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4 MEMÓRIAS DO MAR – A EDUCAÇÃO INFORMAL NA COLÔNIA DE

4.1 ANÁLISES DA PESCA ARTESANAL E O DISCURSO DA

A organização social da pesca artesanal, vista através de seus embates (pontos de tensão) e de suas formas de interação (produção de sentido), produz um sujeito social, o pescador, dotado de conhecimento tradicional que viabiliza não só sua atividade profissional, mas, também, sua reprodução sociocultural em bases comunitárias (questão espacial).

A vivência em comunidade e em sociedade abrange as relações sociais e as formas de associação imprescindíveis aos processos sociais. Estes são entendidos através das diferentes maneiras pelas quais os agentes sociais e seus grupos atuam uns sobre os outros, isto é, as formas que eles se relacionam, se associam (que, na abordagem aqui construída se dão desde uma "retórica generalizada"). Para que ocorra qualquer associação humana, seja em comunidade ou em sociedade, seja o sujeito social a pessoa ou o indivíduo, faz-se necessário o contato social – considerado a base da vida social humana (FREYRE, 1945).

Dos contatos, derivam a interação social, na qual os sujeitos, ao estabelecerem comunicação, aprendem e ensinam coisas, modificam e sofrem modificações de

comportamento, influenciam e são influenciados a mudar de opinião etc.. Neste sentido, a sustentabilidade da comunidade de pescadores depende diretamente das relações entre seus pares, na cooperação para o trabalho da pesca artesanal, tendo na colônia o elo entre o individual e o coletivo, favorecendo as articulações em prol da categoria e das suas práticas produtivas para escoamento, beneficiamento e arrecadação de renda com os pescados obtidos pela colônia e seus associados. Acontece, como vimos anteriormente, que essas relações de interação não se dão dentro de uma unidade social fechada e estável. Dependem, ao contrário, de uma série de tensões que mobiliza a comunidade em torno de lógicas diferenciais e equivalenciais e assim estabelecem o escopo ou horizonte discursivo desse sujeito coletivo.

Do ponto de vista da sustentabilidade do ecossistema, um ponto de tensão que aqui elegemos para analisar, observamos que, historicamente, os pescadores artesanais sempre tiveram, e continuam tendo, grande conhecimento sobre a estrutura e dinâmica ecossistêmica do que entende como sendo o "território da pesca". Eles sabem quais os tipos de ambientes propícios à vida de certas espécies de peixes; conhecem o hábito, o comportamento e a classificação dos peixes; sabem manejar os instrumentos de pesca com propriedade; conseguem identificar os melhores pontos de pesca (identificação dos pesqueiros) (DIEGUES, 1983) e reconhecem que a tecnologia utilizada na pesca artesanal é uma forma de intervenção não predadora se comparada à pesca industrial moderna (VALENCIO; MENDONÇA, 1999; VALENCIO et al., 2003; FURTADO; SIMÕES, 2002).

No caso da colônia dos pescadores Z-9, nota-se que todos os pescadores entrevistados se encontram insatisfeitos com as limitações impostas por leis e normativas ambientais, a respeito de proibição da pesca de espécies, mas aceitam e se conformam com o discurso da ameaça de extinção, sob alegação de que a pesca artesanal seria responsável pela diminuição dos cardumes de pescados sob ameaça, mesmo sem que tenha sido feito um estudo detalhado e que realmente comprovasse para os pescadores, da tal situação.

Portanto, isto seria um processo de integração da comunidade ao discurso da existência de espécies vulneráveis, imposto pelo Ministério do Meio Ambiente. Tal integração, entretanto, não se dá de forma voluntária, uma vez, que são sabedores de que as coisas não acontecem exatamente assim, porque o impacto sobre os cardumes se dá pela pesca industrial, por conta da grande escala e capacidade de carga de seus barcos, e não pela pesca artesanal, que conta com barcos bem menores e, por isso, com menor poder de dano. Sua resistência ao discurso da sustentabilidade não se dá no espaço público, onde seus argumentos teriam pouco poder de convencimento, mas no fato de continuarem pescando de forma ilegal.

