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3.5 ANÁLISE CORRELACIONAL E ESTATÍSTICA

3.5.2 Análise Quantitativa

As narrativas foram analisadas quantitativamente de duas formas: 1. Desempenho em categorias negativas: A pesquisadora avaliou a quantidade de rupturas, que foram mensuradas negativamente, ou seja, quanto maior o número de incidências, menor a competência narrativa do sujeito. Durante a análise, as categorias negativas encontradas foram alocadas sobrescritas exatamente onde ocorreram em cada narrativa, como pode ser observado no Apêndice B. Tal análise foi realizada de acordo com os parâmetros estabelecidos durante as análises realizadas na pesquisa de Scliar-Cabral et al. (1983), a saber: falta de sequência lógica dos eventos, falta de referência de personagem, falta de referência espacial, truncamento, salto, falta de concordância, aparecimento abrupto de personagem, interrupção, indecisão numérica e partículas. Porém surgiu a necessidade de novos critérios – ambiguidade, hesitação, início abrupto, repetição, contradição e agramaticalidade A descrição de cada aspecto, mensurados negativamente, segue abaixo:

(a) falta de sequência lógica dos eventos: a sequência lógica é fundamental para a boa estruturação da narrativa, pois indica uma relação entre os eventos narrados, mostrando uma progressão coerente da história. A falta de sequência lógica, por sua vez, mostra certa desarticulação ou falta de ordenação entre as ideias, demonstrando incoerência, e, assim, a compreensão da história fica prejudicada;

(b) falta de referência dos personagens: é comum crianças não se colocarem na posição de interlocutor e, portanto, falharem na referência aos personagens, empregando 3ª pessoa, sem que se possa recuperar sua referência. Ou seja, aparecem pronomes pessoais, como “ele”, ou mesmo verbos conjugados na 3ª pessoa, porém sem ser possível identificar a quem a criança estava se referindo;

(c) falta de referência espacial: muitas vezes a criança cria um cenário mentalmente, porém supõe que o interlocutor esteja fazendo o mesmo. Por esse motivo, para ela o cenário está claro e não o apresenta linguisticamente: a criança conta a história, mas não situa o ouvinte quanto ao espaço onde ocorre. A falta de referência espacial também pode aparecer se a criança utilizar alguns advérbios ou expressões de lugar como “lá”, “naquele lugar”, com função dêitica, quando os

interlocutores não partilham o mesmo espaço físico e/ou o conhecimento prévio dos protagonistas da narrativa e/ou quando a referência espacial ausente não foi explicitada, portanto, impedindo recuperar a que lugar a criança está se referindo;

(d) truncamento: ocorre quando a cláusula fica incompleta, ou seja, falta informação na oração;

(e) salto: é a sucessão de eventos ou episódios com lacunas espaço-temporais, de tal modo que não há ligação entre eles. A criança passa de repente de uma ideia para outra, ou seja, trata-se de eventos sem conexão para o ouvinte, mesmo que, possivelmente, haja ligação para o narrador, pois tem a ideia nítida da história como um todo;

(f) falta de concordância (coesão): confusões que a criança faz em nível referencial quando opera com personagens de gêneros distintos, confundindo-os ao usar os substitutos e/ou atributos no decorrer da narrativa;

(g) aparecimento abrupto de personagem: entrada repentina de personagens, sem que tenham sido introduzidos previamente. A criança utiliza artigo definido antes do personagem como se já fizessem parte do episódio ou mesmo do conhecimento compartilhado, no entanto, sem ter sido apresentado;

(h) interrupção: final da história sem solução do problema, por isso, tem-se a impressão de que a criança já está cansada e a história parece ser cortada;

(i) indecisão numérica: ocorre quando a criança flutua indecisamente em torno dos referenciais numéricos;

(j) partículas: uso de pequenas palavras, como “né”, “assim”, “tipo” quando aparecem como muleta, isto é, servindo como apoio, e, portanto, sem seu significado, pois preenchem pausas plenas;

(k) ambiguidade: a criança deixa que apareçam dúvidas, prejudicando a compreensão da história contada, visto que há a possibilidade de diferentes interpretações;

(l) hesitação: a criança apresenta dúvidas ou não se sente segura; ocorre, com frequência, no caso de inventar uma história improvisadamente, resultando em forma confusa, gaguejando e titubeando;

(m) início abrupto: ao iniciar uma história fictícia, é importante suspender tempo e espaço factuais, através de um marcador que sinaliza ao ouvinte sua intenção. Algumas crianças não utilizam fórmula inicial para histórias ficcionais, iniciando sua narrativa abruptamente.

(n) repetição: ocorre quando a criança volta a dizer algo que já havia mencionado anteriormente.

(o) contradição: acontece se duas proposições apresentadas são incompatíveis, não podendo ser simultaneamente verdadeiras.

(p) agramaticalidade: são estruturas que fogem dos princípios da gramática do português brasileiro.

2. Desempenho em categorias positivas: as narrativas foram avaliadas verificando-se as classes de palavras e, então, mensurando tais dados em categorias positivas, pois quanto mais incidências, mais rica foi considerada a história (SCLIAR-CABRAL et al., 1983). As histórias, depois de transcritas, permitiram a marcação das categorias positivas em código numérico, acima de cada ocorrência (APÊNDICE C). Para as categorias positivas, foram considerados os seguintes itens, com código numérico correspondente:

(1) substantivo comum; (2) substantivo próprio; (3) adjetivo; (4) verbo; (5) artigo definido; (6) artigo indefinido; (7) numeral; (8) preposição; (9) pronome; (10) advérbio; (11) locução adverbial; (12) interjeição; (13) substantivo composto;

(14) continuativo: termos que indicam continuação, como “e” e “daí”;

(15) clivagem – recurso sintático que coloca um elemento da frase em destaque;

(16) partícula de exclusão ou de limite; (17) conjunção subordinativa;

(18) conjunção coordenativa; (19) locução verbal;

(20) locução adjetiva;

(21) locução pronominal; como “cada um”;

(22) textualidade – fórmula inicial para narrativa ficcional; (23) textualidade – fórmula de encerramento para narrativa ficcional;

(24) expletivo: elemento que confere realce, podendo ser retirado da frase sem prejuízo algum, por exemplo, ele não sabia o que “que” tinha lá;

(25) confirmativo: quando há confirmação, como em “tá”; (26) onomatopeia;

(27) locução indefinida, como “alguma coisa”.

Foram excluídas desta análise as expressões idiomáticas e imitações, por se tratar de termos e frases prontas, que, consequentemente, não são criações da criança.

Com a quantificação dos dados mencionados (critérios estabelecidos para categoria positiva e categoria negativa), foi possível realizar comparações da produção de histórias das crianças em 1982 e em 2011, com relação ao total de palavras e total de léxicos produzidos encontrados nas narrativas, inferindo sua respectiva competência narrativa.

3.5.3 Distribuição de frequência de acordo com as ocorrências