Depois da leitura de Hamlet pedi para os atores criarem um roteiro da historia, queria saber qual era o entendimento que eles tiveram. Os relatos focaram nas nuances da historia, como na síntese a seguir: um príncipe que teve o pai morto e encontra o fantasma que o manda investigar a sua morte, na investigação descobre-se que foi o próprio tio do príncipe, combinado com a mãe, que matou o pai e o tio casou-se com a mãe do príncipe. Enquanto a investigação do príncipe esta em andamento, há também intrigas amorosas com sua noiva, com uma morte acidental do irmão da noiva do provocado pelo príncipe. Com a chegada de uma companhia de teatro Hamlet resolvem encenar a morte do pai do príncipe, para o tio, que se desespera e revela ser o assassino.
Por fim com a espada envenenada Hamlet é ferido de morte.
Debatemos sobre o sentimento de Hamlet, como ele estava nos quatro primeiros atos e depois no quinto ato. Chegamos à conclusão que o sentimento que ele passa é de
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um mergulho profundo na realidade, gerando angustia e melancolia. Pedi então que fosse escrito o sentimento que cada um passou, relativo à sua prisão, que gerou sentimentos parecidos com o de Hamlet.
Foram entregues as escritas que passaremos a analisar observando os direitos subjetivos da pessoa privada de liberdade e o mergulho existencial encontrado em Hamlet. Aqui se observa que os nomes não serão colocados, por questões legais:
Pessoa 1
Aquele dois de julho pareceu o último... ‘Doda, Doda’, um homem colocou uma arma na minha cabeça... Era minha irmã, sem saber que era a polícia! Mais dois ou três segundos estava preso... Naquele momento, eu já era um preso!... Falei que parecia o último? Era só o começo de um caminho que, pra mim, não existia horizonte... A cela que me colocaram era escura e fria... Tinha um buraco no chão que fedia como carniça!... eles chamam aquilo de “boi”... E, foi lá, onde tive que dormir por várias noites... Meu Deus, o que aconteceu comigo? Por que estás me deixando passar por isso?... Não vês o quanto já sofri a vida toda?... Por que não me deixou morrer aquele dia em que fiz uma “roleta-russa”? É claro que nem tinha tanto motivo; era por causa de uma garota besta e traíra pra caramba... mas, e agora, o que será de mim?... Fui fraco, não nego! Naqueles três primeiros dias, tentei morrer de tudo quanto foi jeito... de fome, de sede... Se eu tivesse, ao menos uma corda... e, ao invés disso, tive amigos... “esquenta não ‘latrô’, passa rápido”!... No dia da minha condenação, parecia anestesiado... 22 anos... Mal tinha vivido todo aquele tempo!... E, agora que cheguei aos sete... E outras tantas e tantas vezes fraquejei... Como é difícil essa vida, meu Deus!...Ter alguém que te visite é bom; o apoio da família, namorar... Mas, não vivemos a vida que eles vivem... Contamos sempre com algo que está do outro lado do muro... E, às vezes, falta coragem para esperar tanto... falta ânimo.”
Buscando em Hamlet o sentimento da Pessoa 1, onde a memoria é quase um fantasma, em que o corpo é quase inexistente. Um corpo que busca sentido para a dor, para a tortura de estar isolado do mundo em um ambiente de frio e medo. Em Hamlet encontramos uma profunda solidão que se equivale a da Pessoa 1:
HAMLET: Oh, que esta carne tão, tão maculada, derretesse, Explodisse e se evaporasse em neblina!
Oh, se o Todo-Poderoso não tivesse gravado Um mandamento contra os que se suicidam.
Ó Deus, ó Deus! Como são enfadonhas, azedas ou rançosas, Todas as práticas do mundo!
O tédio, ó nojo! Isto é um jardim abandonado, Cheio de ervas daninhas,
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Invadido só pelo veneno e o espinho Um quintal de aberrações da natureza.
Que tenhamos chegado a isto... (SHAKESPEARE 2010. p. 12)
Nos dois textos encontramos um desejo de morte, uma falta de sentido para a existência, uma geografia que não cabe no existente, um mundo que parece estar afetando de uma forma agressiva o existir. Sabendo desse mundo Hamlet e a Pessoa 1, reconhecem que o conhecimento sobrepõe á consciência, pois a consciência é anterior ao conhecimento, saber é estar consciente do saber, então o conhecimento não se coloca como apresentado nas pedagogias usadas na nossa educação, que coloca o conhecimento, o saber, como a priori á consciência. A consciência é reflexiva, a consciência é saber que se sabe, sendo assim devemos pensar no conhecimento da consciência.