Analisando as narrativas dos pescadores na colônia, percebemos que eles constituem suas identidades através dessa tensão contra as políticas públicas e órgãos governamentais que sabem interferir de forma prejudicial na sua atividade de pesca. Suas demandas na realidade operam segundo uma racionalidade bastante distinta da que circula no espaço público e no discurso oficial. Tais demandas podem, em tese, serem articuladas equivalencialmente, posto que excluídas das formas como se estruturam as políticas públicas. Apontariam, assim, para a construção de uma unidade discursiva que, para Laclau, não corresponde a uma identidade naturalizada e essencialista de classe (como interesses prévios aos embates políticos). É através desse "jogo" político, cuja dinâmica nunca pode ser pré-estabelecida, que lemos a eleição, pelos pescadores, do governo como inimigo comum:

―Eu não comecei, eu nasci na pesca. Por que meu pai sempre foi pescador e minha mãe sempre foi pescadora e a gente... tudo que entrou... foi da pesca. Mas a gente hoje... a gente não pode mais contar com a pesca. Por que a pesca hoje tá o que? Tá... a gente é pescador artesanal e a gente não ta tendo apoio. Não ta tendo apoio nem de governo federal, nem de governo de nada, nem de porra nenhuma. A gente pesca um peixe hoje aqui, o barco da gente chega do mar... a gente vai vender o peixe e tem que pagar imposto, 17% . Um peixe que a gente vende por 10 tem que pagar 1,70 ao governo... a gente vai ficar sem nada. Eu tô aqui me mobilizando com o pessoal aqui pescador, pra gente parar de pescar...Porque? Por que a gente não ganha nada... a gente é melhor parar do que ta pescando. Cada um viver a sua vida trabalhando em outro canto, por que a pesca ta... Hoje precária dentro do Brasil e principalmente aqui no Nordeste. Por que no Sul tem ainda tem pescaria industrial e a gente aqui não tem pesca industrial porque os barcos aqui são pequenininhos. O governo manda a gente pescar de cova, mas a gente não pode pescar de cova porque os barquinhos da gente não cabem. Lagosta é raro, lá fora, para a gente aqui é uma desgraça, não pode. E eu digo uma coisa a você meu amigo, tudo que to dizendo a você pode escrever e botar até na televisão, eu tô certo... Sabe porque? A gente pequenininho é o que toma no caneco! Tá entendendo? E me desculpa aí! Se você quiser que eu não falo mais...‖ (Pescador, 43 anos – Colônia Z-9).

Nota-se na narrativa acima, a existência de um "eles" contraposto a um "nós" - o Estado/sistema - praticamente nega a existência dos pescadores artesanais com as cobranças de impostos vistas como abusivas, ou seja, mesmo que tenha políticas públicas para a pesca artesanal, tais políticas operam segundo uma racionalidade do grande capital e, por isso, não são capazes de atender as demandas (até o momento democráticas) da colônia.

Acontece que, como apontamos em outras passagens desse relatório, estamos diante de uma situação em que há mais integração do que antagonismo. Depreende-se, nesse sentido, nas narrativas dos pescadores, o fato de que na Colônia existe uma ―consciência‖ sobre o

dever do Estado e ao mesmo tempo sobre o descaso produzido por este. Evidencia-se que essa opinião contra o Estado termina sem ganhar o vigor político de quem vive a exploração na pele. Um sentimento difuso de injustiça que recomenda que a Colônia pague os impostos, mesmo que isso não gere o sentimento do direito garantido.

Portanto, diante da narrativa deste pescador percebe-se o sentimento de revolta e desilusão com a sua atividade, não por não gostar de ser pescador, mas sim, pelas dificuldades encontradas para exercê-la, atribuindo a culpa ao governo, ora por não apoiar a pesca, ora por imposição legal em regular e limitar a atividade, gerando a pouca produção e baixa rentabilidade com o resultado do pescado. Além, o alto custo dos impostos cobrados pelo governo sobre a produção e limitação do uso de utensílios para captura dos animais.

