3 O CAMINHO DA INVESTIGAÇÃO
3.7 Análise dos instrumentos e do material empírico
A primeira análise feita foi a dos questionários de autoestima e vínculos. Os questionários de autoestima respondidos pelos usuários foram avaliados através da soma de seus escores. A letra A vale 4 pontos; a letra B vale 2; a C vale 1, e a D vale 0. Quando se obtém o resultado, pode-se, então, classificar o nível de autoestima da pessoa. Os resultados de 20 a 30 pontos apontam para uma baixa autoestima; de 31 a 50, denotam uma tendência à baixa autoestima; de 51 a 65, compreendem uma tendência à boa autoestima, e de 66 a 80 pontos significam que a pessoa tem boa autoestima.
Para contabilizar a quantidade de vínculos dessas pessoas analisadas, dispostos no instrumento de Avaliação de Vínculos, somamos todos os Sim respondidos pelo participante nas questões (1.1; 2.1; 3.1; 4.1...28.1); as respostas negativas, ou seja, todos os Não, foram utilizadas como informações preciosas para identificar os pontos críticos da desvinculação/ausência vincular. Para sabermos a qualidade dos vínculos existentes contabilizados nas questões (de 1.1 a 28.1), baseamo-nos nas seguintes respostas:
1. Vínculo saudável: Letra A (A.1, A.2, A.3, A.4... A.28); 2. Vínculo frágil: Letra B (B.1, B.2, B.3, B.4... B.28); 3. Vínculo de Risco: Letra C (C.1, C.2, C.3, C.4... C.28).
Para sabermos, por sua vez, a porcentagem da quantidade e/ou da qualidade dos vínculos construídos pelo participante, utilizamos a regra de três simples. No tocante à parte qualitativa, multiplicamos o número de vínculos apontados pelo participante, contabilizados nas questões de 1.1 a 28.1, por 100 (cem); em seguida, dividimos por 28 (vinte e oito), que era a quantidade máxima de vínculos. Nesse sentido, ainda para a análise da parte qualitativa, multiplicamos a quantidade de vínculos saudáveis apresentados pelo participante — isto é, as alternativas de A.1 a A.28 das questões de 1.1 a 28.1 — por 100 (cem); então, dividimos pela quantidade de vínculos apresentados pelo participante. O mesmo procedimento foi repetido com os vínculos frágeis e os vínculos de risco. Utilizamos uma demonstração gráfica para melhor visualização dos resultados obtidos no pré- e no pós-teste de autoestima e vínculos, confeccionados no Excel 2010 e no CorelDraw Graphics Suite x6, respectivamente.
O instrumento de Avaliação da Autoestima também foi analisado estatisticamente através do software Statistical Package for the Social Sciences 22.0 (SPSS), no qual os dados coletados foram submetidos à análise estatística descritiva. O objetivo foi o de comparar os escores de autoestima antes e após as rodas de TCI. Para isso, foi utilizada como medida de tendência central o somatório. Ao passo que, para verificar a associação entre a presença
(frequência semanal) dos usuários na roda de TCI e o escore de autoestima no pós-teste, utilizou-se a correlação de Pearson.
No tocante a organização das imagens, Bauer e Gaskel (2002), propõem que um código de tempo deva ser inserido, proporcionando que os segundos, horas e minutos sejam registrados automaticamente, e, como pesquisadora, além do código de tempo, decidi pela criação de um sistema de anotações, a fim de deixar claros os dias, as horas, a quantidade de pessoas e o passo a passo das rodas TCI, possibilitando uma análise sistemática de cada dia e de cada etapa da TCI. Também foi possível através da observação das imagens, desenhar as 12 rodas e dar visibilidade às suas disposições para uma melhor descrição. Convém salientar que para elaboração dos desenhos tomamos por referência o ponto cardial sul e utilizamos os programas CorelDraw Graphics Suite x6 e Sketchbook 8.1.
Para o tratamento do material empírico oriundo dos áudios e vídeos gravados nas rodas de TCI, utilizamos a análise categorial temática com base nas premissas da Bardin (2009). Através dessa técnica, buscou-se alcançar indicadores que permitissem a indução de informações relativas às condições de produção e recepção de mensagens. A esse respeito, cumpre dizer, ademais, que utilizamos uma técnica sistemática e objetiva de descrição do conteúdo destas mensagens (BARDIN, 2009).
Das rodas de TCI e das entrevistas, vieram à tona três categorias temáticas, a saber: Categoria I: A TCI numa perspectiva emancipatória: as tessituras de redes na TCI rumo ao empoderamento; Categoria II: Terapia Comunitária Integrativa: espaço de escuta, palavra e vínculo, e Categoria III: Planejando o futuro com suas possibilidades e impossibilidades.
Além disso, ressaltemos que, segundo Bauer e Gaskel (2002, p. 19), a pesquisa que utiliza a geração de dados por registros audiovisuais geralmente têm seus dados analisados através da análise de conteúdo, e seus interesses no campo do conhecimento são destinados à emancipação e empoderamento das pessoas pesquisadas. A análise de conteúdo, lembremos, trabalha tradicionalmente com materiais textuais escritos, mas procedimentos semelhantes podem ser aplicados a imagens ou sons. Para os autores supracitados, a questão não é que exista um caminho para captar todas essas nuanças a fim de produzir uma representação mais fiel, mas sim, antes que alguma informação seja perdida, que se possibilite o acréscimo de outras informações, oferecendo mais elementos ao processo de análise.
Segundo Bardin (2009), existem alguns critérios para a análise categorial temática, os quais seguem a ordem: pré-análise, exploração do material e tratamento dos resultados. Na fase inicial, a chamada pré-análise, o material empírico foi organizado, compondo o corpus
documental da pesquisa, composto pelas falas oriundas da transcrição absoluta das rodas de TCI.
No caso do presente estudo, o contato inicial com o corpus documental se deu através de uma leitura flutuante, fase em que organizamos essas falas. No momento da exploração do material, codificamos o que havíamos obtido empiricamente, promovendo uma escolha das unidades de registro. Para Bardin (2009), a unidade de registro significa uma unidade que é codificada, podendo ser um tema, uma palavra ou uma frase. Na presente pesquisa, a unidade de registro foi o tema emergido nas rodas de TCI, bem como todo o conteúdo que também surgiu em órbita deste. Na fase de interpretação do material empírico, por sua vez, este foi discutido à luz do aporte teórico necessário, que procurou subsidiar as análises dando sentido à interpretação.
Ainda no que se refere ao material empírico, para a análise da entrevista semidirigida que fizemos ao final da pesquisa, baseamo-nos nos pressupostos de Turato (2003), que se fundamenta na tríade fenômeno-significado-interpretação. O fenômeno, como aí definido, é representado na consciência do sujeito a partir das próprias experiências, observações e imaginações. O significado é o querer-dizer em relação à pessoa deste fenômeno, sua visão e entendimento psicológicos e socioculturais. Já a interpretação, por fim, refere-se ao discutido, ao compreendido pelo pesquisador a partir do significado atribuído pela pessoa.