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An´ eis e ´ Algebras. Estruturas e Constru¸ c˜ oes B´ asicas

No documento Estruturas Alg´ ebricas B´ asicas (páginas 58-62)

Xm kl=1

αk1···kl

l! ek1∧ · · · ∧ekl,

comαk1···kl∈K, sendo que na ´ultima igualdade assumimos que as quantidadesαk1···kls˜ao antissim´etricas por permuta¸c˜oes de seus

´ındices, ou seja, satisfazemαkπ(1)···kπ(l)= sinal (π)αk1···klpara todoπ∈Sle todosk1, . . . , kl∈ {1, . . . , m}. 6

Um fato relevante das considera¸c˜oes acima ´e que U⊗l

Ae U⊗m−l

Atˆem a mesma dimens˜ao, ml

=l!(m−l)!m! , sendo, portanto (n˜ao-canonicamente) isomorfos. Esse isomorfismo pode ser explorado quando da presen¸ca de formas bilineares n˜ao-degeneradas emU, conduzindo a uma estrutura de dualidade, a chamadadualidade de Hodge79entre os espa¸cos

U⊗l

A.

A discuss˜ao sobre produtos tensoriais de espa¸cos vetoriais ser´a continuada na Se¸c˜ao 2.5, p´agina 200.

2.3.8 O Produto Tensorial de M´ odulos. Deriva¸c˜ oes

•O produto tensorial de dois m´odulos sobre uma ´algebra associativa

Vamos aqui a uma defini¸c˜ao que nos ser´a importante. SejamMeNdois bim´odulos sobre uma ´algebra associativa A, ambos supostos serem espa¸cos vetoriais sobre o corpo dos complexos. Com os m´etodos expostos anteriormente de constru¸c˜ao de produtos tensoriais de espa¸cos vetoriais, podemos definir o espa¸co vetorialM⊗CN. Entretanto, em certas aplica¸c˜oes desejamos definir um outro tipo de produto tensorial entreMeNque seja tamb´em um m´odulo sobre a mesma

´algebraA.

Para tal, consideremos emM⊗CNe o conjunto de rela¸c˜oes R := n

r∈M⊗CN

r = (ma)⊗Cn−m⊗C(an),coma∈A, m∈M, n∈No

. (2.148)

Definamos, ent˜ao,R(R) como sendo o subespa¸co deM⊗CN composto por todas as combina¸c˜oes lineares finitas com coeficientes no corpoCde elementos deR. ComoR(R) ´e um subespa¸co deM⊗CN, queda definido um novo produto tensorial, que denotamos porM⊗AN, dado pelo quociente de espa¸cos vetoriais

M⊗AN := M⊗CN

/R(R). (2.149)

Podemos fazer deM⊗ANum m´odulo, digamos `a direita, sobreAtomando o produto

a·(m⊗An) := (ma)⊗An=m⊗A(an), (2.150) para todoa∈Ae todosm∈M,n∈N. Em verdade, esse produto deve ser linearmente estendido a todoM⊗AN, por

 Xk j=1

mjAnj

 :=

Xk j=1

(amj)⊗Anj = Xk j=1

mjA(anj),

para todok∈Ne todosa∈A,mj∈M,nj∈N,j= 1, . . . , k.

E. 2.136Exerc´ıcio. Verifique que essa express˜ao faz deM⊗AN, de fato, um m´odulo sobreA. 6 O sub´ındiceAaposto ao s´ımbolo⊗serve para recordar que um elemento da ´algebra associativaApode ser passado de um lado para outro do s´ımbolo⊗A, tal como na ´ultima igualdade em (2.150). Essa propriedade n˜ao ´e satisfeita pelo produto tensorial originalM⊗CN.

Faremos uso do assim definido produto tensorialM⊗AN adiante. O mais importante para n´os ser´a a identidade (ma)⊗An=m⊗A(an) v´alida em todoM⊗ANpara todoa∈A. Uma outra constru¸c˜ao que tamb´em ir´a interessar-nos

79Sir William Vallance Douglas Hodge (1903–1975).

´e a seguinte. SejaMum bim´odulo sobre uma ´algebra associativaAe tomemosVn=MAn≡M⊗A· · · ⊗AM

| {z }

nvezes

. Com os conceitos apresentados anteriormente temos definida a soma diretaM

n∈N

MAn.

