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ANÁLISE DOS DOCUMENTOS DOS SISTEMAS EDUCATIVOS

2.12 SISTEMAS EDUCATIVOS DE PORTUGAL E DO BRASIL

2.12.1 ANÁLISE DOS DOCUMENTOS DOS SISTEMAS EDUCATIVOS

A avaliação inicial é a de que a estrutura educativa das legislações apresenta semelhanças e particularidades, conforme as Figuras 5 e 6. A primeira diferença observada é referente ao tratamento organizativo da classificação da educação e do ensino.

Fonte: Lei nº 46 (1986).

Portugal apresenta a estrutura da educação determinada pela relação com a instituição escolar, de forma a estabelecer o período de iniciação para os processos escolares, nomeado de educação pré-escolar, a fase efetiva de interação com o território e os processos educativos da escola, denominada de educação escolar, e as formações realizadas em

Capítulo II Organização do Sistema Educativo

Secção I – Educação pré-escolar

Secção II – Educação escolar

Secção III – Educação extraescolar

Subsecção I – Ensino básico Subsecção II – Ensino secundário Subsecção III – Ensino superior Subsecção IV – Modalidades especiais de educação escolar P O R T U G A L

outros territórios educativos, designada de educação extraescolar. A fase denominada de educação escolar é subdividia em quatro fases de ensino: o básico; o secundário; o superior; e as modalidades especiais.

No Brasil, esta primeira classificação não possui a mesma lógica estrutural. A organização está baseada na educação básica, que compreende a formação escolar desde a primeira interação da criança com a escola, ou seja, a educação infantil, depois o ensino fundamental, até a conclusão do ensino médio (secundário), seguido da inclusão da educação de jovens e adultos (EJA). As outras divisões compreendem a educação superior, a educação profissional e a educação especial.

Fonte: Lei nº 9.394 (1996).

As semelhanças da organização da educação de Portugal e do Brasil estão nas proximidades do tratamento, respectivamente: da educação pré-escolar e da educação infantil; do ensino básico com o ensino fundamental; do ensino secundário com o ensino médio; do ensino superior e da educação superior; e das modalidades especiais de educação escolar, que correspondem à educação profissional, especial e de jovens e adultos.

Os documentos apresentam nobres intenções, porém a práxis educativa de Portugal e do Brasil necessitam constante avaliação. Infelizmente, a transposição do teórico legislativo para a prática governamental educativa está aquém das expectativas e necessidades dos cidadãos dos dois países mais desenvolvidos da cultura lusofônica.

O enfoque introdutório do sistema educativo brasileiro expõe uma faceta reducionista, pois delimita a aplicação da norma somente à educação escolar. O sistema educativo de Portugal estabelece a possibilidade da educação extraescolar, mesmo que apenas 2 do total de 64 artigos referiram-se a essa formação educativa.

Entre as intenções educativas que compõem as legislações dos sistemas educativos está saliente a educação para a cidadania. Para os dois sistemas educativos, a cidadania responsável, crítica, autônoma, produtiva, participativa, democrática, solidária e reflexiva deve ser exercitada nos processos educativos escolares.

Titulo V Níveis e Modalidades de Educação e Ensino

Capítulo II – Educação Básica

Capítulo III – Educação Profissional Capítulo IV – Educação Superior Capítulo V – Educação Especial

Seção I – Disposições Gerais Seção II – Educação Infantil Seção III – Ensino Fundamental Seção IV – Ensino Médio

Secção V – Educação de Jovens e Adultos B R A S I L

Além dos atributos citados comumente para os dois sistemas, o cidadão para o sistema educativo português deverá ser livre, pluralista e respeitador de outras culturas, aberto ao diálogo e ao debate de opiniões em relação à sociedade. Esse sistema deve atender, ainda, a três metas para o cidadão: “o desenvolvimento global da personalidade, o progresso social e a democratização da sociedade” (Lei nº, 1986).

