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3. MODA E RESISTÊNCIA: O PODER DE TRANSFORMAÇÃO POSITIVA DO

4.2. Análise do Discurso da Semana Fashion Revolution 2018

4.2.1. Análise dos posts

 Post 1:

Figura 32: “Tragédia do edifício Rana Plaza em Bangladesh”134

. Data da publicação: 24 de abril de 2018.

Tema: As consequências socioambientais da indústria da moda representadas pela tragédia do Edifício Rana Plaza em Bangladesh no ano de 2013.

Legenda: “Ninguém precisa morrer pela sua roupa barata! Hoje, 24 de abril de 2018 completam 5 anos que o edifício Rana Plaza em Bangladesh entrou em colapso. 1.138 pessoas morreram e outras 2.500 ficaram feridas, tornando-se o quarto maior desastre industrial da história. As vítimas eram em sua maioria mulheres jovens e muitos

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trabalhadores continuam sem emprego e sem indenização até hoje. Precisamos continuar perguntando #quemfezminhasroupas, pois não queremos que elas sejam feitas nessas condições! Pergunte, questione, faça algo!”.

Palavras-chave: Roupa barata; Rana Plaza; vítimas; desastre industrial; moda.

Foto: Imagem tirada, provavelmente, logo após o desabamento do Edifício Rana Plaza em Bangladesh, pois ainda é possível ver tentativas de resgate nos escombros do local. Nota-se pelas construções ao redor que se trata de um ambiente simples, pobre e com pouca infraestrutura. No prédio ao lado direito do Rana Plaza, por exemplo, vergalhões estão expostos sem qualquer tipo de proteção ou acabamento que visassem a segurança dos trabalhadores, mostrando na prática como grandes marcas maximizavam os seus lucros em função de estruturas mal acabadas que abrigavam fábricas extremamente produtivas, uma vez que são dos países em desenvolvimento que saem a maior parte da produção têxtil. Além disso, o primeiro plano da foto choca qualquer internauta, visto que pela grossura dos blocos de concreto, dificilmente, seria possível imaginar que sairiam dali vítimas ainda com vida. O segundo plano da imagem reforça o fato que países como Bangladesh conta com muitos trabalhadores, principalmente, mulheres e crianças na indústria da moda.

Há indicação com a campanha “#quemfezminhasroupas”? Sim. Frase final: “Pergunte, questione, faça algo!”.

Hashtags utilizadas: #fashionrevolution #tradefairlivefair #ranaplaza.

Ao conjugar legenda e imagem, se observa o resgate de um contexto ou elemento pré-construído (espaço atravessado pela formação discursiva) do consumismo. Assim, para compreender o que a AD propõe nessa análise, é preciso entender que, na atualidade contemporânea, o discurso sobre o consumismo ainda é muito presente, mesmo com número significativo de pessoas lutando em prol de um consumo mais consciente. Nessa perspectiva como afirma Brandão (1999, p. 23 apud ROSA et al, 2012, p. 79) “a ideologia se materializa nos atos concretos, assumindo com essa objetivação um caráter moldador das ações”. Desse modo, é possível notar que mesmo quando o sujeito luta pelo fim de um estilo de vida inconsequente, inconsciente ou conscientemente, acaba retomando toda uma ideologia e a reproduzindo mesmo sem perceber ou querer, uma vez que se vive sob uma coexistência de discursos do consumo desenfreado facilitado por promoções e roupas baratas e uma premissa baseada no consumo consciente. Logo, não tem como falar em formas de consumo justas e

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democráticas sem retomar todo o contexto que fez com que fosse preciso falar sobre novas formas de produção e consumo.

Desse jeito, quando se fala em consumo consciente, normalmente, são citadas ou remontadas as disputas de classes, os modos de diferenciação social, as revoluções tecnológicas que permitiram o aumento da produção fundamentada na lógica da obsolescência programada e a ação das mídias que passaram a envolver o consumidor de maneira a induzi-lo a não refletir criticamente diante da interpelação de variadas imagens e informações. Maingueneau (1997) vai apontar que todo discurso mantém uma relação intrínseca com os elementos pré-construídos. Para Orlandi (2003, p. 31), “a memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso. Este é definido como aquilo que fala antes, em outro lugar, independentemente”. A autora complementa afirmando que “O interdiscurso disponibiliza dizeres que afetam o modo como o sujeito significa em uma situação discursiva dada” (Ibid., p. 31). Sendo assim, afirma-se que o interdiscurso está dialogando com o discurso presente na foto.