•Deriva¸c˜oes

SejaAuma ´algebra associativa sobreCcom identidadeee sejaMum bim´odulo sobreA. Uma aplica¸c˜ao linear δ:A→M´e dita ser umaderiva¸c˜aodeAemMse satisfaz a regra de Leibniz80:

δ(ab) = aδ(b) +δ(a)b , (2.151)

para todosa,b∈A.

Vamos a alguns exemplos.

Exemplo 1.SejaAuma ´algebra sobreCcom unidadeeeM=A⊗CAcom os seguintes produtos de bim´odulo:

a·(b⊗c) := (ab)⊗c , (2.152)

(b⊗c)·a := b⊗(ca). (2.153)

Deixa-se ao leitor verificar a associatividade dos produtos de bim´odulo nesse caso. Defina-se

δ(a) := a⊗e−e⊗a . (2.154)

Deixa-se ao leitor verificar a validade da regra de Leibniz nesse exemplo. Note-se tamb´em que, por essa defini¸c˜ao, δ(e) = 0.

Exemplo 2. SejaAuma ´algebra associativa sobreC, com unidadeeeM =A⊗CA, com os seguintes produtos de bim´odulo:

a·(b⊗c) := (ab)⊗c , (2.155)

(b⊗c)·a := b⊗(ca)−(bc)⊗a . (2.156)

Deixa-se ao leitor verificar a associatividade dos produtos de bim´odulo nesse caso. Defina-se

δ(a) := e⊗a . (2.157)

Deixa-se ao leitor verificar a validade da regra de Leibniz nesse exemplo. Note-se tamb´em que, por essa defini¸c˜ao, δ(e) =e⊗e6= 0.

Exemplo 3.Exemplo importante de deriva¸c˜oes pode ser visto em ´algebras de Lie. SejaAuma ´algebra de Lie vista como um bim´odulo sobre si mesma. Sejazum elemento fixo da ´algebra e seja a aplica¸c˜aodz:A→Adada pordz(a) = [z, a].

E f´´ acil verificar (fa¸ca!) usando a identidade de Jacobi (2.24) que dz [a, b]

= dz(a), b

+ a, dz(b) para todoa, b∈A. Assim, tem-se que a cadaz∈A´e associada uma deriva¸c˜aodz.

2.4 An´ eis e ´ Algebras. Estruturas e Constru¸c˜ oes B´ asicas

2.4.1 Ideais em An´ eis e ´ Algebras Associativas

A no¸c˜ao de ideal, introduzida por Dedekind81e depois aprofundada e generalizada por Hilbert82e Noether83, desempenha um papel central no estudo de ´algebras e an´eis. Apesar de algumas defini¸c˜oes gerais que seguem aplicarem-se tanto para an´eis quanto para an´eis n˜ao associativos vamos nos restringir, por simplicidade, aos primeiros.

80Gottfried Wilhelm von Leibniz (1646–1716).

81Julius Wilhelm Richard Dedekind (1831–1916).

82David Hilbert (1862–1943).

83Amalie Emmy Noether (1882–1935).

2.4.1.1 Ideais em An´eis

•Subgrupo gerado por um subconjunto de um anel (e alguma nota¸c˜ao)

SejaAum anel e, como tal, dotado de uma opera¸c˜ao de produto “·” (s´ımbolo esse que, por simplicidade, omitiremos no que segue) e de uma opera¸c˜ao de soma “+” em rela¸c˜ao `a qual ´e um grupo Abeliano, segundo as defini¸c˜oes da Se¸c˜ao 2.1.6.1, p´agina 103.

SeB⊂A´e um subconjunto n˜ao vazio deA, o conjuntoG[B]⊂Adefinido por G[B] := n

m1b1+· · ·+mnbn, n∈N, mk∈Z e bk∈B para todok= 1, . . . , no ,

formado por todas as somas finitas de m´ultiplos inteiros de elementos deB, ´e o menor subgrupo deAque cont´emB, o chamadosubgrupo gerado pelo subconjuntoBdeA.

E de se observar que se´ BeCs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deA, ent˜aoG[B∪C] cont´emG[B] eG[C] como subgrupos.

