2 ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO: PRINCÍPIOS TEÓRICOS E
2.3 ANÁLISE DO DISCURSO REPRESENTATIVO: UM PROCESSO PARA
O discurso impresso nas teses e dissertações é amparado por ideias já discutidas em outros escritos, por exemplo, com o aporte teórico de autores seminais da área em que a pesquisa tenha sido executada. Esse empréstimo discursivo natural nos escritos de domínios de conhecimento se caracteriza como um amparar no que já foi dito e chancelado nas áreas de
conhecimento e garantem ao autor o reforço ao seu pensamento e mais ainda, fornecem a garantia literária4 (o que está documentado, publicado) que valorizará a impressão de novos conceitos que por ventura lançará, pois apesar de “novos” se apoiam em pesquisas anteriormente desenvolvidas e experimentadas.
As práticas discursivas das comunidades acadêmicas e científicas transversam entre domínios multidisciplinares. No caso particular do discurso da área da Geografia, percebe-se nitidamente o uso de conceitos que transitam nas áreas das Ciências Humanas, Biológicas, Sociais Aplicadas, Geológicas dentre outras. O que nos demonstra a importância da categorização conceitual para melhor representar as relações associativas que ocorrem e se manifestam entre conceitos aparentemente deslocados de um e para um contexto de domínio de conhecimento.
Os discursos das teses e dissertações apresentadas nos programas de pesquisa vão da intenção ao jogo das representações metaenunciativas, um modelo de desdobramento do dizer ou de nomear respostas alcançadas nas pesquisas, para conseguir o objetivo do convencimento, tornando as palavras atravessadas pelo discurso de outrem, um jogo de palavras que se impõem ao produtor do discurso.
No processo de organização do conhecimento se faz necessário à interpretação explícita do comentário, da palavra que convém dizer, e que possivelmente possa se transformar em um conceito novo ou um novo conceito, uma análise discursiva e representativa do domínio.
São as causas do dizer sobre algo que servirão de base para a busca da informação, propriedades do referente (objeto), compatibilidade entre “as palavras e as coisas”. Um dizer refletido sobre o enunciado e facilmente interpretável quando no plano explícito do termo, para que de fato não só a disseminação seletiva da informação aconteça, mas principalmente a difusão do conhecimento alcance a todos, e que a linguagem científica, não se faça por uma “língua estrangeira”, deve-se na RI e OC atentar para a prática de uma mediação discursiva para enfim divulgar e disseminar pesquisas.
4 Garantia literária: princípio cunhado por Humel, E. W. em 1911. HULME, E.W. Principles of book classification: chapter III – on the definition of class headings, and the natural limit to the extension of book classification. Library Association Record, n.13, p. 444-449, 1911.
A divulgação científica (doravante D.C.) é classicamente considerada como uma atividade de disseminação, em direção ao exterior, de conhecimentos científicos já produzidos e em circulação no interior de uma comunidade mais restrita; essa disseminação é feita fora da instituição escolar- universitária e não visa à formação de especialistas, isto é, não tem objetivo de estender a comunidade de origem. As representações subentendidas nessa atividade – importante nos diversos meios da mídia, na medida que o exterior a ser alcançado é ‘a coletividade como um todo’ são as de uma função tida socialmente como necessária para o desenvolvimento das ciências. [...] através de uma disseminação desse saber no conjunto da coletividade. (AUTHIER-REVUZ, 1998, p. 107).
Para atender à coletividade, quando representamos para difundir ou disseminar, a mediação da informação deve ser reconhecida na OC. Quando os termos são organizados não se pode pensar apenas nas regras impostas para SOC, sobretudo, deve-se disponibilizar uma linguagem real para o usuário, que revele um enunciado esclarecedor, como pronunciado por Foucault, (1999, p. 55) “[...] em fazer tudo falar. Isto é, em fazer nascer, por sobre todas as marcas, o discurso segundo o comentário.”.
De fato a representação é dependente da OC, de uma análise conceitual criteriosa, designando as coisas através de descritores, ou seus elementos, decompondo-as até a origem terminológica, mas também, e, sobretudo, combinando os termos através de suas associações com outros termos. Segmentando textos, através de macro-proposições semânticas e levando em consideração os argumentos, para enfim se estruturar um vocabulário.
