CAPÍTULO III. O FALAR DE BEJA 77
2. Análise do Dialecto Pacense 83
O falar alentejano, sobejamente conhecido de todos os portugueses, é, talvez, o primeiro traço identificativo do alentejano, o que constitui, verdadeiramente uma marca. No entanto, não existe um falar alentejano único em toda a região, pois, apesar de distinto do resto do país, também no Alentejo ele varia de vila para vila e de cidade para cidade. É sobretudo o seu carácter cantante, lento, arrastado e dolente que o torna específico, como diz Agostinho Fortes:
embora o dialecto alentejano possua características gerais inconfundíveis, o certo é que de terra em terra há diferenças curiosas, especialmente no vocabulário, dignas de nota. O falar alentejano é cantante, arrastado, dolente, reflectindo, sem dúvida, nessa dolência, a saudade das suas vastas planuras a perder de vista. Mas nesse mesmo
177 - Ibidem, p. 20-21.
178 - Humbolt cit. Por Osório P. (2008). 179 - Osório P. et al (2008).
Mariana do Carmo Ribeiro Correia 84 cantante, nessa mesma dolência há graus que a ouvidos, ainda aos inexpertos, não passam despercebidos. Assim a modulação do som, o arrastado da pronúncia, diverge entre povoações vizinhas.180
No Alentejo, como em qualquer lugar, as especificidades da língua são a acumulação feita dos vestígios das línguas faladas pelos diferentes povos que lá viveram. Neste dialecto, se assim se pode chamar, são notórios os vestígios da ocupação árabe pois eles enriqueceram o vocabulário, mantendo a gramática latina, sendo que as duas línguas eram demasiado diferentes para se penetrarem181. Os
nomes abstractos são na sua maioria latinos. Muitos nomes concretos são de origem árabe como os nomes de impostos, cargos civis ou militares, peças de vestuário, objectos de uso comum, termos da ciência, artes e ofícios, entre outros.
Ao longo dos tempos a língua popular vai-se deturpando devido à criatividade, à funcionalidade e até à ignorância dos falantes. Verifica-se que é nas regiões mais isoladas, fora da influência de outros falantes que a língua mantém as suas formas mais arcaicas. Esse facto permite fazer estudos de natureza antropológica, etnográficos, etc., uma vez que o estudo semântico das palavras, dos provérbios e cantigas nos dão informação muito importante sobre o modo de vida, a moral e os costumes dessas comunidades.
Neste estudo do sociolecto de Beja comecei por efectuar a pesquisa bibliográfica sobre o tema e verificar na relação com os meus alunos, colegas e pais se, ainda hoje se mantinham essas especificidades. O passo seguinte consistiu em sistematizar e categorizar a riqueza fillógica e prosódica do falar pacense nos seus aspectos mais visíveis e comuns que passo a enumerar:
– geralmente o povo usa os pronomes pessoais forma de sujeito em verbos indefinidos, impessoais ou defectivos: ex: ele há pessoas a quem a gente não pode
confiar ou ainda como partícula de realce em expressões como: na construção
sintáctica /qu’é dele/, como nos exemplo: /Qu’é dela a mãe?/, /Qu’é dele o gato?; – a metátese ocorre muito frequentemente, seguindo a lei do menor esforço na pronúncia dos fonemas o que é muito comum na linguagem popular: / abundãiça / por
< abundância >; / Antóino / por < António >;
– a pronúncia final do verbo < acreditar >/ com um / i / / acreditari /, acontece sempre que a palavra termina em líquida, /r/ e /l/;
em Moura, Serpa e Baleizão a pronúncia final é em /a/: [ kr ditar ]
180 - cit. por Delgado M. J., A Linguagem Popular do Baixo Alentejo e O Dialecto
Barranquenho.
181 - Conde de Ficalho, Notas Históricas acerca de Serpa e o Elemento Árabe na
Mariana do Carmo Ribeiro Correia 85 ou [ k rditar ], por < acreditar >. No concelho de Beja, as mesmas formas verbais terminadas em líquida pronunciam-se com /e/: [kãtar ] por < cantar >, [tr b ar ] / por < trabalhar >182;
– aglutinação do /a/ a uma forma verbal: / amandar / por < mandar >;
– é vulgar o emprego das formas /no/, /na/, em vez de /o/ e /a/, quer estes sejam artigos definidos ou pronomes demonstrativos: ex. bem na sabes;
– a terminação /ei/ do pretérito perfeito é substituída por /i/, por analogia com a terminação no mesmo tempo verbal dos verbos da 2ª e 3ª conjugações. Trata-se de um fenómeno que acontece em todo o Alentejo: exemplo: ami (amei); canti (cantei) 183;
– em Beja, verificamos o uso de formas arcaicas como [sõ] por < sou > ou < são > (verbo ser): exemplo: [e nã sõ] desconfiada. Ou ainda as formas verbais do presente do indicativos dos verbos < ser >, < tar > (estar) e < ir > que aparecem como /sô/ (próclise), /és/ (e eis), /éi/, /somos/, /sã / (próclise); /tô/, /stou/ (próclise), /tás/, /tá/, /tâmos/, /tã/; /vô/ (próclise), /vás/ (vais), /vamos/ e /vã/184. Também a forma /pêra/ em
vez de < para > é um arcaísmo muito recorrente;
– o /s/ no começo das palavras equivale a /ç/, como por exemplo /çapato/,
/çapo/, por < sapato > e < sapo >;
– ainda podemos ouvir os imperativos [süb] e [küR], dos verbos subir e correr, o que acontece nos verbos de tema em < e > e < i > que se pronunciam em /i/ e /u/, respectivamente. Também o < e > e < o > que precedem a sílaba final do infinitivo são ouvidos como /i/ e /u/ nos exemplos: /aprinde/ (aprende), /entinde/ (entende), /time/ (teme), /esculhe/ (escolhe), /sufre/ (sofre), /fuge/ (foge), etc.185;
– como vimos em alguns exemplos apresentados os ditongos orais e nasais < eu >, < ou >, < ei >, < ão > e < ai >, reduzem-se, por próclise, na pronúncia a /ê/, /ô/, /ê/, /ã/, /á/, respectivamente;
também acontece o contrário, isto é, fazer ditongo onde ele não existe, como nos exemplos: /deseija / por < deseja >, / igreija / por < igreja >, /seija/ por < seja >;
– em Beja também se diz [am e] , [am ej] por < amanhã >;
– é muito frequente o uso da 2ª pessoa do plural, em vez da 2ª pessoa do singular, no pretérito perfeito simples do modo indicativo. Isto explica-se pela mudança no modo de tratamento que, mesmo nas relações familiares e íntimas era, antigamente, usado o vós e não o tu, como podemos ver nos exemplos:
