Após a mensuração dos resultados da análise documental, sobrevém apresentar os frutos da aplicação do questionário inicial, além das considerações sobre a observação do ambiente e dos sujeitos.
Dessa forma, após a aprovação da pesquisa pelo Comitê de Ética, foi organizado com os professores participantes da pesquisa um encontro inicial para discorrer sobre a essência deste estudo, bem como realizar a apresentação da pesquisadora e da proposta de intervenção.
Esse primeiro encontro presencial obedeceu a um roteiro para grupo focal (APÊNDICE I), com o objetivo primário de fixar a aproximação dos professores com o contexto da intervenção, explicar os passos da pesquisa e sua metodologia. E principalmente, anotar as impressões iniciais sobre a postura docente e estratégias
didáticas trabalhadas.
Assim, esse diálogo inicial ocorreu por meio de uma conversa informal sobre o cotidiano escolar. Na oportunidade foi apresentado verbalmente e de forma geral a proposta da pesquisa, visando incentivar a participação destes. Após, esse contato pessoal com os docentes, no âmbito da própria instituição, foi enviado por e-mail um convite para a participação dos encontros formativos (apêndice F).
No decorrer desse diálogo inicial alguns professores revelaram interesse nos temas propostos, direcionando perguntas sobre a prática de ensino inovadoras, citando os modelos didáticos que já empregam em suas aulas, fazendo comparativos. Embora a duração breve do encontro, os professores mostraram-se interessados em fazer parte da intervenção pedagógica.
Após as considerações iniciais foi oportunizado aos professores pontuarem suas impressões iniciais a respeito do tema. Todos contribuíram com mais ou menos intensidade. Um dos professores afirmou que gostaria de conhecer mais sobre o tema, enquanto outro professor declarou que conhecia teoricamente o ensino híbrido, pontuando que gostaria de ver na prática seu desenvolvimento.
Nesta oportunidade também foi discutido com os professores suas percepções sobre o PPC dos cursos técnicos integrados ao ensino médio. O encontro se encerrou com a solicitação de preenchimento do formulário eletrônico de diagnóstico inicial, cujos resultados serão expressos a seguir.
O encontro teve duração de 2h, e participaram desse diálogo inicial uma pedagoga, uma coordenadora e 14 professores. Esse momento foi essencial para conhecer os contextos de trabalho dos professores da EPT na prática.
Porém, é relevante pontuar que desse grupo apenas 12 professores aceitaram participar da pesquisa, e para assegurar a confidencialidade de suas identidades, substituímos seus nomes por denominações fictícias, conforme Quadro 10, que
também apresenta a caracterização dos participantes da pesquisa.
NOME DO
PARTICIPANTE GÊNERO FAIXA ETÁRIA ESCOLARIZAÇÃO
TEMPO DE ATUAÇÃO NA
EPT
Prof. 1 Masculino Acima de 56 anos Mestrado Entre 8 e 11 anos
Prof. 2 Feminino Entre 33 e 43 anos Especialização Entre 4 e 7 anos
Prof. 3 Masculino Entre 33 e 43 anos Bacharelado Entre 2 e 3 anos
Prof. 4 Feminino Entre 33 e 43 anos Especialização Entre 2 e 3 anos
Prof. 5 Feminino Entre 33 e 43 anos Especialização Entre 2 e 3 anos
Prof. 6 Masculino Entre 22 e 32 anos Bacharelado Entre 2 e 3 anos
Prof. 7 Feminino Entre 33 e 43 anos Licenciatura Entre 4 e 7 anos
Prof. 8 Masculino Entre 33 e 43 anos Ensino Médio/Curso
Técino Até 1 ano
Prof. 9 Masculino Entre 22 e 32 anos Bacharelado Até 1 ano
Prof. 10 Masculino Entre 33 e 43 anos Especialização Entre 4 e 7 anos
Prof. 11 Feminino Entre 33 e 43 anos Especialização Entre 8 e 11 anos
Prof. 12 Feminino Entre 33 e 43 anos Licenciatura Entre 2 e 3 anos
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
A partir do Quadro 10 nota-se que a maioria dos professores participantes desta pesquisa são especialistas, sendo três licenciados e dois com bacharelado. Contudo, é possível observar também que 50% dos docentes não possuem formação pedagógica, dentre os participantes da pesquisa.
Para esse autor, essa realidade traz prejuízos, já que esses profissionais têm o domínio do campo científico no nível da graduação, mas vão atuar em um curso técnico de nível médio, faltando-lhe a formação pedagógica que lhe concede habilidades para desenvolver métodos de aprendizagem inovadores que vão muito além da simples exposição de conteúdos em sala. (MOURA, 2007).
Ainda nesse contexto, Santos (2010) pontua que o perfil do professor para atuar na EPT, deve ser fundamentado na compreensão do mundo do trabalho e um olhar sensível para entender as relações que o envolvem. Portanto, torna-se imprescindível discutir uma proposta de ensino que atenda a essa lacuna, no que se refere a formação voltada ao saber pedagógico com foco na EPT.
