Capítulo 5. LINGÜÍSTICA TEXTUAL E PROPOSTAS CURRICULARES
5.2 Análise dos dados sob a perspectiva de uma orientação curricular
5.2.1 Uma leitura de Propostas de Ensino
Primeiramente façamos um apanhado de dois agrupamentos de propostas curriculares: aquele que concentra as propostas desenvolvidas pelo Estado de São Paulo, nos anos 80, de nível local; e o segundo representado pelos PCNs, em nível nacional.
Nomeado de Subsídios à proposta curricular de Língua Portuguesa para o 1º e 2º graus ─ Coletânea de textos ─ volumes I, II, III e editado pela Secretaria de
Estado da Educação ─ São Paulo ─ Coordenadoria de Estudos e Normas pedagógicas, em 1988, o documento em análise traz na apresentação do primeiro volume:
“Os ‘SUBSÍDIOS À PROPOSTA CURRICULAR DE LÍNGUA PORTUGUESA PARA O 1º E 2ºGRAUS ─ COLETÂNEA DE TEXTOS” apresentam-se em três volumes.
Neste 1º volume são abordados aspectos relativos à linguagem, às variações lingüísticas e à construção do texto.
Os volumes II e III discutem, respectivamente, o ensino do vocabulário e da gramática e aspectos da história da língua, a perspectiva dialógica da leitura e dos textos e a história literária.
Os textos foram extraídos dos Subsídios à Proposta Curricular de Língua Portuguesa para o 2º Grau ─ 8 vols. Esse material, publicado em 1978, visava implementar a Proposta Curricular de Língua Portuguesa para o 2º Grau (1977) e sua elaboração foi coordenada pelo Prof. Ataliba Teixeira de Castilho.
A reimpressão desses textos justifica-se pelo fato de que eles se mantêm atualizados, subsidiando a compreensão das Propostas Curriculares de Língua Portuguesa de 1º e 2º Graus, elaboradas em 1986, pela Equipe Técnica de Língua Portuguesa ─ CENP.
Dentro do princípio que norteou a construção das propostas, estes subsídios não pretendem ser um receituário mas um objeto para alimentar a reflexão, o debate, as iniciativas de cada escola, grupo de professores e professores no sentido da melhoria do ensino, sobretudo da escola pública.”
Nos dezoito trabalhos que compõem esses três volumes não há nenhuma citação à obra de Bakhtin, nem em relação à concepção de linguagem, nem aquelas concernentes aos estudos de gênero; não se fala também nos teóricos responsáveis pela formulação dos postulados da LT, nem de seus temas (textualidade, coesão/referenciação, coerência, tipologia/gêneros). Temos, nas referências bibliográficas, um trabalho de Halliday60, mas não aquele fundador dos estudos de coesão.
Os artigos, de uma forma geral, são de cunho estruturalista e descritivista. Influência da perspectiva estruturalista dominante até os anos 60. Do conjunto de
artigos, o que mais se aproxima do material dessa mostra é o oitavo do volume I (Três tipos de discurso, Rosa Helena Blanco Martinez) que à página 82 diz “Trataremos aqui dos discursos tradicionalmente descritos pela retórica, como
Descrição, Narração e Dissertação.”
O texto ─ como núcleo central de pesquisa e ensino ─ não aparece. Não encontramos nessa proposta, como se observou, os grandes postulados da LT, nem os autores por ela responsáveis. Pode-se afirmar que neste momento o ensino já busca na Lingüística aporte teórico para fundamentar suas atividades ─ e a academia procura contribuir nessa empreitada ─ no entanto percebe-se uma dificuldade no clareamento de como exatamente a Lingüística pode contribuir para o ensino de Língua Portuguesa.
Em material um pouco posterior61, 1993, também não se encontra citação à obra do pensador russo M. Bakhtin, o que comprova sua pouca influência nas práticas pedagógicas deste período. No entanto já é possível encontrar, nas referências bibliográficas, alguns trabalhos de Koch, 1989, 1991; e Koch e Travaglia, 1989. O trabalho com textos passa a ser o foco dos artigos. Percebe-se, portanto, que a LT (aqui representada pelos trabalhos de Koch), paulatinamente vai ganhando espaço na teorização de propostas curriculares do ensino de Língua Portuguesa.
