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Análise dos exemplos através da solução visual desenvolvida

Espaço 5 Loja de vestuário e têxteis, Casa de chá

5.4. Análise dos exemplos através da solução visual desenvolvida

Em suma, aquilo que se pode determinar nas formulações visuais futuras, é tão só a flexibilidade e a multidisciplinaridade de um espaço comercial, essencial para a sua sustentabilidade comercial como para a fixação de públicos. Mas também a forma como as práticas influenciam activamente a formulação e transformação das tipologias. Percebe-se, por exemplo que o cruzamento de um espaço informal como um café ou bar e um espaço mais formal como uma galeria, promove a captação de públicos mais heterogéneos e a própria formação dos públicos, ao esbater as fronteiras do comercial e do cultural. Neste sentido, importa destacar o papel do consumo no âmbito da cultura, que, longe de um desvirtuamento, pode agir numa inclusão.

Deduz-se, a partir destas formulações, que aquilo que efectivamente determina a identidade comercial de um espaço é o seu argumento: a forma como é abordada a área comercial em que se insere e a intenção comercial/cultural subjacente determinam, conjuntamente, as características identitárias de um espaço, a sua novidade, em suma, a sua marca. O seu argumento pode-se materializar na sua temática:

• os produtos portugueses na promoção dos símbolos portugueses e da produção nacional (A Vida Portuguesa);

• o tricot contemporâneo, baseado na construção de uma base formativa e informativa sobre esta prática tradicional com produtos e acessórios de qualidade (Ovelha Negra);

• os tecidos tradicionais portugueses, na criação de novas aplicações e de novos produtos numa inovação potenciada pelos produtos tradicionais (Armazém dos Linhos);

• a ilustração contemporânea, na promoção de linguagens artísticas específicas e práticas artísticas mais informais e espontâneas (Galeria Dama Aflita);

• a casa portuguesa, como argumento da reabilitação de uma edifício antigos e como palco para a mostra dos produtos de decoração portugueses, numa reunião criativa de objectos de criação nacional (Pensão Favorita);

• os objectos antigos como decoração de um espaço, na sugestão de ambientes nostálgicos e carismáticos, constituindo uma inspiração na tradição mas uma forma não-tradicional de a comunicar (Galeria de Paris);

• a reutilização dos desperdícios e objectos antigos na promoção de práticas ecológicas e

sustentáveis mas também na criação a partir dos objectos tradicionais, redesenhando-lhes os usos e os significados (Projecto Alecrim).

O seu argumento, pode-se também materializar nas práticas promovidas e nas intenções projectuais, isto é, nos objectivos que pontuam a sua actuação, no equilíbrio entre a vertente comercial e a vertente cultural. Dado adquirido que os espaços comerciais (todos) pretendem vender coisas (produtos, serviços) e têm objectivos financeiros pré-determinados de forma a sustentar um investimento. Mas as abordagens comerciais no espaço urbano, como é visível neste estudo, têm cada vez mais uma forma de diferenciação ou de afirmação pela vertente cultural, materializada tanto na realização física dos espaços, como de todos os artefactos que as constituem (imagens, desenho, objectos, materiais). No sentido anteriormente explanado de que as escolhas (de produtos e artefactos) são veiculadoras de significados sociais e de valores simbólicos.

As abordagens às diversas áreas comerciais (restauração, bares, hotelaria, galerias) podem-se constituir de uma forma mais (Armazém dos Linhos) ou menos formal (Ovelha Negra); podem fazer uma

reinvenção de uma tipologia pela atitude comercial adoptada (Ovelha Negra) ou surpreender as expectativas do público através de abordagens não-tradicionais das tipologias tradicionais (Virgínia); podem-se organizar de uma forma mais independente (Espaço Gesto) ou em coordenação com outros parceiros culturais e comerciais (Maus Hábitos, Plano B); podem ser orientados por objectivos de regeneração social e cultural (Maus Hábitos, Plano B) ou por objectivos mais relacionados com a reabilitação comercial de áreas específicas (Ovelha Negra, Mercearia de S. Bento); podem ter em vista objectivos culturais através de práticas comerciais (Ovelha Negra, Projecto Alecrim, A Vida Portuguesa) ou o desenvolvimento de práticas que promovam a criação de redes sociais para a dinamização cultural e urbana (Maus Hábitos, Plano B, Espaço Gesto, Trincamundo).