“Doda, Doda”, é a consciência antes do conhecer, é o som da irmã que grita:
“Doda, Doda” que leva a consciência de ser, é o acesso ao ser, para depois conhecer. O conhecimento é consciência de alguma coisa, então devemos antes da consciência conhecer que somos conscientes. Esse entendimento leva a uma revisão das ações, dessa pessoa, ela vai analisar o ocorrido, a sua historia. Nessa analise ela toma conhecimento do seu existir e da existência do outro. Os gritos interiores dos dois personagens trazem consciência reflexiva sobre suas ações.
Mergulhar e criar uma analise ontológica fez parte desse relato, que traz como resultado o entendimento das suas emoções.
Os debates sobre esse tema: ter consciência de que somos conscientes, levou a muitas reflexões sobre as ações do homem no mundo. Levantamos vários acontecimentos históricos em que o que movia a pessoa era a irracionalidade e as consequência desse agir. Assim chegamos mais uma vez ás próprias historia das pessoas que comentem crimes, será que houve analise para a ação criminosa da pessoa ou será que foi o impulso que levou a essa ação? Muitas respostas foram dadas:
Pessoa 3 – ‘professor eu entrei no crime por vaidade, para ter o mesmo que os meus amigos que roubavam postos de gasolina.’
Pessoa 2 – ‘eu via as coisas nas lojas e pegava, nunca pensei nisso.’
Pessoa 6 – ‘pra mim foi uma coisa que levou a outra, a droga e depois o furto e por fim o latrô.’
Pessoa 4 – ‘agente não pensa nas consequências, só pensamos em mais e mais. ’
Hamlet com as sua reflexões existenciais levou as pessoas privadas de liberdade à reflexão sobre suas escolhas e uma analise sobre o mundo.
36 Pessoa 2
Brasil, por que me desamparaste?
Por que, quando criança, não me desses sequer a oportunidade de estudar?
Ah!, se eu tivesse estudado...
Será que, por eu morar na periferia, ser pobre ou ser filho de uma empregada doméstica, não poderia eu estudar ou trabalhar no mesmo colégio e emprego que você?
Saiba que, naquele momento em que você virou as costas para mim, fosses egoísta e preconceituoso com o teu filho...
E, me negando o direito de estudar e trabalhar, que são indispensáveis na vida de qualquer ser humano que queira se tornar um cidadão de bem, tu permitisses que eu viesse a traficar, mendigar, roubar... Como fiz várias vezes... Isso, enquanto você jogava fora quilos e quilos de comida.
Agora, por causa do teu preconceito e das más opções que tive, olha só onde estou!
Estou jogado num lugar onde a tristeza, o desespero, a opressão, a angústia e o medo apavoram o coração das pessoas...
Agora, qual será o sentimento que está no teu coração neste momento?
Por ventura, vai virar as costas para mim mais uma vez, como sempre fez e fingir que nada viu?
Ou terá compaixão de mim, ao ponto de me estender as tuas mãos para me ajudar a sair desse lugar?
Brasil, tudo que eu queria, nesse momento, era o teu perdão.
Mas, será que você pode me perdoar?
Preciso de uma oportunidade para ser livre como um de teus filhos.
Oportunidade, não apenas de estar fora das grades, mas, de poder estudar, trabalhar, fazer amigos, criar meus filhos que, há mais de sete anos, têm sido obrigados a viver sem mim, dependendo das migalhas dos outros...
Isso é, se você acreditar que uma pessoa que um dia veio parar neste lugar, possa se recuperar e reintegrar à sociedade novamente.
Se você acredita, me ajude! Tire-me desse lugar, desse buraco... Pois, estou me sentindo só e desamparado...
Ajude-me! Ajude-me, me ajude...
Brasil...
Aqui debatemos o sentimento de ser estrangeiro no próprio pais, por isso as perguntas sobre o que o pais fez com ele, e a pergunta, será que fiz? Ou foi o contrario?
