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2 O FOCO EM CRÔNICA DA CASA ASSASSINADA

2.2 QUANDO MUITOS FALAM

2.2.3 Ana, a escrita da descoberta

Dentre todos os escritos, são nos registros de Ana que a maior parte dos nós das intrigas entre as personagens são desatados. As revelações provenientes desses escritos

abarcam tanto fatos como desnudam as próprias personagens e, nesse movimento de registro, instaura-se o autoconhecimento daquela que nos narra dez capítulos do romance. A primazia do discurso feminino, abordada por Elizabeth Cardoso (2013) é dada a essa personagem, não àquela que enreda, em torno de si, todos os fatos — Nina.

De coloração intensa, essa personagem acaba por se revelar, no escopo da escrita de Lúcio Cardoso, representativa das reflexões e dos temas metafísicos que eram obsessões do autor:

O sentimento do pecado é o que nos faz avaliar o quanto estamos vivos, é pela angústia, pelo sentimento aterrorizante que me habita [...] que avalio o quanto estou longe de possuir esse espírito tranquilo e isento de outras preocupações que não seja o meu tormento de todo dia. Eis um momento em que sofro, e tudo me parece incerto, pesado e sem claridade — o mundo perfeito da consciência culpada do espírito marcado pelo remorso, pela noção de pecado entranhando na carne, orientando a existência como um câncer ramificado no ser, e que chamasse a si toda manifestação de vida (CARDOSO, 2012, p. 299).

Mais profunda e complexa que a protagonista, se assim pudermos chamar Nina, Ana concentra em si, além da angústia, da solidão e da culpa, o ódio e a inveja, que são os móveis de sua ação na trama. A participação de Ana no enredo é decisiva, pois é através de seu olhar que a maior parte dos fatos desconhecidos vêm à tona. Com personalidade aparentemente apagada, cinzenta e fria, Ana vai descobrir-se projetando-se em Nina e, entre elas, estabelece-se a rivalidade.

Educada desde criança para ser uma Meneses e acreditando que o destino lhe reservara um papel importante na família, Ana se esforça para se tornar um “ser pálido e artificial”, silenciosa e discreta, dentro do papel que lhe exigia a posição de esposa do chefe da família, sempre metida dentro de seus vestidos escuros e velhos, sem nenhum adorno, numa completa falta de graça. Esses aspectos nunca a tinham incomodado, até a chegada da cunhada à Chácara. Comparando-se a Nina, Ana se percebe, se descobre, e analisa sua condição, conscientizando-se da falsa ideia de seu “alto destino” como uma Meneses. Uma crescente revolta, acompanhada da raiva e da inveja instauram o tormento que acompanhará Ana por toda a sua existência. Em busca de alívio para seu sofrimento, ela escreve.

A primeira carta, uma confissão escrita, é endereçada a Padre Justino, e Ana não está certa de que irá entregá-la. Isso lhe causa angústia, pois, nesse primeiro momento de

registro, sente a necessidade de compartilhar seu conteúdo13 “[...] se não for o senhor, quem poderá se interessar pelas pobres palavras que atravancam os meus lábios? (CARDOSO, 1996, p. 118)”, como também aliviar seu coração, por isso pede ao seu interlocutor que tome o registro por confissão. Enunciado e enunciação se misturam, deixando transbordar tudo o que vai em seu íntimo: medo, temor, culpa, inveja. Do presente do registro ao passado, Ana vai apresentando sua descoberta:

[...] o mundo para mim não tinha outra aparência senão a daquela permanente estação de frieza e engano. Até o instante em que, diante do meu espelho, percebi seu olhar sobre mim e li nele todo o desprezo que ia na sua alma. [...] aquele olhar, nascido de tão cálidas profundezas, como que demudou aos meus olhos a presença tangente da realidade: acordei também, e pela primeira vez circunvaguei a vista em torno, atônita, sem compreender direito o que se passava (CARDOSO, 1996, p. 124). forma àquele modo de vida, que a descoberta é atordoante. O olhar do marido é mediador do processo epifânico14, provocando em Ana horror de si mesma, um ser completamente desditoso. Esse instante é, para a personagem, luminoso e modificador, porque a faz aperceber-se de seu destino medíocre, tão oposto àquele ao qual ela foi doutrinada a acreditar ser uma dádiva. Nesse processo, Ana rompe com a “estação de frieza” e o que ele representa.