SeBeCs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deAdenotamos porBCo conjunto de todos os elementos deAque s˜ao da formabccomb∈Bec∈C:

BC := n

bc , comb∈B e c∈Co . Com isso, ´e f´acil ver queG[B]G[C]⊂G[BC].

SeB,CeDs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deAdenotamos porBCDos conjuntos (BC)D=B(CD) (essa igualdade dando-se em fun¸c˜ao da assumida associatividade deA):

BCD := n

bcd , comb∈B , c∈C e d∈Do .

•Ideais `a esquerda, `a direita e bilaterais em an´eis

SejaAum anel. Um subconjuntoLdeAque seja um subgrupo deAem rela¸c˜ao `a opera¸c˜ao “+” ´e dito ser umideal

`

a esquerdadeAseal∈Lpara todoa∈Ae todol∈L. Um subconjuntoRdeAque seja um subgrupo deAem rela¸c˜ao

`a opera¸c˜ao “+” ´e dito ser umideal `a direitadeAsera∈Rpara todoa∈Ae todor∈R. Um subconjuntoBdeA´e dito ser umbi-idealdeA, ou umideal bilateraldeA, se for simultaneamente um ideal `a direita e um ideal `a esquerda de A.

Naturalmente, seA´e um anel,A´e um ideal bilateral de si mesmo, assim como{0}´e um ideal bilateral (trivial) de A.

E claro tamb´em que se´ L´e um ideal `a esquerda de um anelA, ent˜aoL´e um m´odulo `a esquerda sobreAe analogamente para ideais `a direita e ideais bilaterais.

•Homomorfismos e ideais bilaterais

SejamAeBdois an´eis e sejaφ:A→Bum homomorfismo. Ent˜ao, Ker(φ) ={a∈A|φ(a) = 0}´e um ideal bilateral deA. De fato, 0∈Ker(φ), sea, a∈Ker(φ), ent˜aoφ(a+a) =φ(a) +φ(a) = 0 e sea∈Ker(φ), ent˜ao−a∈Ker(φ), poisφ(−a) =−φ(a) = 0, provando que Ker(φ) ´e um subgrupo deA. Fora isso, seb∈Ker(φ), ent˜ao para todoa∈A valeφ(ab) =φ(a)φ(b) =φ(a)0 = 0 e, analogamente, para todoc∈Avaleφ(bc) =φ(b)φ(c) = 0φ(c) = 0.

A afirma¸c˜ao feita acima, que Ker(φ) ´e um ideal bilateral, apesar de elementar, tem aplica¸c˜oes e consequˆencias em diversas ´areas.

•Intersec¸c˜oes de ideais

SejaAum anel e sejamLλcomλ∈Λ (Λ sendo um conjunto arbitr´ario de ´ındices) uma fam´ılia de ideais `a esquerda deA. ´E muito f´acil verificar pelas defini¸c˜oes (fa¸ca-o!) queT

λ∈ΛLλ´e tamb´em um ideal `a esquerda deA. Afirma¸c˜ao an´aloga vale para ideais `a direita e ideais bilaterais.

•Ideais gerados por subconjuntos de um anel

SejaC⊂Aum subconjunto n˜ao vazio de um anelA. Ent˜ao, a intersec¸c˜ao de todos os ideais `a esquerda deAque contˆemC´e tamb´em um ideal `a esquerda, que ´e dito ser oideal `a esquerda gerado pelo conjuntoC. Defini¸c˜oes an´alogas valem para ideais `a direita e ideais bilaterais.

Denotaremos porIE[A, C] (ou simplesmente porIE[C], quando o anelAfor subentendido) o ideal `a esquerda gerado porC⊂A. Analogamente, denotamos porID[A, C] (ou simplesmente porID[C]) e porIB[A, C] (ou simplesmente porIB[C]) os ideais `a direita e bilaterais, respectivamente, gerados porC⊂A.

No caso de an´eis associativos ´e poss´ıvel explicitar mais os elementos de ideais gerados por conjuntos.