Isso encontra ressonância em vários lugares em Hamlet, ele estuda fora da Dinamarca, são feitos comentários sobre o país que denigre as pessoas e o próprio território, ele no decorrer da historia é exilado. Assim encontramos ressonâncias desse estrangeirismo nos dois textos:
HAMLET: Oh, sim, como não. Mas, pro meu sentimento – e sou nascido aqui, criado nesses hábitos – é uma tradição que seria mais
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honroso romper, não respeitar. Esse deboche brutal nos transforma em alvos de insultos e achincalhes de todas as nações, do Oriente ao Ocidente, nos dá fama de bêbados, mancha nossa reputação;
dinamarqueses suínos. Todos os nossos feitos, por mais belos que sejam, ficam ofuscados por esse costume inglório. Isso acontece também com indivíduos que, por nascerem com algum defeito natural, do qual não são culpados (a Natureza não permite que escolham sua origem) têm um temperamento exaltado e rompem as fronteiras e defesas da razão; ou que, por adquirirem hábitos nocivos, de chocam com os comportamentos bem aceitos. Essas pessoas, digo, pela nódoa de um estigma – Marca da natureza ou azar do destino – Terão todas as suas virtudes desprezadas, sejam elas tão altas ou infinitas quanto o homem é capaz. Uma gota do mal, uma simples suspeita, transforma o leite da bondade no lodo da infâmia. (SHAKESPEARE 2010. p. (pág.
21).
Com o encontro dos dois textos o debate passa a ser sobre o papel do estado e suas implicações com os cidadãos, quanto mais o estado esta ausente maiores são as ofensas aos seus direitos. E o sentimento é de não pertencimento da pessoa a sua pátria. Assim a destruição pode ser um caminho para esse ser não pertencente. Os Direitos Humanos chamam a atenção para as politicas de afirmação da pessoa como pertencente, como atuante em seu país, conforme os artigos 3, 7 15 dos direitos humanos, onde o estado deve reconhecer a individualidade da pessoa e protege-la;
Observa-se que em Hamlet e na Pessoa 2 há uma insatisfação que vai além dos acontecimentos, extrapola os fatos históricos vividos pelos dois e projeta um sentido mais amplo, existencial, que transforma a analise do mundo transcendente e universal, aqui as personagens analisadas vão além da materialidade do mundo, é um sentimento metafisico, um lamento do resultado das historias contadas das pessoas e do território.
Se fosse outra historia seriam outros entendimentos, outras pessoas que existiriam.
Notamos que há uma busca, nos dois casos, de um encontro a um ser universalmente bom, transcendente ao mundo encontrado por eles.
Pessoa 3
Estar preso para mim foi conhecer o outro lado da vida que eu não conhecia.
Estou no lugar a onde não tenho o direito de ver a lua nem as estrelas.
É um lugar muito escuro onde a solidão mora comigo, ninguém vê a minha dor, só a solidão, são 09 anos assim.
Vendo um cenário de grades em minha frente, é triste, sinto angústia dor... Vejo as mesmas coisas todos os dias, nada muda.
Tudo isso me fez ver parte da minha vida ficar para trás, nesta data fui preso.
Eu sou testemunha, cadeia não é lugar para quem gosta da paz.
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A prisão quase tirou minha família de mim.
Eu estou marcado pelo resto da minha vida por que passei pela prisão.
Ao mesmo tempo em que lamenta, existe uma compreensão de que há outro lado, que podia fazer com que ele se tornasse outra pessoa. Mesmo com toda a realidade descrita por uma visão de angustia e sofrimento, encontramos um entendimento de que possibilidades podem ser criadas para a concepção de outro ser. Hamlet também lamenta a sua condição:
... HAMLET: Deus vos acompanhe.
(Saem Rosencrantz e Guildenstern.) Agora estou só.
Oh, que ignóbil eu sou, que escravo abjeto!
Não é monstruoso que esse ator aí, Por uma fábula, uma paixão fingida, Possa forçar a alma a sentir o que ele quer, De tal forma que seu rosto empalidece,
Tem lágrimas nos olhos, angústia no semblante, A voz trêmula, e toda sua aparência
Se ajusta ao que ele pretende? E tudo isso por nada!
...
Pois devo ter fígado de pomba, sem o fel Que torna o insulto amargo,
Ou já teria alimentado todos os abutres destes céus Com as vísceras desse cão.
Ah, vilão obsceno e sanguinário!