Essa insatisfação, insistimos, é difusa. Resulta daí que o sentido (o significado) de toda luta concreta dos pescadores não tem promovido um espaço de maior coesão ou "unanimidade" entre eles. Suas reivindicações tidas como relevantes estão parcialmente atendidas, integradas à lógica diferencial hegemônica, e parcialmente não atendidas. Por exemplo, para os pescadores, uma demanda relevante seria a ampliação da licença que dá permissão da pesca da lagosta, pois hoje, na colônia, apenas 23 barcos possuem a liberação. Isto beneficia apenas 115 pescadores de quase 1000 cadastrados na colônia Z-9. A colônia entende que não se libera mais licenças para não ter que pagar mais durante o período do defeso da pesca. Esse caráter parcial no atendimento da demanda parece ser um motivo de inibição de sua articulação equivalencial com outras demandas não atendidas. É como se não conseguissem, por conta dessa tensão entre lógicas diferencial e equivalencial, construir uma narrativa coesa, capaz de dar um sentido mais firme a sua existência como comunidade. Vemos essa comunidade internamente dividida.

A tensão entre lógicas diferencial e equivalencial aparece ―equilibrada‖ na Colônia Z- 9, na observação das narrativas; na fala, os pescadores demonstram-se satisfeitos com os direitos previdenciários conquistados na formalização da colônia (instituição) onde opera a lógica diferencial. Mesmo com insatisfação na perspectiva de um futuro promissor para pesca artesanal, devido às limitações impostas pelos órgãos de controle, além dos elevados custos com pagamento de impostos, os pescadores entrevistados não conseguem, até o momento em que estivemos com eles, articular equivalencialmente suas reivindicações que tencionariam com a lógica hegemônica da pesca industrial.

Nesse sentido, o que vimos no campo empírico estudado foi a ausência de demandas populares, o que corrobora o entendimento de que a colônia está mais integrada do que em

movimento de antagonismo. Ao contrário, o que se demonstra empiricamente nas narrativas dos pescadores é que persistem demandas que permanecem "democráticas" - isoladas - ainda que não satisfeitas e, portanto, potencialmente populares. A reação do pescador entrevistado em dizer que os pescadores artesanais ―só tomam no caneco” é um bom exemplo disso.

Como resultado deste "jogo" - que aparenta estar num momento de ―equilíbrio‖, mas que consideramos aberto para futuras disputas - percebe-se que há, gradativamente, entre as novas gerações, uma evasão de pescadores. Isso acontece porque a colônia de pescadores atende em parte os anseios dos sujeitos, por exemplo, no que se refere à aposentadoria depois de longos anos de trabalho ou mesmo ao seguro defeso, mas não consegue criar um sentido de orgulho de pertencimento à ―categoria‖ de pescador. Quanto ao significado concreto da luta de uma categoria, Laclau afirma que:

O objetivo concreto dela não é somente esse objetivo em sua concretização; também significa oposição ao sistema. O primeiro significado estabelece o caráter diferencial dessa reivindicação ou mobilização em confronto com todas as outras demandas ou mobilizações. O segundo significado estabelece a equivalência de todas as reivindicações em sua comum oposição ao sistema. Como podemos observar, toda luta concreta está dominada por esse movimento contraditório que simultaneamente afirma e anula a própria singularidade. (LACLAU, 2011, p. 73).

Percebe-se que a fala de revolta do pescador, na verdade, é um ―grito‖ de denúncia contra o sistema (o Estado - o defeso da lagosta), mas que configura apenas como o primeiro significado (caráter diferencial) descrito por Laclau na citação acima. Entretanto, este caráter diferencial isolado, não promove a representatividade da categoria de pescadores da colônia, pois não estabelece a equivalência com outras reivindicações em sua comum oposição ao sistema. Portanto, mantém-se como uma demanda isolada e não será atendida, já que parte dos pescadores se integra ao sistema através do pagamento do defeso e não se mobilizam para reivindicar os efeitos negativos da proibição da pesca da lagosta.

