2 Condições de produçã o do disc urso da mídia, em sentido estrito: reconstituindo o contex to imediato
3.3.2 Apresentação e análise das pe ças publicitá rias a formulação do dizer da campa nha
3.3.2.3 Anúncios divulga dos entre 06/07/2 003 e 28/09/
0 6 / 0 7 / 2 0 0 3 F ig . 0 2
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SD7/B – No Brasil, a agressão sexual afeta 15% dos 65 milhões de jovens com menos de 18 anos. Pelo menos 100 jovens morrem por dia, vítimas de maus tratos. São 9,7 milhões de casos por ano. Infelizmente, a maioria destes casos ocorrem dentro de casa: é violência doméstica. Você sabe: as crianças procuram a família quando estão em perigo. Mas quando a família é o perigo, as crianças contam com quem? Conosco. Com você. Com todos nós. Está mais do que na hora de cuidar das crianças. Não podemos transformar atos monstruosos em rotina.
SD8/B – Infelizmente, alguns adultos bebem para esquecer seus problemas. E, infelizmente, ao beberem, esquecem que são bons pais. Um dos maiores motivos da violência contra a criança é o alcoolismo dos pais. Quem bebe deve se conscientizar da alteração de seu comportamento. Mas é fundamental que todos nós ajudemos às crianças que sofrem com pais violentos. Se um pai está fora de si alguém precisa interceder pelos filhos. Pode ser a mãe,
os avós, os padrinhos, os amigos, os vizinhos, a professora. Ou, em último caso, o Conselho Tutelar de sua região.
SD9/B – Quando se fala maus tratos à criança, costumamos pensar apenas em atitudes chocantes como a violência física ou sexual. Mas é bom não esquecermos de que a negligência também é mau trato. Não matricular uma criança na escola é violentar o futuro. Não garantir higiene básica é violentar o futuro. Não orientar a respeito da vida é violentar o futuro. Não vamos
negligenciar os cuidados do dia-a-dia. A verdade
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campanha contra toda e qualquer violência à criança. E, por incrível que pareça, até os bebês de colo sofrem violências domésticas. Você sabia que existe a Síndrome do Bebê Sacudido (Shaken Baby Syndrome)? Esta síndrome se refere a lesões que ocorrem quando um bebezinho, geralmente lactente, é violentamente sacudido. De que tipo de lesões estamos falando? Cegueira, atraso no desenvolvimento, convulsões, lesões da espinha e lesões cerebrais. Sem falar nos casos que os bebês morrem devido a maus-tratos. Sim, é uma covardia maltratar uma criança. E esta covardia é inversamente proporcional ao tamanho da criança. SD 1 1 / B - Pe r g u n t e a u m a c r ia n ç a q u e c o s t u m a s e r e s p a n c a d a s e e s t r a n h o s d e v e m o u n ã o s e m e t e r n a v id a d o s o u t r o s . I n f e l i zm e n t e , a p e n a s o s c a s o s e x t r e m o s d e v i o l ê n c i a c o n t r a c r i a n ç a s s e t o r n a m p ú b l ic o s , f a ze n d o c o m q u e o p r o b l e m a n ã o s e t o r n e a i n d a m a is v is í v e l. Q u a n d o a f a m í l i a n ã o a c o d e u m a c r i a n ç a , a s o c i e d a d e é q u e t e m q u e a c u d ir . A o p r e s e n c i a r v i o l ê n c i a d o m é s t i c a , l i g u e o D i s q u e D e n ú n c i a – 0 8 0 0 9 9 0 5 0 0 . O s q u e m a l s a b e m a g r a d e c e r , a g r a d e c e r ã o .
Os anúncio s (Fig.2 a Fig.6 ), num tota l de cin co, foram divulgado s na ordem em que ap arecem em nosso trabalho. Apre sen tam três p lanos d e representa ção: a) a fala dos personagens; b ) a rep rese ntação imagética; c) o texto.
A forma de representação ima gética vai se repetir em todos os anúncios. O p lano do texto tra z nú meros que compro vam uma realidade que re vela a violên cia masca rada que a sociedade, muitas ve zes, não tom a conhecimento, uma que é silen cia da pelos mecanismos discursivos e práticas so cia is.
persona gens monstruosos passam a ser o críticos e defensores da crian ça : “Sim, tem pai que amarra os filhos em casa. E eu, o Bicho Papão, que sou o monstro?”. Os anúncios e xp loram a relação do parecer e do se r. Personificado de forma monstruosa pela ilustração, n a primeira fase da campanha, o próprio monstro que stio na sua identificaçã o, fato que só pode existir no inte rio r dessa formação discursiva que, pelo funcionamento metafórico, constituiu uma nova iden tificação de monstro. O papel do pa i, mãe ou adulto que pratica o ato de violência é que está sob julgamento. O monstro tem uma identificação com o monstruoso apenas pela su a representa ção ima gética, no funcionamento da campanha e no imaginário socia l.
