CAPÍTULO II – PROJETO “LEITURA ILUSTRADA”
4. PROJETO PRÁTICO
4.4. TESTES FINAIS E ANÁLISE DE RESULTADOS
4.4.3. ANÁLISE TEXTUAL E VISUAL – COMPARAÇÃO DE RESULTADOS
Figura 70 - Logotipo “Leitura Ilustrada”.
4.4.3. ANÁLISE TEXTUAL E VISUAL – COMPARAÇÃO DE RESULTADOS
Depois de realizados os testes, partimos para a análise textual e visual do livro escrito por cada um dos seis leitores.Nestas análises, atentámos nos textos produzidos6, diferenças e semelhanças ao nível do conteúdo textual produzido, e a forma como os leitores exploraram o espaço assinalado para a introdução de texto. Nas páginas seguintes vamos apresentar as conclusões que retirámos destas experiências de leitura, comparando os resultados obtidos.
Dados dos participantes:
Caso 1) 25 anos, licenciado em biomedicina; Caso 2) 26 anos, designer de calçado; Caso 3) 55 anos, life coach; Caso 4) 32 anos, profissional de acupuntura; Caso 5) 26 anos, ator, músico e escritor; Caso 6) 45 anos, especialista na disciplina de escrita criativa.
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Relativamente às questões gerais que colocámos a cada leitor na 2ª reunião, destacámos as seguintes observações:
·A maioria dos leitores fizeram pausas no desenvolvimento da narrativa, pois reconheceram que o livro apresentava um conjunto de exercícios de escrita criativa que pedia um comprometimento em manter a qualidade do texto até ao fim;
·Constatámos que o texto foi iniciado a partir do livro azul em todos os casos, exceto nos casos 2) e 5). Acabámos por entender que a figura “geometrizada” do cortante em forma de cruz (capa) trazia mais segurança ao leitor para iniciar a experiência; Por outro lado, a forma circular do cortante do livro vermelho, não transmitia a mesma estabilidade;
·Apesar das modificações que fizemos ao texto das instruções, nos primeiros exemplares desta fase de testes, todas foram compreendidas pelos leitores;
·Todos os participantes acabaram por escrever diretamente no suporte e a maioria a caneta. O caso 3) com caneta vermelha no livro azul e no vermelho, a caneta azul;
·O amor entre homem e mulher foi a temática predominante com variações para o drama, o onírico e a comédia. No caso 3), o amor pela vida. Por vezes, os narradores eram os próprios autores do texto, outras, as personagens. Do livro azul houve uma tendência para conteúdos textuais mais “frios” e instrospetivos, no vermelho percebemos mais agitação, alegria e raiva. No entanto, estes contrastes apenas representavam dois momentos distintos de uma só história;
·Alguns leitores tomaram cada página como “um desafio”, não quiseram desenvolver uma narrativa linear, outros, deram continuidade a uma ideia, ignorando outras interpretações que tinham feito das mesmas ilustrações. A principal dificuldade, foi para alguns, escolher que conceito abordar na narrativa quando lhes tinham surgido tantas ideias;
·Apenas dois participantes quiseram dar continuidade a determinada parte da narrativa construída, no caso 2): ao poema das páginas 10 e 13 (livro vermelho), no caso 4), a história da Dona Mancha (dupla página 7-8 do lado azul) como um conto infantil. Os restantes leitores admitiram que o texto pertenceu apenas ao momento em que foi escrito. Se tivessem que reler o livro, a experiência seria diferente e seriam abordadas outras ideias. É justamente para fixar cada uma dessas ideias que serve a escrita, tal como refere Babo:
“A escrita é antes de mais leitura, na medida em que releva o já escrito. (...) Fixa na matéria o pensamento para que este prevaleça para além do presente que o corporalizou.” (Babo, 1993, p.71)
· Todos os leitores assinaram a coautoria do livro. O caso 1) fê-lo ainda na 1ª reunião, após ler a proposta do projeto (na badana). Depois disto, explorou a maleabilidade do objeto esticando-o na totalidade do seu comprimento até não ser mais possível, juntou lado a lado páginas da parte vermelha do livro com a azul na tentativa de combinar novas narrativas visuais para além das existentes;
·Quando questionados se comprariam um livro-objeto com esta proposta para si próprios, alguns leitores responderam que sim, outros, disseram que ofereciam a alguém que precisasse de estimular a sua criatividade. Sugeriram também, que podíamos fazer versões deste livro, adequadas ao público infantil;
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·Todos consideraram um bom exercício de escrita criativa. O caso 6) distinguiu três camadas sugestivas no livro: a primeira, nos constrangimentos racionais ou discursivos existentes nas instruções ao ser pedido para “escrever entre os símbolos”, “rasgar”, “cortar”; a segunda, nos constrangimentos simbólicos dados pelos indicadores de escrita “cruzes” e “círculos”; a terceira camada sugestiva estava nos constrangimentos psicológicos implícitos nas ilustrações, onde considerou existir uma contaminação sensorial dada pelas cores, e uma contaminação atmosférica, em que o leitor se “afunda” e passa a “fazer parte” da composição.
