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ANALISE QUANTO AO ATUAL PLANEJAMENTO NO BAIRRO

4. BAIRRO INÁCIO BARBOSA

4.6 ANALISE QUANTO AO ATUAL PLANEJAMENTO NO BAIRRO

O espaço urbano, da área de estudo localizada no Bairro Inácio Barbosa, carrega as marcas do urbanismo modernista que o produziu anteriormente. Desse modo, é possível perceber que este espaço é formado pela setorização de uso predominantemente residencial. Porém, também é notável a presença do urbanismo neoliberal representado pela presença dos estabelecimentos comerciais que não só se distinguem pelo caráter das edificações e uso predominante como também não se comunicam e interagem entre si.

Frente a identificação desse novo parâmetro urbano na configuração do uso e ocupação do solo no bairro Inácio Barbosa, a proposta do PDDU e as manifestações festivas do carnaval de rua. Esse item possui o objetivo de analisar essas intervenções urbanas na perspectiva do urbanismo na contemporaneidade e por último verificar o potencial urbanístico do bairro Inácio quanto as novas vertentes do urbanismo contemporâneo aliado ao planejamento e gestão urbana.

O Novo Urbanismo tem como abordagem promover o conceito de bairros de uso misto e autossuficiente, ruas caminháveis, áreas verdes e o exercício da vitalidade urbana. A partir do levantamento sobre a área de estudo e, depois de conhecida as percepções da população através das entrevistas realizadas com moradores, visitantes, presidente da associação dos moradores e representante dos bares, fez-se uma análise sobre os atuais acontecimentos urbanos da área de estudo. Segundo o Novo Urbanismo, a área de estudo (compreendida pela área delimitada pelo PDDU proposta como AIU), não se relaciona, em seu cotidiano, com as tipologias de empreendimentos: bares, restaurantes e casas de shows, essas integram a paisagem urbana e, viabilizam a permanência de consumidores e turistas na localidade sendo sem dúvida espaços de lazer urbano para a cidade de Aracaju, mas não para a comunidade local. Como afirma o presidente da Associação dos Moradores, os estabelecimentos comerciais gastronômicos e casas noturnas não possuem uma vivencia representativa por parte da população.

Dessa forma, é possível perceber, que o atual planejamento e gestão urbana possuem uma postura neoliberal, uma vez que os negócios urbanos estimulados pelo PDDU priorizam empreendimentos comerciais que excluem a própria população local.

73 No que diz respeito à Cidade para Pessoas de Jan Gehl, se analisarmos de acordo com os critérios para avaliar a qualidade de uma cidade quando considerada ao nível da rua:

Mesmo com o número expressivo de bares na região, no período da noite, foi diagnosticado, através de entrevistas e percepção pessoal através de visitas ao local, a falta de proteção contra crime e violência urbana da região e, também a falta de iluminação em toda a área. Não só os visitantes como também os moradores do bairro não se sentem seguros para percorrer caminhos a pé com segurança. O bairro, mesmo na região dos bares, não possui ruas em boas condições para caminhar, em sua grande maioria, calçadas muito estreitas que competem com os carros estacionados e, ruas não asfaltadas o que dificulta a acessibilidade.

Logo, é possível perceber que a área de interesse urbanístico, não traz aos moradores da região nenhum tipo de benefícios, dentro das perspectivas do urbanismo contemporâneo, fica claro perceber que a atual planejamento e gestão urbana não possui interesse nas necessidades da população local e, que a zona só prioriza os empreendedores, sendo dessa forma, fruto do urbanismo neoliberal.

Quanto as manifestações carnavalescas, é possível perceber o conflito de interesses entre os moradores e os representantes dos bares, uma vez que, cada um possuem um ponto de vista diferente sobre as manifestações do carnaval no Bairro. A PL foi aprovada com a justificativa de manter a tradição do carnaval do bairro, dessa forma, entende-se que seria uma manifestação de raízes populares, mas é percebido que a tradição começou a partir de empreendedores e eventos privados com apoio de políticos locais.

Dessa forma, depreende-se do exposto que o Carnaval do Inácio Barbosa analisado à luz do Urbanismo Tático, concebido enquanto abordagem comprometida em reativar experiencias socias nos espaços públicos, não atende às proposições básicas desse modo de intervenção urbana. É importante destacar que o carnaval não tem o intuito de reapropriação do espaço, mas sim de atender aos interesses dos empreendedores e políticos locais, promovendo muito mais uma intervenção estratégica de cunho cultural apenas com o objetivo de favorecer a lógica neoliberal, do que uma ação de caráter tática.

74 O carnaval de rua do Inácio, na verdade, é uma estratégia relacionada “a cidade do espetáculo” e o urbanismo neoliberal que beneficiam empreendedores da área gastronômica e dinamiza o setor imobiliário. Essas intervenções acabam por promover a segregação socioespacial promovidas por iniciativas estratégicas, que têm o objetivo a transformação dos espaços em novas centralidades econômicas apoiadas na cultura e no lazer. Entretanto o fator cultural, tantos dos bares quanto do carnaval serve apenas à lógica de mercado. Segundo Harvey (1992), há a substituição pós-moderna do espetáculo como forma de resistência ou de festa popular revolucionária pelo espetáculo como forma de controle social.

