1.2 O presente da filosofia como arte de si
2.1.1 Analítica da verdade e ontologia do presente
Anterior ao que apenas viemos de expor, em caráter preliminar à discussão acerca do assento repressivo ou não da incursão dos poderes, seria outra ainda a oposição que Foucault – no empenho de sua reformulação intelectual – iria original e estrategicamente eleger como a mais propícia para o enfrentamento filosófico do presente: a desvendar o que, de fato, está em jogo e o que existe de mais significativo no âmbito do trabalho intelectual de nossos dias.
Remetemo-nos, evidentemente, à oposição entre analítica da verdade e ontologia do presente; que, arrematada ao final de um dos seus mais importantes ensaios inseridos no livro de Dreyfus e Rabinow (1984)8, já havia sido objeto de detida análise em sua primeira aula no Collège de France, em 1983: À propos de la généalogie de la éthique, un aperçu du travail en cours (FOUCAULT, 1984d, p.609–15).
Baseando-se na obra de Immanuel Kant (1724–1808), Foucault nela passaria a identificar a origem das duas tradições críticas, entre as quais – por último – se reparte aquela a que se convém chamar de Filosofia da modernidade. Da tradição analítica, é claro, toda atenta às condições gerais de possibilidade do conhecimento verdadeiro. Contudo também dessa outra orientação, interessada não mais na verdade em geral, mas sim no campo propriamente atual das experiências vitais possíveis; a que nos referimos como ontologia do presente.
É que, ao analisar um acontecimento histórico recente – tanto em seu artigo de 1784 sobre o iluminismo (ou sobre o esclarecimento, ou ainda sobre as luzes)9, como em seu
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What is Enlightenment? (1984), inserto por Daniel Defert no v. IV dos Dits et écrits, sob o título Qu’est-ce que les Lumières? (FOUCAULT, 1984a, p.562-78).
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Kant, neste ensaio em resposta à pergunta publicada acerca do esclarecimento, busca precisar qual o sentido do
espírito iluminista (ou do esclarecimento) sobre o seu tempo. Entretanto, mais do que propriamente superar a
escrito de 1798, a comentar ainda os acontecimentos relativos à revolução francesa10–, Kant estava enfaticamente a criticar o racionalismo levado ao extremo; ao mesmo tempo em que – no fundo – se perguntava: o que ocorre no presente? O que é este mundo, neste período, neste tempo preciso em que vivemos? E “quem somos nós neste instante, nós que talvez não sejamos nada mais além daquilo que acontece atualmente?” (KANT, 1985, p.100).
Foucault destaca, pois, a novidade (filosófica) extremamente original do texto kantiano – Was ist Aufklärung? (o qual poderíamos traduzir como O que é o esclarecimento?, de 1784) – não relativamente a um esclarecimento histórico, proveniente da idade da razão ou das luzes sobre o espírito da humanidade (do século XVIII, das revoluções liberais burguesas). Com ênfase, o esclarecimento – nessa perspectiva de Kant – não é um processo restrito a um momento ou a um evento histórico em especial. Trata-se tão somente da caminhada da humanidade rumo ao esclarecimento, a desbastar-se dos controles e das custódias morais: em busca de liberdade mental e espiritual (maioridade).
Foucault, com base nisso, conseguintemente não trata da liberdade – em sua última filosofia – como telos ideal. A liberdade de que o filósofo sálico nos fala remete os sujeitos do presente ao seu cotidiano concreto; uma liberdade – portanto – alcançável por meio de pequenas revoltas a diário, em todas as ocasiões em que se puder pensar e criticar o mundo e a si, nele e em si atuando intensamente. Na verdade, a liberdade se atualiza (se afirma) sempre que o sujeito (indivíduo) decide sair do seu estado de menoridade e passa a pensar e a agir por conta própria. É o momento, pois, em que esse sujeito decide-se (convictamente) a fazer as suas próprias escolhas; tornando-se um crítico de si mesmo e de seu presente.
Kant indica imediatamente que a saída que caracteriza a Aufklärung é o processo que nos liberta do estado de menoridade, o qual ele entende como certo estado de nossa vontade – que nos faz aceitar a autoridade de alguém para nos conduzir nos domínios em que conviria fazer-se uso da própria razão. Kant dá três exemplos: estamos no estado de menoridade quando um diagnóstico acerca da especificidade de seu tempo presente: como possibilidade do sujeito de autonomamente falar em seu nome próprio, de modo a corajosamente adquirir a sua maioridade moral e racional.
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Der Streit der Fakultäten – O Conflito das faculdades (1798), obra posterior às suas três críticas: Crítica da
razão pura (1787), Crítica da razão prática (1788) e Crítica do juízo – ou do julgamento, ou ainda da faculdade
do juízo (1790). Na qual, passados mais de dez anos de seus primeiros levantes, Kant ainda se refere à
Revolução Francesa: no sentido de tentar provar que, ainda que em meio a todo o terror, a humanidade progride rumo ao melhor. Nessa obra, Kant realiza a aproximação entre juízo estético e política, numa tentativa de instaurar o regime da razão junto à liberdade. A Revolução Francesa vai, portanto, também ser um marco de viragem na filosofia de Kant.
livro toma o lugar do entendimento, quando um orientador espiritual toma o lugar da consciência, quando um médico decide em nosso lugar a nossa dieta (FOUCAULT, 1984a, p.564, grifos do autor).
