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Análise

No documento Yawp #8 (páginas 150-154)

A

o dar preferência à preservação do conteúdo semântico, em detrimento do formato poético do texto, Lagos pro-duz uma tradução detalhada e, muitas vezes, literal que pretende resguardar o que ele considera, a partir de sua leitu-ra da visão e das intenções de Tolkien, ser o significado do poema. Para tanto, o tradutor tenta resgatar todas as asso-ciações e ideias importantes do “origi-nal” ao traduzi-lo para o português.

Uma ilustração dessas associações são as comparações e metáforas que La-gos conservou na versão em português, ao invés de simplesmente omiti-las ou substituí-las por um correspondente mais habitual, como em “surgiu Castor-texugo, com sua testa cor de neve” (Ibi-dem, p. 8); “dormiu feito um pião bem jogado, ressonando como um fole” (Ibi-dem, p. 10); e “zumbiu como uma abelha”

(Ibidem, p. 12). Outro conceito mantido

do “original” são as redundâncias que poderiam ter sido consideradas irrele-vantes pelo tradutor ou editor: “volte a dormir de novo” (Ibidem, p. 7). Provavel-mente por questão de ritmo, essa mesma redundância foi eliminada na tradução de Kyrmse.

Apesar de Lagos conseguir se manter na maior parte de sua tradução, segundo suas próprias palavras, “o mais fiel pos-sível ao significado original” (Ibidem, p.

4), algumas alterações são dignas de des- taque. Em uma das estrofes na segunda metade do poema, o segundo verso do poema “original” é repetido – “bright blue his jacket was and his boots were yellow” (Ibidem, p. 133) – com a adição apenas de uma vírgula depois de “was”.

Contudo, na tradução de Lagos, ao invés do tradutor repetir o mesmo verso que escrevera – “sua casaca azul brilhante e suas botas amarelas” (Ibidem, p. 5) – ele o alterou, ocasionando no seguinte ver-so: “de azul brilhante era sua casaca e calçava botas amarelas” (Ibidem, p. 11).

É possível supor que essa alteração seria o resultado de um desejo de criar sen-tenças mais complexas ao invés de man-ter as frases e o estilo simples do poema de Tolkien.

Outro provável resultado de uma preferência estilística do tradutor é a introdução de reticências, as quais são inexistentes no “original”, em diversas estrofes, como, por exemplo, em: “Ôpa, Tom Bombadil!… Veja só o que a noite lhe trouxe!…/Estou aqui atrás da porta… Fi-nalmente, consegui pegá-lo!…/ (…) /Pobre Tom Bombadil… Ele vai te deixar pálido, duro e frio!…” (Ibidem, p. 9). Em apenas

uma estrofe, Lagos acrescentou seis reti- cências, o que poderia indicar uma ten-tativa, por parte do tradutor, de propor-cionar ao leitor a impressão de uma fala mais pausada.

Em suma, o maior contraste entre o

“original” e a tradução de Lagos, resulta-do da preferência pelo conteúresulta-do em detri-mento da forma, é a expansão demasiada dos versos que quebram com a fluência harmoniosa e o ritmo característicos do poema de Tolkien, o que acarreta uma estrutura semelhante à prosa, mas em versos.

Kyrmse, por outro lado, manteve em sua tradução a maioria dos elemen-tos considerados poéticos: esquema de rimas, aliterações, assonâncias, formato das estrofes e métrica irregular. Desses elementos mencionados, o esquema de rimas e a métrica irregular são típicos de uma época mais remota, durante a qual foi composta, por exemplo, a epopeia Beowulf. Para conservar essa influência da literatura anglo-saxônica, entre ou-tras, foi necessária a preservação dos ele-mentos característicos dessa época.

O esquema de rimas no final do ver-so é facilmente identificável como rimas emparelhadas:

Entretanto, há também outro tipo de rimas que Lagos utiliza: rimas inter-nas, que podem ser vistas em “numa raiz se assenta, à luz do sol amena,/secando suas botas e a lamacenta pena” (Ibidem, p. 76) e cujo correspondente, em inglês, é

“Tom sai correndo. A chuva cai, trazendo frio, A fazendo anéis, as gotas despencam sobre o rio; A o vento sopra, as folhas se agitam na torrente, B Bom Tom entra depressa numa toca à sua frente. B

(Ibidem, p. 77)

“on knotted willow-roots he sat in sunny weather,/drying his yellow boots and his draggled feather” (Ibidem, p. 134).