O cotidiano silencioso e apático da Chácara, antes tão natural, agora perturba Ana, e o afastamento de Nina do convívio diário, assim como seus atributos, causam-lhe inveja. A cunhada angariara, mudando-se para o Pavilhão, liberdade, enquanto que ela e os outros

13 Andrée Crabbé Rocha, em introdução à obra A epistolografia em Portugal (1965), observa que a comunicação é fundamental para todo ser humano e a carta é um dos meios de se atingir esse propósito. Comunicar-se não se resume a uma “intenção noticiosa”, envolve o “por em comum”, “comungar”. A importância dessa troca é motivada pelas mais variadas situações, mas se tem por finalidade “não estar só” ou “não deixar só”

(ROCHA, 1965, p. 13, grifos do autor). Enquanto o diário procura registras as impressões marcantes do dia, do fato recente, a carta implica na exposição de momentos aos quais o narrador se sentiu ligado, não tendo o vínculo com a temporalidade imediata. No primeiro, o emissor fala para si, no segundo, ele elege seu destinatário, o qual condiciona o como escrever.

14 Affonso Romano de Sant’Ana faz uma leitura do termo no emprego de Clarice Lispector em suas obras como um processo de “descortinar” o mundo. Em literatura, o termo ilustra uma experiência que, a princípio, é comum e rotineira, mas que acaba por ganhar uma força de inusitada revelação, “é a percepção de uma realidade atordoante quando os objetos mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam iluminação súbita na consciência dos figurantes, e a grandiosidade do êxtase puro tem a ver com o elemento prosaico em que se inscreve o personagem” (SANT’ANA, 1973, p. 187).

continuaram submetidos ao sistema de Demétrio. Ela passa, então, a espreitar a cunhada.

Quanto a esses fatos, a narradora não consegue lhes dar exatidão temporal, mas revela ao padre que foi a partir deles que ela tomou contato com a “presença do Demônio” e foi subjugada à condição angustiante em que se encontra no momento da escrita.

No jardim contíguo ao Pavilhão, ela presencia, escondida por entre as samambaias, cena de Nina em discussão com Alberto, o jovem jardineiro. A briga termina com Nina desferindo um tapa no rosto do rapaz e retirando-se, furiosa. Como Alberto se apercebesse da presença de Ana, ela se aproxima e nota, pela primeira vez o homem, jovem, belo, não mais o jardineiro. E pelo olhar de Nina, Ana desvenda uma outra realidade.

Há uma sensível mudança na segunda confissão de Ana quanto ao seu destinatário. Ao redigi-la, imagina entregando-as a Padre Justino, porque esse fora seu confessor, guia espiritual desde a juventude, entanto seu objetivo é mais amplo: “ao deixar escritas essas memórias, minha intenção não é, como muitos poderão julgar, a de justificar-me [...], o meu fito é alcançar a verdade, uma verdade plena” (CARDOSO, 1996, p. 179). Nota-se, com essa mudança de interlocutor, que há uma expectativa de suas memórias sejam lidas, nem por isso procura elaborar uma imagem “boa” de si para aqueles que a lerem. Esse desinteresse se pauta na crença de que já estará morta quando alguém tiver contato com o que registrou. Enquanto ato de escrita, “uma das características intrínsecas ao gênero carta é o aspecto confidencial ou secreto da mensagem, ou ademais, restrito” (ROCHA, 1965, p. 21), a escolha da narradora procura assegurar que seu segredo seja revelado apenas post mortem. E qual é a verdade que Ana quer revelar, afinal? Busquemo-la.

A mudança do destinatário justifica-se pela necessidade de libertar-se das amarras da religião e expressar-se livremente, uma vez que Padre Justino, pelo que representa, seria um impedimento a essa necessidade. O despertar de Ana também tem reflexos na sua crença, ela já não vê sentido nos rituais religiosos, eles seriam instrumento de cegueira, alienação, como ela os sentirá mais tarde. E um novo ser, contido no seu íntimo, principia por romper a crosta de silêncio e pacificidade sob a qual fora aprisionado, devorando-a completamente.

Retirada de seu estático conforto, Ana busca recuperar o que perdeu, a indiferença diante do mundo. Inicia-se um longo processo de conflitos internos e sofrimento.

