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Análise do Discurso Francesa: origens e conceitos

PARTE I FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA E METODOLÓGICA

4 NOTAS SOBRE O MÉTODO

4.1 Análise do Discurso Francesa: origens e conceitos

Analisar essa disputa pelos modos de representar exige que observemos diversos elementos constitutivos dos discursos que emergem de cada lado do embate: quais fatos são mencionados, como o são, que eventos históricos são trazidos à tona, quais relações são propostas, que fontes são credenciadas a falar, entre outros. A AD é uma opção versátil para contemplar essa variedade de questões, pois através dela pode-se explorar não somente a linguagem, mas o sujeito, a ideologia e a história. Na análise acerca de visões de mundo concorrentes e seus modos de representar, é fundamental dispor de uma metodologia que leve em conta aquilo que é dito, como também quem o diz e sob quais circunstâncias sócio- historicamente determinadas. Faz-se relevante, primordialmente, detalhar qual é a origem dessa multifocalidade da AD.

4.1.1 Origens da Análise de Discurso

A AD ocupa um terreno misto entre os estudos linguísticos, sociais e psicanalíticos, tendo evoluído a partir da linguística estruturalista de Saussure. A sua investigação sobre os sentidos tem sua gênese nas reflexões saussurianas, porém foi expandida para além do confinamento imanente da linguística de então, que se focava exclusivamente sobre os

aspectos formais da língua, enfatizando a dualidade entre língua (estável) e fala (instável), e ignorava as externalidades sociais.

A ampliação veio com o marxismo althusseriano e seu interesse pela ideologia. Segundo a teoria marxista, ideologia seria um cabedal de crenças e valores que justificam a dominação de uma classe por outra, a "superestrutura" erguida sobre uma teia de relações materiais com o objetivo de legitimá-las. Althusser expandiu esse conceito, apontando que a classe dominante garante a soberania de sua visão de mundo através de aparelhos repressores (exército, judiciário, política, etc) e ideológicos (igreja, família, cultura, etc) que atuam sobre o conjunto da população. A ideologia poderia ser estudada, no projeto de Althusser, a partir de seus traços materiais, sendo essa a razão do seu interesse pelo campo linguístico.

Mediação necessária entre o homem o seu derredor, a linguagem é vista como o ambiente onde a ideologia se materializa. Sendo um sistema de significação da realidade, a linguagem é em essência um "distanciamento entre a coisa representada e o signo que a representa", e é precisamente nessa distância, "no interstício entre a coisa e sua representação sígnica, que reside o ideológico" (BRANDÃO, 2004, p.9). Por essa razão, a AD, a partir de Althusser, não considera a linguagem uma entidade abstrata — como no modelo saussuriano —, mas um lugar onde o ideológico se manifesta concretamente. Assim, a preocupação do campo migra da dualidade língua/fala para outra entre o formal e o social. O "discurso" será então a conjunção entre os processos subjetivos/ideológicos e fenômenos linguísticos. Como resumem Charadeau & Maingueneau (2008, p.202), a escola francesa da AD intentou "pensar a relação entre o ideológico e o linguístico, evitando, ao mesmo tempo, reduzir o discurso à análise da língua e dissolver o discursivo no ideológico".

Apesar dessa expansão da disciplina, é preciso manter em mente que a influência estruturalista sobre a AD permanece, sendo o próprio Althusser proponente dessa abordagem e responsável pela sua inclusão no marxismo. Essa característica será posteriormente expandida ao conceito de sujeito através da psicanálise lacaniana, aplicada ao campo por intermédio de Pêcheux. Lacan se vale do estruturalismo na sua exploração do sujeito freudiano e, em particular, do papel do inconsciente. Segundo Lacan, o local onde se encontra o sujeito não é o consciente, onde reside a ilusão do "sujeito centro", que sabe quem é e o que diz; mas sim no inconsciente, onde habita o Outro22 — o discurso do pai, da mãe, da

22 Essa importância do Outro no discurso evidencia a herança estruturalista da disciplina, pois implica que

elementos não adquirem seu significado intrínseca nem extrinsecamente, mas em sua relação com os demais elementos.

sociedade – que lhe imprime identidade (BRANDÃO, 2004, p.108). Essa divisão do sujeito feita por Lacan é de grande valor para a AD, pois evidencia que o sujeito não profere seus discursos em função de sua consciência monolítica — visto que ele é assim cindido —, mas em função do lugar que ele ocupa no sistema social.

