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Análise documental de manuais do partejar e parir

CAPÍTULO 1: SABERES DO PARTEJAR NARRADOS NA VELHICE

1.4 Caminhos metodológicos

1.4.2 Análise documental de manuais do partejar e parir

Nesta pesquisa, além das fontes orais são utilizados um guia que indica como supervisionar parteiras, destinados aos médicos e obstetras que estavam atuando como vigilantes sanitários, um manual de capacitação para parteiras e um livro para gestantes. Todos podem ser entendidos, a partir da classificação de Maria Fonseca (2002), como documentos de caráter didático-pedagógico.

O/a historiador/a que trabalha com fontes da saúde encontrará tipos diversificados. Segundo Fonseca (2002, p. 278-285) são: ―documentos administrativos e legislativos‖ (atas, relatórios, ofícios, decretos, etc.); ―documentos de caráter didático-pedagógico‖ (programas dos cursos, guias de estudantes, lições,

manuais médicos e de medicina popular); ―documentos de caráter acadêmico e cultural‖ (memórias, correspondências, conferências); ―documentos de viajantes, religiosos, naturalistas, cronistas‖; ―documentos de caráter geográfico e corográfico‖ (descrições sobre epidemias, endemias, vegetais, localização de hospitais); ―documentos de sistematização‖ (catálogos e índices); ―documentos de divulgação‖ (periódicos e almanaques de saúde); ―documentos científicos‖ (livros, artigos, teses); ―documentos de referência teórica‖ (obras referências no ensino e na prática da medicina); ―documentos regionais e gerais‖; ―documentos memorialistas e biográficos‖; ―histórias das ciências biomédicas e da saúde‖ (obras de profissionais da área biomédica); ―histórias sociais das ciências biomédicas‖ (obras de autoria de cientistas sociais), divididas em ―histórias das instituições de ensino‖, ―histórias das associações profissionais e da imprensa médica‖, ―histórias das instituições de pesquisa‖ e ‖histórias da saúde pública‖.

Apesar dessa identificação, didático-pedagógicos, as metodologias de livros didáticos, não podem ser empregadas aos manuais aqui abordados, pois, diferentemente daqueles não estão voltados para o espaço escolar. ―O livro didático, então, é uma mercadoria destinada a um mercado específico: a escola.‖ (MUNAKATA, 2012, p. 185). Já as fontes desta pesquisa estão voltadas para a autoinstrução e a vigilância sanitária.

Roger Chartier (2011, p. 154) colocou que durante muito tempo as aprendizagens de um ofício se deram a partir da ―transmissão oral e visual dos saberes‖, mas com o passar do tempo a cultura escrita assumiu a postura de saber autorizado. Mencionou o papel dos manuais auto-instrutivos de ofícios, no aprendizado de saberes, técnicas e práticas, mas também na subjugação da sabedoria iletrada.

[...] desde os séculos XVI e XVII, e talvez até mesmo antes da invenção da imprensa, em algumas partes da Europa, a leitura de livros era a prática predominante de aprender não só o conhecimento e saberes, mas as técnicas e práticas. [...] Estabelece-se, assim, no mundo de profissões manuais, uma forte relação entre a prática profissional e a posse, consulta e leitura de livros — uma relação que caracterizava, desde os tempos do manuscrito, os clérigos, os advogados, os médicos e os cirurgiões. [...] esses manuais, de clara finalidade educativa e prática, foram lidos sem a preocupação com sua utilidade, mas por outras razões [...]. Os inimigos contra os quais deve-se fundar a aprendizagem escolar são práticas empíricas, as superstições arcaicas, os falsos conhecimentos transmitidos pela tradição oral. A leitura é a única maneira de aprender (CHARTIER, 2011, p. 155-156).

Foram identificadas algumas autoras que trabalham com fontes similares as citadas aqui. Maria Regina Guimarães (2005) analisou os manuais de Medicina popular do Dr. Chernoviz, para entender a difusão de saberes e práticas aprovadas pelas instituições médicas oficiais para regiões rurais do Brasil imperial. Betânia Figueiredo (2005) avaliou em que medida os manuais de Medicina popular exerciam o papel de divulgadores do conhecimento médico sistematizado nas academias brasileiras, no século XIX. As autoras descrevem suas fontes, no intuito de responder seus problemas de pesquisa, todavia, não explicitam uma metodologia de análise.

No manual de capacitação e no de supervisão de parteiras se observará as práticas higienistas que pretendiam ser desenvolvidas a partir desta ―instrução‖. Já no livro para gestantes, o intuito é buscar relações de gênero entre: parturiente e parteira, parturiente e médico, parturiente e companheiro ou pai do bebê, parturiente e seu contexto histórico-social18. A partir da possiblidade de observar contexto, autor(es), autenticidade e confiabilidade, natureza e conceitos-chave com lógica interna da fonte, a análise documental foi escolhida como metodologia (CELLARD, 2010).

O ―Guía de orientación y supervisión de parteras empíricas: para enfermeras y obstetrices responsables del programa‖ é um material produzido pela Organização Pan-Americana de Saúde, em 1969. É um guia de como executar a orientação e supervisão das parteiras, direcionado a enfermeiras e obstetrizes diplomadas.

A Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) foi criada em 1902. A incorporação da OPAS à Organização Mundial da Saúde se deu em 1948, já que a última foi criada em 1946, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. Com o desenvolvimento industrial e urbano no Brasil, a partir dos anos 1960 e 1970 a OPAS intensificou os estudos e projetos sobre pobreza e sanitarismo e o manual aqui apresentado reflete tal preocupação (PIERUCCI, 2009).

Constou como justificativa da elaboração do material o interesse crescente em vários países da América Latina em programas de orientação e controle de

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Apesar de estes manuais terem sido divulgados no país, as entrevistadas não tiveram acesso a eles. Os cursos realizados por algumas das parteiras continham apenas instruções empíricas.

parteiras empíricas, mas salientou que era uma maneira temporária de suprir a escassez de profissionais qualificados. Foi dirigido a enfermeiras e obstetrizes que seriam responsáveis por orientar e supervisionar parteiras empíricas.

O programa deveria ser desenvolvido a partir de um calendário de reuniões, cada uma delas tendo um tema: “I Cómo es la Partera Empírica Orientada”; “II Cómo es el Embarazo y los Meses de Espera”; “III Cómo es la Mujer Gestante y cual debe ser su cuidado”; “IV Cuál es el Equipo de la Partera Empírica, su uso y cuidado”; “Cómo es el Trabajo de Parto y cual debe ser el cuidado de la Madre”; “VI Cómo es el nacimiento y cual debe ser la asistencia dada a la Madre y al Recién Nacido”; “VII Cuál debe ser el cuidado de la Madre y el Recién Nacido durante el Puerperio”; “VIII Cómo es el niño Prematuro y cuáles son sus necesidades especiales”; “IX Cuál debe ser la colaboración de la Partera Empírica Adiestrada en Beneficio de la Comunidad”; “X Revisión y finalización de la Orientación” (OPAS, 1969, p. 19-20).

O ―Manual elemental de Obstetrícia: Guía para parteras auxiliares‖, tem como autora Helen Cox19. Publicado em 1973, é um livro para instrução de mulheres que pretendessem se tornar parteiras auxiliares, tendo alguma experiência com a parturição ou não. Todavia, é um guia que apontou somente os deveres da parteira para com a comunidade.

O manual trabalha atenção pré-natal, parto, pós-parto na unidade A. Na unidade B: A auxiliar de Obstetrícia como trabalhadora da saúde. Estabelecimento de um centro de saúde e atenção da família. Unidade C: Enfermeira elementar: sinais vitais, aplicações locais e sondas. E por fim, na unidade D: Primeiros auxílios.

Este material apontou que o principal papel da parteira era a educação sanitária. Trouxe uma lista dos conhecimentos e experiências necessários à parteira, estando a educação sanitária em primeiro lugar. “Educación sanitaria”; “Nutrición”; “Planificación familiar”; “Desarrollo y cuidado del niño y enfermedades comunes de la infancia”; “Enfermedades comunes trasmisibles”; “Higiene personal y ambiental”; “Prácticas elementales de enfermaría” e “Aptitud para el manejo del hogar.” (COX, 1973, p. 126)

Assim como o guia, este manual está em espanhol e no acervo da Biblioteca de Medicina da UFPel. Contudo, enquanto um tem um caráter de supervisão o último é de instrução, mas ambos podem indicar relações, em perspectivas diferentes, entre as parteiras e o sanitarismo. Serão utilizados principalmente, no capítulo dois abordando a higienização do parto.

―Gravidez e parto‖ é um manual dedicado a gestantes publicado em 1984 no Brasil, que tem como autora Sheila Kitzinger. Ela foi uma antropóloga britânica, escritora e ativista do parto natural e humanizado. Escreveu mais de 20 livros sobre maternidade, gravidez, gestação, parto, bebês, família e feminismo. Suas primeiras produções datam da década de 1970 e são consideradas referências para a humanização do parto ainda na atualidade. Morreu em 2015, com 85 anos.

Na apresentação do livro a autora disse:

Este livro descreve as opções que existem para o parto, de modo que você pode decidir como gostaria de ter seu bebê, o tipo de cuidados que prefere, como encarar seu próprio papel e como você deseja que seu bebê seja recebido neste mundo. Inclui também sugestões sobre como conduzir as conversas com seu médico, como apresentar aquilo que você quer, como perguntar sobre tudo que a preocupa e partilhar as importantes decisões sobre você mesma e seu bebê. O livro também fornece uma espécie de mapa do que ocorre durante a gravidez e durante o trabalho de parto. Por outro lado, explica quem faz o que para você e porquê, o que essas pessoas estão procurando fazer e o que acontece quando as coisas não são conduzidas com inteira franqueza (KITZINGER, 1984, p. 2).

O livro é dedicado às gestantes ou àquelas que querem se preparar para a gravidez e foi localizado no acervo da Biblioteca Pública Pelotense. Com muitas fotos e leitura de fácil compreensão, trabalhou questões práticas como posições para parir, formas de diminuir a dor e até mesmo a compreensão de que a ―dor‖ do parto pode não ser sentida por algumas parturientes e que ela é diferente das dores de uma doença ou ferimento. Pontuou questões fundamentais na equiparidade dos gêneros quanto ao papel do pai/companheiro no momento da gestação e na criação dos filhos. Também indicou como a parturiente deveria proceder caso quisesse um parto domiciliar ou menos intervencionista. Será uma fonte fundamental nas abordagens da humanização do parto, no capítulo dois e das relações de gênero, no capítulo três desta dissertação.