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ANÁLISE DO DISCURSO “PLENITUDE E RIQUEZA INDEFINIDA 21 ”

5 ANÁLISE DOS DADOS

5.1 ANÁLISE DO DISCURSO “PLENITUDE E RIQUEZA INDEFINIDA 21 ”

A Análise de Discurso (AD) que adotamos nesta pesquisa baliza-se na teoria do filósofo francês Michel Foucault. Para o estudioso, a posição assumida durante o discurso constitui o sujeito, sendo que este é carregado de uma história.

No caso de nossa pesquisa, podemos ousar e afirmar que são sujeitos carregados de ecos das reminiscências, por meio das quais encontram sentido ao seu dizer, consoante palavras de Foucault (2008a, p. 144): “[...] o discurso não tem apenas um sentido ou uma verdade, mas uma história [...]”.

Desse modo, comprometemo-nos com a interpretação das narrativas dos IEs, com o intuito de refletirmos e captarmos os movimentos e as relações existentes no percurso que a palavra nos leva a decifrar, isto é, “[...] como práticas que formam sistematicamente os objetos de que falam”. (FOUCAULT, 2008a, p. 55).

Como é próprio da AD, não pretendemos julgar os discursos dos IEs como corretos ou incorretos. Conscientes de que o discurso traduz subjetividade22 do sujeito, e por essa razão,

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não há fim em si mesmo, nem mesmo definições exatas sobre o discurso, mas sim, uma gama de possibilidades na constituição do sujeito, nossa intenção é a de compreendermos melhor o sentido e as marcas significativas de um dizer no tempo e na história. Nesse viés, é relevante considerarmos as ideias de Foucault (1996, p. 37):

[...] nem todas as regiões do discurso são igualmente abertas e penetráveis; algumas são altamente proibidas (diferenciadas e diferenciantes), enquanto outras parecem quase abertas a todos os ventos e postas, sem restrição prévia, à disposição de cada sujeito que fala.

Nessa perspectiva, pelo fato de estarmos atentos às relações de poder/saber existentes no discurso, originadas pela produção que a história nos remete, é que podemos afirmar que o discurso se constitui em algo tão complexo e, ao mesmo tempo, de uma riqueza infinita. A relação travada entre a palavra dita e os sentidos construídos configura uma luta que, nas palavras de Fischer (2003, p. 380), não é compreensível, nem mesmo compreendida linearmente.

[...] na perspectiva foucaultiana, nossas análises precisarão dar conta das pequenas lutas, das lutas por imposição de sentidos, das lutas pelo poder da palavra, num certo foco específico de relações de poder; ora, essas lutas não são verticais somente, elas existem lado a lado, por todos os lados, e não são linearmente compreensíveis ou compreendidas.

Ainda, segundo a mesma autora, embasarmo-nos pela perspectiva foucaultiana implica

[...] fugir das explicações de ordem ideológica, das teorias conspiratórias da história, de explicações mecanicistas de todo tipo: é dar conta de como nos tornamos sujeitos de certos discursos, de como certas verdades se tornam naturais, hegemônicas, especialmente de como certas verdades se transformam em verdades para cada sujeito, a partir de práticas mínimas, de ínfimos enunciados, de cotidianas e institucionalizadas regras, normas e exercícios. Pesquisar a partir desses pressupostos históricos e filosóficos significa também, e finalmente, dar conta de possíveis linhas de fuga, daquilo que escapa aos saberes e aos poderes, por mais bem montados e estruturados que eles se façam aos indivíduos e aos grupos sociais [...]. (FISCHER, 2003, p. 385-386).

A ideia de construção/desconstrução do discurso e a abordagem explicitada por Foucault nas obras “A ordem do discurso” (1996) e “A arqueologia do saber” (2008a), motivou-nos a buscar as peculiaridades da trama discursiva, ou seja, “[...] mostrar em que

22 “[...] constituição do sujeito para ele próprio: a formação dos procedimentos pelos quais o sujeito é levado a se

observar, se analisar, se decifrar e se reconhecer como campo de saber possível. Trata-se, em suma, da história da “subjetividade’, se entendermos essa palavra como a maneira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo em um jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo”. (FOUCAULT, 2004, p. 236).

sentido o jogo das regras que utilizam é irredutível a qualquer outro; segui-los ao longo de suas arestas exteriores para melhor salientá-lo”. (FOUCAULT, 2008a, p. 157). Assim sendo, nossa posição de pesquisadoras, equivale à pessoa que “[...] dá à inquietante linguagem da ficção suas unidades, seus nós de coerência, sua inserção no real”. (FOUCAULT, 1996, p. 28). Para fazermos valer esta prerrogativa, fizemos uso do termo “arqueologia”, uma vez que nos remete às ações de coletar e escavar, com profundidade, os discursos e os saberes (histórias) inseridos neles, um legítimo ser-saber diante da revelação das práticas discursivas dos Intérpretes Educacionais.

A arqueologia busca definir não os pensamentos, as representações, as imagens, os temas, as obsessões que se ocultam ou se manifestam nos discursos; mas os próprios discursos, enquanto práticas que obedecem a regras. Ela não trata o discurso como documento, como signo de alguma coisa, como elemento que deveria ser transparente, mas cuja opacidade importuna é preciso atravessar frequentemente para reencontrar, enfim, aí onde se mantém a parte, a profundidade do essencial; ela se dirige ao discurso em seu volume próprio [...] (FOUCAULT, 2008a, p. 157).

Sob tal pressuposto, identificamos que toda jornada de pesquisa demanda

[...] estar pronto para acolher cada momento do discurso em sua irrupção de acontecimentos, nessa pontualidade em que aparece e nessa dispersão temporal que lhe permite ser repetido, sabido, esquecido, transformado, apagado até nos menores traços [...]. (FOUCAULT, 2008a, p.28).

Diante desse aparato a que se refere o discurso, atentamos para as falas de Intérpretes de Língua de Sinais que se inserem em um universo que não lhes pertence, por isso, desconhecido, mas para o qual sua presença é fundamental.

Em alguns casos, esse profissional não é aceito com parcimônia, como explica Perlin (2006, p. 8): “Entre os surdos, há aqueles que remetem ao Intérprete como mal necessário”. Este “mal necessário” vem carregado de uma oposição histórica, vivenciada e sofrida pelos Surdos, de acordo com o exposto neste estudo, relativamente à história do Surdo e à cultura ouvintista.

Como os discursos são narrados pela própria vivência das IEs, sentimos a necessidade de perceber o que vai além das simples palavras proferidas, pois, como descreve Foucault (2008a, p. 55): “[...] discursos são feitos de signos; mas o que fazem é mais que utilizar esses signos para designar coisas. É esse mais que os torna irredutíveis à língua e ao ato da fala. É esse "mais" que é preciso fazer aparecer e que é preciso descrever”. (grifo do autor).