Ê, vi, tu vistes, nós vimos Fostes-te gabar ô Porto
182 Delgado M. J., A Linguagem Popular do Baixo Alentejo E O Dialecto Barranquenho. 183 - Ibidem.
184 - Ibidem.
185 - Dr. José Joaquim Nunes, Crestomatia Arcaica, cit. por Delgado M. J., A Linguagem
Mariana do Carmo Ribeiro Correia 86
Fali, falastes, falámos, Que me destes um cruzado
Disse, dessestes, déssemos, Tamêi ê te di um lenço
Ami, amastes, amámos Pelas minhas mãs bordado186;
– verificamos muitas vezes a troca na pronúncia de /na/ (ou /am/) por /en/ (ou /em/) e vice-versa; ou ainda /en/ (ou /em/) por /in/ (ou /im/). Assim diz-se: [ãgr sadu] por < engraçado >, [ãkrãnãdu] por < encarnado >, [ãtr r ] por < entrar >, [ãb r ] por < embora >, [ãtr ] por < entre >, [ãtŵ] por < então >, [ĕt jnu] por < António >, [ diãt ] por < adiante >, ,[ nt r ] por < jantar >, [ĕdurj ] por < andorinha >, [lĕp z ] por < limpeza >[ĕpurtãt ] por < importante >, [ĕtr v lu] por < intervalo >, [ ĕgratu] por < ingrato >, [ĕteru] por < inteiro >, [ĕβ ] por < inveja >;
– em Beja o /é/ tónico de uma palavra é pronunciado muito aberto, por exemplo: /Béja/, /meu/, /seu/, /quisesse/, etc;
– também o /á/ tónico é pronunciado /ê/. Assim temos: /engrêto/, /burêco/,
,/criêdo/, /cajêdo/, etc., em vez de < ingrato >, < buraco >, < criado > e < cajado >;
– existe a tendência para que as palavras agudas terminadas em < e > sejam pronunciadas em /ei/, acrescentando assim um /i/, pelo que se diz /chaminé/, / péi/,
/féi/, / Zéi/, etc. em vez de < chaminé >, < pé >, < fé > e < Zé >, respectivamente;
– também encontramos algumas aféreses, supressão de letra ou letras no princípio da palavra, como por exemplo em /brunho/ em vez de < abrunho >;
– existem muitas alterações dos nomes próprios como: /Ófrásia/, /Ósébio/,
/Catrina/, /Arraúl/, /Jerolmo/, /Ennácio/, /Jâquim/, /Frigéni/, em vez de < Eufrásia >, <
Eusébio >,< Catarina >,< Raúl >, < Jerónimo >, < Inácio >, < Joaquim > e < Efigénio >; – ainda se utilizam muito as formas arcaicas nominais e verbais /creo/, /crea/, do verbo arcaico /creer/, bem como /leo/, /lea/, /chea/, /cheo/, /feo/, /fea/, /alheo/,
/meo/, /passeo/, /candea/, etc.;
– ouvimos muito frequentemente as formas /chigou/, /chigámos/, /chiguí/,
/cheguí/, em vez de < chegou >, < chegámos >, < cheguei >; bem como a forma verbal
/pidir/, /despidir/, / firir/, em vez de < pedir >,< despidir >, < ferir >, respectivamente; – é normal o uso de orações subordinadas gerundivas que exprimem circunstâncias de tempo ou condição e em que o gerúndio se aplica à segunda pessoa do singular, adicionando um /s/ final ao gerúndio, por exemplo /em sabendos/ por < ao saber >. Do mesmo modo o povo constrói o futuro do conjuntivo como se pode ver nos exemplos: /em sendem/ por < logo que sejam >, /em comendem/ por < quando comerem >;
186 - Delgado M. J., A Linguagem Popular do Baixo Alentejo E O Dialecto
Mariana do Carmo Ribeiro Correia 87 Dentro deste tema, queremos ainda fazer referência a algumas formas de tratamento social que ainda se ouvem e chamam a nossa atenção. Observamos que os alunos e os colegas, apesar de não serem da mesma família, se tratam por
mano(a) ou primo(a), mas porque são pessoas mais ou menos da mesma idade com
algum grau de intimidade. Nos meios mais populares é muito frequente ouvir o chamamento de tio(a) para os mais velhos, o que é sinal de alguma proximidade afectiva e não de relação familiar. No entanto, esta expressão também se ouve nas nossas aldeias beirãs. O termo compadre tão próprio do Alentejo é outra forma de tratamento afectivo, de origem religiosa, pois está ligado ao vínculo do baptismo ou casamento, mas no Alentejo generalizou-se a conhecidos e desconhecidos187.
Os aspectos linguísticos aqui descritos foram aqueles que conseguimos confirmar e identificar no terreno e transcrever.