Perverso, depravado, traiçoeiro, cínico, canalha!
Ó, vingança!
Mas que asno eu sou! Bela proeza a minha.
Eu, filho querido de um pai assassinado, Intimado à vingança pelo céu e o inferno, Fico aqui, como uma marafona,
... (SHAKESPEARE 2010. p. (pág. 48)
Foi tirado da Pessoa 3 e de Hamlet a capacidade de encaixar os fundamentos do seus mundos na nova realidade. Tudo que os dois sabem se esfacelam ao olhar e analisar as suas próximas ações. As visões, aparentemente retorcidas da realidade fazem com que os personagens busquem um entendimento que é a realidade, “Fico aqui, como uma marafona,” e “Tudo isso me fez ver parte da minha vida ficar para trás,” o lamento não retira o desejo de enfrentamento da realidade, eles buscam uma saída. “Ó, vingança!” diz Hamlet, como uma ação futura e “a prisão quase me tirou a família”, quase não é absoluto, significa que ele ainda tem família e que isso o faz capaz de agir no futuro.
39 Pessoa 4
Aqui a minha vida cheira a morte, ou melhor... Fede a morte. E a morte cheira? Realmente o fedor fúnebre só existe nos vivos! Esse fedor vem da corrupção do homem, da riqueza e do poder. Esses ficam incomodados com os subalternos, o subproduto humano, pois ai a pobreza prolifera e o cheiro é outro, a morte com outo cheiro. Os famintos se proliferam a dor a miséria geram frustrações, contra o amor cultuam o ódio. Vemos com isso publicarem crimes, assassinatos, sequestros, roubos, guerras... a violência gerando mais violência
Essa apologia de impor a dor por muitos anos deixa de funcionar.
É humilhante ler a historia do Brasil e ver que meus ancestrais só lhes fizeram o bem, em sociedade... Criou os vossos filhos, fez o trabalho pesado e sem reclamar. Como pagas o bem com o mau? Aqui no chilindró ainda escutamos o estalar do chicote.
Aqui eu na tumba de pessoas vivas Venci a morte
Lancei-a no calabouço do esquecimento.
Por mais que a mim humilhas Nunca me aprisionará
A mente pertence ao infinito, escuridão total Alguém ai? Alguém me escuta? Socorro?
O que é ser um prisioneiro? É estar trancado em uma cela, ou ter mil formas de libertar o espirito? Essas perguntas são feitas sempre entre as pessoas privadas de liberdade, e quando encontram um sentido para a sua existência, pode ser no trabalho, na educação, o teatro e mesmo na religião, percebemos um entendimento diferente de prisão dessas pessoas, prisão torna-se uma metáfora,
HAMLET: Deixa eu ver. (Pega o crânio.) Olá, pobre Yorick! Eu o conheci, Horá-cio. Um rapaz de infinita graça, de espantosa fantasia.
Mil vezes me carregou nas costas; e agora, me causa horror só de lembrar! Me revolta o estômago! Daqui pendiam os lábios que eu beijei não sei quantas vezes. Yorick, onde andam agora as tuas piadas? Tuas cambalhotas? Tuas cantigas? Teus lampejos de alegria que faziam a mesa explodir em gargalhadas? Nem uma gracinha mais, zombando da tua própria dentadura? Que falta de espírito! Olha, vai até o quarto da minha grande Dama e diz a ela que, mesmo que se pinte com dois dedos de espessura, este é o resultado final; vê se ela ri disso! Por favor, Horácio, me diz uma coisa. (SHAKESPEARE 2010.
p. 100)
Hamlet toma consciência de que a liberdade pode ser desaprisionada pelo sarcasmo, pelo riso, e sugere Yorick que leve a solução encontrada em seu interior. A
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consciência da dor, da angustia leva ao entendimento de que a liberdade esta além das grades, das traições, dos desrespeitos.
Pessoa 5
Engraçado, aqui no presidio não conheço um ladrão rico e dizem que roubam a grana de hospitais e escolas. A senhora justiça social não sabe onde eles estão não deveriam dividir uma sela comigo, ou estar no meu lugar? Aqui não tem ninguém.
Espera ai esse Ninguém sou eu.
Estou na prisão, lembra.
E aqui como a comida do cão.
Cão não, é sacanagem com bichinho.
Quem me dera ser um cão.