Proposi¸c˜ao 2.25SejaC⊂Aum subconjunto n˜ao vazio de um anel associativoA. Tem-se que:

1.IE A, C

=G (AC)∪C

, ou seja, o ideal `a esquerda gerado porC,IE A, C

, consiste em todos os elementos deAformados por somas finitas de produtos de elementos deAcom elementos deC(nessa ordem) mais somas finitas de elementos deCcom coeficientes inteiros. Naturalmente, seA´e unital, ent˜aoIE

A, C

=G AC

. 2.ID

A, C

=G (CA)∪C

, ou seja, o ideal `a direita gerado porC,ID A, C

, consiste em todos os elementos deAformados por somas finitas de produtos de elementos deCcom elementos deA(nessa ordem) mais somas finitas de elementos deCcom coeficientes inteiros. Naturalmente, seA´e unital, ent˜aoIE

A, C

=G CA

. 3.IB

A, C

=G

(ACA)∪(AC)∪(CA)∪C

. Naturalmente, seA´e unital, ent˜aoIE[A, C] =G[ACA]. 2

Prova.E evidente que´ G (AC)∪C

´e um ideal `a esquerda deAe que cont´emCe, portanto,IE A, C

⊂G (AC)∪C

. Por outro lado,IE

A, C

, por ser um ideal `a esquerda deAque cont´emC, necessariamente cont´em todos os elementos deAC e deCe o subgrupo gerado por tais elementos (um ideal deA´e um subgrupo deA), ou seja,IE[A, C] deve conter todos os elementos deG

(AC)∪C

. Isso estabelece queIE A, C

eG (AC)∪C

s˜ao iguais. Os dois outros casos s˜ao an´alogos.

E. 2.137Exerc´ıcio.Complete os detalhes faltantes da demonstra¸c˜ao acima. 6

•Ideais principais

SeA´e um anel ea∈A, os ideais gerados pelo conjunto de um elementoC={a}s˜ao denominados por alguns autores osideais principaisgerados pora.

Denotamos poraAo conjuntoaA:={aa|a∈A}e porAao conjuntoAa:={aa|a∈A}. ´E muito f´acil constatar queIE[{a}], o ideal principal `a esquerda gerado pora, coincide comAae queID[{a}], o ideal principal `a direita gerado pora, coincide comaA.

Observe-se que o conjuntoAaA:={aaa′′|a, a′′∈A}n˜ao´e um ideal deA, por n˜ao ser um subgrupo deA.

•Somas de ideais

SeL1eL2s˜ao dois ideais `a esquerda de um anelA, ent˜ao sua soma, definida porL1+L2:={l1+l2, l1∈L1el2∈L2}

´e tamb´em, como facilmente se verifica, um ideal `a esquerda deA. Esse ideal ´e dito ser asomados ideaisL1eL2. Afirma¸c˜ao an´aloga vale tanto para somas de dois ideais `a direita quanto para somas de ideais bilaterais.

•Estrutura de reticulado em an´eis

SejaAum anel. Para dois ideais `a esquerdaL1eL2deAdefina-se as opera¸c˜oesL1∧L2:=L1∩L2eL1∨L2:=L1+L2. A cole¸c˜ao de todos os ideais `a esquerda deA´e umreticulado(para a defini¸c˜ao, vide p´agina 83 e seguintes) em rela¸c˜ao a essas duas opera¸c˜oes. Afirma¸c˜ao an´aloga vale tanto para a cole¸c˜ao de todos os ideais `a direita deAquanto para a cole¸c˜ao de todos os ideais bilaterais deA.

E. 2.138Exerc´ıcio.Prove as afirma¸c˜oes acima. 6

•Produtos de ideais

SejaBum subconjunto n˜ao vazio deA. SeL´e um ideal `a esquerda deAo conjuntoG LB

´e igualmente um ideal

`

a esquerda deA, denominado o ideal produto deLporB. Analogamente, seR´e um ideal `a direita deAo conjunto G

BR

´e igualmente um ideal `a direita deA, denominado o ideal produto deBporR. Por fim, seL´e um ideal `a

esquerda deAeR´e um ideal `a direita deA, ent˜aoG LR

´e um ideal bilateral deA, denominado o bi-ideal produto de LporR.

•Quocientes de an´eis por ideais bilaterais

Vamos agora a uma das mais importantes constru¸c˜oes ligadas `a no¸c˜ao de anel: a de anel quociente de um anel por um seu ideal bilateral. Essa constru¸c˜ao guarda forte semelhan¸ca `a de grupo quociente, introduzida na Se¸c˜ao 2.2.2, p´agina 132.

