• Nenhum resultado encontrado

António Correia da Silva Rosa Depois da revolução que proclamou

92 ANAIS DO INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA

mente de identidade botânica reconhe­ cida, seleccionada na ocasião da ceifa, pelas espigas, e no celeiro pelo crivo Marot; semente com as condições de boa semente. E, até agora, só tenho recebido boas informações em relação às remessas expedidas. Parece-ine ser êste um dos serviços prestados directa- mente à lavoura pela nossa Escola.

Assim, do Instituto teem saido se­ mentes dos trigos adiante indicados, para estabelecimentos oficiais, compa­ nhias, sindicatos agrícolas, lavradores, câmaras municipais de diversas e até longínquas regiões do nosso país, como vou citar:

Em 1915-1916:

Manuel Tavares Veiga.— Golegã

litros

Touzelle... 828

Caetano Francisco Pires—Pimenteira

(Junto à Tapada)

litros

Temporão de Coruche... 910,8

Companhia das Lesirias do Tejo e Sado litros

Touzelle... 1656

Em 1916-1917:

Companhia das Lesirias do Tejo e Sado litros

Touzelle... 840

Dr. Zeferino Falcão—Abrantes

1 tros

Touzelle... 22

Antônio Caídas Machado—Entronca­

mento

litros

Touzelle... . 1600 Precoce italiano... 1256

Joaquim Canas Silvestre da Silva—

Benfica.

litros

Tremez prêto... 840

Em 1917-1918:

Júlio Cesário dos Santos—Carcavelos

litros

Touzelle...2300 Lobeiro... 380

Pedro Coelho Serra -Belas

litros

Touzelle... 840 Lobeiro... 840

Junta Geral do Distrito de Lisboa—

Quinta da Paiã litrcs Touzelle... 2520 Tremez prêto... 1680 Precoce italiano... 840 Temporão de Coruche... 420 Dr. Zeferino Falcão—Abrantes litros Touzelle... 50

Escola Prática de Agricjiltura—Que\uz litros Tremez prêto... 1000 Temporão de Coruche... 1000 Touzelle... 1950 Ideal... 300 Manitoba... 250 Precoce italiano... 500

Associação Central de Agricultura Por­ tuguesa— Para o Sindicato Agrícola

de Serpa, e para o Dr. Fernandes de Oliveira (Serpa) litros Tremez prêto...6260 Manitoba... 1160 Touzelle... 5030 Ideal... 250

João Brée -Barcarena

litros

Sindicato Agrícola de Pombal—Por in­

termédio da Associação Central de Agricultura

litros

Ideal... 250

Câmara Municipal de Setúbal

lit.os

Tremez prêto...1470

Ministério das Colónias—Para Angola litros

Tremez prêto... 334 Lobeiro... 333 Temporão de Coruche... 333

Em 1918-1919:

Dr. Henrique de Sá Teixeira—Paço d’Ar-

cos

litros

Temporão de Coruche... 231 Precoce italiano... 162 Anafil... 240

Francisco Vidal dos Santos Teixeira

litros

Anafil seleçcionado... 400

José Joaquim Hilário de Sousa—Casal

do Alvito—Lisboa litros Temporão de Coruche... 230 Precoce italiano... 241,5 Anafil... 238,5 Von Lcuwcti—Cacém litros Temporão de Coruche... 8 Precoce italiano... 8 Galego barbado... 8 Belém... 8

Francisco Alves Moimenta—Panças

litros Precoce italiano...3662 Manitoba... ^gg Ribeiro... 675,5 Aurora... 114,5 1 remez... 490,4

Alfredo Farinha Portela

Precoce italiano .... Ribeiro... Galego barbado ....