O luga r de fala atribu ído ao monstro produz um efeito de sentido diferente do qu e é produ zido n os contos tradicionais e narrativa s fantásticas, como podemos ve r em Bettelheim (1980), quando demonstra que a crian ça consegue, atra vés da figu ra do monstro, p ersonifica r o bem e o mal, em relação de oposição. Aqu i, na constitu ição da campanha, ao lançar mão do que parece ser mas não é, o discurso possibilita que a criança e o adolescente possam, simbolicamente, designar o agressor n a sua identificação com o monstro que habita seu imagin ário – nas cantigas de ninar em histórias infantis, o Bicho-Papão é caracterizado como um ente que ate rroriza a s criança s. Na campa nha, assim como n os contos de fadas, Bettelheim (1980 ), são possib ilitada s no vas dimensõe s à imaginação d a criança que ela nã o poderia descobrir ve rdadeiramente p or si só.
Observando o funcionamento discu rsivo da campanha e as re lações com a memória discursiva, pe rcebemo s que
é j u s t a m e n t e is s o q u e o c o r r e : o s d a d o s s o b r e u m d e t e r m i n a d o f e n ô m e n o s ã o t r a n s m i t i d o s , d e s v in c u l a d o s d o c o n t e x t o o u p r o c e s s o q u e o p r o d u zi u , d e f o r m a a b s o l u t a m e n t e f r a g m e n t á r i a , n u m a l in g u a g e m c a d a ve z m a is s i n t é t ic a e n u m e s p a ç o d e t e m p o c a d a v e z m a is d im in u t o . C o m o r e s u l t a d o d is s o t e m - s e ( . . . ) a ve ic u l a ç ã o d e u m a f o r m a d e l i n g u a g e m q u e é , d e f a t o , “ n e u t r a l i za d o r a d o s e n t id o e d o s i g n if ic a d o ” ( S E V E R I AN O , 1 9 9 9 ) .
divulga dos e m 07 de dezembro de 2 003
( 1 ) F i g . 0 7
( 3 ) F i g 0 9
( 2 ) F i g . 0 8
( 4 ) F ig . 1 0
Esses anúncios foram publicados na ordem da numeração que os identifica, na forma de mensagen s d e final de ano e d e e xpectativas para o ano que estava po r inicia r..
SD 1 2 / B – O a m o r é a m e lh o r h e r a n ç a . E m 2 0 0 4 , c u id e d e t o d a e q u a l q u e r c r ia n ç a .
Nos quatro anún cios que ence rram a primeira fase da campanha (Fig.7-10 ), as cria turas monstruosas aparecem cuidand o de criança s
apenas aos filhos daqueles que também cuidam dos seus, mas como diz o slogan do an úncio “toda e qualq uer criança ” mere ce atenção.
Mais uma ve z a re de de memória é rompida. Talve z fosse mais fácil ou até natural entender que cada monstro cuid asse de seus monstrinhos, dos seus filhos, mas assumir uma postu ra proteto ra e dedicada frente a outras crianças inscre ve esse s personagens num padrão de conduta que os afasta de sua repre sentaçã o simbólica do discu rso fundador de sua designa ção na formação imaginá ria, em outras condiçõe s de produção. É p reciso pensar o efeito metafórico como funcionamento discu rsivo, com o propõe Orland i (2002, p.80) ao dizer que “esse e feito aponta-no s pa ra o “discu rso dup lo e uno ”. E ssa
duplicidade fa z referir u m discurso a u m discu rso outro para que ele faça sentido (...) e nvolve inconsciente e a ideolog ia.”
Esses qua tro anúncios são empre gados como um recurso de preparação pa ra a segunda fase da campanha, abrindo-se no dize r para o que está po r se r formulado.
A se qüência discu rsiva destacada e m SD12/B retoma o slo gan da campanha presente em todos as quatro peças gráficas. No plano imagético é que e stá posto o n íve l de um outro dizer. Os monstros estão dedicando carinho e atenção e crian ças que não são as suas. Essa identificação dos monstros funciona como um oposto da prática violenta que a campanha vem denunciando.