Portanto, é possível afirmar que o post acima foi o mais curtido e comentado na Semana Fashion Revolution 2018, provavelmente, por ser o que mais mexe com o imaginário social, normalmente, baseado em uma lógica ocidental do consumismo. O discurso conjugado entre imagem e legenda a respeito das consequências socioambientais da indústria da moda dialoga com as ideologias decorrentes do consumo desenfreado. Dessa maneira, o primeiro plano da imagem com o prédio desabado tende a confrontar as pessoas a respeito dos próprios hábitos de consumo, principalmente, quando se leva em consideração uma sociedade ocidental que vive sob uma lógica de que é preciso ter para ser, de acúmulos de objetos, produção de resíduos e na busca por um ideal de beleza inalcançável. Prosseguindo a análise, vale salientar que as pessoas acima da construção e ao longo dos escombros procurando por vidas, denotam a urgência social em “salvar” os indivíduos que estão submetidos à escravidão moderna em função de uma produção de moda rápida e lucrativa do ponto de vista empresarial, visto que não são só as fast fashions que estão associadas a casos de trabalho escravo, as marcas de luxo também não estão isentas de utilizarem mão-de- obra escrava em seus processos produtivos.

Destaca-se ainda, que as pessoas que estão no segundo plano da imagem além de reforçarem a quantidade de trabalhadores na indústria têxtil ainda mostra o espanto e, possivelmente, a reflexão sobre as relações de poder hegemônicas que foram se estabelecendo ao longo do tempo, em que o trabalhador, principalmente, nos países

173 subdesenvolvidos e em desenvolvimento é massa de manobra e instrumento para a perpetuação do poder do capital que está concentrado nas mãos dos grandes empresários corporativos. Ademais, todas as construções que estão presentes na foto, inclusive os prédios que estão ao lado do Rana Plaza com vergalhões expostos, reforçam a pobreza e fragilidade das legislações ambientais e trabalhistas em países como Bangladesh, um dos principais exportadores da indústria têxtil. Por fim, é preciso enfatizar que a frase final do post “Pense, questione, faça algo!”, está totalmente vinculada a uma ação da Publicidade Social de Causa, pois visa envolver os internautas na causa do consumo consciente de moda, os incentivando a saírem da zona de conforto e da passividade crítica que costuma fazer parte do cotidiano dos indivíduos no que tange ao ato de consumir. Somado a essa frase, se frisam as hashtags utilizadas ao final do post que visam estimular as pessoas a buscarem por mais informações a respeitos do assunto abordado.

 Post 2:

Figura 33: “Quem fez minhas roupas?135”.

Data da publicação: 25 de abril de 2018. Tema: Campanha “Quem fez minhas roupas?”.

Legenda: “QUEM FEZ MINHAS ROUPAS? - Intervenção urbana

do #fashionrevolution de Porto Alegre”.

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Palavras-chave: Roupas; intervenção urbana; Fashion Revolution.

Foto: Imagem de uma das vias de Porto Alegre. No primeiro plano da foto, se destaca a faixa presa na passarela com os dizeres da campanha “Quem fez minhas roupas?”, quebrando totalmente as expectativas do que se espera ver em termos de dizeres e anúncios em um das maiores cidades do Brasil. No segundo plano, os automóveis em movimento mostram a rapidez e a intensidade da vida urbana brasileira.

Há indicação com a campanha “#quemfezminhasroupas”? Sim. Frase final: “Intervenção urbana do #fashionrevolution de Porto Alegre”.

Hashtags utilizadas: #fashionrevolution #quemfezminhasroupas #whomademyclothes.

Nesse segundo post, é possível notar uma forte presença da Formação Discursiva referente ao conceito de consumo consciente, que foi determinante no discurso construído. A pergunta “Quem fez minhas roupas?” está inserida nessa Formação Discursiva que, por sua vez, remete a uma ideologia do consumismo que tende a alienar os cidadãos. Quando se leva em consideração que o sujeito desse discurso é o movimento Fashion Revolution, principal movimento de moda consciente no Brasil, é razoável afirmar que qualquer pergunta feita tenda a reproduzir tanto as Formações Ideológicas predominantes na Sociedade de Consumo Contemporânea como as que buscam por um consumo mais consciente e responsável.

