Esta parte da dissertação buscou compreender os discursos das mulheres entrevistadas focando em momentos explícitos e implícitos de suas falas em que suas identidades emaranhadas às questões ligadas ao gênero, à raça, e a outros fatores, se mostraram relevantes, ao significarem, de formas diferentes, suas trajetórias profissionais.
Interessa pensar as identidades e o discurso das entrevistadas como conceitos performativos atendo-nos aos momentos em que os discursos das entrevistadas revelarem algo sobre as questões apontadas. Em outras palavras, as análises levam em conta a performatividade do discurso das entrevistadas no que diz respeito à agência e performance da linguagem. Diante de tal perspectiva, as falas proferidas pelas entrevistadas são compreendidas não como momento único e singular, pois, como argumenta a teoria austiniana, os sentidos das palavras não encontram mais um referente único e fixo, ao contrário, quando pensamos na performatividade, os proferimentos extrapolam o contexto em que foram ditos. Assim, é necessário, como argumenta Butler (1997), que as forças históricas sejam levadas e conta no momento em que as palavras são ditas, pois elas atualizam e repetem contextos mais amplos de significação.
O assunto presente nas falas das mulheres entrevistadas se restringiu aos momentos de suas trajetórias profissionais, desde o ensino básico até chegarem ao ensino superior passando por desafios, conquistas e dificuldades relacionadas aos seus interesses pelo universo acadêmico, pelas áreas de pesquisa que escolheram seguir, pelos empregos que assumiram e cargos que exerceram. Dessa forma, elencamos algumas categorias recorrentes nos discursos das entrevistadas, a saber:(i)ser branca, (ii) ser mulher, (iii) trajetória escolar e de classe social, (iv) percepção do racismo na universidade vistos pelo olhar da mulher branca
acadêmica e, por último, (v) ser acadêmica e pertencer ao lugar da universidade. Tais categorias atravessam a experiência racial delas dentro da universidade e demonstram momentos em que, por exemplo, o ser mulher branca revelou-se como fator de diferença, de ação e de estruturação de seus lugares, sobretudo, no espaço acadêmico.
As análises dos dados focaram não apenas a individualidade da identidade das mulheres brancas acadêmicas (SCHUCMAN, 2012), isso porque partimos do pressuposto de que as identidades são relacionais e estruturantes das relações sociais compreendidas como construções sociais (MUNANGA, 2012). Ou seja, as análises levaram em conta o contexto histórico e os sentidos múltiplos dos discursos das entrevistadas que se reproduzem construindo imaginários sobre as identidades sociais, mais detidamente, sobre o que significa ser uma “mulher” branca.
Diante disso, tomamos como hipótese que as identificações mantêm uma relação estreita com os valores da sociedade abrangente e com a trajetória da pessoa, como argumenta Schucman (2012) e, portanto, os discursos das mulheres entrevistadas refletem a visão de mundo delas, na sociedade e no tempo em que elas se situam. Além disso, as análises não buscam julgar as atitudes, a consciência racial, as ações e produções científicas das entrevistadas, pelo contrário, investigamos os múltiplos sentidos produzidos em suas relações com outros discursos que não são nem verdadeiros e nem absolutos.
A visão apresentada, incorporada às análises que se seguem, leva em consideração os contextos de uso da língua em situações de “interação e de conflito tenso e ininterrupto” (BAKTHIN, 1995, p. 107), em que os discursos são carregados por ideologias. Isso implica que os signos passam, segundo Bakhtin (1995), por um processo de compreensão que ultrapassa apenas um reconhecimento da forma linguística ou da norma linguística fora de seu contexto concreto de enunciação. Diante tal visão epistemológica, apesar das falas serem singulares e terem se expressado em cada uma das dez entrevistas realizadas, os discursos carregam, como argumenta Butler (1997), sua historicidade. Em outras palavras, os discursos, tomados como rito se repetem no tempo e mantêm uma esfera de operação que não é restrita ao momento ou ao contexto em que são proferidos. Portanto, as análises nos permitem generalizações das falas das entrevistadas que excedem o momento individual de seus proferimentos, porque a historicidade dos discursos inclui um passado e um futuro que vão além do sujeito que fala (ibidem).
As entrevistadas relataram livremente suas trajetórias, enfatizando aspectos que elas consideraram relevantes em suas vidas profissionais à medida que a entrevistadora
conduziu as conversas buscando não fugir do tema que se centrou sobre a vida profissional delas e sobre o ser mulher branca acadêmica.
A entrevistadora seguiu um roteiro20 que conduziu assuntos/temas que buscaram apreender os significados das identidades sociais das entrevistadas, investigando, de forma dinâmica, as falas das entrevistadas tomando como base as respostas dadas por elas ao questionário eletrônico.
Antes de iniciar as análises, gostaria de ressaltar a minha experiência como entrevistadora e a percepção que tive durante as entrevistas em relação ao significado de ser mulher branca acadêmica. No geral, o que me chamou a atenção foram os momentos em que eu as confrontava em relação à cor e a raça das professoras entrevistadas. A maioria das entrevistadas demonstrou resistência e incômodo quando a raça ou a cor branca se apresentavam como alvos dos meus questionamentos. Mesmo com a minha cor branca, percebi que as entrevistadas se incomodavam com tais questões. Apesar disso, a minha cor foi um facilitador ao permitir que as professoras se sentissem mais a vontade para falarem sobre o assunto quando eu as abordava em relação às questões raciais. Algumas entrevistadas me perceberam como branca apenas em relação á cor da minha pele, a exemplo de Helena que me viu como mais branca que ela, ao dizer que a minha “tez” era “branquinha” se comparada à cor da pele dela.
O que fica evidente da experiência apresentada, além do que demonstram as análises que se seguem, é a resistência em falar sobre ser branca, mesmo com o facilitador da cor da minha pele. Isso implica, talvez, que se eu fosse uma pesquisadora negra, a resistência seria muito maior, já que, como estamos habituados/as, raça e cor costumam recair apenas sobre o corpo negro e nunca sobre o corpo branco. Essa recusa gerada pelo incômodo percebido pelos momentos de silêncio, de mudança de assunto, de dúvida em relação a minha pergunta e etc, também deve ser lido e tomado como análise, porque mostra como é problemático ter como objeto de pesquisa e de assunto o branco. Na maioria das vezes, o que ficava implícito durante as entrevistas, era alguma mensagem do tipo: “por que você que é branca está me perguntando isso?”, “não somos todos iguais?”.
Mesmo a pesquisadora não utilizando explicitamente o termo branquitude, as entrevistadas demonstravam certa estranheza quando eu as indagava em relação às suas identidades sociais, isto é, não entendiam a pergunta dificultando um pouco a comunicação em certos momentos. Apesar de algumas das entrevistadas refletirem para além da cor da pele
20 O roteiro encontra-se em anexo.
ao reconhecer, em alguma medida, a influência do gênero e da raça na nossa prática, a sensação foi à mesma, ou seja, de desconforto em relação às perguntas que eu as fazia.
O texto que se segue, procura formular explicações sobre os dados de análise pensando nas possibilidades de interpretações sobre as identidades das entrevistadas, refletindo como os sujeitos brancos se constituem e são constituídos reiterando suas identidades na/pela linguagem (RAJAGOPALAN, 2003), produzindo novos sentidos e significados sociais para suas identidades. Os trechos transcritos das falas das entrevistadas irão fomentar nossa discussão, pois terão como finalidade nos ajudar a refletir e problematizar as questões que esta pesquisa se propõe a responder.