Romão José Ferreiro—Lazareto

Tremez preto... Manitoba... Belém... litros 78 78,5 163 Joaquim Flores Precoce italiano... Belém... litros 443 244

Eduardo Costa—Calhariz de Benfica

Precoce italiano... litros 30 D. Marta Cabral—Azeitão Precoce italiano... litros 80 Joaquim Rasteiro—Azeitão Precoce italiano... litros 240

Manuel António Rodrigues—Alcolena

Precoce italiana... litros 8i litros 321 126 230

Antônio Rebelo da Silva—Pôrto Salvo litros

Precoce italiano... 520 Gentile rosso... 118

José Canas Carrasqueiro—Pôrto Salvo litros

Anafil... 500 Precoce italiano... 400 Gentile rosso... 95

Artur Duarte Resina—Malveira

' litros Precoce italiano... 529 Lobeiro... 230,5 Manitoba... 562 António Caídas—Sacavém Touzelle... litros 217

94 ANAIS DO INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA

Em 1919-1920: Pôsto Agrário de Alcobaça

Aurora, de primavera . .

João Branco de Paiva—Alcáçovas

litros

Touzelle... • • • 200 Precoce italiano... 100 Temporão de Coruche... 200

Romão José Ferreiro—Lazareto

litros Tremez prêto... 200 Gentile rosso... 270 Touzelle... 5°° Dr. Henrique de Sá Teixeira—Paço de Arcos litros Precoce italiano... 4°7 Anafil... 77.5

Jacinto Simões Bento—Dafundo

litros

Anafil... 4°° Durázio... 100

José de Almeida—Campo Grande

. litros

Precoce italiano... 777

Vicente Canas Carrasqueiro—tAassamk litros

Tremez prêto...1296 Anafil... 200

Joaquim Henriques Ferreiro

litros

Precoce italiano...3615

José Antônio Fernandes Guimarães—

Gradil

litros

Precoce italiano... 640 Touzelle... 200

Carlos Ferreiro Bastos— Cacém

litros

Touzelle... 168 • Precoce italiano... 840

Alipio José de Carvalho—Almada

litros IOO

Por intermédio da firma Rodrigues & C.ta íoi vendido no Alentejo, para semente, bastante trigo da Tapada, não sabendo eu, porém, as localidades para onde foi.

Tive sempre o cuidado de evitar que estas variedades seleccionadas de tri­ gos nacionais e estrangeiros, fôssem parar às fábricas de moagem, e por isso só as tenho vendido as pessoas que sabia serem lavradores.

Recusei, por várias vezes, a venda total do trigo da produção do ano que me foi proposta, por saber que êle era destinado a moagem, pois 0 intuito do Instituto é ser útil aos lavradores.

O fim da cultura de tantas variedades era arranjar sementes adequadas às di­ ferentes terras e climas do nosso país, e obter, sobretudo, bastante semente de trigos de primavera, serôdios, pois, julgo, que isto é de muita utilidade para

muitas regiões.

Em todos os anos a partir de 1915- -1916, os pedidos teem sido superiores às quantidades em celeiro, tendo, mui­ tas vezes, para satisfazer mais preten­ dentes, de ratear o trigo, concedendo menos do que o que se pede.

De tôdas as províncias, até mesmo de Trás-os-Montes e do Algarve tenho tido pedidos, tanto de trigo, como de

milho, para semente.

Trigo que não me mereça confiança, por suspeita de que esteja misturado com outra variedade diferente, vai irre- vogàvelmente para a moagem.

No último ano pus de parte 3.650 li­

tros de trigo anafil que estava impu­ ro, com mistura de grãos molares. Mandei escolher à mão 30 litros, para recomeçar a sua cultura sem mistura, sendo o resto vendido para o moageiro.

Por muitas vezes tenho dado o meu conselho a lavradores que me pregun- tam, qual a variedade que devem com­ prar para as suas terras. Conforme as suas indicações, assim me pronuncio por umas ou por outras, tendo já rece­ bido notícias de ter acertado.

* * *

Como já ficou atrás acentuado serve a Tapada, não só para campo de de­ monstração e observação, mas também para campo de experiências.