Para ambos os sistemas educativos, todos os cidadãos devem ter igualdade de condições para a formação escolar. A educação escolar é reconhecida como um direito dos cidadãos e dever do Estado. Os documentos destacam, ainda, a necessidade da democracia na educação pública, por meio de processos educativos que exercitem, em território escolar, a práxis democrática com todos os integrantes da comunidade: estudantes, educadores (trabalhadores da educação, professores) e pais.

No documento do sistema educativo do Brasil está incluso um componente educativo muito explorado na teoria do conhecimento de Paulo Freire, a valorização dos saberes externos à escola. Esse componente atribui significados para o conhecimento que permitem sua cristalização. O documento brasileiro estabelece que cada instituição escolar é responsável por sua proposta pedagógica, desde que respeitadas as diretrizes curriculares comuns na educação básica.

A inclusão do componente relativo ao respeito pelos interesses e pela vocação dos estudantes no documento português aproxima-se indiretamente do citado acima, relativo ao sistema educativo brasileiro.

No aprofundamento do estudo das legislações educativas, o Quadro 15 destaca fragmentos textuais dessas normas para organização, gestão e estabelecimento dos direitos e deveres educativos dos cidadãos.

O Quadro 15 evidencia questões já mencionadas sobre o desenvolvimento da cidadania para o estudante. No discurso textual legislativo brasileiro está explícita a preparação para o “exercício da cidadania e a sua qualificação para o trabalho”, e no documento do sistema educativo português, o texto literal indica a “formação do carácter e da cidadania” do estudante. No primeiro fragmento textual analisado, percebe-se o início da vinculação entre cidadania e formação para o trabalho.

Ainda no Quadro 15, observam-se textos da legislação educativa que fortalecem a integração entre cidadania e formação escolar, e incluem, ainda, as práticas sociais no sistema educativo brasileiro. No documento educativo de Portugal, pode ser percebida a citação das competências a serem desenvolvidas para o cidadão desse país em proporcionar “a ocupação de um justo lugar na vida ativa”. A interpretação desta investigação, relativa ao sentido do fragmento textual “justo lugar”, para o cidadão produtivo, compreende, além de outros fatores, condições laborais seguras, salubres e não penosas. Essas condições laborais asseguram a natureza humana de todo cidadão, o respeito a suas fragilidades físicas, psíquicas e sociais, e também nas ocupações não laborais (Gonçalves, Santos & Magalhães, 2012).

Sistema Educativo de Portugal (SEP) Sistema Educativo do Brasil (SEB) Capítulo I “Âmbito e princípios”,

Art. 3º “Princípios organizativos”

Título II “Dos Princípios e Fins da Educação Nacional”

“O sistema educativo organiza-se de forma a: b) Contribuir para a realização do educando, através do pleno

desenvolvimento da personalidade, da formação do carácter e da cidadania, preparando– o para uma reflexão consciente sobre os valores espirituais, estéticos, morais e cívicos e

proporcionando-lhe um equilibrado desenvolvimento físico;”

Art. 2º “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.”

“e) Desenvolver a capacidade para o trabalho e proporcionar, com base numa sólida formação geral, uma formação específica para a ocupação de um justo lugar na vida ativa…”

Art. 3º “O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: XI – vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais.”

Capítulo II “Organização do sistema educativo”

SECÇÃO I “Educação pré-escolar” Art. 5º 1 – São objetivos da educação pré-escolar:

Título V – Dos Níveis e das Modalidades de Educação e Ensino

Capítulo II – Da Educação Básica Seção I – Das Disposições Gerais

“g) Incutir hábitos de higiene e de defesa da saúde pessoal e coletiva;”

Art. 22. “A educação básica tem por finalidades desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores.”

Quadro 15 - Fragmentos textuais dos Sistemas Educativos de Portugal e do Brasil

Fonte: Gonçalves, Santos & Magalhães (2012).

Finalizando a análise do Quadro 15, o texto legislativo português explicita como objetivo da educação pré-escolar o início do desenvolvimento coletivo de hábitos de higiene, de defesa da saúde desde os primeiros dias das crianças na escola, importante formação para cultivar a cultura da prevenção nesse fundamental processo social para o exercício da cidadania.