3 O MODELO A SER IMPORTADO: A POLÍCIA DE NOVA YORK
3.1 O NYPD
3.1.4 Analisando a tolerância zero
Há alguns pontos aqui a serem ressaltados em relação à tolerância zero de uma forma geral. Segundo as estatísticas oficiais, o “milagre” da política de segurança pública de Nova York existiria em aproximadamente duas décadas (1990 – 2009), nas quais crimes como o roubo e o roubo de carros decaíram de forma gigantesca, com quedas de 80% e 94% respectivamente (ZIMRING, 2012, p. 10). O que teria ocorrido de especial em Nova York foram três dimensões em relação à queda dos índices de criminalidade: o tamanho da queda, a dimensão de crimes e de lugares que ela afetou e o tempo em que a queda foi constante. Em relação à primeira dimensão, mesmo se a análise retroceder um pouco até o ano de 1985, levando-se em conta que o ano de 1990 foi um ano de um pico no índice de criminalidade, os números ainda são expressivos apesar de menor o percentual de queda (ZIMRING, 2012, p. 5).
que no vocabulário da PMMG seria interpretado como os crimes violentos25. Não são computados nestes números tráfico e uso de drogas por exemplo, o que aumentaria substancialmente seu valor. Em relação à segunda dimensão, houve uma queda consistente e permanente de crimes que não tem grande similitude nem na forma de ação nem na motivação, tais como homicídio e roubo de carros (ZIMRING, 2012, p. 9). Um fato importante a ser notado é que houve uma queda significativa dos índices de criminalidade me todo o país da década de 1990 aos anos 2000, o que coincide com a queda mais dramática dos números na cidade (ZIMRING, 2012, p. 49). A explicação mais aceita para a queda nacional do crime nos EUA durante toda a década de 1990 se firma em três causas: a diminuição do número de jovens em proporção à população total, o aumento do encarceramento e a prosperidade econômica (ZIMRING, 2012, p. 72). No caso de Nova York, alguns fatores devem ser levados em conta. A primeira questão é o fato de uma grande massa de imigrantes que se estabeleceram na cidade a partir dos anos 90. Há a interpretação de que na primeira geração de imigrantes, o índice de criminalidade tende a ser baixo, porém, não há como comprovar a hipótese de Zimring (2012, p. 64), somente levantar a questão desta variação afetar o índice geral dos crimes na cidade. Os fatores econômicos, tais como índice de renda e desemprego, pouco explicam, visto que tanto a proporção de diferença de renda e de desemprego nos bairros quanto em relação às tendências nacionais, Nova York se manteve estável durante a grande queda do crime.
Há a questão das estatísticas oficiais a serem levadas em conta. Elas são confiáveis? Poderíamos afirmar que há uma certa mitificação em relação ao sucesso da tolerância zero? Nesta questão das estatísticas, há o problema no qual as mesmas agências que controlam e processam os índices de criminalidade são as que são cobradas se eles aumentam ou não. Nos EUA, uma das formas de controle foi a criação do Uniform Crime Report System, controlado pelo FBI26, que padroniza e cria padrões de qualidade na averiguação dos números. Outro dispositivo de controle dos índices é a utilização de institutos de estatística independentes para a realização de pesquisas similares com a intenção de “testar” os números oficiais (ZIMRING, 2012, p. 20).
Um ponto no qual a política de segurança pública acertadamente obteve participação foi na redução de homicídios relacionados a tráfico e uso de drogas. As interferências em
25 Crimes violentos de acordo com a classificação da PMMG: homicídio (tentado ou consumado), estupro (tentado ou consumado), latrocínio, sequestro e cárcere privado, extorsão mediante sequestro, roubo e roubo à mão armada (POLÍCIA MILITAR DE MINAS GERAIS, 2010c, p. 95). Segundo o Crime index norte- americano: homicídio, estupro, agressão grave, roubo, furto a automóvel, furto e incêndio criminoso (ZIMRING, 2012, p. 8).