Logo que algumas das suas folhas de cultura se acharam em circunstâncias de nelas se poder fazer trabalhos expe­ rimentais, comecei, em ponto grande, a investigação de alguns problemas que interessam não só a agricultura desta propriedade, mas também a nacional.

Desde 1917 até 1920 o laboratório

químico do Instituto não tem podido trabalhar por falta de material, de gás, por causa da mudança, e ainda, depois de instalado no actual edifício, por falta de mobília apropriada, e de meios pe­ cuniários para se completar.

Nestas condições, tendo até de recor­ rer ao laboratório de Belém, eu não pude encetar experiências que precisem dêsse auxiliar indispensável.

Consegui, com algum custo, a aná­ lise de certas terras da Tapada, mas não pude ir mais além, a-pesar da boa vontade dos meus colegas químicos.

Quem pretende trabalhar em culturas pouco pode fazer sem o auxílio do labo­

ratório; mas, durante êste período de guerra e de transformação da nossa escola, muito pouco os laboratórios me puderam auxiliar.

Sempre, porém, que pedi o conselho autorizado do meu sábio colega Rebêlo da Silva obtive o melhor acolhimento, servindo-me a sua lição de muito pro­ veito.

Tive, pois, de empreender, sozinho, sem auxílio de laboratórios, a parte do meu programa de experiências que tinha elaborado, e que passo a relatar.

* * *

Entre as espécies do género Triticum existem três que apresentam a parti­ cularidade curiosa de terem o casulo aderente ao bago, não se soltando êste pela debulha ordinária.

Por esta razão estes trigos teem o nome comum de trigos vestidos, sendo neste ponto de vista semelhantes à ce­ vada ordinária.

Os franceses não lhe chamam por isso verdadeiro trigo {filé) mas sim es- peltas (epeautres), do latim spe.lta. Êste grupo de trigos vestidos apresenta as seguintes diferenças do trigo verda­ deiro :

a) Aderência das glumelas e glumas ao grão único, ou aos dois grãos da espigueta.

b) As espiguetas teem só uma ou duas flores férteis.

c) O eixo ou rachis da espiga é muito quebradiço, partindo-se nos entre nós, durante a debulha, em tantos artículos quantas as espiguetas, e ficando-lhes sòlidamente agarrados.

g6 ANAIS DO INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA

Por forma que depois da debulha or­ dinária o que fica é, botânicamente, um artículo do rachis onde se implan­ tam as glumas, as glumelas, e as ca- riopses. Nas variedades barbadas as espiguetas perdem total, ou quási total­ mente, as praganas.

Os botânicos classificaram estes ce­ reais vestidos, semelhantes ao trigo, em três espécies:

i.°—Triticum spella (Lin.)—que os france­ ses denominam Epeautre; os espanhóis Es-

caíia; os inglêses Spelt; os alemãis Spels; os

italianos Spelta.

a.0—Triticum amyleúm (Ser.) Triticum dicoc-

cum (Schrank). Em francês, Amidonnier ;

em italiano, Farro.

3.0—Triticum monococcum (Lin.) Em fran­ cês, Ettgraitt;—em espanhol, Escana menor.

Lapa, José Maria Grande, e os me­ lhores dicionários portugueses escre­ vem espella, e é assim que a palavra deve ser escrita e não spelta.

Tenho em estudo na Tapada um dêstes três trigos vestidos, que me foi dado por um aluno, que o trouxe de Serpa, dizendo-me que se semeava, ha­ via pouco tempo, naquela região, vindo de Espanha com 0 nome espanhol de escana, e que se semeia sôbre 0 resto­ lho do trigo, em cabelo, sendo depois enterrado com o arado.

Êste cereal era desconhecido na região como o era em todo o Portugal. Tendo percorrido o país quási todo.e durante muitos anos, sempre interessado pela cultura cerealífera, nunca o vi cultiva­ do, nem nêle ouvi falar.

Se já foi conhecido perdeu-se a sua cultura.

Tendo recebido apenas uma pequena amostra já hoje existe dêle uma pe­ quena seara, pois obtive no ano pas­

sado 62 litros, de que semeei a maior parte.