De seguida apresentamos as principais conclusões, relativamente à análise textual e visual de cada livro e comparação de resultados.
Título
Todos o escreveram no sítio indicado exceto os casos 2) e 5), na parte vermelha. O caso 2), julgou que o título deveria ser escrito na página 2. No caso 5), o leitor designou o título para a parte azul, adequado às duas partes, pois tal como declarou: “Mexes no livro e reparas que as partes não se separam, não há uma parte do livro que viva separada da outra, interligam-se.”. Quer no caso 5), quer no casoo 6), foi feita uma referência a répteis: “Lagarto” e “Descamação” (respetivamente), inspirada no lado mais “frio” do livro completo – o azul.
Fig.71. Capas livro vermelho, caso 2) e caso 5).
Sinopse
Apesar de destacarmos um espaço para o resumo da narrativa nos exemplares cedidos ao caso 4) e caso 6), nenhum utilizou este espaço para o efeito. Enquanto o caso 4) não escreveu nada, o caso 6) utilizou-o para escrever o subtítulo do livro que funcionou como mote para desenvolver o restante conteúdo textual. Decidimos não incluir este espaço no protótipo final, pois aqui, a existência de uma sinopse acaba por não fazer sentido, uma vez que define uma só narrativa e por isso, está contra aquilo que defendemos neste projeto: a variedade de interpretações que se fazem a cada leitura.
Rasgar e colar (livro azul)
Todos os leitores cumpriram a instrução das páginas 2 e 3 e dupla página 7-8. Alguns tiveram atenção à forma como rasgavam para poderem aproveitar partes da ilustração da página 2 (aba da página 4), na composição gráfica da dupla-página 7-8. É o exemplo do caso 2) que colou os pedaços, tentando compor novas imagens, como por exemplo: a partir de uma parte do “coração” (p.2) criou um “berço” para o elemento gráfico que interpretou como um bebé. O mesmo foi feito pelo caso 5), que quis que o rasgão do
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“coração” tivesse uma ponta a indicar para o pop-up central, em representação da ideia de “cortar o coração”.
Fig.72. Dupla página 7-8 (paginação final), caso 1) e caso 5).
Papel químico (livro azul)
Depois dos testes com o caso 1) e 2), reparámos que a escolha de uma gramagem alta de papel para o miolo, comprometia o efeito do papel químico, uma vez que as palavras escritas na página 4 não passavam para a 6. No caso 5), apesar da gramagem do papel ser menor, aconteceu o mesmo, porém, devido ao facto do leitor ter escrito muito levemente na página 4.
Relativamente ao texto, alguns leitores optaram por desenvolver um texto com as palavras marcadas na página 6 (caso 4)), outras encontraram sentido na combinação dessas palavras, por isso, não adicionam mais (caso 3)).
Fig.73- Dupla página 5-6 (paginação final), caso 1), caso 2), caso 3) e caso 4).
Cadeiras (livro azul)
As duas “cadeiras” opostas, foram elementos associados, pelos leitores, a conceitos de dualidade e pausa. No caso 1), 2) e 6) as palavras contornaram o “assento”, os casos 3), 4) e 5), ocuparam-no todo.
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Fig.74- Dupla página11-12 (paginação final), caso 1), caso 2) e caso 6).
Fig.75- Dupla página11-12 (paginação final), caso 3), caso 4) e caso 5).
Páginas 13, 9, 10, 15 e 17 (livro azul)
Ao contrário dos restantes leitores, o caso 6) aproveitou o facto da dupla página 9-10 (com indicador de escrita) reaparecer no cortante da página 13 e a última ser em parte sobreposta pela página 14, para criar jogos de palavras, que permitiam ler algumas frases distintas através da manipulação das páginas. Ou seja, os diferentes formatos possibilitavam esconder e desvendar palavras das diferentes páginas. Esta possibilidade foi evidenciada no texto, pela utilização das palavras: “escondes-te” e “reapareces”, escritas na página 13, mas comuns a todas as frases que podiam ser lidas. Damos o exemplo das frases: “Escondes-te na fruta e reapareces nas minhas calças” (p.13, 15 e 17) e “Escondes-te ali na casa e depois reapareces meu amor senta-te no selim nas minhas calças” (p.13, 9-10, 17).
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Cadeiras, pop-up, pirâmide, barco de papel (livro azul)
Todos os participantes hesitaram em abrir o barco de papel com receio de o estragar. O caso 5) quis relacionar textualmente o pop-up que representava uma figura masculina de duas caras (dupla página 9-10) com outros elementos centrais no espaço da dupla página do livro azul: “cadeira” (dupla página 11- 12), “pirâmide” (dupla página 18-19) e “barco” (página 23). Para isso, ao longo destas páginas, escreveu sobre um homem em mar alto (pop-ups “homem” e “barco”) que era um sonhador e estava apaixonado, mas queria assentar as ideias (“cadeira”) para superar os obstáculos (“pirâmide”), no entanto, onde estava não havia música para se inspirar.
