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2.1 O PERCURSO DA HERMENÊUTICA

2.1.2 Análise Sócio-histórica

A análise sócio-histórica tem por objetivo a reconstituição das condições

sociais de produção, circulação e recepção das formas simbólicas no contexto onde ocorre o fenômeno estudado. ―Formas simbólicas não subsistem num vácuo, elas são produzidas, transmitidas e recebidas em condições sociais e históricas específicas‖ (THOMPSON, 2002, p.366). Os aspectos básicos do contexto social em que as formas simbólicas se situam enfocam a situação espaço-temporal, os campos de interação, as instituições sociais e a análise da estrutura social. Essa análise deve contemplar o conjunto de regras e convenções; as relações sociais e instituições; e a distribuição do poder, recursos e oportunidades em virtude das quais esses contextos constroem campos diferenciados e socialmente estruturados (VERONESE e GUARESCHI, 2006; THOMPSON, 2002).

O contexto da pesquisa é a organização hospitalar. A análise da estrutura visa contribuir para a compreensão dos processos que ocorrem nesse ambiente. Conhecer a estrutura formal, a estrutura informal, as relações de poder, os recursos disponíveis para a assistência, bem como as regras que norteiam as práticas de saúde é o primeiro passo para a construção do entendimento sobre o processo comunicacional nesse cenário.

Para a análise sócio-histórica Thompson (2002) distingue cinco aspectos básicos dos contextos sociais8e sugere que cada um desses define um nível de

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análise distinto. Elencamos três aspectos para desenvolver a análise, considerando a pertinência de aplicabilidade ao estudo.

A primeira análise baseia-se na identificação e descrição das situações

espaço-temporais (grifo nosso) específicas em que as formas simbólicas são

produzidas e recebidas.

As formas simbólicas são produzidas (faladas, narradas, inscritas) e recebidas (vistas, ouvidas, lidas) por pessoas situadas em locais específicos, agindo e reagindo a tempos particulares e a locais especiais, e a reconstrução desse ambiente é uma parte importante da análise sócio- histórica (THOMPSON, 2002).

A comunicação no hospital ocorre em um ambiente dinâmico, composto por áreas distintas e especializadas. Entender o contexto no qual as informações circulam é fundamental para a compreensão do processo como um todo. Assim, a análise da situação espaço-temporal nessa pesquisa descreve a trajetória da implantação da cultura de segurança do paciente, na perspectiva da comunicação. Buscamos contextualizar o cenário, relatando as iniciativas desenvolvidas para este fim, a implantação do Núcleo de Segurança do Paciente (NSP), os desafios enfrentados e os resultados alcançados. A obtenção desse material se deu por meio das entrevistas com os profissionais que construíram esse trabalho.

O segundo nível de análise sócio-histórica aplicado investiga os meios

técnicos de construção de mensagens e de transmissão (grifo nosso), ou seja, o

substrato material em que, e através do qual, as formas simbólicas são produzidas e transmitidas (THOMPSON, 2002). Nesse procedimento observamos quais aparatos são aplicados na comunicação voltada para a implantação da cultura de segurança do paciente. Esses incluem formulários e planilhas utilizados durante os processos de trabalho que dão suporte à comunicação, como nos procedimentos de passagens de plantão.

E, a terceira forma de análise sócio-histórica adotada no estudo é a dos

campos de interação (grifo nosso) quando se investiga um campo como espaço de

posições e um conjunto de trajetórias, as quais determinam as relações entre as pessoas (THOMPSON, 2002). Tais relações são caracterizadas por regras não muito explícitas, mas estratégias implícitas e tácitas, ―na forma de conhecimento

prático gradualmente inculcado e continuamente reproduzido nas atividades comuns da vida quotidiana‖ (THOMPSON, 2002, p. 367). O trabalho em saúde, especialmente no ambiente hospitalar, é calcado em práticas que se consolidaram ao longo dos anos, baseadas na história das profissões, nas descobertas científicas, nas experiências de vida e na reprodução do conhecimento (OGUISSO, 2007; MARQUIS e HUSTON, 2010).

As informações circulam constituindo um processo dinâmico; a troca entre os profissionais ocorre, em grande parte das ocasiões, durante a realização de tarefas que não podem ser interrompidas, comprometendo a concentração dos mesmos. Os enfermeiros, por exemplo, atuam em turnos de seis ou doze horas, e com frequência, a demanda de tarefas suplanta o tempo disponível. Assim, a‗transferência‘ de informações, além de constante, ocorre concomitantemente à assistência, ao gerenciamento ou às atividades educativas (SCHILLING, 2005; FELLI e PEDUZZI, 2011), próprias do fazer diário desse profissional. É necessário levar em conta que as informações são parte do processo comunicacional, pois esse pressupõe troca de significados (WOLTON, 2010).

Aplicando-se esse tipo de análise na organização hospitalar investigamos os fatores que interferem no processo comunicacional que estejam vinculados às distintas profissões e/ou categorias, como médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem. Cada profissão utiliza formas comuns de assistir ao paciente, norteada pela legislação, pelos códigos de ética profissional, pelas normas do hospital e pelos aspectos subjetivos de conduta de cada grupo profissional. Esse tipo de categorização, ou de investigação de condutas comuns pode ser realizada, considerando-se os diferentes setores do hospital. Por exemplo, em uma Unidade de Terapia Intensiva, os profissionais realizam atividades que são comuns a esse grupo, mas distintas das atividades desenvolvidas pela equipe de outra área, como o Centro Cirúrgico. Essas interações e relações entre as equipes de trabalho trazem uma gama de possibilidades interpretativas que contribuem para a compreensão do processo comunicacional. Foram considerados ainda, nessa busca, os horários, os locais e/ou outros fatores ambientais que interferem na comunicação.

Assim, a pesquisa de campo inclui a observação não-participante da dinâmica de trabalho nessas duas unidades assistenciais, em diferentes momentos, e, em

especial durante as passagens de plantão, quando ocorre a transferência9 dos cuidados entre os turnos de trabalho, visando à compreensão do processo de comunicação nesses cenários.

E, a pesquisa de campo incluiu, ainda, a realização de entrevistas com profissionais médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem de duas unidades distintas do hospital, e de profissionais envolvidos diretamente com a implantação da cultura de segurança do paciente no hospital. As entrevistas nos facultaram conhecer a percepção desses profissionais sobre a interface entre comunicação e cultura de segurança, agregando novos elementos para a compreensão do fenômeno estudado.