Do estudo que dêle acabo de fazer com os meus alunos, em pés arranca­ dos do meio da seara resulta o seguinte:

Afilhamento—média 21 colmos. Número médio de espigas perfeitas, por cada pé—17.

Comprimento médio dos colmos, em 21 de Maio - o,m725.

Aspecto da seara — bom, com um tom verde semelhante ao da cevada.

No ano passado, 1918-1919, o aspecto era ainda melhor, tornando-se notável pela sua luxuriante vegetação. A terra, onde foi cultivado, é boa e tinha sido estrumada, o que não sucedeu à dêste ano.

As espigas são chatas, muito fecha­ das, com praganas finas, divergentes, e mais curtas que as dos trigos rijos.

As espiguetas teem 3 flores, sendo uma aristada e fértil, e duas estéreis e múticas.

São estes os caracteres do Triticum monococcum, que apresenta um só bago em cada espigueta.

O estudo destas espigas deu-nos as seguintes médias:

o) Comprimento da espiga: 103,mmi.

b) Número de espiguetas por espiga: 4i,mm6. c) Número de grãos por espiga: 48,mm6.

Donde se vê que algumas espiguetas tinham 2 flores férteis.

Pêso por hectolitro (com casulo): 40kgs-,8 Pêso de 105 bagos, nus: 3 grs.

Pêso médio dum grão nu: 0,0285 grs.

Nos trigos vestidos, comuns, o pêso médio do grão é de 0,040 grs., tendo os mais pesados 0,050 grs., e os menos pe­ sados, em boas condições, 0,032 grs.

pois, menos onze miligramas e meio do que um bago médio dos outros trigos.

De Candole, no seu livro, Origem das Plantas Cultivadas, diz que êste Triticum monococcum se dá bem nos piores solos, pedregosos, sendo pouco produtivo, mas dando excelentes farelos para o gado. Acrescenta ainda êste botânico que êste trigo se semeia, prin­ cipalmente nos países ou regiões mon­ tanhosas, em Espanha, França e na Eu­ ropa oriental.

Marro, professor de Economia rural da R. Escola de Aplicação dos Enge­ nheiros, em Roma, no seu artigo sôbre culturas do trigo, na Nuova Enciclopé­ dia Agrária Italiana, diz que êste trigo se dá bem tanto nas regiões frias, de clima áspero, como nas regiões quentes, como o prova a sua antiga cultura no Lacio, na Campania, e na Grécia. A Bíblia e os autores latinos dizem que era o grão mais cultivado no Egipto.

Schwertz também afirma que os espel- tas se comportam melhor nos climas tem­ perados do que nos ásperos e agrestes. Damseaux, professor no Instituto Agrí­ cola do Estado, em Gembloux, na Bél­ gica, diz no seu Manual das Plantas da Grande Cultura, que os espeltas são muito rústicos, cultivando-se nas regiões mais ásperas da Bélgica, assim como no Wurtemberg, nas províncias rena- nas e na Suíça alemã.

Diz ainda Damseaux que a reputação de rusticidade que teem, se aplica mais ao solo do que ao clima, porque su­ porta pior um clima frio do que um clima quente. Emquanto ao solo afirma que as terras frias, de sub-solo imper­ meável, muito pouco férteis, muito sê- cas ou muito leves para produzir trigo, e as terras de charneca, podem produ­

zir o espelta. Nas terras calcáreas e nas arenosas, onde nem mesmo o cen­ teio vai bem, cria-se bem o espelta, dando até nestes solos um grão mais rico em farinha, e tendo as glumelas do casulo mais finas.

No artigo do. professor italiano Marco Marro, lê-se que o espelta dá uma fari­ nha fina, branca, igual à do trigo co­ mum em valor nutritivo, e, em alguns casos, mais apreciada do que aquela, para as pastelarias.

Todos os autores dizem que é menos próprio de que o trigo comum para a panificação, porque o pão fica mais rijo e não se conserva fresco ou macio por tanto tempo.