Disso se segue que, ao explorar a noção kantiana de esclarecimento, Foucault retoma o problema ético do sujeito e de sua autonomia (a ser (re)constituída na crítica de si no mundo e no tempo presentes). O sujeito há de sair de suas posições de assujeitamento (sujeições exteriores), para provar agir pautado por práticas de liberdade: sapere aude! Ou seja, a ter coragem de fazer uso de seu próprio entendimento: tal é o lema da Aufklärung (KANT, 1985, p.104). Nesse sentido, o sujeito ético será aquele que se autonomizar: a partir da coragem de buscar heroificar o seu presente e de vivê-lo com intensidade e propriedade (visto que a vida é fugidia e efêmera).
A comentar mais o texto de Kant (1784), Foucault vê na maioridade11 o sentido último do reinventar-se (a si e ao mundo). A ocasião para essa reinvenção se dá quando o sujeito assume-se como responsável pela construção de si em sua atualidade. Atingida essa responsabilidade, a sua preocupação torna-se, enfim, ética: a atuar no rompimento das fronteiras da moral imposta e paradigmática, a orientá-lo (ao sujeito) a viver autonomamente em seu próprio tempo: “ele (referindo-se a Kant) descreve a Aufklärung12 como o momento
em que a humanidade fará uso da própria razão, sem se submeter a nenhuma autoridade (fora de si)” (FOUCAULT, 1984a, p.565, grifos nossos).
Dessa forma, ao introduzir a questão do sentido de si e de sua própria atualidade no campo da reflexão filosófica, Kant inaugurava (à parte de uma analítica da verdade) também essa, a que Foucault denomina ontologia do presente. A qual, conforme postulada em seu artigo Qu’est-ce que les lumières? (FOUCAULT, 1984f, p.680–1) – ainda que sem destituir o
11 Podemos perceber que a maioridade, em Kant, consiste na capacidade de utilizar-se do próprio entendimento sem a tutela ou a ingerência de outros; de modo a que se possibilite o desenvolvimento da autonomia, e que – por último – se emancipe da menoridade (que quer dizer dependência, tutela ou custódia intelectual e de vida). Significa, portanto, não ser guiado por nenhuma vontade exterior a si próprio: “a menoridade é a incapacidade de se fazer uso do próprio entendimento sem a direção de outro indivíduo [...] Sapere aude! Ter a ousadia de fazer uso do próprio entendimento: tal é o lema do esclarecimento (Aufklärung)” (KANT, 1985, p. 104, grifo nosso). 12 Segundo Revel (2005), o tema da Aufklärung aparece na obra de Foucault de maneira cada vez mais insistente a partir de 1978, desde quando ele remete toda a sua nova problematização acerca do sujeito à descrição de possibilidades éticas no presente: “a abordagem é complexa, se de imediato Foucault consigna à questão kantiana o privilégio de ter colocado pela primeira vez o problema filosófico (ou, como diz Foucault, do jornalismo filosófico) acerca da atualidade, o que interessa ao filósofo parece ser, antes de tudo, o destino dessa questão (da atualidade) no presente. No entanto, é somente num segundo momento que Foucault transformará a referência do texto kantiano na definição dessa ‘ontologia crítica do presente’, com a qual ele executará o seu programa de nova pesquisa (referindo-se à História da sexualidade) (REVEL, 2005, p. 22, grifos nossos).
projeto universalista concorrente (que todavia se diferenciava por seu embate com a metafísica) –, tornou-se a tarefa intelectual preponderante.
Tarefa – cumpre destacar – que, ao contrário da faina do filósofo idealista tradicional, implica menos numa doutrina, ou num corpo teórico qualquer de conhecimentos duráveis e acumulativos, do que propriamente num agir, numa atitude e num certo modo arriscado de vida. Haja vista que consiste em uma diagnose existencial constantemente sentida: acerca dos limites que nos são impostos pela atualidade (e pelas aderências) da realidade.
Da realidade a qual nos supõe/da qual nos supomos como atores. Da realidade a qual deve ser atuada sempre, ao mesmo tempo, como experimentação da possibilidade de senti-la, de altercá-la, de amá-la e de – por que não? – transgredi-la: de modo a divisar-se (no próprio sujeito – nas experiências adrede o seu corpo, e não na objetividade das coisas) os limites e a negação de qualquer transcendência a essa mesma realidade.
Mas por que Pasolini, afinal, para esta guinada no pensamento filosófico de Foucault? A resposta mais apropriada talvez seja a que se deixa adivinhar na entrevista do próprio Foucault à Le Nouvel observateur, de 12 de março de 1977 (FOUCAULT, 1977d, p.256- 69)13; a qual antecede em apenas alguns dias a sua análise de Comizi d’amore (1965), em Les Matins gris de la tolérance – publicada no Le Monde, de 23 de março de 1977 (FOUCAULT, 1977e, p.269–71). Entrevista na qual, depois de indicar o sábio grego, o profeta judeu e o legislador romano como os modelos tradicionais daqueles que têm, ainda hoje, por ofício falar e escrever a verdade, Foucault declara:
Sonho com um intelectual destruidor das evidências e das universalidades, que localiza e que indica nas inércias e nas coerções do presente os pontos fracos, as brechas, as linhas de força; que sem cessar se desloca, não sabe exatamente onde estará ou o que pensará amanhã, por estar muito atento ao presente; que contribui no lugar onde está, de passagem, a colocar a questão da revolução, se vale a pena e qual (quero dizer, qual revolução e qual pena). Que fique claro que os únicos que podem responder são os que aceitam arriscar a vida para fazê-la (FOUCAULT, 1977d, p.268).
13 Non au sexe roi – Não ao sexo rei, entrevista concedida a B. H. Lévy, entre os dias 12 e 21 de março de 1977, publicada no número 644 da Le Nouvel observateur (p. 92-130) e posteriormente inserida tanto no v. III dos Dits
et écrits (1994) como na organização brasileira dos textos atribuídos a Foucault, sob o título de Microfísica do poder (1984).