Fig.77- Pormenores das páginas 9-10, 11-12, 18-19 e 23 (paginação final), caso 5).
Fechadura (livro azul)
O textos mostraram a associação feita à ideia de segredo que é desvendado, fim de um ciclo ou etapa. Enquanto todos os participantes contornaram a “fechadura” ou até a composição gráfica completa (“aranha”, “teia” e número de página (caso 1) e 2)), o caso 3) escreveu raspando os caracteres sobre a “fechadura”.
Fig.78- Página 24 (paginação final), caso 1), caso 2) e caso 3).
Colagens (livro vermelho)
Este exercício não foi apreciado pela maioria dos leitores, uma vez que: depois de escreverem com lápis ou caneta em quase todas as páginas anteriores, esta proposta quebra esse ritmo de escrita. Por outro lado, na parte azul, todos consideram interessante rasgar a aba da página 4, ou seja, a página 2 (páginação final). Ao contrário do lado vermelho, quem começou a leitura pelo livro azul, quando chegou à página 2, ainda não tinha criado o hábito de escrever a caneta ou lápis. Apenas o caso 3) explorou todo o espaço da
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dupla página 18-19, em comparação, o caso 5), que nem sequer realizou o exercício. De destacar que apenas o caso 6) colou uma citação, como indicavam as aspas desenhadas.
Fig.79- Dupla página 18-19 (paginação final), caso 3), caso 5) e caso 6).
Postal (livro vermelho)
Apesar de reconhecerem um postal nesta página, a maior parte dos participantes não escreveu nas linhas quando não eram sinalizadas por indicadores de escrita. Porém, admitiram ter vontade de o fazer. Isto aconteceu, porque habituámos os leitores a guiarem-se pelos indicadores de escrita “círculos azuis”. De forma contraditória, percebemos que existem outras partes do livro em que, mesmo sendo delimitado um espaço específico para escrever, os participantes não condicionaram o texto pela posição dos símbolos, utilizando, inclusive, as linhas das ilustrações não assinaladas para escrever. Para evidenciar esta constatação damos o exemplo do caso 1) que não escreveu nas linhas, pois não tinham indicadores de escrita e do 4) que por sua vez, escreveu entre os indicadores.
Fig. 80- Página 15 (paginação final), caso 1) e caso 4).
Páginas 14, 16 e 17 (livro vermelho)
Os textos refletiram um sentimento claustrofóbico na procura da saída do labirinto. A maioria dos participantes não respeitou o caminho até à saída (desenharam novos caminhos com texto), alimentando este conceito de desespero e rebeldia abordado no texto. Apenas os casos 2), 5) e 6) criaram uma nova frase na página 16, a partir de uma das palavras escritas na página 14 (cuja ilustração e espaço para escrita tinham continuidade na página 16). Os restantes participantes não se aperceberam dessa possibilidade.
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Fig. 81- Página 14,15 e 17 (paginação final), caso 2), caso 5) e caso 6).
Pernas (livro vermelho)
Na dupla página 10-13 os participantes exploraram o espaço assinalado pelos indicadores de escrita de formas variadas. Enquanto no caso 1) o texto assumiu duas orientações e apenas uma palavra foi escrita em cada espaço, o caso 5) escreveu em várias direções e usou palavras da mesma frase para desenvolver outras. Por exemplo, na página 13, a partir de cada uma das palavras da frase escrita na vertical, criou frases na horizontal e todas terminavam na palavra “sentir”.
Fig. 82- Página 10-13 (paginação final), caso 1) e caso 5).
Acetato (livro vermelho)
Apenas os casos 2) e 5) não quiseram raspar para escrever no acetato, conforme indicava a instrução (página 23). Os textos remetiam para diálogos internos de dualidade ou entre duas personagens ou facetas da maesma, baseados nas ilustrações representativas de dois peixes que pareciam complementares. Na figura 83, damos dois exemplos: o caso 5) que não escreveu no acetato, mas as palavras escritas na página 22 são visíveis através deste material translúcido (página 23); e o caso 3) onde não só vemos o que foi raspado no acetato como o que transparece da página 22.
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Fig. 83- Páginas 22-23 (paginação final), caso 5) e caso 3).
Chave (livro vermelho)
Todos reconheceram o elemento gráfico da página 24, como uma “chave”, no entanto, apenas o caso 2) aplicou esta ideia no texto: “chave do coração”. Para a maioria dos leitores, esta página foi somente o fim de um ciclo. Terminavam aqui a narrativa desenvolvida até então, logo, não fizeram uma relação tão direta com o elemento “chave”. Como o caso 2) foi o único que começou a leitura pelo lado do livro vermelho, esta constatação não se colocou, pois estava apenas a meio da leitura. Visualmente, damos o exemplo comparativo entre o caso 3), que escreveu “Entre ler” na vertical e horizontal, dentro do espaço delimitado pelos três indicadores de escrita, e caso 6), que interviu na página escrevendo com a palavra “Envoltos” escrita em apenas numa direção (girou o objeto para escrever na horizontal).
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