Em compensação, depois de moído, dá um produto excelente para vacas leiteiras, bois de trabalho, gado cavalar e muar, etc.

Há, porém, um aproveitamento de outra natureza que torna êste trigo muito recomendado por Ridolfi.

Como êle afilha muito, dando muita folhagem, serve para forragem verde ou para feno.

O que tenho na Tapada tornou-se, no ano passado, notável por esse ex­ traordinário desenvolvimento foliar.

Neste ano, em terreno pobre, pouco fundável, e que tem estado de olival, apresenta bom desenvolvimento foliar como atrás mostrei. -

É pois um recurso, segundo Ridolfi, superior ao centeio, à cevada e à aveia, como forragem verde, sendo porém, um pouco mais serôdio.

Como os colmos são mais curtos do que os do trigo comum, não acama, o que é de grande vantagem para certas regiões.

<98 ANAIS DO INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA

Acho vantajoso estudar estes trigos, pois, sendo menos exigentes do que os outros cereais praganosos, podem ser de vantajosa cultura em terras de areia, em terras delgadas, de sub-solo de ro­ cha rija, em solos de charneca, em sí­ tios alpestres de altitude elevada, e fi­ nalmente em tôdas as terras que, pelas suas más qualidades, não dão produção remuneradora, senão à custa duma adu- bação custosa, ou só de longe em longe, com pousios dalguns anos.

Segundo a minha opinião uma parte do nosso país, onde se costuma semear trigo comum, é imprópria para essa cultura.

Intensificar a cultura do trigo nessas regiões, com os trabalhos e adubações necessárias, é anti-económico, sendo prejudicial tal esforço que, aplicado a terras mais apropriadas, dará resultado mais proveitoso. Substitua-se, em tais solos, essa cultura por outras menos exigentes e que deem remuneração su­ ficiente.

É diminuto, relativamente a outros países, o número de espécies e varie­ dades cultivadas em Portugal.

Procuremos pois alargá-lo, ensaiando culturas que se adaptem a solos pobres em clima quente e sêco, e que tenham mercado fácil, ou aplicação na própria lavoura da região.

Alimentação barata para o gado, quer em farinha com mais ou menos farelo, quer em verde, em feno, ou mesmo ensilada, é uma aplicação remunera­ dora que deverá auxiliar a produção de riqueza pecuária.

E se, em vez de péssimas produções de trigo, se puderem obter boas colhei­ tas doutras plantas, valorizam-se estas terras, enriquece-se a região, tirando o

lavrador melhor resultado do seu tra­ balho, do que com parcas searas de 4 sementes ou menos.

Esperar, agarrado à rotina, pelos anos salvadores, em que até as pedras dão trigo, é bastante vulgar no nosso país, é cómodo, e não demanda nem grande trabalho intelectual, nem esforço físico.

Quando se lhe fala em pôr de parte a cultura frumentária que não remune­ ra, nessas terras ingratas, os seus cui­ dados e canceiras, replica o lavrador, como já o tenho ouvido, com a seguinte pregunta: E ^que hei-de eu então se­ mear? «-.Para que servem estas terras? Compete-nos pois responder à pre­ gunta, não com palavras, mas com de­ monstrações.

Eis a razão porque trato de obter a quantidade suficiente de semente de espeltas para experimentar no próprio Alentejo, em propriedades que estejam nas condições expostas.

E muito satisfeito ficaria se, do Ins­ tituto, pudesse sair um sucedâneo do trigo comum, que satisfizesse ao fim proposto.

*

* *

Além do trigo que acabo de descre­ ver, tenho também em estudo outros dois, pouco conhecidos em Portugal, que são o Sete espigas, trigo Cachudo ou Milagre, vindo de Trás-os-Montes, de espiga ramosa; e o trigo Gigantil, de longa e grossa espiga e grande bago.