SejaAum anel eBum ideal bilateral deA. Podemos definir emAuma rela¸c˜ao de equivalˆencia declarandoa∼a sea−a∈Bparaa, a∈A.

Por essa defini¸c˜ao ´e evidente quea∼apara todoa∈A. ´E tamb´em evidente que, sea∼a, ent˜aoa∼apara todosa, a∈A. Por fim, sea∼aea∼a′′, ent˜aoa−a′′= (a−a) + (a−a′′)∈B, poisa−a∈B,a−a′′∈B eB´e um subgrupo deA, provando quea∼a′′. Isso estabeleceu que “∼”, definida acima, ´e, de fato, uma rela¸c˜ao de equivalˆencia emA. Assim,Aparticiona-se em classes de equivalˆencia por essa rela¸c˜ao de equivalˆencia. Seja [a] a classe de equivalˆencia de um elementoa∈A. Podemos fazer da cole¸c˜ao das classes de equivalˆencia, que denotaremos porA/B, um anel definindo

[a1] + [a2] := [a1+a2] e [a1] [a2] := [a1a2],

a1, a2∈A. Antes de mostrar que essas opera¸c˜oes fazem deA/Bum anel, ´e preciso provar que elas est˜ao bem definidas enquanto opera¸c˜oes entre classes. Mas, de fato, sea1, a2∈Aeb1, b2∈B, tem-se (a1+b1)+(a2+b2) =a1+a2+(b1+b2), e comob1+b2∈B, segue que a soma [a1] + [a2] n˜ao depende do particular representante tomado das classes [a1] e [a2], o resultado sendo sempre um elemento da classe [a1+a2]. Analogamente, (a1+b1)(a2+b2) =a1a2+ (a1b2+b1a2+b1b2).

Comoa1b2+b1a2+b1b2∈B(note que a propriedade debi-lateralidade do idealB´e usada aqui), segue que o produto [a1][a2] n˜ao depende do particular representante tomado das classes [a1] e [a2], o resultado sendo sempre um elemento da classe [a1a2].

E evidente pelas defini¸c˜´ oes que [a1] + [a2] = [a2] + [a1] para todos [a1],[a2]∈A/B. ´E tamb´em f´acil ver que [0] =B.

Logo, [0] ´e o elemento neutro deA/Bpela opera¸c˜ao de soma. Cada [a]∈A/B, tem no elemento [−a] seu inverso aditivo, pois [a] + [−a] = [a−a] = [0]. LogoA/B´e um grupo comutativo para a opera¸c˜ao “+”. Agora, para todos [a1],[a2] e [a3]∈A/Bvale [a1][a2]

[a3] = [a1a2][a3] = [a1a2a3] = [a1] [a2][a3]

, provando que o produto ´e associativo. Por fim, [a1] [a2] + [a3]

= [a1][a2+a3] =

a1(a2+a3)

=

a1a2+a1a3

= [a1a2] + [a1a3] = [a1][a2] + [a1][a3] e

[a2] + [a3]

[a1] = [a2+a3][a1] =

(a2+a3)a1

=

a2a1+a3a1

= [a2a1] + [a3a1] = [a2][a1] + [a3][a1] , estabelecendo a distributividade do produto na soma. Isso demonstrou queA/B´e um anel.

O anelA/B´e denominadoanel quocientedeApelo ideal bilateralB, ouanel fatordeAporB. Diversas estruturas alg´ebricas importantes s˜ao constru´ıdas na forma de quocientes de an´eis por ideais bilaterais e teremos a oportunidade de apresentar algumas.

Notemos, por fim, que seApossui uma identidade 1, ent˜ao [1] ´e a identidade deA/B, pois, para todo [a]∈A/Bvale [a][1] = [a1] = [a]. Fora isso, seA´e comutativo,A/Btamb´em o ´e, pois [a][b] = [ab] = [ba] = [b][a] para todosa, b∈A.

A rec´ıproca n˜ao ´e necessariamente verdadeira:A/Bpode ser comutativo sem queAo seja.