Destaca-se, ainda, os efeitos negativos que acompanham as estratégias de gentrificação dos espaços que, segundo as pesquisas, produzem mais transtornos ao ambiente urbano familiar do que ganhos, já que a população local não frequenta os bares nem o carnaval de rua. É relevante ainda ressaltar que tais transformações no uso e ocupação do bairro não são seguidas por investimentos públicos capazes de dar suporte às transformações, nem existe uma preocupação de controle social da nova ocupação na perspectiva de garantir qualidade de vida aos moradores locais. Portanto, a flexibilização dos espaços públicos, sua destinação para as pessoas e a adoção de estratégias de efeito de curto prazo propostas pelo urbanismo contemporâneo, quando aplicadas ao Bairro Inácio Barbosa se mostram como um urbanismo pouco comprometido com o desenvolvimento local equilibrado e justo.

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5. CONCLUSÃO

O presente trabalho é um estudo à cerca da vida urbana contemporânea, do esgotamento do desenho urbano modernista e o urbanismo na atualidade. Tendo como referência os princípios do Novo Urbanismo, Cidade para Pessoas e Urbanismo Tático, analisados como uma possibilidade de alcançar uma cidade mais equilibrada e justa, a partir das análises realizadas sobre o Bairro Inácio Babosa. Nesse sentido, se colocaram as seguintes questões: seriam essas novas vertentes do urbanismo contemporâneo uma alternativa para o planejamento e para a gestão urbana? Qual a contribuição para a consolidação do Direito à Cidade em um momento de crise urbana?

Na tentativa de responder as questões colocadas acima, ressalta-se que as transformações recentes no Bairro Inácio Barbosa relacionadas com a instalação de bares, casas noturnas e a realização do carnaval de rua, de acordo com os estudos realizados, revelam-se como estratégias econômicas empreendedoras que se utilizaram da ambiência bucólica, familiar, acolhedora e tranquila que possui o bairro para exploração das atividades gastronômicas, de entretenimento e culturais.

Essas estratégias econômicas que invadiram o Bairro Inácio Barbosa apontam para a gentrificação do bairro e consequentemente para a expulsão da população local por meio da valorização da terra urbana e pressão das imobiliárias. São ações que acabam por promover a especulação, o adensando e a verticalizando o bairro, destruindo, as características iniciais que atraíram as estratégias empreendedoras.

As novas propostas urbanísticas, procurando superar os princípios modernistas, colocam como condição do sucesso das cidades a forma como os edifícios se relacionam com o solo, como se conectam entre si, como os espaços públicos se organizam para atender as pessoas. A vida que se desenvolve entre os edifícios é mais importante do que os próprios edifícios.

Assim, trazer as pessoas para a rua e mantê-las em espaços adequados e de qualidade, é o grande objetivo das novas propostas. Essas propostas, entretanto, não estabelecem mecanismos de controle social para que os benefícios, as oportunidades e os ganhos decorrentes sejam apropriados pela população local.

77 Nesse sentido, o que se percebe é que os princípios do Novo Urbanismo, Cidade para Pessoas e Urbanismo Tático analisados não abordam com profundidade a complexidade urbana no contexto de crise, não discutindo à dinâmica imobiliária, a exclusão social e o direito à cidade. O Novo Urbanismo, parece se apresentar como mecanismo de flexibilização da cidade engessada modernista, criando oportunidades para a reprodução ampliada do capitalismo neoliberal e financeiro em curso em todo o mundo. Fica evidente que não dá conta dos efeitos perversos decorrentes da expansão e empreendedora dos investimentos econômicos urbanos.

Por outro lado, os princípios do urbanismo Cidade para as Pessoas são extremamente relevantes e necessários. Entretanto, são princípios que se esbarram nos limites políticos de seu próprio conteúdo, ou seja, na verdade quando adotados são apropriados indiretamente pelos investimentos imobiliários e pelo empreendedorismo urbano, sem que a população local possa usufruir de suas iniciativas.

Já, o urbanismo Tático é uma importante ferramenta urbanística quando adotado de forma crítica, tendo como norte o ativismo social e a resistência de logo prazo. Com certeza, pode se tornar em um meio de mobilização, discussão e organização política para enfrentamento da segregação socioespacial e os processos de gentrificação perversos.

As intervenções temporárias e facilmente executáveis, para demonstrar a capacidade de reapropriação do espaço urbano e a abordagem voluntária e gradual, orienta para instigar mudanças; a oferta de soluções locais para solucionar desafios de planejamento; o compromisso de curto prazo e expectativas realistas; as ações de baixo risco mas com possibilidades de altas recompensas; e o desenvolvimento de capital social e capacidade institucional entre cidadãos, instituições público- privadas sem fins lucrativos e seus componentes. Na verdade, se tornam o canto da sereia, na medida em que não se estabelece uma postura crítica e política, que impeça que o bônus seja apropriado pelo capital neoliberal enquanto ônus fica com a população local. Essa situação fica bastante clara na dinamização noturna e com o carnaval de que vem sendo realizado no Bairro Inácio Barbosa.

78 O Urbanismo tático quando aplicado como forma de protesto e ativismo social, se torna uma forma de denúncia social, ajudando a dar visibilidade aos problemas locais. Porém, é importante ressaltar, mais uma vez, que soluções efetivas requerem o desenvolvimento de políticas públicas urbanas duradouras, contemplando o direito à cidade. Enfim, a questão como as novas propostas urbanísticas podem se encaixar para cooperar com a produção de um espaço urbano mais equilibrado e justo, pode ser respondida na escala do Bairro Inácio Barbosa, entendendo que para que se tornem de fato equilibradas e justas, é necessário criar uma ruptura na atual lógica de governança urbana, enfrentando as propostas de desenvolvimento da cidade neoliberal - a cidade do espetáculo, e associar a nova agenda urbana o ativismo social e a luta pela ampliação do direito à cidade.

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