Exteriormente, mantém-se discreta, mas está em ebulição por dentro. Pressente um clima tenso na Chácara, com a articulação de Demétrio para que Nina vá embora. Mais uma vez, ela encontra Alberto no jardim e se inteira dos fatos: seu marido havia encontrado o rapaz aos pés de Nina, no Pavilhão, beijando-lhe as mãos. Essa cena é recontada por Ana do que ouvira de

Alberto, assumindo assim a narrativa em nível hipodiegético15, com função explicativa. O rapaz procura justificar sua atitude perante a patroa, ação considerada atrevida para os membros da Chácara. Relatando a história de Alberto, Ana se movimenta do narrar “com”

para o narrar “detrás”, em que não somente expõe o que o jovem lhe conta, mas, principalmente, movida pelo ciúmes, sua imaginação acrescenta à custosa narrativa do rapaz, bastante acautelado em escolher as palavras, encontros e palavras que os amantes já haviam trocado.

Alberto procura justificar-se, dizendo que apenas atendera ao pedido da patroa de deixar sobre a janela do quarto dela, todos os dias, um ramo de violetas. Esse é o segundo confronto de Ana com Alberto, no jardim. Ela o acusa de mentir, como de outra vez. A mágoa e o despeito por ele não lhe pertencer estão velados nessas acusações. Ainda que Ana não registre em suas confissões, esses encontros, de certa forma, aproximam-na de Alberto, resultando num ato que só será confessável pela boca de outrem. Para Ana, só com a morte o que é inconfessável pode vir à tona.

Ana revela que o ciúmes e a inveja tomaram conta dela e foram responsáveis pelo seu ato de omissão, cuja consequência é o suicídio de Alberto. Ela deixou que o ato se realizasse para acusar Nina da morte do rapaz. É nítido o conflito interno por que passa a personagem, oscilando em seu propósito com a verdade. Ela iniciara a missiva sem um destinatário específico, para, logo após, tomar Padre Justino como interlocutor, por ainda estar presa aos ideais religiosos.

Ódio e culpa se misturam ao conteúdo de suas revelações, expondo uma narradora insegura e amarga. Deixar Alberto matar-se e acusar Nina de ter ofertado a arma do crime ao jogá-la pela janela? E se o gesto fosse inconsciente? Seria ela a culpada pela tragédia.

Desperdiçar a oportunidade de destruir a rival? Ana direciona seu discurso como se estivesse a se revelar ao seu confessor e, por extensão, aos possíveis narratários que vier a ter, cumprindo o que acredita ser seu compromisso com a verdade. Ela expõe o “ser fragmentado e tumultuoso”16 (CARDOSO, 1996, p. 192) que havia se tornado.

15 Gerard Genette (1995, p. 230-33) propõe a expressão “metadiegese” para designar um relato, em nível intradiegético (ou diegético) tomado por uma personagem da história que, por uma circunstância qualquer, conta outra história, embutida na primeira. Essa terminologia, entretanto, não é vista como adequada, uma vez que a acepção atribuída ao prefixo -meta: “sobre”, “acerca de” não expressa a relação adequada de subordinação dos níveis diegéticos. Para obter-se melhor precisão terminológica, Mieke Bal (citado por REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina M., 1988, p. 128-30) emprega o prefixo hipo-.

16 Corrobora para essa fragmentação também as constantes quebras no enredo. O mundo interior vem à tona com todas as nuanças, em digressões que correspondem ao mundo tumultuoso e fragmentado dos estados de alma da personagem.

Desse modo inicia-se a terceira confissão de Ana: “Eu, Ana Meneses, escrevo estas coisas e não sei a quem as dirijo” (CARDOSO, 1996, p. 313), expondo a narradora-personagem como contraditória, o que veremos mais nitidamente a seguir. Ela credita seus registros apenas à necessidade de olvidar seu sofrimento, uma vez que não vê quem possa interessar-se pelo que escreve, ainda assim as define como “linhas simétricas e cheias de compostura que [vai] traçando laboriosamente sobre o papel” (CARDOSO, 1996, p. 314), demonstrando cuidado ao escrever. Embora Ana não produza um diário, o qual lhe possibilitaria “confessar o inconfessável”, conforme alude Rocha (1965, p. 18), ela escreve uma carta-confissão revelando, paulatinamente, segredos chocantes, mas o faz na certeza de que após sua morte tudo o que revela será lido. Deste modo, vemos que a narradora faz do escrever mais que um desabafo, esse ato é pensado com propósito.

Nos escritos, ela procura expressar seu estado de espírito: um desalento completo.