•An´eis gerados por rela¸c˜oes

SejaAum anel. ´E por vezes muito importante construir um novo anel a partir deAidentificando alguns elementos selecionados deA. Se, por exemplo,aebs˜ao elementos distintos deApode ser de nosso interesse impor que valha uma rela¸c˜ao comoa=b, ou comoa2=b, ou ainda comoaba=b3, ou v´arias delas simultaneamente. Isso equivale a impor que alguns elementos deA(como os elementosa−b, oua2−bou aindaaba−b3, nos exemplos acima) sejam nulos.

Combinando alguns ingredientes apresentados acima uma tal constru¸c˜ao ´e poss´ıvel.

SejaAum anel e sejaCum subconjunto n˜ao vazio deA. SejaIB[A, C]≡IB[C] o ideal bilateral gerado porC e seja o anelA/IB[C]. Pela constru¸c˜ao, sex∈IB[C], ent˜ao [x] = [0]. ComoC⊂IB[C], segue que sec∈C, vale [c] = [0]. Como se vˆe, essa constru¸c˜ao permite o efeito desejado se impor a nulidade de certos elementos deA, a saber os deC(e todos os demais deIB[C], os quais s˜ao da forma de somas finitas de elementos comocouaca, coma, a∈Ae c∈C).

O anelA/IB[C] ´e dito ser oanel geradopelo subconjuntoC⊂A, ou oanel geradopelo conjunto de rela¸c˜oesC⊂A.

O anelA/IB[C] ser´a por vezes denotado porR[A, C] ou simplesmente porR[C], quandoAfor subentendido.

Um exemplo relevante de uma tal constru¸c˜ao ´e o seguinte. SejaAum anel n˜ao comutativo. Podemos construir um anel comutativo a partir deAconsiderando o conjuntoC={ab−ba,coma, b∈A}e construindo o anelR[A, C] =A/IB[C].

Os elementos deR[A, C] s˜ao classes [a] coma∈A. Para todosa, b∈Ateremos que [a][b]−[b][a] = [ab−ba] = [0], poisab−ba∈C⊂IB[C], que ´e a classe do elemento 0. Com isso, vˆe-se queR[A, C] ´e um anel comutativo, por vezes denominado aAbelianiza¸c˜aodo anelA.

E. 2.139Exerc´ıcio.Seja o anelZ, formado pelos inteiros, com as opera¸c˜oes usuais de soma e produto. SejaC={n}, comnum

inteiro positivo. Mostre queR[Z,{n}]coincide comZn. 6

Constru¸c˜oes como a do anel gerado por um subconjunto Cs˜ao particularmente potentes quando combinadas `a constru¸c˜ao da ´algebra tensorial de espa¸cos vetoriais, que introduziremos na Se¸c˜ao 2.5, p´agina 200.

•Ideais pr´oprios, primos e maximais e algumas de suas propriedades Vamos agora a algumas defini¸c˜oes ´uteis. SejaAum anel.

Um idealIdeA´e dito ser umideal pr´oprioseIfor um subconjunto pr´oprio deA. ´E f´acil constatar que seA´e um anel com identidade 1, ent˜ao um idealI´e pr´oprio se e somente se 16∈I. Essa observa¸c˜ao elementar tem consequˆencias diversas sobre propriedades estruturais de ideais, como veremos adiante.

Um ideal pr´oprio deIdeA´e dito ser umideal primose para todosaeb∈Apara os quais valhaab∈Item-se ou quea∈Iou queb∈I(ou ambos).

Um ideal pr´oprioM deA´e dito ser umideal maximalse n˜ao houver emAnenhum outro ideal pr´oprio que cont´em M.

Proposi¸c˜ao 2.26SeA´e um anel comutativo com uma unidade1, ent˜ao todo ideal maximal deA´e um ideal primo.2

Prova. ComoA´e comutativo, todo ideal deA´e bilateral. Sejama, b∈Atais queab∈M. Sea∈Ma prova est´a completa. Vamos, ent˜ao, supor quea6∈M. O conjuntoAa´e um ideal, pois para todoa∈Avaleaab∈aM⊂M. Fora isso,Aan˜ao ´e um subconjunto deMpois, comoA´e unital,Aacont´em o elemento 1a=a6∈M. Assim, a soma Aa+M´e um ideal bilateral deAque cont´emMcomo subconjunto pr´oprio e que deve conter a unidade, pois se assim n˜ao fosse seria um ideal pr´oprio deAque cont´emMpropriamente, contrariando a maximalidade deM. Logo, existem a∈Aem∈Mtais queaa+m= 1. Logo,aab+mb=b. Agora,aab∈Memb=bm∈M. Logo,b∈M.

