3 METODOLOGIA
3.4 ANÁLISE DOS DADOS
KAUFMANN (2001) mapeou a difícil articulação entre teoria e dados nas ciências humanas, com a preocupação de se afastar do senso comum. Tal preocupação, no campo das representações, é mais pertinente em se tratando do tema sexualidade, tão complexo e vivenciado por todos. KAUFMANN (2001, p. 13) assim se expressa sobre a difícil arquitetura entre teoria e campo:
O pesquisador deve progressivamente impor a ruptura com o senso comum, formulando a arquitetura da organização das categorias. Deve-se hierarquizar, privilegiando conceitos que parecem ser mais interessantes. Este trabalho compreende um grande esforço na redução do material bruto e subordinação das categorias que lhe são anexas. De uma certa maneira, o que se faz é um luto do campo, já que este é muito rico, sedutor afetiva e intelectualmente e, desta forma, os cortes são feridas.
O produto das entrevistas foi avaliado com base na técnica de análise de conteúdo (AC), entendida como “um método de tratamento e análise de informações, colhidas por meio de técnicas de coleta de dados, consubstanciadas em um documento. A técnica se aplica à análise de textos escritos ou de qualquer comunicação (oral, visual, gestual) reduzida a um texto ou documento” (CHIZZOTTI, 1991, p. 98).
Apesar dessa definição, BARDIN (1977, p. 31) ressalta a dificuldade de se compreender a AC como um método uniforme, alertando para o fato de que trata-se, antes, de “um conjunto de técnicas de análise das comunicações”. Por isso, complementa, deve-se entender a AC não como um instrumento, mas como: “um leque de apetrechos; ou, com maior rigor, será um único instrumento, mas marcado por uma grande disparidade de formas e adaptável a um campo de aplicação muito vasto: as comunicações”.
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Para MORAES (1999, p. 2) a análise de conteúdo constitui uma metodologia de pesquisa usada para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos e textos, fornecendo informações complementares ao leitor crítico de uma mensagem. Funciona como uma “ferramenta, um guia prático para a ação”.
Para BARDIN (1977, p. 134), “a análise de conteúdo pode ser uma análise dos significados (exemplo, a análise temática), embora possa ser também uma análise dos significantes (análise léxica, análise dos procedimentos)”. Enquanto um conjunto de técnicas de análise das comunicações, corresponde a dois objetivos fundamentais: a ultrapassagem da incerteza e o enriquecimento da leitura. Parte, então, sempre da análise da própria mensagem que constitui “o material, o ponto de partida e o indicador sem o qual a análise não seria possível”.
No caso da investigação desta dissertação, a mensagem foi provocada pela técnica da entrevista aberta proposta por DELVAL (2002).
Para o encaminhamento da análise de conteúdo na presente investigação, foram utilizadas as etapas concebidas por MORAES (1999, p.6): preparação das informações, unitarização, categorização, descrição e interpretação.
Resumidamente, esse processo constitui-se da seguinte seqüência: as fitas oriundas das gravações das entrevistas abertas, que corresponderam a aproximadamente dez horas de gravações, foram transcritas para a linguagem escrita, mantendo-se, o mais próximo possível, a forma coloquial do desenrolar da comunicação.
Posteriormente esse material (corpus) foi lido exaustivamente, de forma a permitir a identificação do todo e a identificação das unidades de análise. As unidades de análise foram reorganizadas em categorias de análise, de acordo com a parte em comum entre elas, reduzindo o volume de dados a serem descritos (citações) e interpretados. Do documento emergiram palavras, temas, personagens e itens importantes a serem considerados na análise.
3.4.1 A Fala dos Adolescentes - Preparação e unitarização
Na pesquisa qualitativa, o material utilizado é a palavra, que expressa a fala cotidiana, nos discursos intelectuais, burocráticos, políticos e nas relações afetivas
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ou técnicas. Neste método, procura-se interpretar o conteúdo das falas, ultrapassando a mensagem e conhecendo significados latentes.
As gravações relativas às entrevistas, compostas de 52 questões, foram transcritas de tal forma a constituir o corpus ou documento a ser analisado.
Na releitura ficou evidente a pertinência de iniciar por unidades de análise mais amplas, definindo-se as unidades temáticas.
As informações recebidas foram codificadas de acordo com o grupo ao qual pertencem os entrevistados. Assim:
Código 17M = refere-se a mensagens emitidas pelos adolescentes (masculinos) de 17 anos;
Código 17F = refere-se a mensagens emitidas pelas adolescentes (femininas) de 17 anos;
Código 17MF = refere-se a mensagens emitidas pelos adolescentes masculinos e adolescentes femininas de 17 anos;
Código 19M = refere-se a mensagens emitidas pelos adolescentes (masculinos) de 19 anos;
Código 19F = refere-se a mensagens emitidas pelas adolescentes (femininas) de 17 anos;
Código 19MF = refere-se a mensagens emitidas pelos adolescentes masculinos e adolescentes femininas de 19 anos;
Código M = refere-se a mensagens emitidas pelos adolescentes (masculinos) de 17 e 19 anos;
Código F = refere-se a mensagens emitidas pelas adolescentes (femininas) de 17 e 19 anos
N. de ordem Unidades temáticas
01 o ser adolescente
02 o ser sexualescente3
3 neologismo que procura traduzir um conceito indispensável a esta tese: fundamenta-se etimologicamente no também neologismo "sexualizar" já registrado pelo Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa: verbo transitivo direto e pronominal. 1. dar ou adquirir caráter ou aspecto sexual, conteúdo ou conotação sexual ou erótica. Ex.: <interpretações psicanalíticas sexualizam folguedos infantis>. <de repente, a amizade que sentia por ela sexualizou-se>. Transitivo direto e pronominal: 2.
dar ou adquirir energia, tendência ou impulso sexual. Dessa forma, engendrado hipoteticamente sobre uma construção etimológica nos moldes de "sexualescere", a significar "adquirir sexualidade ou iniciar-se sexualmente"; "sexualescência" seria neologismo derivado: a ação (ou o estado) de
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03 sexo e afetos
N. de ordem Unidades temáticas
04 homossexualidade
05 drogas
06 rótulos e estereótipos
07 prevenções e responsabilidades
08 atores na gravidez precoce
09 atores na contaminação
10 fontes informativas
desenvolver sexualidade, adquiri-la ou ainda iniciar-se sexualmente; Por extensão, "sexualescente"
seria aquele que adquire sexualidade, ou que se inicia sexualmente.
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