O sentido é assim uma relação determinada do sujeito – afetado pela língua – com a história. É o gesto de interpretação que realiza essa relação do sujeito com a língua, com a história, com os sentidos. Esta é a marca da subjetivação e, ao mesmo tempo, o traço da relação da língua com a exterioridade: não há discurso sem sujeito. E não há sujeito sem ideologia. Ideologia e inconsciente estão materialmente ligados [...]. (ORLANDI, 2003, p. 47).

Observa-se que a intervenção urbana da campanha “Quem fez minhas roupas?” quebrou tanto as expectativas dos internautas, que fez com que o referido post fosse o segundo mais curtido e comentado da Semana Fashion Revolution 2018. Nos grandes centros urbanos, as pessoas estão acostumadas a ver anúncios que as estimulem a consumir e não uma reflexão que as façam para, pensar e compreender o contexto em que estão inseridas. A correria da vida urbana somada à ação da mídia e da publicidade tende a fazer com que o ato de consumo pelo consumo e desvinculado da necessidade seja cada vez mais esvaziado, entretanto, iniciativas como essas, fazem as pessoas resgatarem o senso de comunidade que vai se perdendo na fluidez das relações. Nessa perspectiva, enfatiza-se que a dualidade entre o movimento dos carros e a estabilidade da faixa pendurada também pode ser comparada com as ambiguidades do mundo da

175 moda, em que o movimento da produção rápida, comum nos grandes centros urbanos, contrasta com as formas de produção locais e estáveis, nas quais cada processo produtivo é feito respeitando as pessoas e o meio ambiente, e a moda é utilizada como instrumento de viabilidade financeira e empoderamento social e pessoal. Esse contraste fashion reforça o que Lipovetsky (2009) afirma:

É a era da moda consumada, a extensão do seu processo a instâncias cada vez mais vastas da vida coletiva. Ela não é mais tanto um setor específico e periférico quanto uma forma geral em ação no todo social. Estamos imersos na moda, um pouco em toda parte e cada vez mais se exerce a tripla operação que a define propriamente: o efêmero, a sedução, a diferenciação marginal. É preciso desfocalizar a moda, ela já não se identifica ao luxo das aparências e da superfluidade, mas ao processo de três cabeças que redesenha de forma cabal o perfil de nossas sociedades. (Idem, p. 180).

O autor está dizendo que a moda não é mais determinada pelo luxo ou pela imposição coercitiva das disciplinas, mas sim pela socialização feita mediante escolhas e imagens em um cenário de disputa de sentidos. A moda deixou de ser algo fútil e periférico e passou a ser também um instrumento de resistência. Sob essa perspectiva, é premente que movimentos como o Fashion Revolution estejam atuando em um cenário em que o padrão de consumo majoritário gira em torno de atos de compras descontrolados, pois a sociedade precisa cada vez mais compreender que os seus hábitos de consumo impactam o meio ambiente e a vida de outras pessoas. Desse modo, a campanha “Quem fez minhas roupas?” remete imediatamente a vidas que estão por trás de todo o processo produtivo têxtil e que, muitas vezes, sequer são lembradas ou levadas em consideração quando se consome. Todavia, a partir do momento em que o indivíduo possui informações que uma determinada marca subjuga a força dos seus trabalhadores, ele passa a ter o direito e o dever de fazer uma escolha sensata. E é exatamente sobre esse ponto de formar cidadãos mais conscientes e instrumentalizar o povo que a Semana Fashion Revolution 2018 tem trabalhado e construído o seu processo comunicativo no Instagram, tanto é que eles reforçam toda essa estratégia por meio da frase final “Intervenção urbana do #fashionrevolution de Porto Alegre” e por intermédio das hashtags.

176  Post 3:

Figura 34: “Produção da bandeira de retalhos, por estudantes, em Maringá”136

. Data da publicação: 26 de abril de 2018.

Tema: Campanha “Quem fez minhas roupas?”.

Legenda: “Produção da bandeira de retalhos, por estudantes, em Maringá! - Já conferiu os eventos e a programação da sua cidade? O link está na nossa bio!”.

Palavras-chave: Retalhos; estudantes; eventos.

