico para a pesquisa, tendo em vista que parte dos elementos da escrita observados não eram amostras mensuráveis num padrão cartesiano, por tratar-se de produção textual virtual. Numa pesquisa assim, a melhor forma de descrição dependeria de uma hermenêutica contextual e qualitativa. Foi assim que me vi utilizando a técnica da análise de conteúdo.
Um conjunto de instrumentos metodológicos cada vez mais subtis em constante aperfeiçoamento, que se aplicam a “discursos” (conteúdos e continentes) extremamente diversificados (BARDIN, 2002, p. 9).
Bardin (2002, p. 44) entende que a “análise do conteúdo procura conhecer aquilo que está por trás das palavras sobre as quais se debruça”, ou,
“a análise de conteúdo é uma busca de outras realidades através das mensagens”.
Para a realização da pesquisa com textos e postagens tornou-se perceptível a falta de possibilidade da verificação tradicional do objeto da pesquisa, levando-se em conta que os elementos tradicionais de investigação exigiriam uma mensuração bruta da realidade. Entretanto, quando o instrumento hermenêutico da semântica textual apresentada observou as categorias de similaridades harmonizadoras, presentes nas características de cada postagem, foi possível perceber vestígios e sinais de indícios inovadores, implícitos na escrita virtual de alunos adolescentes. De acordo com Bardin (2002, p. 39),
Tal como a etnografia necessita da etonologia, para interpretar as suas descrições minuciosas, o analista tira partido do tratamento das mensagens que manipula, para inferir (deduzir de maneira lógica).
A busca pela lógica de qualificação da pesquisa acabou por engendrar um esforço exaustivo na busca pela extração do fenômeno, categorizado na forma de exposição das produções textuais. Para Bardin (2002, p. 30), “a análise de conteúdo enriquece a tentativa exploratória, aumenta a propensão à descoberta”. A análise do conteúdo exige o esforço dobrado de confirmação da realidade do fenômeno e trabalha ainda a presença desta realidade numa qualificação por inferência.
O que se procura estabelecer quando se realiza uma análise conscientemente ou não, é uma correspondência entre as estruturas semânticas ou linguísticas (BARDIN, 2002, p. 41).
Nesta pesquisa, a análise de conteúdo foi utilizada para encontrar uma prática real de sinais de mudança no gênero da escrita virtual das postagens de escrita dos alunos na internet, procurando encontrar o sentido das categorias de harmonização semântica expressas ou implícitas nas produções textuais.
As categorias de harmonização estão presentes na similaridade das características das produções textuais:
Textos curtos ou postagens fragmentadas;
Postagens que permitem interpretações textuais num contexto semiótico, porque lidam com textos imbricados com áudio e imagens ilustrativas.
A análise categórica foi feita com o próprio material de postagem da escrita nas redes virtuais. A categorização dessas características gerais dos sinais e vestígios de mudança são percebidos através da extração da presença de determinados fenômenos diferenciados na escrita. Para Bardin (2002, p. 38), “a intenção da análise de conteúdo é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção”.
Procurei ver os conteúdos de postagens, e, após autorização, acessei as páginas onde os alunos diziam escrever e postar suas produções textuais. Havia muito material corriqueiro, celebrações, convites, avisos. Mas tomei o cuidado para não determinar importâncias de forma preconceituosa com os objetos produzidos pelos sujeitos da pesquisa.
Para Merleau Ponty, por exemplo, a descrição ou o discurso, como expressividade do sujeito, é a prova da existência do sujeito, é o modo de o sujeito expressar sua experiência; é dotada de significados da totalidade da experiência vivida, nem sempre totalmente explicitadas na linguagem como discurso (MACEDO, 2010, p. 18).
Não pude selecionar muitos alunos porque não tive condição de trabalhar apenas com uma sala. Selecionei então as páginas dos alunos que estavam mais relacionadas ao que eu procurava. Como a análise iria se concentrar no mundo virtual das postagens textuais em sites e blogs, selecionei os alunos pelo uso da escrita e da postagem de texto ou literatura na internet.
Os dados foram relacionados e analisados em comparação combinada com a pluralidade de referências dos sujeitos e dos espaços virtuais das redes sociais.
As teorias serão o resultado da percepção do teorizador, do investigador, do observador, entendendo-se a observação como o produto do sentido que o observador confere ao objecto observado (SOUSA, 2000b, p. 35).
Defini para mim mesmo que todos os conteúdos da pesquisa seriam importantes, desde que se apresentassem como elementos mediadores de mediação autônoma. Todo o trabalho de análise lidou com elementos aparentemente comuns em relação à cultura da faixa etária dos sujeitos, mas extremamente provocadores. Para vê-los como protagonistas autônomos, precisei ter consciência de que para observá-los com cumplicidade, eu teria que seguir determinados passos da etnometodologia citados por Sousa (2000a, p. 3),
São as entrevistas, os inquéritos, a recolha de desenhos, composições e poemas, a ida aos bairros, o contacto com os familiares, as festas na Escola, as competições desportivas, o registo em jornais de bordo, as histórias de vida, os estudos de casos, etc.
Os dados analisados mostraram elementos de ação complexa porque pareciam lidar com a visão literária tradicional e a amostra moderna de instrumentos virtuais que, ora lidavam com gêneros literários, e, ora lidavam com gêneros corriqueiros da oralidade. Deixei-os como estavam pensando sempre que os dados culturais podem ser extremamente complexos sob o visor da interpretação humana.
CAPÍTULO 4
PROCEDIMENTOS CONTEXTUAIS E ANÁLISE DA ESCRITA NAS REDES SOCIAIS
“E eu me persuado cada vez mais, quer ao escrever, quer ao ensinar, que a operação fundamental desse método de desprendimento é, ao escrever, a fragmentação”
(Roland Barthes, 1980, p. 45)