pontos de maior concentração de vendas obteve um grande sucesso na redução destes índices (ZIMRING, 2012, p. 99). De fato, não há como negar que houve a redução da taxa de criminalidade, o que não escondeu o papel mais incisivo e violento das ações policiais, o que gerou uma série de conflitos e de avaliações negativas por vários órgãos. Como dito no início deste subcapítulo, não se pode explicar a variação da curva do índice de criminalidade somente por uma política de segurança pública. Isto se comprova pelo fato de cidades que não adotaram a política terem experimentado níveis descendentes de criminalidade, o que acabou se configurando como um panorama nacional nos EUA (COSTA, 2004, p. 165). Outro ponto a ser destacado é o de que há na literatura pesquisas que se questionam se a polícia por si mesma tem um impacto absoluto quanto às taxas de criminalidade (BAYLEY, 1994; PUNCH, 2007; 1979). A polícia necessita tanto do apoio do público para a realização de seu trabalho quanto a população necessita que o trabalho seja feito. Além de um grande número de crimes nem chegar ao conhecimento da polícia, um número igualmente grande nunca chega a ser solucionado (PUNCH, 2007, p. 4).
Deve ser notado também que houve um sensível aumento da população carcerária. É fato que desde a década de 80 há um aumento significativo nos EUA, mas a partir da década de 90, políticas como a tolerância zero, agiram como catalisadores deste aumento (COSTA, 2004, p. 192-193). Isso explica o porquê do paradoxo da redução dos índices de criminalidade a partir da década de 80 e do aumento significativo de presos nos EUA. O endurecimento das leis e a criminalização de condutas até então consideradas de menor poder ofensivo, tais como pichações e delitos de trânsito. A ideia do Broken Windows tem como consequência direta a criminalização de qualquer ação que de alguma forma ofereça perigo a uma pretensa ordem social, ou à sua aparência em um primeiro momento. A propaganda da “guerra contra o crime” ganha características políticas fortes. Trabalharemos melhor estas características mais à frente.
A questão racial não foi bem resolvida com a tolerância zero. De fato, o número de episódios de violência policial contra negros e latinos não ganhou tanta publicidade, mas o encarceramento destas etnias aumentou expressivamente. Segunda a tática de abordagem de Maple de combater ferozmente cada pequeno delito e desvio, um carro com o som alto deveria ser motivo para uma abordagem preventiva, com a clara percepção de que esta era uma característica de gangsters. O que fica obscurecido é que, a característica cultural específica de uma comunidade (escutar som alto no carro) se torna uma ferramenta de controle social potente. Como bem afirma Zimring (2012), este procedimento equivale à definição de um elemento suspeito pelo perfil racial (ZIMRING, 2012, p. 119).
Outro caso é o da maconha. O número de prisões de negros por uso da substância equivaleu a 50% do total, mesmo eles respondendo por somente 28% da população total da cidade. A prisão de latinos equivaleu a 31% e o de brancos não latinos a menos de 10%, mesmo eles respondendo por 35% da população total. Como se explicaria este fenômeno?
A explicação de Zimring (2012) é que as operações são realizadas com respeito aos chamados hot spots, ou seja, nas periferias com mais focos de crime organizado e tráfico de drogas, nas quais há mais abordagens e prisões e nas quais negros e latinos respondem pela maioria da população (Ibidem, p. 122). É um círculo que se retro alimenta reforçando estereótipos sociais e racistas, sendo que a tolerância zero possui papel fundamental neste cenário. Como já mencionado no capítulo anterior, a própria teoria das oportunidades permite esta lacuna ao caracterizar os hot spots, mencionando a suposta má fama que alguns bairros poderiam possuir pela proximidade a tais locais mas não propondo soluções para a diferenciação. Fica a cargo da discricionariedade policial.
Ben Bowling (1999) alerta para o fato da política não ser clara em alguns pontos importantes de seu paradigma, como a definição explícita do que seria a “qualidade de vida” proposta e qual seria a definição precisa de “desordem social” que se deveria combater. Sem estas definições precisas o que se realizaria eram ações de “limpeza” de algumas áreas, assim como as ONG's de direitos humanos afirmavam ocorrer. O que é fato, porém, é que o modelo da tolerância zero e o Compstat se tornaram um caminho a ser seguido, ganhando prêmios (PUNCH 2007, p. 21) e se tornando um sinônimo de inovação e de modernização da força policial.
3.2 A INFLUÊNCIA DO MODELO DO NYPD NOS CASOS DAS POLÍCIAS DE BOSTON