A conceituação do sujeito feita pela psicanálise é uma temática que perpassa toda a teoria da AD, conforme articulada por Pêcheux, que define três outras regiões do saber que compõe a disciplina: uma teoria da sintaxe e da enunciação; uma teoria da ideologia; e a teoria do discurso, que é a determinação histórica dos processos de significação. Segundo Orlandi (2007), a análise dos sentidos requer o recurso a essa multiplicidade de áreas, pois os sentidos não são algo em si próprios, mas sempre são referentes a algo; sua compreensão exige que se vá além da interpretação do código linguístico, exige a reflexão sobre o contexto e demais enunciados da situação e sobre como operam os processos de significação em curso.

A preocupação elementar da AD está, portanto, nas intenções e efeitos engendrados por um sujeito no ato discursivo (MUSSALIM, 2003), analisando não "o que" um texto significa, mas "como" ele significa. O objetivo não é tentar desvelar um sentido definitivo por trás do texto; Orlandi (2007, p.26) afirma categoricamente que "não há uma verdade oculta por detrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem". Assim, o olhar do analista não deve passar através do texto, mas focar-se nos mecanismos significantes nele empregados, levando em conta sua "materialidade própria e significativa [...] sua espessura semântica" (ORLANDI, 2007, p.18). A autora adverte que:

Os dizeres não são, como dissemos, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão de alguma forma presentes no modo como se diz, deixando vestígios que o analista de discurso tem de apreender. [...] as margens do dizer, do texto, também fazem parte dele (ORLANDI, 2007, p.30).

Diversos conceitos compõem o dispositivo que o analista de discurso empregará em sua investigação sobre os sentidos de um enunciado. Para nosso estudo, convém destacar alguns deles por sua relação com o proceder dos políticos, jornais e jornalistas. São eles a Interdiscursividade, a Memória Discursiva e a Formação Discursiva.

4.1.2 Interdiscursividade e Memória Discursiva

A construção do sentido não é possível sem a memória. Todo discurso contemporâneo se sustenta sobre um outro que foi proferido anteriormente, de forma independente. Esse "já- dito" é basilar a qualquer dizer atual, pois nenhum discurso gera a si próprio de forma autônoma; ele sempre remeterá a algum que foi tecido em outro lugar sob outras circunstâncias. O conceito de interdiscursividade diz respeito às formas como os discursos apontam a esses outros que o entornam ou precedem. Charaudeau & Maingueneau (2008, p.286) definem interdiscurso como "o conjunto de unidades discursivas (que pertencem a discursos anteriores do mesmo gênero, de discursos contemporâneos de outros gêneros, etc.) com os quais um discurso particular entra em relação implícita ou explícita" [grifo no original].

O inter-relacionamento entre diferentes discursos afeta, de maneira constitutiva, como um dizer consegue produzir sentido. Orlandi (2007, p.31) afirma que o interdiscurso "disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada", de modo que a compreensão de sentidos atuais requer a análise dos discursos que os precederam e como suas significações se cristalizaram.

Chamamos de Memória Discursiva (MD) esse conjunto de construções antecedentes que são disponibilizadas ao sujeito discursivo no presente. Analisando-a, pode-se resgatar sentidos que foram consolidados através de um processo histórico e que atuam como "já- ditos" no presente. Esses sentidos historicamente determinados, vale destacar, escapam do controle ou vontade do indivíduo que os emprega, pois este já se depara com eles consolidados.

