3. CAPÍTULO II: ESTABELECENDO UMA NARRATIVA COMPLEXA E SEUS DIFERENTES NÍVEIS
3.4. Analisando Jake, The Brick
Jake, The Brick é o vigésimo episódio da sexta temporada de Hora de Aventura. Seu
enredo é simples: Jake, que possui a habilidade de manipular sua forma corporal da maneira que quiser, um metaformo, se transforma em um tijolo de uma cabana velha pois, segundo ele,
"ele sempre quis sentir a sensação de ser um tijolo em uma cabana velha no momento que esta cabana velha desmorona". Finn, que inicia o episódio a procura de Jake, o deixa sozinho em
sua empreitada, não sem antes deixar um walkie-talkie com o amigo. Jake logo fica entediado e começa a narrar o que acontece a sua volta, de maneira extremamente similar à empregada
em documentários sobre a natureza narrados por Sir David Attenborough, por exemplo. Jake não percebe que o walkie-talkie capturava tudo que falava; Finn, ouvindo tudo com o outro aparelho resolve transmitir o que Jake falava no rádio, e diversos habitantes da Terra de Ooo passam a ouvi-lo também.
A primeira vista um episódio sem nenhuma co-relação com arcos maiores da história da série, com uma história contida em si mesma, que apresenta uma temática simples, Jake The
Brick se mostra muito importante para avançar determinadas tramas de certos personagens
através de simples cenas muito rápidas, mostrando-os realizando alguma ação importante em algum lugar significativo. Nesse sentido, não só ajuda a construir os enredos e as histórias destes personagens como também propõe uma expansão do universo narrativo espacial da série, uma vez que apresenta novos locais sendo ocupados que possuem significados particulares a cada uma das tramas dos diferentes personagens também de arcos narrativos da série em geral. Serão identificadas as funções e índices presentes nesse episódio a partir de uma análise geral do episódio, uma vez que uma análise cena a cena demandaria todo um capítulo para tal.
O episódio se inicia com Finn partindo em direção a algo longe, pois leva uma mochila e um lanche, dado a ele por BMO. Enquanto a partida de Finn representa uma função cardinal, pois é a partir de sua busca que a narrativa do episódio será engendrada, o comportamento de BMO representa um índice, pois constrói a personalidade do personagem. Quando Finn finalmente encontra Jake, ele o indaga sobre o que está fazendo. Jake então explica: ele sempre quis ser um tijolo em uma cabana que está prestes a sair, em uma fala que é uma função cardinal, pois constitui o disparador da trama de Jake nesse episódio, mas também um índice, na medida em que dá mais uma camada à personalidade de Jake e suas excentricidades. Finn vai embora, mas não antes sem deixar um walkie-talkie para Jake; mais uma função cardinal/índice - cardinal pois com o walkie-talkie o alcance de Jake muda e gera potencialidades e índice pois revela a personalidade preocupada de Finn, que cuida de Jake. Jake se diz entediado (índice), mas logo após um coelho aparece (função cardinal), e Jake começa a narrar o que ele está fazendo (função cardinal) como em um documentário de natureza - as peripécias do coelho e seu antagonista, o veado. Finn ouve tudo, e resolve transmitir o que Jake fala pelo walkie-talkie no rádio local (função cardinal).
A partir da transmissão de Finn, um momento curioso do episódio se inicia: pequenas cenas rápidas que mostram vários personagens da Terra de Ooo ouvindo a transmissão. Essas aparições não constituem funções cardinais nesse episódio; agem como índices, pois dão mais camadas aos personagens mostrados, além de aumentar o universo da série ao mostrar lugares não vistos antes. Entretanto, ao considerarmos Hora de Aventura uma série que apresenta uma
narrativa complexa, ainda que com uma serialidade diluída, podemos dizer que a aparição de determinados personagens, desse momento em diante, constitui funções cardinais para a série
como um todo.
Tal afirmação se torna verídica quando se compreende que as pequenas e fugazes cenas que trazem tais personagens não são escolhidas ao acaso, e que desenvolvem os arcos narrativos desses - e arcos narrativos maiores, como é principalmente o caso da aparição da personagem Betty Grof, sua segunda aparição na série. O primeiro episódio em que Betty aparece, Betty (5º temporada, 48º episódio) mostra que ela veio do passado; ela desaparece no final do episódio, em sua busca para salvar o Rei Gelado (seu namorado do passado, Simon). Betty aparece em
Jake the Brick em uma caverna distante, ouvindo ao rádio (e à narração de Jake) enquanto
parece fazer algum experimento, seguindo planos e esquemas. Os planos que Betty engendra nesse pequeno momento serão extremamente importantes em episódios futuros, sendo inclusive retomados no episódio final como um grande catalisador das tramas presentes naquele que é um dos arcos narrativos mais evidentes de Hora de Aventura, que conta a história do Rei Gelado/Simon e sua lenta descida à loucura. Esse pequeno momento se configura como uma função cardinal para a série pois a ação a que se refere abre uma alternativa consequente para o desenvolvimento da história, ainda que não a história desse episódio (Jake the Brick) em particular - mas de vários episódios subsequentes.
Não só essa escolha exemplifica uma das características da sutileza da serialidade presente em Hora de Aventura, como também está circunscrita dentro da lógica de engajamento com o espectador que o projeto de construção de universo de Hora de Aventura concebe. O espectador frequente consegue captar na hora que está vendo uma personagem importante, fazendo algo importante, ainda que ele não saiba o que; a articulação de compreender o que essa pequena ação corresponde para o arco narrativo dessa personagem (e dos personagens com que ela se relaciona) cabe ao espectador, às ligações feitas por ele após assistir ao episódio. Ainda que a aparição de Betty seja a mais importante nesse episódio, e de fato a única função cardinal que extrapola o episódio em termos de avançar tramas da série, temos outras aparições que também corroboram a maneira com a qual a narrativa complexa da série se dá ao expandir não só o universo físico da série (novas locações), como também dando continuidade a arcos narrativos médios e menores, de outros personagens; Sweet P, que antigamente era o vilão Lich, ainda está na sua forma inofensiva; Lemonhope ainda está em sua cruzada pela Terra de Ooo, Rattleballs ainda está reconstruindo seus parceiros soldados, TV ainda mora com sua mãe, Lady Rainicorn, entre outros.
A partir da compreensão do funcionamento da estrutura da narrativa complexa de nível sutil de Hora de Aventura em um de seus episódios, pode-se melhor exemplificar como são outros dispositivos narrativos que constroem seu particular storytelling, como será visto a seguir.