Como vimos no capítulo anterior, para que um campo popular se consolide a partir de um processo hegemônico de representação, faz-se necessária a produção de significantes vazios. Isso significa que se deve considerar que tal processo seja, no âmbito do discurso popular, simbolicamente representado para além da mera soma de demandas articuladas.

É importante aqui definir o que são para Laclau "significantes flutuantes": aqueles que, submetidos a um processo de disputa, permitiriam pontos de fuga do ambiente metonímico hegemônico. Isso apenas para dizer de sua ausência no campo empírico da presente pesquisa.

Ou seja, como o espaço discursivo estudado está em boa medida integrado sistemicamente, não se observa a existência de articulação de demandas não satisfeitas - por equivalência - mas o predomínio de lógicas diferencias - que evidenciam a articulação de demandas democráticas vinculadas funcionalmente ao Estado e mercado capitalistas.

Analisando as narrativas observa-se que as demandas dos pescadores se caracterizam como demandas democráticas, pois se encontram isoladas das demais demandas sociais mais amplas. Segue fala de um dos pescadores com a abordagem que aqui foi explicitada:

―Há dificuldade por quê? Hoje tem um mói de lagosta, a gente não pode pescar, por quê? A gente é proibido pescar de rede. Ah! Porque se a lagosta tivesse liberada de rede era bem melhor. A de cova é liberada seis messes de julho a novembro. Tem a pesca de cova, mas é pouquinho, tem mais prejuízo do que lucro. Pescar de cova hoje é mais prejuízo do que lucro. O governo quer que pesque lagosta e faça um mapa de tudo que vendeu e mande pro ministério. Aí vai pro ministério vai pro Ibama vai pra tudo. A vida da gente toda ele sabe. Se você não fizer o mapa, você não vai ter a licença pro outro ano, não é assim?‖ (Pescador – 43 anos – Colônia Z-9.).

Observa-se acima a insatisfação com os mecanismos de controle, ou seja, a regulamentação do governo e órgãos ambientais quanto ao uso de determinados utensílios e a prática de algumas técnicas de pescar, que restringem algumas espécies, como no caso da lagosta que não pode ser capturada com rede. Este é um ponto de reivindicação em comum de parte dos pescadores da colônia, pois alguns afirmam da inviabilidade de fazer a cova (armadilha em forma de gaiola, feita de madeira e tecida de fios de nylon) devido a proibição de cortar o manguezal (ecossistema ribeirinho dos estuários – habitat de várias espécies em reprodução) de onde extrai-se a madeira.

Por outro lado, outros pescadores alegam ser inviável o uso de covas devido ao pequeno tamanho das embarcações e que a quantidade de cova é limitada a esta pouca capacidade de carga. Desta forma, considerando que o custo e as limitações para produzir a cova se soma a pouca durabilidade da armadilha, bem como a baixa produção na captura por quantidade de covas levadas por embarcação, o resultado é que seus rendimentos não compensam o investimento.

Nota-se também que este discurso do governo está amparado em valores ecológicos de sustentabilidade que dominam esse campo de discursividade (lógica da diferença), o que de certa forma fragiliza o discurso dos pescadores, perante a sociedade, no sentido de construir uma narrativa que se contraponha a tais valores ambientais. Trata-se, entretanto, de um

ambiente metonímico hegemônico e que serve aos interesses da pesca industrial. Isso porque o grande capital pesqueiro se beneficia desse discurso e explora áreas, quantidades e espécies em proporções muito, mais muito maiores do que todo o litoral brasileiro de pescadores artesanais juntos. Uma saída para essa situação de impotência por parte dos pescadores artesanais só poderia ser levada a cabo, como temos aqui argumentado, na medida de sua capacidade de construir ambientes (metonímicos) alternativos (quarto passo de nosso método) capazes de gerar verossimilhança para a articulação (metafórica) de valores não fixados e excluídos do referido campo de discursividade,

