• Nenhum resultado encontrado

Análise do estudo das pegadas (Walking Track Analysis)

Capítulo I – Revisão Bibliográfica

5. Métodos de avaliação da recuperação neurológica

5.1. Testes de avaliação funcional

5.1.3. Análise do estudo das pegadas (Walking Track Analysis)

Em 1982, foi criado um método para quantificar a recuperação funcional do nervo ciático após lesão, utilizando como modelo experimental o rato e baseando-se no estudo das pegadas (Walking Track Analysis), por De Medinaceli e seus colaboradores. Estas investigações/estudos originaram o Índice de Funcionalidade do Ciático (SFI), que tem sido bastante usado como ferramenta de avaliação funcional em estudos de lesões do nervo periférico por muitos investigadores. É um método que tem várias vantagens como não precisar de equipamento especialmente dispendioso, ser de fácil execução e ter resultados precisos e fiáveis (De Medinaceli et al., 1982; Bain et al., 1989; Nichols et al., 2005).

5.1.3.1. Índice de Funcionalidade do Ciático

Para a realização deste teste é necessário que previamente os animais sejam treinados a andar no corredor em direção à caixa que tem como característica ter fraca luminosidade de forma a atrair o rato para o seu interior. Para obter as medidas das impressões das pegadas do rato são colocadas tiras de papel branco no corredor, com a dimensão adequada, e a face plantar dos pés dos ratos é pintada através da sua compressão numa esponja de tinta preta não tóxica (Figura 22) (Luís, 2008). Logo depois das patas posteriores do rato terem sido pintadas, este é colocado no início do corredor para que ao caminhar em direção à caixa deixe as suas pegadas nas tiras de papel (Costa et al., 2009).

Com este índice, as pegadas são avaliadas em três parâmetros diferentes: i) Distância do calcanhar ao terceiro dedo, comprimento da pegada (PL); ii) Distância do primeiro ao quinto dedo (TS);

iii) Distância do segundo ao quarto dedo (ITS).

As três medidas são realizadas tanto para o membro normal (N) como para o membro experimental (E) (Figuras 23A, 23B e 24). Para obtenção do valor de SFI usa- se a fórmula complexa seguinte (Equação 2) derivada de Bain et al., (1989) ou de uma forma mais simplificada a Equação 3.

SFI = -38.3[(EPL–NPL)/NPL]+109.5[(ETS–NTS)/NTS]+13.3[(EITS–NITS)/NITS]-8.8 (Equação 2)

SFI = -38.3 x PLF + 109.5 x TSF + 13.3 x ITSF – 8.8 (Equação 3)

O valor de SFI varia entre 0 e -100, sendo o primeiro valor referente a uma função normal e o segundo para uma disfunção absoluta, como aquela verificada imediatamente após recessão do nervo ciático (Dijkstra et al., 2000).

Figura 22 - Realização do teste SFI. Para a impressão das pegadas são colocadas tiras de papel branco com a

dimensão adequada no corredor e a face plantar dos pés dos ratos é pintada com tinta através da impressão do pé do rato numa esponja de tinta não tóxica (imagem gentilmente cedida por Prof. Ana Lúcia Luís, 2008).

5.1.3.2. Índice de Funcionalidade do Ciático em condições

estáticas

Devido a alguns problemas que podem surgir durante a recuperação, como são o caso das contracturas e o fenómeno de autotomia, por vezes não é possível obter pegadas que apresentem uma boa leitura para o cálculo do SFI (Meek & Coert, 2002). Para ultrapassar estas dificuldades Bervar, em 2000 propôs uma fórmula que tem

Figura 23 - Fotografia da fase de suporte do andamento do rato, tirada num corredor com impressão das

pegadas em tiras de papel branco (A) (à esquerda, membro normal; à direita, membro experimental) ou num corredor de acrílico (B). Foram assinalados os seguintes segmentos: PL -, comprimento da pegada; TS - largura da pegada; ITS - largura intermédia da pegada (imagem gentilmente cedida por Prof. Ana Lúcia Luís, 2008).

Figura 24 - Superfície plantar dos membros posteriores do rato. PL, comprimento da pegada;

TS, largura da pegada; ITS, largura intermédia da pegada. A pata posterior esquerda mostra a redução dos parâmetros TS e ITS, enquanto o PL está aumentado (adaptado de Costa et al., 2009).

vindo a ser utilizado por alguns investigadores e é designada por Índice de Funcionalidade do Ciático em Condições Estáticas (SSI), em que não é utilizada a medida de PL (Bervar, 2000), e é representada pela Equação 4:

SSI = [(108.44 (TSF) + (31.85 (ITSF)] - 5.49 (Equação 4)

O valor de SSI também varia entre 0 e -100, sendo o primeiro valor referente a uma função normal e o segundo para uma disfunção absoluta (Dijkstra et al., 2000).