61 SÃO PAULO (ESTADO) SECRETARIA DA EDUCAÇÃO. COORDENADORIA de ESTUDOS e
NORMAS PEDAGÓGICAS. 1993. Atividades de Língua Portuguesa e Literatura: 1º grau: 5° a 8°séries. São Paulo:SE/CENP, 130p. (A Prática pedagógica)
SÃO PAULO (ESTADO) SECRETARIA DA EDUCAÇÃO. COORDENADORIA de ESTUDOS e NORMAS PEDAGÓGICAS. 1993. Atividades de Língua Portuguesa e Literatura: 2º grau. São Paulo:SE/CENP, 161p. (A Prática pedagógica)
Uma retomada dos trabalhos apresentados no GEL e na Abralin desde o início da década de 90 confirma que a preocupação de utilizar os postulados da LT para instrumentalizar o ensino de língua já era uma constante. Na coletânea encontram-se trabalhos com alguma relação com o ensino desde o primeiro exemplar da amostra, e essa presença se faz constante em todos os anos, no caso do GEL, e parcialmente em relação à Abralin62. A relação da LT com o ensino não foi só um reflexo da publicação dos PCNs. O documento oficial institucionaliza uma relação constituída previamente no meio acadêmico.
Apesar disso, o grande salto é dado, com certeza, com a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), 1997. A parceria que vinha sendo buscada desde os anos 80 ─ como se observou no exame da proposta curricular de São Paulo ─ finalmente se consolida, com a publicação desse documento. Na apresentação ao professor lê-se “Esta soma de esforços permitiu que eles [PCNs]
fossem produzidos no contexto das discussões pedagógicas mais atuais.”
A expressão “discussões pedagógicas mais atuais” acompanha, no caso da Língua Portuguesa, as, também, mais atuais discussões teóricas acerca dos fenômenos da linguagem. Especificamente no volume 2 ─ Língua Portuguesa ─ há um trecho que retoma as discussões apresentadas nos segmentos anteriores.
“Nos últimos anos, a quase-totalidade das redes de educação pública desenvolveu, sob a forma de reorientação curricular ou de projetos de formação de professores em serviço (em geral os dois), um grande esforço de revisão das práticas tradicionais de alfabetização inicial e de
62 Artigos da mostra que apresentam alguma relação com o ensino: 1.1, 2.11, 2.14, 2.15, 2.16, 3.7, 3.9,
3.10, 3.12, 3.13, 3.15, 4.4, 4.5, 4.6, 4.7, 4.10, 4.11, 5.1, 6.1, 7.3, 8.1, 8.2, 8.3, 8.6, 9.1, 9.2, 9.3, 9.4, 9.7, 9.8, 10.3, 10.4, 11.1, 11.4, 11.5, 11.8, 11.11, 11.13, 11.16, 13.1, 14.2, 18.1, 18.2, 19.1, 19.2, 20.1.
ensino da Língua Portuguesa. Seja porque a demanda quantitativa já estava praticamente satisfeita ─ e isso abria espaço para a questão da qualidade da educação ─, seja porque a produção científica na área tornou possível repensar sobre as questões envolvidas no ensino e na aprendizagem da língua, o fato é que a discussão da qualidade do ensino avançou bastante. Daí estes Parâmetros Curriculares nacionais soarem como uma espécie de síntese do que foi possível aprender e avançar nesta década, em que a democratização das oportunidades educacionais começa a ser levada em consideração, em sua dimensão política, também, no que diz respeito aos aspectos intra-escolares”. p.
19, grifo nosso.
A longa citação a seguir, justifica-se por concentrar a essência da proposta de Língua Portuguesa nos PCNS e, ao mesmo tempo, incorporar os postulados centrais da LT
1O discurso, quando produzido, manifesta-se lingüisticamente por meio de textos. Assim, pode-se afirmar que texto é o produto da atividade discursiva oral ou escrita que forma um todo significativo e acabado, qualquer que seja sua extensão. 2 É uma seqüência verbal constituída por um conjunto de relações que se estabelecem a partir da coesão e da coerência. Esse conjunto de relações tem sido chamado de textualidade. Dessa forma, um texto só é um texto quando pode ser compreendido como unidade significativa global, quando possui textualidade. Caso contrário, não passa de um amontoado aleatório de enunciados.
3 O discurso possui um significado amplo: refere-se à atividade