5.4.1. Conclusões

O projecto desta ferramenta tem como principal desígnio o apoio à criação de novos conceitos para o comércio local. Entende-se ser uma ferramenta dinâmica e em constante construção, admitindo a associação de novas tipologias ou produtos. Assume-se também como um projecto em aberto (no sentido que Umberto Eco atribuía à obra aberta), ou seja: um projecto que só se realiza no momento em que é usado. Trata-se, por isso, de um projecto de co-autorias, em que o processo é apenas previsto pelo designer, sendo que é no uso e nos resultados que encontra a sua vocação. Há ainda,

assumidamente, uma vertente educativa (ou instrutiva): quer do ponto de vista da literacia visual – pela possibilidade de, pela representação gráfica se promover a a leitura abstracta da realidade e uma maior proximidade dos utilizadores com estes códigos visuais; quer enquanto motor de uma cidadania activa, na promoção da autonomia e proactividade de cada um em prol do comércio e consequentemente, de uma sustentabilidade criativa da cidade.

Para cada área comercial poderão ser especializadas as ofertas de produtos, de serviços e práticas, contribuindo para um mercado mais especializado e informado. No fundo, trata-se de um simulador, uma forma de simular cruzamentos, experiências, criando cenários comerciais hipotéticos.

Esta é sobretudo, uma ferramenta para os empreendedores urbanos, futuros investidores na cidade, que, na falta de informação sistematizada sobre o fenómeno dos novos conceitos de comércio urbano, e da forma como se organiza na cidade, terão necessidade de ferramentas de informação

progressivamente mais complexas. Se aquilo que se exige no contexto das cidades é uma maior competitividade, alicerçada em aspectos altamente criativos, então a exigência de qualidade e diversidade, por parte dos públicos, será cada vez maior. Contribuir para essa exigência progressiva é também um dos objectivos desta ferramenta visual, para além da sua vertente de conhecimento sobre o “estado da arte”.

Compreender que, por exemplo, as práticas do after-work e oferta de tapas são cada vez mais comuns em cafés e restaurantes, que cada vez mais restaurantes aderem à oferta do brunch ao fim-de-semana, e que alguns espaços de tipologias tradicionais estão a ser renovadas pelo design e pela oferta de

formação em práticas tradicionais como o tricot e a costura. A consciência também, de que esta oferta é destinada a nichos de mercado, cada vez mais afirmados socialmente e com poder de compra. Os city- users — pessoas jovens, menos enraizadas, com vivências muito próximas da cidade, pedestres, que privilegiam a ecologia, a sustentabilidade, os aspectos únicos e próprios dos locais, e a originalidade das reconversões sociais e dos espaços urbanos. E que valorizam também, o poder de renovação da cidade, que é visível através do desenho, numa valorização simbólica comunitária e dinâmica.

Uma renovação do comércio pode dar-se então, em parte, através de uma mudança nos paradigmas sociais e numa apropriação do comércio urbano por uma comunidade criativa. É uma parte

importante da renovação comercial dos centros urbanos portugueses, e de acordo com a investigação efectuada, é também uma tendência.

Poderá ser ainda uma pequena tendência, — as quais, segundo Penn (2007) são tão importantes como as grandes tendências sociais — mas é a forma mais visível de regeneração comercial e urbana na cidade do Porto, na qual os pequenos negócios criativos são cada vez mais iniciativas de designers, arquitectos, artistas, entre outros criativos. São exemplos deste fenómeno: o espaço multifuncional Plano B, iniciativa de dois arquitectos; a Chocolataria Equador, de um designer gráfico e uma escultora; o Armazém dos Linhos de uma arquitecta; a Casa da Baixa de um designer gráfico; a Virgínia, loja de bolos, de uma designer de moda; ou a Ovelha Negra de uma ex-bailarina. Profissões ou formações nas áreas das letras e humanidades também são comuns nos novos empreendedores do comércio urbano português — a jornalista Catarina Portas do projecto A Vida Portuguesa; a formação em Filosofia e em Línguas das fundadoras do Projecto Alecrim; a professora Adriana Rocha, uma das responsáveis pela Casa de Ló, etc. As proveniências de outras áreas profissionais são também encontradas em alguns casos, mas poucos empreendedores por detrás dos casos analisados tinham uma experiência prévia no comércio. O que prova que a maioria são estreantes e isso, por si só, diz muito de uma nova geração de "comerciantes" que não está “especializada” em fazer comércio mas em comercializar as suas ideias e os seus produtos. Esta realidade, a longo prazo, poderá alterar muito a forma de fazer comércio na cidade e irá, progressivamente, determinar o desaparecimento do comerciante tradicional, e com ele, o próprio comércio tradicional.

É por isso essencial, sublinhar a importância que este agentes criativos estão a tomar no entorno da cidade, através das novas fórmulas de reabilitação urbana e dos próprios espaços de comércio tradicional, relançando uma tendência de coesão social em torno do património comercial do Porto, que o poderá proteger de uma provável desvirtuação ou mesmo do seu desaparecimento. É claro neste sentido, que as apropriações comerciais inovadoras são produtoras de novos sentidos, da geração de valor sobre o território, mas também da consciencialização sobre um potencial patrimonial disponível na cidade, revelando-o em novas concepções.