A título de informação atualizada, durante a pesquisa, a Polícia Federal revelou, em Brasília, um esquema de corrupção dentro do Ministério da Pesca, que apontou para várias licenças liberadas para pesca industrial, através do pagamento de propinas. Isto institucionalizado, partindo do próprio ministro segundo a reportagem publicada no site G1 (g1.globo.com). Ou seja, de um lado se impõe a lei ambiental para os ―mais fracos e leigos‖, do outro se libera em troca de favores e dinheiro aos ―mais fortes e instruídos‖. Assim, o mesmo ministério que promove a integração dos pescadores artesanais, que pretensamente os protege de uma "carência" social, é, na verdade, um construtor dessa carência e um momento (nos termos de Laclau) do sistema.

Podemos perceber que o que é legal muitas vezes não é justo. Muitos destes projetos de proteção ambiental não levam em conta a integridade física e moral do ser humano. O que realmente está em jogo por "trás" da cortina do discurso da pesca artesanal contra a preservação ambiental é a legitimação de um sentido ao referente "proteção ambiental" que vai ao encontro dos interesses do capital, que detém os meios de produção, contra aqueles que se quer manipular, dominar ou exterminar. Poderia, portanto, ser percebido, pelos pescadores, como uma luta de classes.

Entretanto, ao analisar esta demanda em face da teoria de Laclau, notamos que a mesma se caracteriza como uma demanda democrática, uma demanda que, satisfeita ou não, permanece isolada, ou seja, não cria uma relação com as demais demandas ao ponto de promover a emergência de uma subjetividade coletiva. Isso porque, insatisfeitos ou não, a maioria dos pescadores acatam as leis de proibição, como o defeso da lagosta, sendo compensados com um salário mínimo durante o período de reprodução e crescimento da lagosta. A acomodação de grande parte dos pescadores, mesmo com um ganho menor, com o pagamento do defeso, porém certo e sem todo o trabalho de produzir a cova e sair para pescar a lagosta, caracteriza, como dissemos, um processo mais de integração do que antagonismo.

Ou seja, não existe mais o embate entre os pescadores e governo em torno deste ponto, que ainda é uma insatisfação difusa dos pescadores entrevistados, uma vez que falta um ambiente que lhe dê plausibilidade, não tem força de criar outras relações capazes de deslocar os sujeitos para uma nova articulação, tornando-a uma demanda popular.

Entretanto, salvo a questão ambiental, há os riscos deletérios que esse dinheiro pode causar para a Colônia: se por um lado supre as necessidades durante a reprodução da espécie, também gera acomodação e o ócio não produtivo, como o que foi notado no campo empírico, na desocupação dos pescadores neste período do defeso, pois muitos ficam na praia entregues a bebida alcoólica por dias, o que propicia o alcoolismo freqüente na comunidade, causando um transtorno social, afetando a saúde do pescador, gerando conflitos de forma violenta entre marido e mulher e com consequências negativas para manutenção da pesca artesanal.

É preciso ampliar a noção de discurso e saber que o mesmo não é somente a palavra proferida, mas todo o contexto que a envolve. Desta forma, a ação do governo é um discurso assistencial que interfere na constituição a própria realidade da Colônia durante o período de reprodução da espécie. É fundamental pensar que este discurso ao suprir uma necessidade gera, em contrapartida, uma acomodação de efeitos nocivos à comunidade investigada. A Colônia ainda parece não refletir sobre o peso que há no ―não poder pescar‖ e nesse sentido, a vida e o dia-a-dia, com as proibições causadas pela lei, lançam margem para uma nova realidade existencial, inclusive, porque neste período determinado não se vive o principal ofício laboral aprendido, sua principal fonte de renda.

Com a análise desse ponto de tensão em torno do discurso (hegemônico) da sustentabilidade, que limita a pesca artesanal na Colônia Z-9, identificamos os efeitos negativos das proibições da pesca impostas pelos órgãos de Estado. Faz-se imprescindível no próximo tópico analisarmos, a partir desse quadro, as narrativas de transmissão de saberes dos mestres pescadores, que são os ―guardiões das memórias‖ e produtores do conhecimento da pesca artesanal.

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