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Capítulo II – A Pesquisa: trajetória e metodologia

II.3 Análise dos dados: entrevistas e documentos

Para proceder à análise dos “dados”, entendendo que nada é realmente “dado” e tudo é de fato construído pelo olhar e trabalho do pesquisador, me apoio em Moraes & Galiazzi (2007, p. 7), entendendo que estes autores me auxiliaram com a análise das entrevistas transcritas, tanto da 1ª quanto da 2a etapas e dos documentos, em que estes foram submetidos à análise textual discursiva (ATD), que é “uma metodologia de análise de dados e informações de natureza qualitativa com a finalidade de produzir novas compreensões sobre os fenômenos e discurso”.

De acordo com os autores supracitados, essa metodologia se situa entre a análise de conteúdo e a análise do discurso. Esta metodologia vem sendo ultimamente bastante utilizada em pesquisas no ensino de Ciências, visando a interpretação e sistematização

dos resultados (TORRES et al., 2008; GONÇALVES, 2009; CIRINO & SOUZA, 2010).

De acordo com Moraes & Galiazzi (2007), uma primeira leitura permite que se faça a fragmentação dos textos, do corpus da análise que, neste trabalho, é considerado como o conjunto das 26 entrevistas transcritas na 1a etapa e 7 entrevistas na 2a etapa, e sendo exatamente ele o lugar onde ocorre o processo de unitarização. Esses autores compartilham do entendimento de que toda leitura já tem em si, implícita, uma interpretação. Nesta etapa da unitarização, há a desmontagem dos textos, onde é importante focalizar novos detalhes e componentes que fornecem um novo sentido ao texto, sem se perder de vista os objetivos da pesquisa.

Nesse sentido, na pesquisa em questão, procurei enxergar com as leituras das entrevistas não somente o óbvio explicitado pelos sujeitos entrevistados, mas as subjetividades presentes, na medida em que transcorria o desenvolvimento da pesquisa de campo e que, ao mesmo tempo, iam sendo desvendadas, juntamente com o levantamento histórico documental, as disputas de poder, os grupos hegemônicos e as relações de forças entre as instituições envolvidas na criação do curso de formação de professores de Química. Não pretendia, aqui, “aplicar” uma metodologia para a análise das transcrições simplesmente, mas sim compreender o que havia por trás dos depoimentos gerados pelos entrevistados, tendo em vista que, segundo Moraes (2003, p. 192), “os materiais textuais constituem significantes a que o analista precisa atribuir sentidos e significados.”

Com a desconstrução dos textos, a unitarização fez com que fossem destacados novos elementos e surgissem, segundo Moraes (2003, p. 192), as unidades de análise ou unidades de significado ou unidades de sentido. Neste trabalho, optamos por

denominar de unidades de sentido os elementos constituintes da desconstrução dos textos.

A etapa posterior foi o denominado por Moares & Galiazzi (2007, p. 12) de “estabelecimento de relações” entre as unidades de sentido similares, formando assim “conjuntos que congregavam elementos próximos, resultando daí sistemas de categorias.” Com isso, as unidades de sentido foram submetidas a um processo de categorização que considerou aspectos relevantes presentes no roteiro da entrevista semi-estruturada, mas que não considerou categorias pré-estabelecidas para o corpus analisado na 1a etapa. A categorização foi feita, então, considerando o referencial teórico da pesquisa e o que pretendia alcançar com as questões da entrevista, o que possibilitou, em uma próxima etapa, a construção do metatexto.

Com relação à 2a etapa, o roteiro continha quatro eixos com uma série de questões e, do mesmo modo como foi pensado na 1a etapa, as categorias foram pensadas para cada um dos quatro eixos. De acordo com Moares & Galiazzi (ibid., p. 15), “o conhecimento das teorias que fundamentam uma pesquisa pode facilitar o processo de análise textual”, de forma que a partir dos teóricos e das questões a serem respondidas neste estudo foram criadas as categorias desta etapa.

Assim, na 1a etapa, as unidades de sentido foram congregadas em nove categorias: Criação do curso, Concepção do curso de LIQ, Embates entre a FE e o IQ,

Relação entre a FE e o IQ, Concepção de formação de professores,

Disciplinas/currículo, Prática docente, Perfil dos alunos e Trabalho de conclusão de curso. Para a 2a etapa, as categorias foram distribuídas pelos quatro eixos, sendo que no primeiro eixo as categorias foram Criação do curso, Atuação na universidade, Educação Química, Função do coordenador e Políticas públicas em educação; no segundo eixo foram Disciplinas/currículo, Currículo, Reformas curriculares e Relação

entre a FE e o IQ; no terceiro eixo, foram Concepção de formação de professores do curso, Formação de professor, Pesquisa no ensino, Relação teoria-prática, Integração disciplinar, A parceria FE-IQ e Status do curso; e no quarto eixo, foram Perfil dos alunos, O exercício da docência no curso de LIQ, O ato de ensinar, Saber da experiência, O curso na universidade, Química no Ensino Médio, O ensino de Química hoje e O bom professor de Química.

As categorias Criação do curso, Disciplinas/currículo, Relação entre a FE e o IQ e Perfil dos alunos estão distribuídas entre os quatro eixos e podem ser observadas no Apêndice H. Elas foram analisadas nas entrevistas da 1a etapa, e, apesar de apareceram nos depoimentos da 2a etapa, não foram novamente discutidas.

Por fim, a última etapa possibilitou que se construísse um metatexto partindo da interpretação das unidades de sentido que foram agrupadas em categorias elaboradas na etapa anterior, considerando-se os contextos em que foram produzidos, isto é, as questões do roteiro da entrevista semi-estruturada, relacionando-os aos referenciais teóricos interpretados a luz das questões que orientaram esta pesquisa. A análise dos depoimentos da 1a etapa é apresentada no Capítulo IV e a análise referente a 2a etapa é apresentada no Capítulo V.

Cumpre ressaltar que, nas entrevistas, tanto da 1a quanto da 2a etapas, busquei estabelecer com os entrevistados uma relação que permitisse a recuperação, a problematização e a interpretação do passado, já que este trabalho versou sobre a compreensão da participação de sujeitos na construção sócio-histórica do currículo de um curso de formação de professores de ensino superior em um determinado período histórico (ALBERTI, 2004).

Para a análise dos documentos, os mesmos foram lidos e, após sua leitura, as informações contidas nos textos foram desconstruídas. Em seguida, foram selecionadas

as unidades de sentido e, após, estas foram agrupadas por categorias. A análise é apresentada no Capítulo IV. As informações mais relevantes referentes aos itens (i), (ii), (iii), (iv), (v), (vii), (viii) e (ix) são apresentadas em Tabelas no Anexo 1.

Dispor os dados assim é uma forma de facilitar o acesso do observador à fonte, de maneira que se tenha o máximo de informação e pertinência possíveis, já que não foi possível anexar todos os documentos analisados. Com relação aos documentos do item (vi), fragmentos destes são apresentados e discutidos no Capítulo III.

Capítulo III - O curso de Licenciatura em Química do Instituto de Química da