5.1.3.3. Limitações na análise do SFI e SSI

Esta metodologia tem sido atualmente muito utilizada no estudo do nervo mas existem alguns problemas que têm limitado o seu uso experimental. Um deles é a necessidade de fazer repetidas passagens para obter pegadas visíveis de ambos os pés. Para evitar este caso é importante treinar os animais, de forma a familiarizar o animal com o local da prova (Bain et al., 1989).

Devido a fenómenos de autotomia (Figura 25A), desenvolvimento de contracturas (Figura 25B), arrastamento da pegada, arrastamento da cauda sobre a pegada ou contaminação de pegadas, algumas pegadas não são possíveis de serem analisadas, isto é, de serem feitas medições (Strasberg et al., 1996; Varejão et al., 2004).

Como resultado de uma reinervação mais rápida ou completa dos músculos flexores em detrimento dos músculos extensores surgem as contracturas articulares Figura 25 - Fotografias do membro posterior experimental: (A) fenómeno da autotomia; (B) contractura do membro.

em lesões do nervo ciático e que fazem com que os animais caminhem sobre o dorso do pé (Chamberlain et al., 2000). Para evitar o aparecimento das contracturas, muitos investigadores têm recorrido a técnicas de fisioterapia, quer através da manipulação manual do membro lesado quer ainda através da utilização de uma rede com cerca de 45º de inclinação que é colocada no interior da gaiola dos animais (Kobayashi et al., 1997; Varejão et al., 2003a). Tem-se conseguido bons resultados com a utilização de um protocolo de fisioterapia na fase inicial da regeneração, evitando a inativação muscular durante períodos prolongados (Watson et al., 2001; Sagiv et al., 2002; Varejão et al., 2003a).

O fenómeno de autotomia surge especialmente quando são realizadas lesões de secção do nervo ciático em ratos (Luís, 2008). É provável que este tenha origem numa disestesia dolorosa projetada nos dedos que leva à sua automutilação, em especial dos dois dedos laterais (Kauppila, 1998). Este fenómeno faz com que seja impossível obter valores para o cálculo de SFI e SSI, podendo ser evitado através da utilização de uma substância com um sabor dissuasor no local (Hadlock et al., 1999; Varejão, 2003). Outras estratégias podem ser utilizadas como por exemplo o uso de amitriptilina (Navarro et al., 1994; Rodriguez et al., 1999) e o alojamento na mesma gaiola de machos e fêmeas (Zellem et al., 1989).

Além das dificuldades descritas anteriormente podem surgir outras com menos importância mas mesmo assim alvo de muitas críticas. A subjetividade inevitável na leitura dos valores para o cálculo de SFI e SSI, torna muitas vezes necessário a repetição das passagens do rato pelo corredor para minimizar o erro de leitura/cálculo (Luís, 2008). A velocidade do andamento durante a fase de suporte influencia os valores de PL e por isso o cálculo de SFI (Walker et al., 1994b). A importância da análise das pegadas ser efetuada em pegadas não hesitantes e de velocidade constante, uma vez que os valores de PL variam com a velocidade do andamento (Dijkstra et al., 2000). O aumento de peso corporal que os animais podem apresentar ao longo do trabalho experimental pode também influenciar a medição das pegadas (Dellon & Dellon, 1991). Dellon & Dellon (1991) descreve em estirpes de ratos Sprague Dawley um fenómeno de compensação do membro normal que suporta mais peso, compensando desta forma o membro lesado. Posteriormente, este fenómeno foi rebatido por Hare et al. (1992), num ensaio de avaliação a longo prazo da regeneração nervosa em ratos de estirpe Lewis. É sugerido, que uma ligeira evolução favorável no membro lesado, mesmo antes da conexão funcional entre os topos distal e proximal do ciático, se deva a um fenómeno de adaptação por parte do animal (Chamberlain et

duração da fase de suporte do membro experimental é inferior à do membro normal (Dijkstra et al., 2000).

Em animais com o membro intacto, os valores de SFI nunca são 0, oscilando antes à volta de -10, demonstrando assim que este método não é inteiramente preciso. Daí o interesse em definir limites para a aplicação deste teste e ainda estabelecer correlações entre os resultados por meio destes testes e a histomorfometria (Luís, 2008).