As cadeias do Brasil não cabem mais gente Alguém acha que estou mentindo?
vem passar um final de semana conosco.
Aviso. As vagas são só para o ano de 2069.
E por favor, não traga nada, nem roupas,
aqui não é permitido.
Em Hamlet encontramos a seguinte:
HAMLET: Então se aproxima o fim do mundo. Mas essa notícia não é verdade. Deixem que os interrogue com cuidado: o que é que vocês fizeram com a Fortuna pra ela jogá-los nesta prisão?
GUILDENSTERN: Prisão, meu senhor?!
HAMLET: A Dinamarca é uma prisão!
ROSENCRANTZ: Então o mundo também.
HAMLET: Uma enorme prisão, cheia de células, solitárias e masmorras – a Dinamarca é das piores. (SHAKESPEARE 2010. p.
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Observamos tanto em Hamlet quanto no depoimento da Pessoa 5 que há uma engrenagem para desmerecer a pessoa, enquanto na Dinamarca essa engrenagem é constituída de num sentido existencial, no Brasil as condições das prisões são desumanas. Aqui devemos lembrar que a realidade dos Direitos Humanos não é observada, onde deveria ter quatro encontramos quinze. A comida é uma lastima, muitas vezes vemos dezenas de quentinhas jogadas no lixo, perguntamos a razão ai vêm respostas como essas: “estava azeda”, “é carne de monstro, professor”, a carne mal cozida, o café com leite é “Chernobyl” dá diarreia, modificar a comida na cela é “melhorado” e ela é feita no “fogão”, garrafa pete recortada ao meio e queimada para não derreter, ali é colocado papel, plásticos e tudo que possa queimar para esquentar a quentinha e fazer o “melhorado”.
Pessoa 6
Silencio vazio.
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Chegou a hora de dormir a cela é de 6 metros quadrados, como esta escrita na Lei de Execução Penal. Só que essa lei foi alterada, sem passar pelo congresso, onde deveria ter um tem três. Onde era para ter oito, tem vinte e sete, por enquanto. E a violência só aumenta... e vai continuar?
Nada me arruína mais o corpo, nada me destrói mais a alma, nada me corrói de modo mais funesto do que o sofrimento psicológico.
Muito sofrimento traz resultados negativos: quando somos excluídos, humilhados, desligados da realidade, e tachados de irrecuperáveis, tais imagens trará repercussões futuras? Ou será que somente vivo em uma ilusão? Ou será um ciclo vicioso pode alcançar proporções alarmantes?
Aqui encontramos a síntese existencial de Hamlet:
HAMLET: Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias – E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir Dores do coração e as mil mazelas naturais A que a carne é sujeita; eis uma consumação Ardentemente desejável. Morrer – dormir – Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte Quando tivermos escapado ao tumulto vital Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão Que dá à desventura uma vida tão longa.
Pois quem suportaria o açoite e os insultos do mundo, A afronta do opressor, o desdém do orgulhoso, As pontadas do amor humilhado, as delongas da lei, A prepotência do mando, e o achincalhe
Que o mérito paciente recebe dos inúteis, Podendo, ele próprio, encontrar seu repouso Com um simples punhal? Quem aguenta Gemendo e suando numa vida servil,
Senão porque o terror de alguma coisa após a morte – O país não descoberto, de cujos confins
Jamais voltou nenhum viajante – nos confunde a vontade, Nos faz preferir e suportar os males que já temos,
A fugirmos pra outros que desconhecemos?
E assim a reflexão faz todos nós covardes.
E assim o matiz natural da decisão
Se transforma no doentio pálido do pensamento.
E empreitadas de vigor e coragem, Refletidas demais, saem de seu caminho, Perdem o nome de ação. (Vê Ofélia rezando.) Mas, devagar, agora!
A bela Ofélia!
(Para Ofélia.) Ninfa, em tuas orações Sejam lembrados todos os meus pecados.
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O principal monologo de Hamlet, pode ser visto em todas as falas que foram colocadas e também nas pessoas que se encontram em restrição de liberdade. Toda a profundidade existencial carregada de um profundo drama teatral, fez com que esse texto fosse referencia de muitas montagens. Chamar a atenção para a realidade carcerária e revelar quantas existências são refeitas no cárcere torna pessoas privadas de liberdade em Hamlet Encarcerados.