Sente-se convertida a um ser mais frio e triste do que fora antes e o descreve com absoluta falta de estima, associando sua essência ao modo desleixado como se veste e se cuida. Esse desprezo atinge tudo que a cerca, adotando, aparentemente, uma atitude niilista:

Não existe, ai de mim, nenhum sentimento cristão nesta afirmativa. Eu me detesto inutilmente, como se detesta uma víbora ou um sapo, mas também não implica isto nenhuma condescendência com o resto do mundo, pois detesto igualmente os outros, não porque os sinta melhores do que eu, mas porque também a meu ver são ridículos e desprezíveis. Detesto tudo e todos [...] (CARDOSO, 1996, p. 314).

Ana passa a não mais dirigir-se a Padre Justino, não crê na Graça de Deus e abandona as atividades que a ligam à Igreja. Há também uma ruptura com a valorização do eu, com o Bem. Lúcio Cardoso constrói interioridade profunda em suas personagens, projetando, pela consciência atormentada delas, uma atmosfera afetada pela danação.

Observamos como Ana sofre, tanto pelo ódio que sente pela cunhada, quanto pelo medo de descobrirem sua maior transgressão — o adultério.

Com o afastamento de Nina da Chácara durante 15 anos, Ana reduz sua existência a uma lembrança, Alberto, e torna-se, após o suicídio dele, guardiã do porão. Esse espaço, manchado pelo sangue inocente, converte-se, para ela, em ambiente a ser cultuado. Suas anotações gravitam em torno do jardineiro e, em dado momento, apresentam-se ambíguas:

“Não foi a esperança que me fez tão ciosa desses pobres restos: foi a avidez de me justificar, de reter entre as mãos as provas mais iniludíveis de que houve um instante em que existi realmente” (CARDOSO, 1996, p. 315). Tanto pode-se entender que condena sua inimiga,

provando todo o Mal que habitava aquele ser destrutivo, como também pode ser alusão ao único momento em que Ana experimentara a paixão, entregando-se a Alberto — evento confessável apenas no leito de morte.

A relação entre as duas personagens femininas não se resume apenas à rivalidade, está envolta em paradoxos. Os confrontos dão o dinamismo à vida apática da qual são cercadas, impulsionando-as. Essa aproximação conflituosa torna-se vital a Ana, que daí retira seu leitmotiv para viver, ela conduz sua existência a desmascarar Nina, puni-la, buscar o castigo que a rival merece. A “nova” Ana nasce de Nina e sem essa não pode existir, conforme diz no dia em que a cunhada parte da Chácara pela segunda vez:

Foi como se de repente eu houvesse sido relegada ao silêncio, ao abandono, ao exílio de qualquer manifestação de vida. Não me deviam ter feito aquilo, pois o sentimento que me alimentava, negativo ou não, era tão forte, tão preponderante, quanto um sentimento de amizade ou qualquer outro que comportasse entusiasmo (CARDOSO, 1996, p. 418).

A identificação de Ana com Nina foi se consolidando progressivamente, à medida que elas se enfrentavam. É interessante notar, também, que Ana, ainda que movida pela inveja e ódio, altera sutilmente sua percepção em relação à cunhada. Num dos pós-escrito à margem, em que o tempo da enunciação se volta para um momento bem distante daquele do enunciado, ela faz a seguinte observação: “Só mais tarde, muito mais tarde, pude compreender que não era exatamente assim: Nina reagia — para não morrer, para não ser despedaçada também”

(CARDOSO, 1996, p. 330). Temos Ana como narradora, destituída da visão “com”, não mais como partícipe dos eventos, mas assumindo a visão “detrás”, em que analisa os fatos de forma

“refletida”, o que nas palavras de Pouillon (1974, p. 47) significa a personagem narrar a ação e não a si mesma.

Esse abrandamento na forma de julgar a outra está relacionado à identificação que percebe haver entre elas. Quando Ana vai ao quarto de Nina para terminar a discussão iniciada no porão, conscientiza-se dessa proximidade entre elas. Embora em disputa, haviam amado o mesmo homem, um amor proibido, que as ligava em cúmplice transgressão. Durante a discussão, as duas ficam frente a frente, e os olhos de Nina, que outrora Ana julgara

“vorazes e cheios de perfídia” (CARDOSO, 1996, p. 344) tomam compleição humana, “quase infantis”. As duas personagens, embora em posição oposta, ao se postarem uma diante da outra, diminuem a distância aparente entre elas. São seres apaixonados, atormentados e tolhidos de sua completa liberdade pelo meio social em que vivem, ainda que a forma de se

portarem difira. No final de tudo, ambas transgridem, rompem, à sua maneira, as correntes que as aprisionam aos valores impostos por uma sociedade predominantemente patriarcal.