O trigo Cachudo é uma variedade ramosa (var. compositum L.) da sub-es- pécie iurgidum do Triticum aestivum, L.—única espécie cultivada, do género Triticum que, segundo P. Coutinho, temos em Portugal.

As outras: T. triunciale (L.); — T. ovaium (L.) ou trigo de perdiz; — e T. triaristatum (Wild.) são espontâneas e não cultivadas.

O trigo Gigcintil foi importado para o nosso país, encontrando-se nalguns concelhos do Alentejo.

Diz o Sr. João da Silva Fialho, no seu livro, Cultura do trigo, vol. XII, da biblioteca Pequenas Fontes de Ri­ queza, que o Gigantil se encontra no concelho de Monforte, com o nome de trigo Gigante ou trigo Centeio; e que no de Ferreira do Alentejo, donde êste engenheiro agrónomo é natural, foi cul­ tivado durante três anos, tendo sido pôsto de parte por produzir menos do que os outros trigos da região.

Nem Brotero nem P. Coutinho o ci­ tam nas suas Floras. Lapa não fala dêle. À Estação Agronómica de Belém fo­ ram parar amostras dêste trigo com o nome de Gigantil. Caracteriza-se pela espiga que é muito diferente das dos outros trigos. As espiguetas teem or­ dinariamente duas flores férteis, havendo porém, muitas com três.

As glumelas são muito grandes, três centímetros e algumas quatro, com pe­ quenas e finas barbas. Uns, conside­ ram-no como uma espécie, Triticumpo- lonicum, L.; outros, como Vilmorin, Metzger, Garola, etc., consideram-no como uma variedade de trigo rijo — Triticum durum.

Garola, no seu livro Ceréales, diz que esta variedade de trigo rijo é cultivada sobretudo no norte de África, na Argé­ lia e no Egipto. É conhecido e apre­ ciado na América com o nome de Dia­ mond Wheat, ou Macaroni Wheat.

É muito rico em glúten e por isso muito apreciado para o fabrico de massas.

É pouco cultivado na Europa, sen­ do-o, porém, desde tempos antiquíssi­ mos no Egipto.

Dá-se bem em terras quentes e per­ meáveis e em climas sêcos e áridos.

Como afilha pouco, diz Garola, pode ser semeado na primavera, de prefe­ rência ao inverno. O professor Marco Marro diz o mesmo: «si cultiva anche come grano marzuolo».

Em virtude do tamanho do bago e da sua qualidade «mão será um recurso para sementeiras de primavera, no nosso Alentejo?

Creio que vale a pena experimentar, pois que êle tem aí sido semeado só no outono.

É esta a razão porque o cultivo há dois anos, esperando obter neste ano quantidade de semente para sementeira em maior área, no ano próximo, como trigo de outono e de primavera, em dois hectares próximos.

Do estudo da seara dêste ano vê-se que êste trigo tem o seguinte afilha-

mento, em 12 pés arrancados no inte- rior da seara:

i.° pè-- 6 filhos — 6 espigas 2.0 pé — IO » — 8 » 3° pé -14 » —12 » 4 o pé- 8 » — 8 » 5*° pé —12 » —12 6.“ pé —12 » —12 » 7*° pé -14 » —12 » 8.° pé — 9 » — 9 » 9-° pé — 10 » —10 » 1 o.° pé — M >' — H » ii.° pé — 12 » —12 >' I2.° pé — 7 » — 7 »

Número médio de espiguetas em 10 espigas — 27;

IOO ANAIS DO INSTITUTO SUPERIOR DE AGRONOMIA

Número de bagos em cada espi- gueta—2 a 3;

Número de bagos em cada espiga (em 20) 61 a 74;

Comprimento médio do colmo—o,m94. Colmo de côr verde azulada, bem como as folhas, meduloso, forte, com as espi­ gas levantadas.

Espiga comprida, grossa, comprimida, com glumelas muito grandes.

O afilhainento desta seara é em mé­ dia, conforme os números atrás indica­ dos, de 10 filhos por grão nascido, o