• Nenhum resultado encontrado

Análise e interpretação

2 PERCURSOS METODOLÓGICOS

2.1 Análise e interpretação

O conteúdo organizado no diário de campo e a observação dos contextos institucionais e dos territórios por onde transitei, assim como o material produzido nas entrevistas realizadas, foram utilizados como a base empírica da quarta seção da presente tese. A sistematização e a interpretação dos dados empíricos, juntamente com os levantamentos bibliográficos realizados serviram no processo de refinamento de problemas e conceitos a serem discutidos com relação à literatura pertinente às categorias indicadas no trabalho.

Assim, a análise permitiu ultrapassar o nível do senso comum e de subjetividade na interpretação, proporcionando uma crítica dos diferentes tipos de documentos, entrevistas e observações articulados à descrição arqueológica de Foucault, a qual nos permite observar e definir discursos como práticas que obedecem a regras acompanhadas de análises e percepções entre sujeito e objeto, que constantemente se modificam e evoluem dentro dos discursos científicos e jogos de saber.

Para a arqueologia, descrever é um domínio bem diferente do saber, ela se ocupa do saber em sua relação com as figuras epistemológicas e as ciências, pretendendo interrogar o saber em uma direção diferente e descrevê-lo em outro feixe de reações. A palavra “arqueologia” apresenta somente uma das linhas de abordagem para a análise das performances verbais, a especificidade de um nível – o do enunciado e do arquivo – “[...] determinação e esclarecimento de um domínio: as regularidades enunciativas, as positividades; emprego de conceitos como os de regra de formação, derivação arqueológica, a priori histórico”. (FOUCAULT, 2008, p. 231):

Eis o campo que agora é preciso percorrer; eis as noções que é preciso testar e as análises que é preciso empreender. Sei que os riscos não são pequenos. Eu havia usado, para uma primeira marcação, certos agrupamentos bastante soltos, mas bastante familiares: nada me garante que os reencontre no fim da análise, nem que descubra o princípio de sua delimitação e de sua individualização; não estou certo de que as formações discursivas que isolarei definam a medicina em sua unidade global, a economia e a gramática na curva de conjunto de sua destinação histórica; não estou certo de que elas não introduzam recortes imprevistos. Da mesma forma, nada me garante que semelhante discussão poderá dar conta da cientificidade (ou da não cientificidade) desses conjuntos discursivos que tomei como ponto de partida e que se apresentam, de início, com uma certa presunção de racionalidade científica; nada me

garante que minha análise não se situe em um nível inteiramente diferente, constituindo uma descrição irredutível à epistemologia ou à história das ciências [...]. O perigo, em suma, é que em lugar de dar fundamento ao que já existe, em lugar de reforçar com traços cheios linhas esboçadas, em lugar de nos tranquilizarmos com esse retorno e essa confirmação final, em lugar de completar esse círculo feliz que anuncia, finalmente, após mil ardis e igual número de incertezas, que tudo se salvou, sejamos obrigados a continuar fora das paisagens familiares, longe das garantias a que estamos habituados, em um terreno ainda não esquadrinhado e na direção de um final que não é fácil prever. O que, até então, velava pela segurança do historiador e o acompanhava até o crepúsculo (o destino da racionalidade e da teleologia das ciências, o longo trabalho contínuo do pensamento através do tempo, o despertar e o progresso da consciência, sua perpétua retomada por si mesma, o movimento inacabado, mas ininterrupto das totalizações, o retorno a uma origem sempre aberta e, finalmente, a temática histórico-transcendental), tudo isso não corre o risco de desaparecer, liberando à análise um espaço branco, indiferente, sem interioridade nem promessa?

Conforme já explicitado, no momento da análise, tanto as entrevistas como as observações realizadas no estudo foram transcritas. Organizei os relatos, registros de observações e relatórios liberados pela instituição e os separei em determinada sequência de acordo com a organização estrutural e administrativa da instituição-modelo – Desafio Jovem e seus grupos pesquisados. Realizei várias leituras de cada entrevista e dos registros das observações. Nesse momento, tentei não formular nenhuma análise contextual, apenas me entreguei a uma leitura flutuante. A partir daí, fui anotando minhas primeiras impressões e busquei uma coerência interna das informações, apreendendo as estruturas relevantes e as ideias centrais, as quais me ajudaram a formar posteriormente as categorias empíricas.

Fiz um recorte de cada entrevista, considerando as unidades de sentido ou temas. Para tal, utilizei como critério de classificação os objetivos do estudo e a recorrência do tema durante a coleta, ou seja, adotei variáveis empíricas e teóricas para a classificação. Assim, alcancei um olhar introdutório e horizontal do que já havia descoberto no campo e nas experiências vivenciadas inclusive na dissertação, criando oportunidades de perceber as homogeneidades e diferenciações nos discursos médicos e comparações das discussões antropológicas que envolviam todo o trabalho apresentado, extraindo, assim, práticas culturais e saberes relativos à história da educação brasileira. (FERREIRA, 2014).

Ao separar os temas, organizei as partes relacionadas ao objeto de estudo de modo a evidenciar as conexões entre elas e a compreender seu percurso histórico e sociocultural, destacando o que havia de mais relevante e representativo

para o estudo do fenômeno das drogas. Examinei os vínculos estabelecidos pela medicina da época entre o alcoolismo e as mazelas da sociedade industrial que se constituía, em que a construção do alcoolismo esteve voltada para a disciplinarização de tradições e hábitos das classes populares. Busquei explicar também como a medicalização dos costumes atendeu aos interesses da classe dominante, no sentido de preparar os indivíduos para os novos processos de trabalho da ordem capitalista que se construía.

Estabeleci diálogo com a história do alcoolismo, a qual serviu de contraponto para minha análise da questão das drogas, na medida em que a questão da embriaguez alcoólica e a questão da toxicomania estão claramente articuladas no discurso médico. A proposta foi traçar a história da constituição do modelo disciplinar brasileiro, mais especificamente, constituindo uma história arqueológica dos saberes médicos e das práticas culturais produzidas sobre a problematização do consumo de substâncias psicoativas.

A abordagem assume claramente sua inspiração foucaultiana de análise de discursos, buscando identificar as descontinuidades históricas e suas respectivas rupturas acontecidas dentro do universo discursivo como produção de verdades no percurso histórico apresentado. Consoante essa perspectiva, o contexto e o percurso histórico sociocultural tornam-se a materialidade do discurso, e os relatórios, entrevistas e categorias teóricas possibilitam o surgimento de campos disciplinares específicos entrelaçados a um conjunto de dispositivos e micropoderes históricos que perpassam toda a sociedade. São esses dispositivos que conferem ao Estado e às elites de uma determinada sociedade a possibilidade de estender seu controle em campos cada vez mais vastos.

Com base nas categorias empíricas e teóricas, implementei um confronto dos discursos, buscando rupturas e complementaridades no percurso histórico e cultural mediante o cruzamento dos dados levantados, do contexto sócio-histórico e de meu olhar como pesquisadora. A linguagem aqui considerada não se restringe à fala dos atores, mas a todas as formas de expressão e manifestação desejantes presentes nas relações da micropolítica em que se insere o fenômeno das drogas, procurando integrar texto e contexto revelados na realidade descrita.