Em Foucault, (1999, p.89) “[...] a representação é sempre perpendicular a si mesma: é ao mesmo tempo indicação e aparecer; relação a um objeto e manifestação de si.” A representação é sempre dependente de outra a que estará ligada e dela mesma, através das ligações, como uma abstração da ideia primeira ou de onde o conceito foi originado. Para Varela; Thompson e Rosch (2001, p.42) “[...] atitude abstrata é o traje espacial, o acolchoamento feito de hábitos e pressuposições, a armadura com a qual uma pessoa habitualmente se distancia de sua experiência.”.
Em uma representação sobre a origem das coisas e a ciência geral das coisas, Foucault (1999, p. 100) enfatiza que existe uma álgebra nas relações, “um método para conferir signos às naturezas simples e para operar sobre esses signos” apresentamos o modelo por ele proposto na figura 4:
Figura 4 - Ciência geral das coisas
Natureza simples representações complexas
Máthêsis Taxonomia
Álgebra Signos
Fonte: Foucault, (1999. p. 100).
O modelo apresentado por Foucault explica as percepções humanas e o movimento do pensamento a partir do “cálculo das igualdades e a gênese das representações”, que muito embora configurem o saber da época clássica, ainda perdura quando se pensa na ordenação das coisas para a organização do conhecimento. Ou ainda na lógica aristotélica dos enunciados verbais, com suas possibilidades de verdade ou inverdade, e na ontologia, para que a interpretação ocorra nos sistemas de proposições contemporâneas como os das ontologias de domínios. Como afirmaria o autor sobre as questões de análise e representação, na concepção de Foucault (1999, p. 105) “[...] o limite do saber seria a transparência perfeita das representações nos signos que as ordenam”.
A figura4 (quatro) aponta a ligação da natureza geral com uma ciência também geral, como se fosse capaz de explicar e ordenar tudo sem levar em conta o objeto (conceito) dentro de um contexto, o que discordamos. Quanto às representações complexas Foucault apresenta as taxonomias e os signos, neste aspecto o que apontamos é que uma taxonomia muito embora categorize os conceitos numa hierarquia, o que pode parecer rígido em demasia, é a base para construção das relações associativas entre os conceitos como os que ocorrem nas ontologias.
Para Foucault, (1999), a taxonomia é responsável pelo contínuum das coisas, o que se aproxima da Teoria da Classificação Facetada, desenvolvida por Ranganathan (1967) e tão
bem empregada em estudos no domínio de representação e organização do conhecimento na área da Ciência da Informação, para taxonomias e ontologias de domínios.
Não é por acaso que a base para a construção de ontologias é a taxonomia, permitindo a organização dos termos de forma hierárquica para somente após encontrar a sua origem através das relações lógicas (gênero e espécie) ou relações de identidade (parte-todo) percebidas imediatamente pelos sentidos, construir as relações ontológicas ou (associativas) entre os objetos (conceitos).
Estas relações entre os elementos significantes é que representarão as designações coletivas dos termos pelos domínios, que suprem as necessidades dos domínios e, por conseguinte, os limites do nosso conhecimento. São elas que provocam a síntese do diferente, a possibilidade de ligação entre as representações e o conhecimento possível. Assim o sistema clássico das taxonomias dá lugar a um espaço aberto ao termo, onde a representação conceitual estabelecida pelas relações entre os objetos, ou as coisas, por fim nomeia através do termo.
A análise discursiva representativa dos domínios de conhecimento que se entrelaçam, dependem da decomposição das ideias que esclarecem o saber, conhecendo e reconhecendo o interior e o exterior do texto através da análise, e recompondo pela síntese, constituindo e reconstituindo o “a priori” que torna possível a descrição das experiências constatadas empiricamente e descritas através de conteúdos discursivos das comunidades de práticas acadêmicas.
Assim se busca a formalização conceitual e um consenso ontológico nas práticas das ontologias de domínios, formalizando a linguagem para que se possa “controlar” uma linguagem natural; segundo Foucault, (1999 p. 414) “[...] interpretar e formalizar tornaram-se as duas grandes formas de análise de nossa época: na verdade, não conhecemos outras.”.
A prática da categorização conceitual é fundamental porque permite evidenciar a inter e multidisciplinaridade dos domínios. A OC em uma prática interdisciplinar, neste trabalho, abraça a Análise Cognitiva (AnCo) como aporte metodológico, e assim, enriquece o trabalho que há muito vem sendo feito nas áreas da CI e CC. Mas não se pode correr o risco de
categorizações rígidas e fechadas que não levem em conta, por exemplo, as questões de ordem cultural da linguagem.