Os tecidos foliares da cultivar BRS 195 submetidos aos oito tratamentos no ano de 2003 foram submetidos às extrações e quantificações de proteínas totais, fenóis e atividade de -1,3-glucanase, cujos resultados se encontram na Tabela 6. A concentração de proteínas totais presentes nos extratos das folhas tratadas com os elicitores alicina e goma xantana apresentou tendência de aumento em relação a plantas não tratadas. O mesmo aconteceu com a enzima -1,3-glucanase que se manteve em proporções mais elevadas nos tratamentos com elicitores, independente do número de aplicações realizadas. Da mesma forma, no tratamento com fungicida, os dados da concentração de proteínas totais e da atividade da enzima -1,3-glucanase mostram-se semelhantes àqueles obtidos com os elicitores. Em relação à concentração de fenóis, o comportamento foi inverso onde as plantas não tratadas apresentaram maior concentração do que as plantas submetidas ao tratamento com elicitores. No fungicida, Epoxiconazole + Pyraclostrobin a concentração de fenóis foi mais alta se comparada ao tratamento testemunha e também aos elicitores. Estas alterações nas plantas são provenientes de modificações do seu metabolismo, pela variação da concentração de alguns metabólitos celulares ou pela produção de outros que estejam relacionados com a indução de resistência, como por exemplo, proteínas PR, fenóis, fitoalexinas, dentre outros (FRY, 1986; KUC, 1993 e 2001; BENHAMOU, 1996).
TABELA 6 - Concentração de proteínas (mg SAB), atividade da enzima -1,3-glucanase (µmol de glicose min-1) e concentração de fenóis (mg ácido clorogênico), presentes nos extratos foliares de plantas de cevada da cultivar BRS 195 não tratadas e em plantas tratadas com elicitores e fungicida. FAPA, Entre Rios, Guarapuava, PR, 2003.
Tratamento Proteínas -1,3-glucanase Fenóis
Testemunha 7,70 1,08 1,21
Alicina 1 aplicação 10,80 1,72 0,83
Alicina 2 aplicações 14,20 1,96 0,90
Alicina 3 aplicações 15,80 2,30 1,10
Goma xantana 1 aplicação 15,50 2,02 0,77
Goma xantana 2 aplicações 15,60 2,06 0,82
Goma xantana 3 aplicações 18,30 2,66 0,89
Fungicida 13,10 1,94 1,38
Devido aos resultados obtidos na safra anterior, os tecidos foliares da cultivar BRS 195 submetidos aos tratamentos com goma xantana e alicina em três aplicações, o fungicida Epoxiconazole + Pyraclostrobin e a testemunha sem controle, foram realizadas as análises de proteínas, fenóis, atividade de -1,3-glucanase e quantificação de clorofila total (Tabela 7). Nos extratos foliares dos tratamentos com os elicitores alicina e goma xantana, bem como com fungicida, observou-se que a quantidade de proteínas totais e da atividade da enzima -1,3-glucanase apresentou um aumento estatisticamente significativo quando comparado à testemunha, confirmando também a tendência verificada no experimento realizado em 2003. Em relação aos fenóis, as plantas não tratadas apresentaram concentração estatisticamente superior em comparação com as plantas submetidas aos tratamentos com elicitores e com fungicida.
Os resultados obtidos nos experimentos de 2003 e 2004, confirmam os de BACH (1997) que constatou aumento da concentração de proteínas e da atividade da enzima -1,3-glucanase, após indução de resistência utilizando goma xantana em plantas de trigo. RODRIGUES (2002b) desenvolvendo trabalho em casa de vegetação, avaliando a eficiência do elicitor alicina em duas cultivares de cevada também verificou aumento da concentração de proteínas e da atividade da enzima -1,3-glucanase e diminuição de fenóis pelo uso do elicitor em comparação com plantas inoculadas com o patógeno Bipolaris sorokiniana. O mesmo comportamento também foi observado por CASTRO (2003), em quatro cultivares de cevada em condições de casa de vegetação, pelo uso do elicitor goma xantana. Segundo BACH (1997) a enzima -1,3-glucanase é uma das proteínas PR consideradas como parte importante do mecanismo de indução de resistência em diferentes espécies de plantas e patógenos. Isto ocorre por ser a -1,3-glucanase uma enzima capaz de hidrolizar as glucanas presentes na parede celular do fungo, sendo liberada das células do hospedeiro para os espaços intercelulares durante a patogênese impedindo assim o desenvolvimento do fungo. A concentração menor de proteínas e maior de fenóis nas plantas após infecção com o patógeno está de acordo com o observado por SHREE e REDDY (1986) e, BACH et al.