Uma vez feita a caracterização dos professores, passa-se a discutir as decorrências dos dados coletados por meio da aplicação do questionário inicial de diagnóstico. Assim, o Quadro 11 traz a transcrição das respostas dos professores em relação a suas motivações para atuar na EPT.
PARTICIPANTE TRANSCRIÇÃO DA REPOSTA
Prof. 1 “Me propôs a atuar com professor por me identificar nesse aspecto”.
Prof. 2 “Desde criança eu brincava de professora no fundo do paiol que tinha na minha casa com carvão para ser o giz de cera. Para mim é a realização de um sonho”. Prof. 3 “Oportunidade de novos desafios profissionais e experiência”.
Prof. 4 “Contribuir com a formação dos adolescentes e preparados para a futura atuação profissional”. Prof. 5 “Crescimento profissional, por atuar uma nova modalidade de ensino”.
Prof. 6 “Sempre admirei meus professores, e quando a oportunidade apareceu não a desperdicei”
Prof. 7
“Escolhi ser professora porque o magistério é uma das atividades mais bonita, apaixonante, e gratificante que existe. Árdua sem dúvida, mas indescritivelmente bela. E como na minha família tem várias professoras elas me incentivaram atuar na área da educação”.
Prof. 8 “Oportunidade de trabalho”
Prof. 9 “Contribuir para a formação dos jovens e consequentemente com a sociedade”. Prof. 10 “Oportunidade profissional”.
Prof. 11
“Nunca sonhei em ser professor, contudo após ficar desempregado, essa
oportunidade me foi oferecida para cobrir a licença de uma professora que possuía a mesma formação que a minha a havia tirado licença maternidade, depois disso me apaixonei pela profissão e nunca mais parei”.
Prof. 12
“Porque para mim a educação é o único caminho para mudar o mundo, e o professor é peça fundamental nesse processo. Assim, me tornei professora com o objetivo de ajudar na construção de um mundo melhor”.
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
Diante do Quadro 11, observa-se que, em grande parte, a escolha pela EPT está Quadro 11 - Motivações para atuação docente na EPT.
ligada ao aproveitamento de oportunidades de trabalho; motivações de caráter pessoal; além do entendimento que essa modalidade educativa pode contribuir para a melhoria da condição social dos jovens.
Os resultados obtidos na Quadro 11 reforçam a visão de KUENZER (2006), quando afirma que o professor da EPT pode contribuir significativamente para o diálogo entre os múltiplos campos de conhecimentos, contextualizando sua prática educativa no aspecto social, para assim possibilitar ao aluno compreender o sentido da formação que está recebendo. Por isso, a importância do professor reconhecer seu papel, para não trabalhar a educação dissociada do entendimento de autonomia plena, reproduzindo o modelo de ensino e aprendizagem que leva a denominada inclusão excludente.
Na sequência os professores foram indagados sobre quais seriam os desafios enfrentados em sua prática na EPT. E para facilitar a observação das respostas foi construída uma nuvem de palavras, representada na Figura 8.
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
Como se pode notar, a maioria dos professores considerou como seus desafios na EPT, a falta de interesse e participação dos alunos nas atividades propostas. Também ressaltaram a ausência de material de apoio e formação específica para a essa modalidade educacional. Outros aspectos como remuneração e falta de tempo Figura 8 - Desafio na EPT
também foram citados.
Esse resultado é significativo, pois vem de encontro com a colocação de Bacich, Tanzi Neto e Trevisani (2015) que afirmam que a aprendizagem depende também da motivação e do interesse do aluno, uma vez que os alunos engajados envolvem-se mais facilmente na própria aprendizagem, de forma a adquirir conhecimentos e desenvolver competências.
Para esses autores, a aprendizagem é “mais significativa quando motivamos os alunos em seu íntimo, quando eles acham sentido nas atividades propostas, quando consultamos suas motivações profundas, quando se engajam em projetos criativos e socialmente relevantes”. E seguem essa linha de pensamento ao considerar que o ensino híbrido “combina algumas dimensões da motivação extrínseca com a intrínseca”, já que essa proposta metodologia é útil para criar hábitos, rotinas e procedimentos. (BACICH, TANZI NETO e TREVISANI, 2015, p. 33).
Os professores foram indagados também sobre as metodologias de ensino que utilizam com mais frequência. Na oportunidade foi listado diversas estratégias de ensino, buscando principalmente apurar o grau de conhecimento dos professores sobre essas ferramentas didáticas. O Gráfico 2 expõe os dados coletados.
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
0 2 4 6 8 10 12 Aula Expositiva Atividades Externas/Eventos Concursos Discussões/Debates Aulas práticas/Experimentos Simulações Paródias Pesquisas Dramatização Modelagem Avaliação por pares Gamificação Estudos de Caso Palestras Aprendizagem baseada em problemas
Ensino Híbrido
Tendo em vista a relação das questões, antes de analisarmos esse resultado, se faz necessário complementar essa apreciação com os resultados da próxima pergunta feita aos professores, que buscou apurar os principais recursos que empregam em suas aulas. O Gráfico 3 revela suas opiniões.