Após alguns meses do encerramento da primeira fase da campanha dos monstrinhos, o Gru po RBS fez o lançamento da
segunda fase, envo lvendo d iversos se gmentos da sociedade
relacionados de alguma forma com as questões da infância e da ju ventude. SD 1 3 / B – D i a 1 1 o s M o n s t r o s e s t ã o d e v o l t a . Pr e p a r e - s e p a r a r e ve r e s s e s m o n s t r u o s o s a m i g o s d a c r i a n ç a d a . M a is a i n d a : p r e p a r e - s e p r a c o n h e c e r n o v o s p e r s o n a g e n s , c o m o a P r o f e s s o r d o B ic h o - Pa p ã o . N ã o va m o s d e ix a r n in g u é m e s q u e c e r q u e o a m o r á a m e lh o r h e r a n ç a . V a m o s le m b r a r q u e t o d o s n ó s p r e c is a m o s c u i d a r s e m p r e d a s c r i a n ç a s 11 de maio de 2004 Fig.11 11 de maio de 2004 F ig . 1 2
SD14/B – Que a vida é uma correria todo mundo sabe. Mas que a infância dos filhos também passa correndo é coisa que muita gente esquece. Como conciliar isso? Reservando tempinhos para os nossos filhos. Minutos de brincadeira valem muito para as crianças. Instantes de dedicação. Momentos de carinho. Sempre existem boas ocasiões para um papo, sempre se abre oportunidade para uma atenção especial. Veja bem: não estamos falando em apenas educar. Estamos falando em se divertir com os filhos. Hoje já sabemos que, nos primeiros meses de vida, o simples olhar da mãe ajuda a desenvolver as crianças. Ou seja: às vezes, basta um olhar carinhoso. E isso, cá entre nós, nem toma tanto tempo assim. Disque D e n ú n c i a ,
0 8 0 0 9 9 0 5 0 0 .
O anúncio de lançamento da segunda fase da campanha (Fig.11) tra z um pe rsona ge m novo, o Lobo-Mau que se junta ao s outro s cinco
segmentos se en volvendo é a ssumida pela campanha que promete, com esse anúncio , novo s persona ge ns e chama para o engajamento de todos: “Vamos lembrar que todos nós precisamos cuidar (...)”. A reite ração do já-d ito atualiza a memória discursiva tra ze ndo o sujeito- leito r pa ra a form ação discursiva da campanha. “Não vamos deixar ninguém esquece r (...)” funciona co mo um dispositivo discu rsivo que tanto serve para remeter à campanha, enquanto discursivo a ser referido, como tam bém aponta para os objetivos da campanha.
O anúncio se ap re senta com a mesm a dia gramação, co m fala da persona gem, representação imagética do monstro, chamada do anúncio e texto. Nos anúncios de 2003, o Lobo-Mau não foi empregado como persona gem, mas é justamente a memória discu rsiva que torna possíve l esse dize r que reto rna na forma de um pré-co nstru ído , uma ve z que o já -dito está na base do dizíve l, condição de sustentação para cada pala vra que é retomada, reapropriada, co mo nos mostra Orland i (2001 ).
Na chamada do an úncio “Os monstro s estão de volta ”, o caráte r material do sentid o das pala vras ro mpe-se para a lém da aparente transpa rência do dizer – esse s monstros constituem um já-d ito que é reunido pela memória discursiva, condicionando o discurso, pelas condições de prod ução que lhe são d eterminantes.
A fala do Lobo-Mau, apresentado co mo o novo person agem da campanha, não aciona um dispositivo discu rsivo na red e de memória, quando diz “Pu xa, ano passado eu cantei muito pouco. Será que este ano vou canta r m ais?”. Há uma fissura no d iscu rso, u ma ve z que o Lobo-Mau não ha via pa rticipado da p rimeira fase da ca mpanha. Essa falha, na verdade, está carre gada de implícito s que a filiam à formação discu rsiva do d iscu rso da campanha da RBS. A inda que não estive sse presente na campa nha, ele também era um ator, porque, como propõe a própria campanh a, todos são responsá veis. Po r isso mesmo ele se assume como tendo cantado muito pouco. Sua existência prévia não é
desconhecido, do n ão nominalizado.
No anúncio do Lobo-Mau e seus três lob inhos (Fig.12), o funcionamento ideológico ope ra aqu i como uma força que le va a um senso comum – a ausência, a ne gligência no cu idado com as crianças também é uma forma de vio lência. A vo z da personagem é o mecanismo discu rsivo empre gado para atualiza r essa memória: “Uma forma simples de dar amor para se us filhos é dar um tempinho pra eles”.
Como recu rso d iscursivo não ve rbal, a ilustração funcio na como um dispositivo qu e novamente afasta a identificação monstruosa do Lobo-Mau – ele se apresenta risonho, brincando com seus lobinhos – condição fundamental pa ra que po ssa se r um a gente de mobilização para a campanha – ele continua sendo um monstro, mas não atua como tal. Para se r ou vido é pre ciso d ar o e xemplo. Ideo logicamente, a imagem produ z um efeito que potencializa sentidos possíve is, especia lmente qua ndo dirigida a um público de criança s. O Lobo-Mau passa, então, a ter sua identificação associada a atitud es positivas e edificantes no trato com os pequeno s.
3.3.2.6 Bicho-Papão – publicação de 15 de maio de 2 004