As proposi¸c˜oes que seguem cont´em informa¸c˜oes importantes sobre a rela¸c˜ao entre ideais primos, ideais maximais e quocientes.

Proposi¸c˜ao 2.27SejaAum anel comutativo com unidade eP um ideal primo emA. Ent˜ao, A/P ´e um anel de

integridade. 2

Prova. Vimos acima que a comutatividade deAimplica a comutatividade deA/Pe queA/P ´e unital, poisAo ´e, a unidade sendo [1]. Tudo o que precisamos ´e provar queA/P n˜ao tem divisores de zero. Suponhamos queA/P tenha divisores de zero, ou seja, que existam [a]6= [0] e [b]6= [0] tais que [a][b] = [0]. Isso significa que [ab] = [0], ou seja, que ab∈I. Pela hip´otese, isso significa ou quea∈I(o que implica [a] = [0]) ou queb∈I(o que implica [b] = [0]) ou ambos.

Isso ´e uma contradi¸c˜ao e com ela completa-se a demonstra¸c˜ao.

A seguinte proposi¸c˜ao ´e empregada na teoria dos an´eis e ´algebras comutativas e na topologia alg´ebrica.

Proposi¸c˜ao 2.28SejaAum anel comutativo com unidade eM um ideal maximal emA. Ent˜ao,A/M´e um corpo. 2

Prova. Vimos acima que a comutatividade deAimplica a comutatividade deA/Me queA/M´e unital, poisAo ´e, a unidade sendo [1]. Vimos tamb´em (Proposi¸c˜ao 2.26) queM´e um anel primo e, portanto,A/M´e um anel de integridade (Proposi¸c˜ao 2.27). Tudo o que precisamos ´e provar que todo elemento n˜ao nulo [a] deA/Mtem uma inversa.

Primeiramente, notemos que sea∈Atem uma inversaa−1, ent˜ao [a−1] ´e a inversa de [a], pois [a][a−1] = [aa−1] = [1].

Vamos, ent˜ao, considerar elementosa∈Aque n˜ao tenham inversa emA. A condi¸c˜ao que [a] seja um elemento n˜ao nulo deA/Msignifica quea6∈M.

Fixado um tala, consideremos o conjuntoaA. O fato dean˜ao ter inversa emAequivale a dizer que 16∈aA. O conjuntoaA´e um ideal `a direita, mas tamb´em um ideal `a esquerda, pois, devido `a comutatividade deA, valeaA=Aa.

Assim,aA´e um ideal bilateral que n˜ao cont´em 1. Notemos tamb´em queaAn˜ao ´e um subconjunto deMpois, comoA

´e unital,aAcont´em o elementoa1 =a6∈M.

A somaM+aA´e igualmente um ideal bilateral deA, masM+aAcont´em o elemento 1 pois, se assim n˜ao fosse, M+aAseria um ideal bilateral pr´oprio deAque cont´emM propriamente (j´a queaAn˜ao ´e um subconjunto deM), contrariando a hip´otese queM´e maximal. Assim 1∈M+aA, o que significa que existemm∈M ea∈Atais que m+aa= 1, ou seja,aa= 1−m, o que implica [aa] = [1] e, portanto, [a][a] = [1]. Isso prova que [a] tem uma inversa multiplicativa, a saber, [a]−1= [a].

2.4.1.2 Ideais em ´Algebras Associativas

As defini¸c˜oes e constru¸c˜oes acima, sobre ideais em an´eis, podem ser estendidas para o contexto de ´algebras associativas.

Lembrando que toda ´algebra associativa ´e um anel, um ponto relevante a considerar ´e a estrutura linear introduzida pelo corpo de escalaresKcom os quais podemos multiplicar os vetores da ´algebra em quest˜ao. Aqui n˜ao repetiremos todas as constru¸c˜oes acima no mesmo n´ıvel de detalhe, por tal ser claramente dispens´avel, e nos ateremos apenas aos fatos mais importantes para os desenvolvimentos ulteriores. Vamos primeiramente `as defini¸c˜oes adequadas de ideais em ´algebras.