Nesta cena, ainda, em que é exposto à propósito o amor proibido das duas mulheres por Alberto, a proximidade entre ambas é tamanha, que se pode dizer que uma é a imagem da outra. Nina relembra Alberto num tom embriagante, onírico, o qual hipnotiza Ana, que seduzida pelo narrar, aproxima-se fisicamente de Nina. As duas, envoltas na penumbra da recordação, palpitam a um só tempo, avançam uma para outra. Ana quer sorver as palavras, as imagens construídas pela cunhada:

[...] estávamos reunidas, convertíamo-nos no mesmo ser e eu a sugava, eu a fazia minha, porque queria arrancar de seus lábios a presença daquele amante, eterno, formidável na sua eloquência [...] e era ele, a sua sombra, o que nos unia agora, uma defronte da outra, tão idênticas como se fôssemos irmãs (CARDOSO, 1996, p. 347).

Desse diálogo, Ana descobre, por Nina, a semelhança de André com Alberto e tem-se um dos diálogos mais ambíguos de toda a narrativa. Tão acostumada aos hábitos, cega em cumpri-los, Ana nunca percebera o quão André era semelhante ao jardineiro, já que, para ela, nunca fora possível pensar que o menino não fosse filho de Valdo. Nina afirma que André jamais fora Meneses, ele era filho de Alberto. Em suas confissões, Ana descreve o quão terrível seria a reação da família ante àquela descoberta. Esse medo exposto pela narradora pode justificar seu posicionamento de negação, de apagamento do passado, ao não reconhecer André como filho. Ela não hesita em acusar Nina, para si mesma, ou em seus registros, de uma relação incestuosa.

No diálogo que segue, Nina, em tom provocador, diz estar ciente de que André é seu filho, mas que ao deitar-se com ele, revive, redescobre Alberto em cada curva do corpo do novo amante. E desmascara a covardia de Ana, mostrando-lhe que ela jamais faria qualquer ação contra os princípios dos Meneses, pois estava “contaminada” por aquele sangue, por aquela fraqueza e jamais quebraria a “sacrossanta paz [da] família, nem cometeria um incesto, nem um assassinato, nada que manchasse a honra que reclamam.” (CARDOSO, 1996, p.

349). A falta de coragem de Ana é exposta pela rival, impiedosamente, deixando no ar que aquela abafaria qualquer deslize que viesse a cometer.

Esse episódio desvela as lembranças de Ana, que confirma em sua confissão: [...]

a chave do segredo estava comigo. Só eu poderia dizer, e dizer, com certeza, se era ao jardineiro que André se assemelhava” (CARDOSO, 1996, p. 359). A personagem põe à mostra, tal como argumenta Massaud Moisés a respeito das personagens do romance de

Lúcio, o seu “universo de sombras” (MOISÉS, 2001, p. 232), o pecado que escondia tão profundamente dentro de si. Parece-nos clara a revelação, ainda que Ana não o tenha enunciado, de que André é seu filho. No entanto, o que interessa a ela é poder reavivar as lembranças de sua maior obsessão, Alberto. Assim, confessa que não hesitou em ir em busca do sobrinho, que estava no quarto. Ela é motivada pela descoberta da rival. A relação de oposição entre as duas alimenta Ana, que “tinha necessidade de sua força [de Nina], de sua beleza, de sua onipotência, para poder viver” (CARDOSO, 1996, p. 422).

Descendo mais fundo nas profundezas da miséria humana, Lúcio expõe, por meio de sua criação, o drama em que os seres se encontram envolvidos. Emparedados em uma existência insignificante, penetram, progressivamente, mais fundo nas modalidades do Mal.

Ana descobre que a doença de Nina encontra-se em estágio avançado e perturba-se; o momento torna-se grave e sentimentos conflituosos a envolvem, pois não fora desse modo

Ana descobre que a doença de Nina encontra-se em estágio avançado e perturba-se; o momento torna-se grave e sentimentos conflituosos a envolvem, pois não fora desse modo