Ademais, os "já-ditos" passam por um processo de "apagamento autoral", em decorrência do qual é impossível localizar conscientemente quem é autor específico de um discurso amplamente difundido e naturalizado. Ao mobilizarem discursos cujos autores não são mais identificáveis — e assim tornam-se supostamente impessoais — os sujeitos reforçam sua ilusão de não atribuírem seus dizeres a um outro que não eles próprios. Trata-se, por assim dizer, de um esquecimento ideológico que leva o indivíduo a inconscientemente esquecer que ele é um portador e perpetuador de uma ideologia anterior a si mesmo. A própria conversão do indivíduo em um sujeito se dá mediante a interpelação do primeiro pela ideologia, sendo essa a via pela qual a linguagem passa a fazer sentido. O sujeito resultante não tem, todavia, consciência desse processo que o assujeita à linguagem e à história;

enxerga, pelo contrário, a linguagem como transparente e fiel mensageira de seus pensamentos23.

4.1.3 Formação Discursiva

Tendo em mente a condição do sujeito face às forças que incidem sobre ele no ato discursivo, é propício passar agora para o último conceito analisado nesta seção, a Formação Discursiva (FD). De forma resumida, pode-se dizer que as FDs determinam o que pode ser dito, onde e como. Elas são, segundo Mussalim (2003), o ponto de conjunção entre discurso e ideologia, sendo regidas por formações ideológicas.

Orlandi (2007) chama a atenção para o fato de que as palavras não possuem sentido em si, mas o adquirem apenas quando inscritas em determinada FD que as imbuirá do matiz ideológico que a determina. Os sentidos, segundo a autora, seriam sempre determinados ideologicamente. É por essa razão que um mesmo dizer pode adquirir diferentes sentidos a depender da FD que o recobre: cada uma mobilizará diferentes referências e "já-ditos". Essa potencialidade para recombinações e múltiplas ligações evidenciam o vínculo entre a FD e o interdiscurso.

O conjunto de dizeres prévios e referências presentes em determinada FD constitui uma "regionalização do interdiscurso" (ORLANDI, 2007, p.43). Através de recursos como a paráfrase, opera-se uma delimitação dos enunciados que podem ser proferidos em dada circunstância, objetivando uma preservação identitária (BRANDÃO, 2004). Isso não implica, entretanto, que as FDs chegam a cristalizar em definitivo os sentidos que podem ser gerados nelas. Do contrário, não haveria atualização possível dos sentidos através da história.

Em seus primórdios, o conceito de FD, por sua estreita conexão com a ideologia e o papel totalizante e sistêmico desta, foi concebido como um espaço sólido e excludente (i.e.: a presença de um elemento numa FD o exclui das demais). Contudo, essa definição foi nuançada, levando em conta a ação do interdiscurso, que constantemente invade o perímetro das FDs estabelecidas trazendo elementos de outras origens que tornam o seu conteúdo mais cambiante (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2008).

23 Essa relação de determinação entre sujeito e estrutura será revisitada de forma mais crítica na Seção 4.2.2,

A linguagem, bem como os sujeitos, é incompleta e permite que o simbólico atue em suas lacunas, introduzindo novos elementos e associações. A dinâmica entre uma FD e a prática discursiva pode ser vista como a instável articulação entre uma estrutura que tenta se fixar e as contingências do acontecimento. O interdiscurso é central na formação de todo discurso, pois este não é fechado, coeso e portador de sentido unívoco, mas poroso, mutável e heterogêneo, sempre remetendo a um Outro e atravessado por diferentes FDs. Não seria possível, ademais, conceber uma FD autônoma, que não apontasse a uma outra e interagisse com ela na sua construção dos sentidos. Semelhantemente, a especificidade de qualquer discurso só é adquirida mediante comparação com outros discursos. Desse modo, o esforço de contenção não consegue superar o caráter polissêmico da língua, que insiste em "embaralhar" as fronteiras entre as FDs (MUSSALIM, 2003).