2 A LÓGICA DO MERCADO FAIR TRADE SOB DIFERENTES
3.1 A Nova Economia Institucional
3.1.2 Análise de Valor da Cadeia Global (Global Value Chain Analysis GVC)
No setor agroalimentar, a cadeia produtiva é composta por uma sequência relacional de diversos atores envolvidos na produção e na comercialização de um produto: agricultores, compradores, processadores, distribuidores, varejistas e consumidores. Uma vez que tais interações adicionam valor ao produto, é comum ver o termo “cadeia de valor” na literatura de gestão estratégica.
Originalmente, o conceito de “cadeia de valor” foi desenvolvido por Porter (1990). No entanto, a abordagem de cadeia de valor de Porter era, primariamente, limitada a analisar internamente as competências essenciais de uma única empresa para conseguir agregar valor por meio da redução de custo e diferenciação. Depois veio o conceito de sistema de cadeia de valor, para se referir às relações de uma firma com seus fornecedores e clientes. Mas, com a globalização dos mercados, a abordagem sistêmica da cadeia de valor foi sendo ampliada. O foco passou a ser uma rede de empresas em vez da empresa individual. O nível de análise passou a ser transnacional.
De acordo com Ponte (2004), a abordagem da Cadeia de Valor Global (CVG), ou Global Value Chain Analysis (GVC), foi iniciada por Gereffi (1994) sob o nome Global Commodity Chain (GCC). Na literatura mais recente, este termo foi abandonado e substituído pelo conceito de “cadeia de valor” para possibilitar a cobertura daqueles produtos que não têm características de commodities. Assim, a abordagem Global Commodity Chain (GCC) agora é conhecida como análise da Cadeia de Valor Global (GVC em inglês), um modelo analítico para entender a natureza das ligações entre pequenas firmas locais e seus vínculos com corporações internacionais em mercados globais. Segundo Danse, Tulder e Wijk (2008), possibilita também a inclusão de atores desvinculados do mercado, tais como o governo e organizações da sociedade
civil. Trata-se, portanto, de uma abordagem teórica que preenche um vácuo na literatura de estratégias de negócios em cadeias de suprimento voltadas para analisar questões de sustentabilidade dos negócios.
Ainda segundo Danse, Tulder e Wijk (2008), o escopo da abordagem GVC fornece instrumentos para examinar (a) relações entre organizações de mercado e não-mercado; (b) a interdependência entre firmas na cadeia; (c) a influência da regulação governamental nas estratégias de negócio na cadeia e (d) questões normativas relacionadas aos processos de produção e à distribuição dos ganhos entre os agentes da cadeia.
Nesse sentido, a análise de GVC pode ajudar a responder algumas das questões de pesquisa propostas neste trabalho, em especial aquelas que dizem respeito à dinâmica e à eficiência do MFT e aos impasses vividos com a entrada de grandes corporações nesse segmento.
Um fator a ser considerado na relação entre o processo de certificação do MFT e as cadeias de abastecimento é sua particularidade com relação aos demais sistemas de certificação. Ainda que a coordenação da cadeia tenha uma forte influência das grandes corporações, em função de seu poder comercial, a certificadora também exerce importante poder na cadeia de valor. Diferentemente dos demais sistemas de certificação, a FLO é que define quem entra (ou não entra) na cadeia, em função da oferta e da demanda de produtos a serem certificados. Portanto, uma organização de produtores somente ingressará no rol de entidades certificadas se houver demanda correspondente pelo respectivo produto a ser ofertado; por outro lado, uma organização compradora somente será certificada pela FLO se houver uma oferta compatível para a sua demanda. Esse equilíbrio regulado pela certificadora garante, em tese, o preço mínimo a ser praticado, por evitar pressões de negociação entre compradores e fornecedores.
O café é um produto com características globais e uma importante fonte de divisas em muitos países do hemisfério sul. A cadeia global de café mudou drasticamente nas últimas décadas, como resultado da sua desregulamentação, novos padrões de consumo, e a incorporação de novas estratégias corporativas. De uma disputa equilibrada entre países produtores e consumidores no âmbito da política de acordos internacionais do café, o poder tem se deslocado para beneficiar as grandes corporações transnacionais. O relativo ambiente de estabilidade institucional, onde uma proporção dos rendimentos gerados era distribuída de forma justa entre os agricultores e países consumidores, transformou-se num ambiente mais informal, instável e desigual (PONTE, 2002). A GVC é utilizada pelo autor para explicar o deslocamento de concentração de valor do café nas grandes corporações, em detrimento dos atores localizados no segmento produtivo, nos países produtores.
Numa análise do MFT, utilizando a GVC, Reed (2009) argumenta que, apesar do aspecto positivo da entrada de grandes corporações na cadeia certificada (via ampliação do mercado e incremento do valor total negociado), existe uma ameaça latente junto aos agricultores familiares, em função da erosão potencial dos princípios originais do MFT, como proposta alternativa de comercialização e desenvolvimento que valoriza as famílias de agricultores em situação de desvantagem comercial no hemisfério sul. O ponto básico de contestação defendido pelo autor é que, enquanto a participação das empresas tem o potencial de rapidamente ampliar o mercado para produtos do MFT, isso ameaça aspectos essenciais daquilo que muitos veem como a visão original do MFT.
Vários autores criticam os modelos neoinstitucionalistas para explicar o processo de certificação socioambiental das commodities agrícolas, em especial
as do MFT (BITZERA; FRANCKEN; GLASBERGEN, 2008;
2007). Neste estudo, pretende-se aprofundar esse debate, avaliando a real importância da certificação e a possibilidade de redução dos custos de transação, conforme prega a teoria. Nos atuais debates em curso, a NEI seria capaz de explicar a complexidade dos princípios que envolvem o MFT certificado? Como se dá esse processo na cadeia de suprimentos do café e em sua relação com os agricultores familiares e suas organizações?