Foto: Imagem de uma produção conjunta entre estudantes e costureiras da região de Maringá no estado do Paraná. O primeiro plano da foto com as duas mulheres segurando respectivamente as plaquinhas do “Fashion Revolution” e do “Eu fiz suas roupas” juntamente com a máquina de costura e o rolo de linha caracterizam a transparência e a ética que, normalmente, não são comuns na indústria da moda. E o segundo plano com um quadro de rolos de linhas atrás das mulheres reforça o ambiente de produção e possibilidades de valorização profissional.

Há indicação com a campanha “#quemfezminhasroupas”? Sim. Frase final: “O link está na nossa bio!”.

Hashtags utilizadas: #fashionrevolution #quemfezminhasroupas.

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A possibilidade de ver os rostos por trás das roupas produzidas é uma oportunidade que poucas marcas oferecem aos seus públicos. Esse processo ético e de transparência exige um enorme comprometimento das empresas com as políticas que estão perfeitamente descritas nos seus sites e portais de comunicação, contudo, a maioria das corporações não possui tal postura, mantendo um abismo entre o discurso e a prática. Sendo assim, uma foto que mostra o rosto de uma costureira, o agricultor no campo colhendo o algodão ou qualquer outro profissional em algum ponto da cadeia produtiva tende a despertar a curiosidade e a expectativa dos indivíduos no que tange a um futuro mais sustentável e justo para as próximas gerações. Desse modo, as marcas que conseguem aderir à campanha #quemfezminhasroupas suas estratégias políticas, sociais e comunicacionais, acabam obtendo o respeito e a admiração dos consumidores, uma vez que os mesmos passam a ter confiança nas empresas e um pouco mais de conhecimento sobre as perspectivas que norteiam a produção de moda.

Nesse sentido, é possível compreender por que esse post foi um dos mais curtidos e comentados da Semana Fashion Revolution 2018, pois ele permite que o ser humano consumidor veja o ser humano trabalhador que existe para além das roupas. Assim, mesmo que em um processo longo e demorado, se pode afirmar que há o início de uma conscientização e a criação de um vínculo com a causa, através de uma comunicação publicitária. Além disso, é preciso destacar que o segundo plano da foto com o quadro de rolos de linhas atrás das mulheres reforça todo o cenário de produção artesanal aliado às possibilidades de valorização profissional que são possíveis e tangíveis na indústria da moda.

Sendo assim, se nota mais uma vez que o discurso (imagem + legenda) da campanha #quemfezminhasroupas está inserido em uma Formação Discursiva do consumo consciente que retoma a ideologia referente ao consumismo. Isso acontece porque todos os sentidos que uma Formação Discursiva pode promover são dependentes do interdiscurso, já que é nesse lugar que se constituem os objetos que os sujeitos falantes se apropriam na construção de seus enunciados, assim como as articulações entre eles. É desse modo que o enunciador dá coerência ao que pretende praticar dentro de uma determinada Formação Discursiva.

Somado a esse fato, se enfatiza que as palavras produção, retalhos e estudantes de parte da legenda da imagem - “Produção da bandeira de retalhos, por estudantes, em Maringá!” - remete a Formação Discursiva em que o discurso está enquadrado, visto que produzir moda por meio de retalhos e sobras de tecidos é uma forma de empreender resistência em um contexto hegemônico fashion em que a cada nova coleção lançada

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novas roupas são feitas com novos tecidos gerando novos resíduos. Ademais, se destaca que a palavra estudante remete a ideia de ruptura com a ignorância, uma vez que o acesso ao conhecimento tende levar as pessoas a refletirem criticamente e a buscarem novas formas de ação dentro do contexto em que estão inseridas. Desse modo, é preciso frisar que essas palavras usadas em conjunto criam uma significação específica que tende a produzir no consumidor um despertamento de consciência. Por fim, se enfatiza que apesar de a frase final do post “O link está na nossa bio!” incentivar aos internautas a buscarem por mais informações sobre os eventos e programações que estavam ocorrendo em diferentes cidades brasileiras, se sabe que esse tipo de link a uma página exterior tende a ser ineficaz no Instagram, uma vez que as pessoas nessa rede social digital, normalmente, estão buscando mensagens rápidas e de grande impacto visual e não, necessariamente, uma sobreposição de páginas que as tirarão daquele ambiente virtual específico. Logo, seria mais apropriado que as postagens da Semana Fashion Revolution enfatizassem mais as ações como as da foto acima para que mais internautas pudessem ter a dimensão do quê e como é feita as atividades do evento.

4.2.2 - Análise dos comentários

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