•Subespa¸co gerado por subconjunto de uma ´algebra associativa e alguma nota¸c˜ao

SejaAuma ´algebra associativa sobre um corpoK. Como tal,A´e dotada de uma opera¸c˜ao associativa de produto

“·” (s´ımbolo esse que, por simplicidade, omitiremos no que segue) e de uma opera¸c˜ao de soma “+” em rela¸c˜ao `a qual ´e um grupo Abeliano, sendo tamb´em um espa¸co vetorial sobreK.

SeB⊂A´e um subconjunto n˜ao vazio deA, o conjuntoE[B]⊂Adefinido por E[B] :=n

α1b1+· · ·+αnbn, n∈N, αk∈K e bk∈B para todok= 1, . . . , no ,

e formado por todas as combina¸c˜oes lineares finitas de elementos deBcom coeficientes emK, ´e o menor subespa¸co de Aque cont´emB, o chamadosubespa¸co gerado pelo subconjuntoBdeA.

E de se observar que se´ BeCs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deA, ent˜aoE[B∪C] cont´emE[B] eE[C] como subespa¸cos.

Analogamente ao caso de an´eis, seBeCs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deAdenotamos porBCo conjunto de todos os elementos deAque s˜ao da formabccomb∈Bec∈C: BC:=n

bc, comb∈Bec∈Co

. Com isso, ´e f´acil ver queE[B]E[C]⊂E[BC]. SeB,CeDs˜ao subconjuntos n˜ao vazios deAtamb´em denotamos porBCDos conjuntos (BC)D=B(CD) (essa igualdade dando-se em fun¸c˜ao da assumida associatividade deA): BCD:=n

bcd, comb∈ B, c∈Ce d∈Do

.

•Ideais `a esquerda, `a direita e bilaterais em ´algebras associativas

SejaAuma ´algebra associativa sobre um corpoK. Um subconjuntoLdeAque seja um subespa¸co vetorial sobreK deA´e dito ser umideal alg´ebrico `a esquerdadeAseal∈Lpara todoa∈Ae todol∈L. Um subconjuntoRdeA que seja um subespa¸co vetorial sobreKdeA´e dito ser umideal alg´ebrico `a direitadeA(ou simplesmente umideal `a direitadeA) sera∈Lpara todoa∈Ae todor∈R. Um subconjuntoBdeA´e dito ser umbi-ideal alg´ebricoou um ideal bilateral alg´ebricodeAfor simultaneamente um ideal `a direita e um ideal `a esquerda deA. Por vezes omitiremos o qualificativo “alg´ebrico” e falaremos apenas de ideais `a esquerda ou `a direita ou bilaterais, tal como no caso de an´eis.

•Homomorfismos e ideais alg´ebricos bilaterais

SejamAeB duas ´algebras associativas e sejaφ :A→Bum homomorfismo alg´ebrico. Ent˜ao, Ker(φ) ={a∈ A|φ(a) = 0}´e um ideal bilateral alg´ebrico deA. A prova dessa importante afirma¸c˜ao ´e an´aloga `a do caso de an´eis e os detalhes s˜ao deixados como exerc´ıcio.

•Intersec¸c˜oes de ideais

SejaAuma ´algebra associativa e sejamLλcomλ∈Λ (Λ sendo um conjunto arbitr´ario de ´ındices) uma fam´ılia de an´eis alg´ebricos `a esquerda deA. ´E muito f´acil verificar pelas defini¸c˜oes (fa¸ca-o!) queT

λ∈ΛLλ´e tamb´em um ideal alg´ebrico `a esquerda deA. Afirma¸c˜ao an´aloga vale para ideais alg´ebricos `a direita e ideais alg´ebricos bilaterais.

•Ideais alg´ebricos gerados por subconjuntos de uma ´algebra associativa

Assim como no caso de an´eis, a no¸c˜ao de ideais alg´ebricos gerados por subconjuntos de uma ´algebra associativa

Assim como no caso de an´eis, a no¸c˜ao de ideais alg´ebricos gerados por subconjuntos de uma ´algebra associativa

No documento Estruturas Alg´ ebricas B´ asicas (páginas 58-62)