Outra correspondência que Kyrmse realizou entre o “original” e sua versão em português são as aliterações e as-sonâncias, as quais são observadas na aliteração do fonema [p] e assonância do [a] “Veste a bota, o paletó, põe chapéu e pena;/abre bem a janela na alvorada amena” (Ibidem, p. 78) representando a aliteração do fonema [b] e a assonância do fonema [w] em “He clapped on his battered hat, boots, and coat and feath-er;/opened the window wide to the sun-ny weather” (Ibidem, p. 137).

Um prejuízo consequente da esco- lha pela forma poética é a necessidade de algumas alterações do conteúdo, como a alteração do tempo verbal entre passado e presente durante o decorrer do poema – enquanto que, no “original”, a história se passa apenas no passado – como pode ser observado nos seguintes versos: “Passou a chuva. O céu é claro na tarde de verão,/Tom Bombadil vai rindo e à casa chega então,/destranca a porta e abre bem aberta a janela” (Ibidem, p. 77).

Outra modificação do conteúdo é a mudança do sujeito em certas partes do poema, como em “‘Estou aqui atrás da porta. Acabou a sua paz!/Sou Criatura Tumbal que habita na neblina/dentro do anel de pedras no topo da colina./Estou em liberdade. Vou levá-lo sepultado’”

(Ibidem, p. 78). Em inglês – “‘I’m here behind the door. Now at last I’ve caught you!/You’d forgotten Barrow-wight dwelling in the old mound/up there on hill-top with the ring of stones round./

He’s got loose again. Under earth he’ll take you’” (Ibidem, p. 136) – o sujeito em primeira pessoa é substituído pela ter-ceira pessoa do singular, o que é manti-do em Lagos, mas não em Kyrmse.

Além dos comentários feitos aci-ma, ainda é possível realizar uma com-paração entre as traduções que Lagos e Kyrmse fizeram da fala de Tom: “Come, derry-dol, merry-dol, my darling!” (Ibi-dem, p. 137). Ao traduzir por “Vamos, coragem, oi, alegria, oi, minha queri-da!” (Ibidem, p. 11), Lagos preferiu uma maior aproximação semântica com o “original”, fazendo as associações

“merry”/”alegria” e “darling”/”querida”.

Kyrmse, por outro lado, escolheu uma maior semelhança fonética e morfológi-ca com o verso em inglês, traduzindo por

“Vem alazão, balalão, docinho!” (Ibidem, p. 78). Nesta frase, há uma aproximação entre os sufixos repetidos –ão e –dol em contraste com os sufixos –inho e –ing, os quais, por sua vez, são similares foneti-camente.

Considerações Finais

R

etomando a ideia de que uma tradução não será fiel ao texto fon-te e sim aos objetivos e concepções de poesia e tradução do próprio tradutor, é possível afirmar que tanto Lagos quanto Kyrmse foram, em geral, fieis em suas traduções, uma vez que os propósitos designados por cada um, com algumas exceções isoladas, foram cumpridos:

a tradução de Lagos foi fiel semantica-mente “ao significado do original” (Ibi-dem, p. 4), resgatando representações e associações cruciais para a construção

do imaginário do poema. Já o formato poético da tradução de Kyrmse, atr a-vés da conservação de rimas, alitera-ções, assonâncias e ritmo do “original”, manteve-se “adequado poeticamente aos variados esquemas adotados por Tolkien” (Ibidem, p. 4).

As duas traduções, portanto, acabam complementando-se: uma expressa mais detalhadamente o conteúdo semântico do poema de Tolkien enquanto a outra preserva o formato poético e, consequen-temente, os elementos que deixam a

poe-sia de Tolkien única e admirável. Ao con-ceber uma edição com duas traduções diferentes que, ao seu próprio modo, po-dem ser consideradas fieis, acreditamos que a editora Martins Fontes pretendeu proporcionar ao leitor duas possibili-dades de leitura de acordo com a pre-dileção de cada um, seja ela por uma tradução que se aproxime semantica-mente do que se acredita que o autor do texto fonte quis dizer, ou por uma que reproduza a estrutura poética melodiosa e complexa própria de Tolkien. Y

Referências Bibliográficas

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No documento Yawp #8 (páginas 150-154)