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
As respostas mostram que as práticas docentes mais empregadas estão relacionadas aos métodos tradicionais de ensino, como aula expositiva, palestras, xerox, quadro e pincel. As atividades teóricas apoiadas pelos recursos tecnológicos (vídeos, uso da internet, projetor multimídia e pesquisa) aparecem como suporte no fazer docente.
Nota-se que os professores usufruem de algumas metodologias ativas (estudo de caso e simulações), porém necessitam atuar em uma perspectiva de problematização e protagonismo, ultrapassando a mera transmissão de conteúdo. E assim, permitir que os alunos compreendam as relações de poder que persistem na sociedade como um todo e no mundo do trabalho e, consequentemente posicionar-se perante essa realidade. (VALENTE, 2018).
Prosseguindo a análise, a Tabela 6 traz à baila a síntese da percepção inicial dos professores sobre os conceitos e aplicações dos temas abordados. Além do
0 2 4 6 8 10 12 14 Quadro e pincel Livro didático Vídeos/DVD (filmes) Projetor multimídia Sites (Internet) Jornais, revistas, notícias veiculadas na mídia Xerox Recursos digitais (software; aplicativos etc) Fotografia Biblioteca (sala de leitura)
entendimento sobre a contingência de formação continuada nessa área.
PERGUNTA SIM NÃO
Você já ouviu falar ou conhece as metodologias ativas? 83% 17%
Você já ouviu falar ou conhece o ensino híbrido? 75% 25%
Você acredita que é possível aprender com maior facilidade utilizando o ensino
híbrido? 83% 17%
Você já participou de oficinas/cursos sobre metodologias de ensino? 92% 8%
Uma formação continuada voltada para a sua prática em sala de aula o ajudaria? 83% 17%
Fonte: Elaborado pela autora (2020), com base nos dados do questionário inicial de diagnóstico.
Com base nos dados apresentados na Tabela 6, destaca-se o fato de que 17% dos participantes da pesquisa não conheciam as Metodologias ativas e 25% também não conheciam o Ensino Híbrido. Em decorrência disso, vislumbra-se a necessidade do desenvolvimento de ações direcionadas a essas metodologias, para suprir esse número que as desconhecem, e propiciar um conhecimento mais aprofundado para os que já as empregavam.
Nessa perspectiva, Moran (2015) já atentava que o papel do professor atualmente é muito mais amplo e avançado, e por isso a formação inicial e continuada é essencial para suprir essa nova demanda, uma vez que os professores podem aprender a lidar com as tecnologias e ainda criar formas de ensinar os alunos utilizando novas propostas didáticas.
É relevante atentar também que 92% dos professores já participaram de oficinas/cursos sobre metodologias de ensino. E 83% acreditam que uma formação continuada voltada para a sua prática, os ajudaria. Portanto, é perceptível que os docentes almejam conhecer mais profundamente essa temática, para melhorar sua postura profissional, visto que 83% deles acreditam que é possível aprender com maior facilidade utilizando o ensino híbrido.
Os professores também responderam a indagação sobre as possibilidades de utilizar Tabela 6 - Percepção inicial dos professores.
estratégias diferenciadas em suas aulas, e nas respostas podemos verificar que 10 docentes acreditam que essas metodologias podem fazer a diferença na aprendizagem do aluno.
Contudo, cabe frisar que se não forem bem planejadas, as metodologias ativas podem fazer o oposto do esperado e acabar por dificultar o trabalho do professor. Assim, antes de pensar em mudar a prática docente, é preciso refletir sobre sua ressignificação. De modo a promover uma prática pedagógica que envolva o aluno, e vá facilitar seu entendimento e interação, não sobrecarregando o professor e, consequentemente, desestimulando o aluno.
Dessa forma, é importante que o professor tenha tempo para reconhecer e planejar novas estratégias didáticas, a fim de potencializar a aprendizagem dos alunos. Por isso, a relevância da intervenção pedagógica, uma vez que permite “investigações de professores acerca de suas próprias práticas, salientando seu potencial para produção de conhecimento e promoção da transformação social”. (DAMIANI et al, 2013, p. 59).
Encerrando essa etapa de diagnóstico foi indagado aos professores sobre qual deve ser seu papel. Por unanimidade, os docentes responderam que seu papel é ensinar e orientar os alunos, conduzindo sua aprendizagem. Esse entendimento vai de encontro com o pensamento de Horn e Staker (2015) que ponderam o professor como um arquiteto do saber, que necessita mostrar para o aluno que existem diferentes formas de construir o conhecimento.
Por fim, a adoção de novas proposições metodológicas na prática docente, como o ensino híbrido, não reduz a importância do papel do professor, mas pelo contrário, endossam seu trabalho incessante na busca de revisão do processo pedagógico, para promover uma aprendizagem significativa. Sob essa ótica, repousa a imprescindibilidade da formação continuada, cooperando para desvendar a multiplicidade de inovações no fazer docente.
4.2 A GÊNESE DO PRODUTO EDUCACIONAL: ENCONTROS FORMATIVOS COM