(1993) em sorgo e capim elefante inoculados com Exserohilum turcicum e em trigo com Bipolaris sorokiniana, respectivamente. Comportamento similar também foi observado para a atividade da enzima -1,3-glucanase, com aumento nas plantas tratadas em trigo inoculado com B. sorokiniana por (BACH et al., 2003). A autora comenta que alterações do metabolismo das células tais como a diminuição da concentração de fenóis nas plantas
podem estar associadas com a indução de resistência. As alterações metabólicas observadas neste trabalho conduzido a campo confirmam resultados anteriores obtidos com a cultura da cevada em condições de casa de vegetação e poderão servir como indicativo para futuros estudos buscando a elucidação do mecanismo de defesa decorrente da aplicação destes elicitores. Um aspecto que poderá ser elucidado se refere ao nível de regulação da atividade da enzima -1,3-glucanase cuja atividade foi superior em plantas tratadas. Considerando que esta superioridade pode ocorrer pela síntese desta enzima, pela maior disponibilidade de substrato e ainda por ambos, trabalhos comparando a expressão do(s) gene(s) que codificam esta enzima poderão demonstrar qual o nível de regulação.
O aumento no teor de proteínas totais e da atividade da enzima -1,3-glucanase e diminuição da concentração de fenóis também foram observados em plantas de cevada tratadas com o fungicida. Embora o mecanismo de ação dos princípios ativos deste fungicida sobre os fungos seja conhecido, ou seja, o Pyraclostrobin (estrobilurina) inibe o transporte de elétrons nas mitocôndrias do fungo, no complexo do citocromo bc1, indisponibilizando o oxigênio para a célula, interferindo desta forma na formação de ATP, bloqueando o abastecimento de energia das células do fungo (AZEVDO, 2001). O Epoxiconazole (triazol) atua na inibição da síntese de ergosterol do fungo, com interferência na formação da membrana celular causando desta forma a morte do mesmo (AZEVEDO, 2003). Por outro lado, o mecanismo de ação do princípio ativo deste fungicida no metabolismo das plantas não está completamente elucidado, HERMS et al. (2002) relatam um aumento da concentração de proteínas PR1, bem como de RNAm do gene PR1, em Nicotiana tabacum após o tratamento com um dos princípios ativos deste fungicida (Pyraclostrobin), demonstrando portanto que o controle do patógeno ocorre também via indução de mecanismos de defesa além da sua atividade antifúngica. Os resultados obtidos neste trabalho indicam situação semelhante na cultura da cevada, porém estudos adicionais são necessários para confirmar este resultado.
TABELA 7 - Concentração de proteínas (mg SAB), atividade da enzima -1,3-glucanase (µmol de glicose min-1), concentração de fenóis (mg ácido clorogênico) e de clorofila total (mg g de folha-1), presentes nos extratos foliares de plantas de cevada da cultivar BRS 195 não tratadas e em plantas tratadas com elicitores e fungicida. FAPA, Entre Rios, Guarapuava, PR, 2004.
Tratamento Proteínas
-1,3-glucanase
Fenóis Clorofila total Testemunha 13,87 b1 1,29 b 2,24 a 0,38 b Alicina 3 aplic. 33,07 a 3,34 a 0,76 b 0,89 a Goma xantana 3 aplic. 32,87a 2,97 a 0,66 b 0,89 a Fungicida 33,25 a 3,23 a 1,12 b 0,80 a Coeficiente de variação (%) 6,30 6,80 17,70 10,70
1 Médias seguidas pela mesma letra minúscula não diferem entre si pelo teste de Tukey (P<0.05).
Na quantificação da clorofila total observou-se que os valores das plantas do tratamento testemunha apresentaram estatisticamente menor quantidade de clorofila total quando comparado com plantas tratadas com os elicitores e com o fungicida Epoxiconazole + Pyraclostrobin (Tabela 7). BACH (1997); CASTRO e BACH (2004) afirmam que a resistência pelo aumento da clorofila pode ser mediada pela luz e, que a faixa de luz do vermelho e azul apresentaram uma resistência significativamente superior quando comparado com as outras faixas de luz após tratamento com os elicitores alicina e goma xantana. De que forma os teores de clorofila interferem no mecanismo de defesa ainda não foi avaliado porém, considerando o papel fisiológico destas moléculas, pode ser uma estratégia das plantas aumentarem a fixação e o fluxo de carbono para síntese de metabólitos envolvidos na resistência das plantas.
4.3 RENDIMENTO DE GRÃOS, COMPONENTES DE RENDIMENTO, ANÁLISES